Esse era O cara

janeiro 28, 2010

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

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Um amigo me emprestou o livro ‘Conversations with Wilder’ (Knopf, Nova York, 1999). O autor é o cineasta Cameron Crowe, e o Wilder a que o título se refere é seu colega Billy, falecido em 2002.

O austríaco Wilder, pra quem não sabe, foi um dos maiores diretores do cinema americano, tendo feito um punhado de filmes clássicos e o melhor filme sobre cinema, ‘Crepúsculo dos Deuses’ (Sunset Boulevard, 1950).

Tendo sido nomeado diversas vezes para o Oscar e ganho como roteirista (três vezes), diretor (duas) e produtor, Wilder era membro da Academia de Artes Cinematográficas – a instituição que anualmente decide quem vai levar o Oscar pra casa.

As tais conversas do título em inglês se deram entre 1997 e 1998, quando o já há muito aposentado Wilder contava com noventa anos de idade. Num trecho, em uma cafeteria, Crowe nos conta:

- Você viu ‘Titanic’? – Wilder pergunta.  Ele se inclina pra frente, para ficar mais próximo.  - Já viu um bostalhão como esse? (do original ‘horseshit’)

Wilder olha por cima dos óculos, balança a cabeça.

- Eu não consigo acreditar nisso. O dinheiro gasto. Um estúdio vai até outro e diz: Ajudem-nos a terminar isso?

Wilder acha irônico o fato de um único filme ser tão caro que dois estúdios têm que se unir para bancá-lo. Crowe comenta que gostou da química dos atores principais. Crê que eles transcenderam o roteiro.

- Que roteiro?

Após dizer isto, Wilder bebe um gole do café: – Estou te dizendo, se isso ganhar o Oscar da Academia, eu vou berrar.

Naquele ano, ‘Titanic’ ganharia os Oscars de melhor filme e direção, além de outras 9 estatuetas. Mas não foi sequer indicado para o de roteiro, escrito pelo próprio diretor do filme, James Cameron.


May the Force be with you

janeiro 6, 2010

Como o tempo e o dinheiro mudam as pessoas. É uma constatação, não uma crítica, tirada a partir da leitura de ‘Easy Riders, Raging Bulls’, de Peter Biskind:

Envolver emocionalmente a platéia é fácil. Qualquer um pode fazer isso de olhos vendados, basta pegar um gatinho e arrumar um sujeito para torcer o pescoço dele.”   Geoge Lucas em 1971, depois que seu THX 1138 fracassou nas bilheterias, retrucando um comentário da esposa, que acusava o filme de ser frio.

Sou um defensor do cinema puro. Não estou interessado na narrativa. O diálogo não tem muita importância nos meus filmes. Sou, essencialmente, um realizador visual e essencialmente um realizador que busca despertar emoções, não idéias.”  Geoge Lucas em 1997.


Chateando o leitor em dois idiomas

dezembro 30, 2009

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Achei na internet o roteiro em inglês de ‘Bastardos Inglórios’. Resolvi, num exercício de escrita, mudar uma cena. Está tudo EM INGLÊS, cerca de 12 páginas, no link abaixo:

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/a-new-joke-for-the-screenplay-of-inglourious-basterds


Yeshua

dezembro 22, 2009

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Bom natal a todos.

Aproveitando o período, deixo aqui link para as fotos digitalmente manipuladas de Kevin Rolly. O resultado final é, no mínimo, curioso:

http://kevissimo.com/stations/stations/index.htm

E aqui o making of, onde se vê o processo de feitura das fotos:

http://kevissimo.com/stations/journeyto/makingof.htm


Avatar

dezembro 17, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Abaixo, link para a extensa matéria da Veja sobre o filme ‘Avatar’. O que leva um homem de mais de 50 anos de idade – o diretor e roteirista James Cameron – a manter o imaginário de um garoto de 12?

Vendo os filmes de Cameron você se questiona se este cara sabe que no mundo real as pessoas têm que aturar empregos monótonos, comportamento abusivo alheio, falta de dinheiro, solidão, frustração, doença na família… Pois parece que as únicas questões que interessam ao sujeito são robôs e seres de outros planetas, algo tão desconectado do mundo concreto em que vivemos, que me leva a pensar se seria ele um autista. A não ser que Cameron não acredite no que faz, e encare aquilo apenas como uma forma de ganhar MUITO dinheiro.

Ok, ele fez AQUELE filme do naufrágio, que não resvalava pra ficção científica e se baseava num fato real (e ainda assim, o que se vê na tela é completamente infantilizado); e ‘True Lies’ –  mas este era um remake de um filme francês, La totale!

E o mais paradoxal é que se disponibilize fortunas assombrosas para James Cameron criar suas infantilidades. Ok, ele dá lucro – na maioria das vezes. Mas este é o mesmo mundo que fez Rembrandt, Mozart e Van Gogh passarem por dificuldades econômicas? O mundo em que Kurosawa e Orson Welles enfrentaram dificuldades para arranjar dinheiro para filmar?

Devo reconhecer que os filmes de Cameron são bem feitos, roteiros bem amarrados dentro de seus parâmetros. Pra quem gosta – eu tive a minha fase, confesso que na adolescência adorei o ‘Exterminador’ –  deve ser um prato cheio. Provavelmente acharei ‘Avatar’ interessante também. Mas o que critico neste texto aqui não são os filmes, e sim a visão do sujeito.

Tinha que ter um spa compulsório para ignorantes, ao menos para aqueles da indústria cultural, onde o sujeito seria obrigado a ler e ouvir palestras sobre alguns grandes livros. E o interno teria de escrever um relatório no final.

O texto da Veja:

http://veja.abril.com.br/161209/admiravel-mundo-novo-p-196.shtml


Enterrem na curva do rio

dezembro 13, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

A foto acima retrata o músico Sting, na época em que ele se aproximou dos índios brasileiros. Ela tem um pouco a ver com tema sobre o qual pretendo escrever.

Desde os ideais hippies do final dos anos 1960, surgiu na mídia uma idealização dos índios, uma tentativa meio na linha Rousseau de encará-los como portadores de ideais de paz e amor. Besteira, claro, as tribos viveram em guerra umas com as outras por séculos, mesmo antes da chegada dos europeus à América.

Nas últimas décadas, fotografar índios virou um lugar comum, um apelo tardio em prol de povos já alijados de sua essência.

Rendeu até tira em quadrinhos do Dahmer:

http://www.malvados.com.br/index295.html

Mas nem sempre foi assim.

Edward Sheriff Curtis (1868 – 1952), ou simplesmente Edward Curtis, foi um fotógrafo americano que no final do século XIX começou a retratar os índios dos EUA. Em 1906 ganhou uma bolsa do bilionário J.P. Morgan para produzir séries de fotografias que mostrassem o modo de vida destes povos, o qual estava já ameaçado pelo progresso.

Depois de perder o estúdio para a ex-esposa no divórcio, nos anos 1920 Curtis mudou-se para Los Angeles, e chegou a trabalhar como assistente de câmera para Cecil B. DeMille.

Há muita discussão sobre qual o valor etnográfico real do trabalho de Curtis. Ele manipulava a cenografia para fazer os índios parecerem mais ‘autênticos’ do que na verdade eram – por exemplo, se os índios tivessem uma diligência (carroça coberta, típico produto do homem branco), ele mandava escondê-la antes de fotografar.

Evidentemente, estamos falando um período em que a visão da etnografia como ciência ainda engatinhava.

Aqui se encontram alguns dos trabalhos de Edward Curtis

(uma vez na página, clique nas imagens para ampliá-las) :

http://www.edwardcurtis.com/Sheets/gravure1.html

http://www.edwardcurtis.com/Sheets/gravure4.html

http://www.edwardcurtis.com/Sheets/gravure7.html

Quem se interessar, pode achar mais fotos na internet. No link abaixo, são encontradas divididas pelo nome das tribos fotografadas – Apache, Pima, Mohave:

http://www.worldwisdom.com/public/imagegallery/gallery.aspx?cat=Edward%20Curtis&Page=2


Uma velha perola

dezembro 10, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Esta vida de cinéfilo já me acompanha há uns vinte anos, mas volta e meia ainda me reserva uma surpresas.

Vi ontem ‘Demônio de Mulher’ (‘It Should Happen to You’, 1954).

O director George Cukor e a atriz Judy Holliday já haviam trabalhado juntos em quatro filmes, a maioria deles com o roteirista Garson Kanin, inclusive o clássico ‘Nascida Ontem’.

Em ‘Demônio…’, anuncia-se o culto à celebridade sem a preocupação de haver uma causa para tal celebridade.  A pessoa fica famosa por estar na mídia, não porque fez algo que justifique fama.

Isto se vê ali com pelo menos quarenta anos de antecedência a esta praga de reality shows que tomou a TV no mundo todo.

O filme é levinho, divertido. O talento cômico de Judy Holliday é inegável. A cena em que ela sobe e desce uma escadaria seguidas vezes em meio a uma discussão com um extremamente jovem Jack Lemmon é digna de antologia.

Não sei se ela teria capacidade para se desvencilhar da persona fílmica que criou, e render em outros tipos de personagem. É trágico que um câncer a tenha levado aos 43 anos de idade.

Bom, já paguei meu tributo… Vou deixar um link para um texto que gostei.

Pedro Sette-Câmara fala sobre prestígio crítico:

http://oindividuo.com/2009/12/02/canon-x-obra


Lendo o horóscopo

dezembro 2, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Numa de suas crônicas, a divertida “Aconteceu com Orestes”, Rubem Braga narra-nos sua relação com os horóscopos publicados em jornais.

Devo confessar que, por influência de um amigo da faculdade, adquiri este condenável hábito. Não direi o nome do sujeito por enquanto, mas é alguém que já foi citado aqui anteriormente. Ele, sempre que estávamos em grupo, sacava de um periódico e lia em voz alta seu horóscopo, em tom de deboche. Se o prognóstico lhe fosse positivo, lançava-nos um sorriso contente. Se fosse ruim, ensaiava um olhar de apreensão. Puro teatro.

Augúrios e presságios a parte, por conta disso, passei eu também a ler o que me reservariam os astros. Não digo que astrologia seja uma completa balela, conheço gente culta que se dedica ao assunto. Mas como levar a sério previsões de jornal?

Ora, entrando ainda agora no site do IBGE, leio que a população estimada para o Brasil hoje é de 192 milhões de habitantes. Claro que haverá variações entre o número de nativos de cada signo, mas, para ter uma média, dividamos esta cifra pelo número de meses. Têm-se, em média 16 milhões de brasileiros nascidos sob a égide de cada signo do zodíaco. Não importa se o(a) brasileiro(a) em questão tem noventa ou três anos de idade. Se nasceu entre 22 de novembro e 21 de dezembro, será de sagitário. Vejamos então o que o horóscopo de O Globo neste 2 de dezembro de 2009 reserva para os nativos deste signo: “Este momento pode lhe trazer a sensação de que os acontecimentos estão um tanto fora de seu controle. Não se assuste. A atitude de fazer o que você já sabe e esperar para ver o que vai dar será a mais vantajosa.”

Estas palavras, em teoria, valem para 16 milhões de sagitarianos. Não importa se o sagitariano ou sagitariana em questão nasceu em 1915 ou em 2004; não importa se nasceu num barraco numa periferia do Piauí ou num apartamento de seis quartos no Morumbi; não importa sexo, credo, etnia, grau de instrução. Se você é sagitariano, sua sorte há de ser esta, igual a de outros 15 milhões, 999 mil e 999 outros sagitarianos.

Dá vontade de ir para a maternidade de um hospital, e, observando os recém-nascidos, ditar-lhes, como se fosse o Oráculo de Delfos, a sorte que o dia lhes reserva: – Vós, pequeninos sagitarianos, ainda iletrados e inconscientes, a partir deste instante, tomai ciência que “este momento pode lhe trazer a sensação de que os acontecimentos estão um tanto fora de seu controle…”


A Semana do Presidente

novembro 27, 2009

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(Para os que não sabem, o título do post se refere a um programinha chapa-branca que era exibido no SBT desde o governo Figueiredo.)

Interessante texto de Diogo Mainardi sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’ e seu produtor. No quarto parágrafo, é citado como exemplo de propaganda pró-Sarney um filme chamado ‘Maranhão 66’, o qual foi meio que ‘apagado’ da filmografia oficial de Glauber Rocha:

http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/na-revista/quem-e-o-filho-do-brasil

Sobre ‘Maranhão 66’, leia em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maranh%C3%A3o_66


Mais sobre Bastardos Inglorios

novembro 15, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Ainda sobre ‘Bastardos Inglórios’, li um texto do crítico de cinema Luiz Nazario no site www.criticos.com.br (link ao final deste texto). Ele acusa o filme de sadismo, não sem boa dose de razão. No entanto, ao longo da crítica, parece levar ‘a obra’ a que se refere por demais a sério. Uma coisa é um filme que se pretenda sério ou fidedignamente histórico apresentar distorções; outra coisa é um filme como ‘Bastardos…’, o pastiche do pastiche.

Pode-se (e deve-se) reclamar da transformação da brutalidade em espetáculo – e Nazario aponta corretamente as cenas em que ocorre a banalização da violência.

Ele também aponta a contradição entre uma moça do interior da França de repente ressurgir como uma dona de cinema e expert em cinema alemão. De fato, em 1940, interior era interior mesmo; não tinha internet, TV (ainda mais a cabo) e livrarias.com pra você pedir livros – provavelmente não havia nem telefone nas redondezas. Ser criado neste ambiente deixaria marcas num indivíduo que seriam indeléveis em curto prazo. Li em algum lugar que Tarantino chegou a escrever a explicação de como a personagem se tornou dona de cinema, e acabou optando por não incluí-la no filme.

Mas um filme em que o sargento Hugo Stiglitz (personagem assim “batizado” em homenagem a um ator mexicano), ao encontrar um nazista na cama em que este dormia, acorda-o, e o mata enfiando seu punho na boca do sujeito, ora, isto não se pretende ser levado a sério.

Em ‘Caçadores da Arca Perdida’, há a cena em que um beduíno surge diante de Indiana Jones com uma espada, cimitarra, e excuta vários movimentos, demonstrando ser muito hábil com aquela arma. O herói então, saca seu revólver e dispara contra o sujeito, que cai estatelado. A platéia, ao ver isto, gargalha. Alguém vai censurá-los por “rir da morte de um ser humano”? Ou é óbvio que aquilo é uma bobagem, e trata-se de algo realmente engraçado?

O meu maior medo em relação a ‘Bastardos Inglórios’ é que o lúmpem adolescente que não tem nenhuma formação nem interesse pela história recente, passe a acreditar que de fato a elite alemã foi eliminada num cinema na França. Ao falsear a história do mundo em que vivemos, este é um risco real.

O texto de Luiz Nazario pode ser lido no link

http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1855

Outros textos meus sobre o mesmo filme:

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/10/27/inglourious-basterds

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/10/24/how-can-a-donkey-hit-the-bulls-eye