O Hamlet

Por Mauricio Dias, escrito em 2001

PERSONAGENS: Hamlet, Ofélia, Rei, Pai-de-santo, Guildestern e Freud

Um quarto. Hamlet ENTRA, trazendo Ofélia pela mão. Na parede do fundo, um pôster grande de Jimi Hendrix e uma ampliação de uma litogravura de Delacroix retratando Hamlet e Ofélia.

Hamlet
Ofélia, minha querida, estes são os aposentos de seu príncipe Hamlet, futuro rei da Dinamarca.

Ofélia
Eu não deveria estar entrando no quarto de um homem; se meu pai souber, vai me chicotear.

Hamlet
(Dá dois tapinhas na cama)
Deita aqui, deita…

Ofélia
Não, meu Senhor, que tipo de moça pensas que sou?

Hamlet
Ah, qual é, Ofélia? Veio até aqui, no (t) matadouro do príncipe, e vai fazer jogo duro agora?

Ofélia
Espero que o príncipe da Dinamarca saiba respeitar minha virtude.

Hamlet
Ih, que papo é esse? Ô, Ofélia, te conheço desde criança. Sei que tu não é nenhuma santinha. Deita aqui, deita…

Ofélia senta-se na cama, recatadamente. Hamlet a abraça, beija-lhe o pescoço.

Ofélia
Mais devagar, príncipe. Não sou dessas!

Hamlet
Ah, fala sério, Ofélia!

Ele a beija, ela retribui, os dois deitam na cama, rola o maior amasso. Ele abre a blusa dela.

Ofélia
Vai, meu príncipe!Invade este território!

Hamlet
Me chama de Tirésias, vai!

Ofélia
Tirésias!

Hamlet
Mais alto.

Ofélia
(grita)
Vai, Tirésias!

Entra o pai de Hamlet.

Pai
Hamlet! Hamlet, meu filho.

Hamlet
Quem me chama?

Pai
Sou eu, o finado rei, vosso pai.

Hamlet
Um espectro!

Ofélia
O que está havendo, meu príncipe? Não lhe agrado?

Hamlet
Não vês o fantasma de meu pai? (pausa) Cara, nunca mais tomo chá de cogumelo!
Ofélia levanta-se assustada.

Ofélia
É o finado rei. (ajoelha-se)

Pai
Doce Ofélia, saia do quarto, para que eu possa conversar a sós com meu filho.

Ofélia
Obrigada, meu bom rei. Sei que vós fostes enviados por Deus para preservar minha virtude. Chegastes em boa hora, que eu já estava prestes a sucumbir. Vou-me embora.

Hamlet
Pera aí, Ofélia. Vamos marcar pra daqui a uma hora. (pausa) Eu converso com meu pai, acerto os ponteiros, e você volta, pra gente fazer aquilo tudo.

Ofélia
Não vê que isto é um sinal de Deus para que não nos precipitemos? Adeus, príncipe. (SAI)

Hamlet
Porra, valeu, hein, pai? Sabe quantas horas eu tive que ficar falando no ouvido dela, gastando saliva, pra trazer ela pra cá?

Pai
O espírito é mais importante que a carne.

Hamlet
Isso pra você, que é fantasma. (pausa) Que o pariu, Ofélia tava no papo! (t) Boa pra cacete! Aí tu tem que aparecer com esse bundão branco aí.

Pai
Hamlet, meu filho, fui vítima de um sórdido crime.

Hamlet
É? Desembucha!

Pai
Aquele que agora ocupa o trono, é o culpado de minha morte.

Hamlet
Meu tio, né?

Pai
Sim, meu irmão seguiu os passos de Caim.

Hamlet
Chato… Concordo que não é agradável… Mas você não podia ter esperado uma horinha pra me dizer isso, não? Ofélia tava no ponto, eu tava com a corda toda.

Pai
Agora que já sabes da verdade, é teu dever tomar  providências.

Hamlet
Pode deixar, meu pai. ‘Xa comigo!

O pai sai.

Hamlet
Ele vai ver a providência que eu vou tomar! (SAI)

INSTANTES

Entra Hamlet, carregando uma sacola, acompanhado de um Pai-de-santo.

Pai-De-Santo
Foi aqui que zifio viu a assombração?

Hamlet confirma com a cabeça.

Pai-De-Santo
Zifio trouxe tudo que o “véio” pediu?

Hamlet
Tá aqui. (ABRE A SACOLA) Uma galinha preta, uma garrafa de marafo, um ramo de arruda e três velas de sete dias.

Pai-De-Santo
Então “vamo” fazer um trabalho pra esse espírito descansar em paz, e não aporrinhar mais suncê.

Entoam cantos de macumba, Hamlet dança. Apagam as luzes. INSTANTES. Quando tornam a acender, o Pai-De-Santo já se foi, e Hamlet está usando um camisolão e um gorro de dormir.

Hamlet
O príncipe da Dinamarca agora vai fazer naninha!

Deita na cama, cobre-se. Ronca.

Surge o Pai.

Pai
Hamlet, meu filho. Por que tentas afastar de ti a mão do destino?

Hamlet
(ajoelha-se na cama)
Ih, de novo? O preto-véio me garantiu que você não ia mais voltar.

Pai
É que isto aqui não é a realidade. Você está sonhando. Os poderes do Pai-De-Santo não valem no reino de Morpheu.

Hamlet
Quer dizer então que você vai poder aparecer nos meus sonhos sempre que quiser?

Pai
Até você cumprir sua missão: deves vingar a minha morte.

Hamlet
Pô, pai, pera aí. Tua vida acabou, deixa eu viver a minha. Não é justo jogar um peso destes nas minhas costas. Querer que eu te vingue… Eu não mato nem mosca.

Pai
O trono está manchado de sangue. Só se lava sangue com sangue!

Hamlet
Ih, cacete! O cara vai ficar no meu pé. Ó, pode parar! Vá pro quinto dos infernos, mas não me aporrinha mais não. O cara lá te matou; chato e tal, mas não tenho nada com isso.

Pai
E se eu  te disser que tua vida corre perigo?

Hamlet
É sério?

Pai
Claro. Ou você acha que meu irmão, agora que conquistou o trono, vai apenas reinar por alguns anos, até morrer, e então deixar tudo pra você?

Hamlet
É o costume. Além disso, ele não tem filhos.

Pai
Como sabes, ele casou com tua mãe. E já plantou nela sua semente. Ele deseja fazer seu sucessor na coroa da Dinamarca.

Hamlet
Mamãe tá grávida?

Pai
Nem ela sabe até agora, mas o fruto já foi encomendado. Daqui de onde estou, sabe-se das coisas com antecedência.

Hamlet
Tu não tá mentindo, não, né? Só pra me fazer tomar uma providência.

Pai
Hamlet, respeita teu pai. Assim que a criança nascer, tua vida valerá pouco.

Hamlet
Mas eu nem quero ser rei… (aponta pro pôster de Hendrix)… Meu negócio é música… Quero ser o maior tocador de alaúde do mundo.

Pai
Tua vida inteira gozaste do conforto e das benesses de ser filho do rei. Agora é justo que arques com as responsabilidades.

Hamlet
Recuso-me a aceitar tal fardo! Nunca serei instrumento da ira. Vai-te embora!

Apagam-se todas as luzes. INSTANTES. Quando as luzes tornam a acender, o Pai já saiu, e Hamlet debate-se sob os lençóis.

Hamlet
Vai embora, deixa-me em paz!

Hamlet levanta as cobertas, vemos seu  rosto. Olha para o ponto onde antes estava o espectro do Pai.

Hamlet
Era apenas um sonho, ou terá meu pai me visitado durante o sono? (sai da cama, caminha) Estarei enlouquecendo? Que demônios são esses, que me atormentam a alma? (pausa) Já sei. Há um médico austríaco de passagem pelo reino da Dinamarca. Dizem que faz maravilhas pelos espíritos confusos. Mandarei chamá-lo aos meus aposentos. (GRITA, fazendo sotaque nordestino) Guildestern! Ô, Guildestern!

ENTRA Guildestern.

Guildestern
Mandou chamar, senhor?

Hamlet
Andei sonhando com meu finado pai. Que sabes tu desse médico novo que anda por aí?

Guildestern
O austríaco? Parece que é um especialista em problemas da cachola. Estudou com os árabes e judeus, sendo inclusive, um membro deste último grupo.

Hamlet
Diga que o príncipe da Dinamarca quer vê-lo. Em meus aposentos.

Guildestern
Vivo para servi-lo, Sr. (sai)
Apagam as luzes. INSTANTES. Quando voltam a acender, sentado numa poltrona ao lado da cama de Hamlet está Sigmund Freud, usando terno. Hamlet está deitado.

Hamlet
E ele quer que eu mate meu tio. O que devo fazer, Dr. Freud? Me diga.

Freud
(com sotaque alemão)
Yá, você não suporta a idéia de algum homem dormindo com teu mamã. Os gregos já sabiam disso, pode ser visto no mito clássico do Édipo-Rei. E me parrece que estamos diante de um clássica caso de transferrência. A complexo de Édipo que você sentia em relação a teu papá, você agora está transferrindo parra teu tio, Yá?

Hamlet
Mas e o fantasma?

Freud
Das fantasma é uma símbolo. Temos que criar símbolos para tornar nossos sentimentos compreensíveis. Como a medo que você sente, a medo de nom ser mais amado por seu mamã, é a recordaçón de um medo tipicamente infantil, você recorre a um símbolo de medo presente no imaginário das crianças. No caso, das fantasma. Poderria também ser um bicho-papón, ou o ogro, ou a lobo dos contos de fada.

Hamlet
Mas Ofélia também viu meu pai.

Freud
Pelo que você me falou desta moça, ela nutre uma paixón por você, mas a educazón conservadora faz com que ela se reprima zexualmente. Ora, das repressón de ordem zexual é o principal componente da histerria feminina.

Hamlet
E se eu fizer sexo com ela, ela ficará curada?

Freud
Há a possibilidade. Mas pelo que você falou, ela associou o símbolo do fantasma com um apelo divino à castidade dela. Uma vez que isto esteja enraizado, ela nóm farra zexo sem casar antes. A mente medieval é muito religiosa.

Hamlet
Tadinha da bichinha, é complicada. Se não resolver isso, acaba enlouquecendo, se mata, vai ser a maior merda! (pausa) Renuncio à tragédia. (levanta) Se é pra curar Ofélia, caso com ela. Obrigado, Dr. Freud, o Sr. foi de grande ajuda. (cumprimenta-o, e vai saindo)

Freud
Ah, das príncipe, nóm estarria esquecendo de nada?

Hamlet
O quê?

Freud
Meus honorrários.

Hamlet tira uma bolsa da cintura e joga-a a Freud.

Hamlet
Obrigado, mais uma vez.(sai)

Entra Guildestern

Guildestern
Dr. Freud! Só o Sr. pode me ajudar. Desde que o príncipe sonhou com o rei, eu tô pensando em fazer uma fezinha no bicho. O rei era teimoso como uma mula, então tô pensando em cercar o burro.

Freud
A rainha já andava com o irmón dele quando o rei era vivo?

Guildestern
Corre o boato que sim.

Freud
Então o rei era corno. (mete a mão no bolso, entrega a Guildestern algumas moedas.) Vai dar boi na milhar; faz uma fezinha pra mim também.

Guildestern
Valeu, dotô. (sai)

Ouve-se a marcha nupcial. Entram Hamlet e Ofélia, Guildestern os segue, jogando arroz sobre os noivos.
//FIM

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Uma resposta para O Hamlet

  1. [...] Eu mesmo já postei aqui minha versão – cômica – da história, no link http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/08/19/o-hamlet [...]

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