Filling the sausage

Outubro 31, 2007

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Fazer uma lista de discos é também uma forma de se apresentar: “veja, é disso que eu gosto.” Definitivamente, diz algo (mas não tudo) sobre quem eu sou.

E se alguém, que ainda não tenha ouvido alguns destes discos, confiar no meu gosto e estiver interessado em conferir, acho que vai ter uma experiência estética válida ao ouvi-los.

A música popular foi uma das grandes descobertas do século que passou, graças ao fonógrafo e seus descendentes. Em grande parte graças à música, os negros conquistaram espaço e respeito no novo mundo. Especialmente nos Estados Unidos e Brasil – e, em menor escala, em Cuba – estiveram intimamente ligados à criação da música popular. Jazz, chorinho, samba, rock, rumba, soul, funk, em qualquer ritmo destes países citados há interferência direta negra. Houve músicos como Duke Ellington, Charles Mingus, Miles Davis, Pixinguinha, Cartola, Jorge Ben(jor?).

Como o título diz, estou “recheando tripas de porco”, lançando uma bobagem na falta de coisa melhor.

Aqui segue minha lista de jazz, os meus discos top 20. Coletâneas não entram, mas regravações tudo bem – os discos 5 e 8 têm basicamente apenas novas interpretações (magistrais) para obras já gravadas anteriormente.

1 ) A LOVE SUPREME (Jonh Coltrane, mca/impulse!)

2 ) KIND OF BLUE (Miles Davis, columbia records)

3 ) SKETCHES OF SPAIN (Miles Davis, columbia records)

4 ) TIME OUT (Dave Brubeck Quartet, columbia records)

5 ) MONEY JUNGLE (Duke Ellington, blue note records)

6 ) LET MY CHILDREN HEAR MUSIC (Charles Mingus, columbia records)

7 ) SONNY ROLLINS IN JAPAN (rge; grav. ao vivo em setembro de 1973)

8 ) THREE OR FOUR SHADES OF BLUES (Charles Mingus, Atlantic Jazz)

9 ) THE BLUES AND THE ABSTRACT TRUTH (Oliver Nelson, impulse!)

10 ) OUT OF THE COOL (Gil Evans, mca/impulse!)

11 ) BLUE MOODS (Miles Davis, debut records)

12 ) CUMBIA AND JAZZ FUSION (Charles Mingus, rhino records)

13 ) DESTINATION OUT (Jackie McLean/ Gracham Moncur III, blue note records)

14 ) FEED THE FIRE (Betty Carter, verve)

15 ) CHANGES TWO (Charles Mingus, rhino records)

16 ) NEW TIJUANA MOODS (Charles Mingus, RCA)

17 ) FOR MUSICIANS ONLY (Dizzy Gillespie, verve)

18 ) SONG FOR MY FATHER (Horace Silver, blue note records)

19 ) SUCH SWEET THUNDER (Duke Ellington Orchestra, columbia records)

20 ) PERCUSSION BITTER SWEET (Max Roach, impulse!)

De quebra, a lista Top-15 dos discos de rock/pop :

Fun House – The Stooges

Transformer – Lou Reed

The White Album  – The Beatles (2 cds)

Let It Bleed – Rolling Stones

Electric Ladyland – Jimi Hendrix

Velvet Underground & Nico

Led Zeppelin I

Safe as Milk – Captain Beefheart

Low – David Bowie

London Calling – The Clash

The Stooges – 1st one

Sticky Fingers – Rolling Stones

The Queen is Dead – The Smiths

Horses – Patti Smith

Dry – P.J. Harvey

Escrevi há anos sobre os discos de MPB, num texto que ainda está disponível. Ali, mais uma vez fui traído pelos fatos. Elogiei o conteúdo do disco  João Gilberto – “O Mito”, antes de ter acesso a informação que o velho bahiano não gostava de algumas alterações que ali haviam sido feitas à sua revelia:

Extraído de http://eptv.globo.com/blog/blog.asp?id=10

“”A trilogia “Chega de Saudade” (1959), “O Amor, O Sorriso e a Flor” (1960) e “João Gilberto” (1961), discos que deram os alicerces para música popular brasileira moderna, nunca foram lançados em CD. (…) a gravadora EMI compilou as canções desses três álbuns e lançou o CD “O Mito”, com as faixas fora de ordem. João não gostou dessa edição e da remixagem das faixas. Entrou na Justiça contra a gravadora, que teve de tirar o CD de circulação. Esse disco virou hoje item de colecionador. Quando aos discos originais, pelo que se sabe, a gravadora está impedida de relançá-los “”

E aqui, o link para o meu referido artigo – a quem interessar possa – é só clicar:

http://www.digestivocultural.com.br/colunistas/coluna.asp?codigo=1071

E pra quem quiser ver um trabalho visual ligado ao jazz, vale conferir o link da paulistana Bruni Sablan – http://www.brunijazzart.com/gallery.html

(LÁ, DEVE-SE ROLAR A PÁGINA PARA BAIXO)

Este texto é continuação do penúltimo post, desça um pouquinho na página, você vai esbarrar com ele.


O que passa por arte hoje em dia

Outubro 29, 2007

Esta foi o Carlos Eduardo (grande Caiado!) quem me contou. Um absurdo tal que não há nem mais o que falar.

Um auto-initulado artista matou de fome um cachorro e chamou isto de obra.

Tenho o link do site com as fotos da “obra” do sujeito, mas acho que divulgá-lo aqui seria, mesmo com a pouca visitação que este meu espaço tenha, dar uma pequena contribuição ao desejo deste sádico: aparecer, não importa como.

Esta é uma matéria da Folha comentando o assunto, é só clicar:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u340532.shtml

Já é quase novembro

Outubro 29, 2007

Queria fazer uma listinha de discos favoritos, pois é uma bela maneira de encher lingüiça. Mas depois que entrei no tema comecei a pensar em outras questões, e pronto, o que era pra ser breve foi se alongando. 

Há aqueles que ouvem música clássica só para poder falar: “-Eu ouço Wagner e Bach.” Ouvem menos pela música em si do que por encarar o ato como uma espécie de refúgio cultural em meio à massa de tribais. Não estou dizendo que são a maioria dos ouvintes de Bach, mas existem.

Bach é muito bacana. Mas não sou alemão, e nasci na segunda metade do século XX. Minha realidade é outra, eu também quero Tom Jobim e Cole Porter – tampouco sou americano, mas nasci no século que foi americano – o foi sem dúvida pela avassaladora predominância de sua cultura; e economia e poder militar, ok.

Cresci vendo Gene Kelly e Fred Astaire – ótimos veículos para o tipo de música que se fazia lá nos anos entre 30 e 50. Sinatra, Ella…

É claro que ao escrever tento embelezar minha figura: estes nomes do parágrafo acima só vieram depois dos pêlos no rosto. Como alguém que cresceu nos anos 1980, a referência era ver os clipes do Michael Jackson e tentar você mesmo reproduzir o passo do Moonwalk. Mas Quincy Jones estava na jogada também, dando certo respaldo.

A verdade é que prefiro ouvir Charles Mingus e Miles Davis a ouvir Bach. Sou um filisteu? Não disse que são melhores, sei que não são; apenas me identifico mais, e ouço com muito mais freqüência. Já minha atitude diante da pintura é totalmente oposta: não troco Rembrandt ou Ticiano por nenhum pintor do séc. XX. Poderia dizer que isto é fruto de ter tido uma educação plástica e pictórica (ainda que tardia, gostaria de ter estudado isso já na adolescência) e não ter tido uma educação musical. Conheço a linguagem da pintura, enquanto a da música aprecio apenas intuitivamente, num nível mais superficial.

Mas já gostava mais de pintores antigos do que de contemporâneos antes mesmo de ter estudado desenho. O gosto e a percepção se refinaram MUITO ao longo dos anos, mas já havia a tendência desde o início.

Esta questão me fez pensar. Pintores antigos chegam até nós com a mesma carga de interferência com que músicos ou dramaturgos, mesmo do que escritores antigos – especialmente os que não escreviam em português?

Tudo bem que a maioria das pinturas que eu conheço, só as vi em foto – neste caso, nunca tive contato com as obras originais em suas dimensões reais. Mas salvo uma ou outra restauração mal executada – e pinturas de três a quatro séculos podem já ter sofrido muito, e mais de uma vez em mãos despreparadas – espera-se que o artista esteja falando diretamente a você.

Bach, alguém tem interpretar para eu ouvir. Shakespeare, alguém tem que traduzir para eu ler (inglês medieval eu não encaro); se for encenado então, sabe lá o quanto o texto pode ser violado. Herman Melville, Joseph Conrad, outros, só li traduzidos.

Se eu comprar um cd com Nelson Freire interpretando Chopin, admite-se que a obra está mais preservada em sua integridade ali do que se eu comprar um livro com reproduções da obra de Portinari. Mas ambos são cópias, ou registros, não a obra em si.

Outra questão é que embora a música popular tenha decaído imensamente (jazz-rock-rap é uma linha involutiva no tempo), ainda há coisas boas para se ouvir. A boa pintura que existe vive em guetos, à parte da mídia.

Nas sessões de discos de revistas e jornais a crítica é setorizada. Ninguém espera que o crítico que escreve sobre rock fale também de ópera. Já nas artes plásticas, só há espaço para o pop mais descartável e a perversidade picareta.

Não há necessidade de alguém que entenda do assunto escrevendo sobre pintura? Ou há interesses econômicos contrários a isso? Não sei. Mas há a questão que, considerando a obra em sua integridade, a música é mais facilmente transportável do que a pintura. Trazer uma orquestra holandesa para o Brasil pode ser inviável, mas trazer um solista é possível. Vai tentar trazer os quadros de Van Gogh, vê se os museus de lá vão aceitar liberar suas “jóias”, fora a despesa de seguro, transporte, segurança.

Talvez o número de boas pinturas disponíveis ou possíveis de serem exibidas ao público no Brasil seja pequeno demais para compensar uma crítica artística digna. Da mesma forma que a Noruega não precisa de bons repórteres policiais, pois a taxa de crimes é muito baixa, não precisamos de experts em arte nos veículos de imprensa.

Outra questão é que alguns artistas e obras envelhecem pior do que outros. Não precisa nem ir tão longe no tempo, outro dia estava ouvindo “Canção do Amor Demais”, o disco que foi o marco inicial da bossa nova. Gosto de Elizete Cardoso, mas o modo de cantar dela é “antigo”, aquela impostação, aqueles “erres” pronunciados de forma intensa para criar dramaticidade. Fica over. Ela própria mudaria depois, já na célebre gravação de “Consolação”, vê-se uma mudança de impostação.

E não é que fosse uma característica da época, tenho discos do mesmo período de Caymmi, Lúcio Alves e Roberto Silva onde já se ouve um cantar, digamos, “moderno”.

Todo esse bla-bla-bla, e não consigo chegar a uma conclusão. Vou mandar a lista de discos no próximo post.


Ativismo ou arbitrariedade?

Outubro 26, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

Esta semana foi caótica, na quarta-feira choveu na cidade do Rio de Janeiro o previsto para um mês e meio, as encostas do Rebouças desmoronaram, o trânsito parecia um dia festivo no inferno (Eles devem ter dias festivos lá, tipo a celebração do aniversário de Hitler, quando todos os capetas têm ponto facultativo).

E no site do wordpress.com, tava impossível fazer login. Então não lancei nada no blog desde segunda, pois tinha também uma ocupação extra: um amigo me pediu para adiantar parte da tradução de um filme, um documentário sobre o direito dos anglicanos americanos nomearem gays como bispos. (O meu amigo, com medo de se prejudicar no trabalho, frisou que eu colocasse aqui que ELE IRIA REVISAR TUDO. Ele acha que alguém lê o que eu escrevo?)

Comecei a fazer, pela grana, mas não tive estômago pra terminar. Um dos ativistas gays que é seguidas vezes entrevistado se refere aos anglicanos e episcopais que não querem bispos gays em suas igrejas como ‘homofóbicos’.

Homofobia é, além de crime qualificado, algo moralmente deplorável: agredir fisicamente ou ofender gays é uma brutalidade. Agora, uma pessoa ligada a uma religião tradicional não querer que o representante desta religião seja um homossexual, não caracteriza, de modo nenhum, homofobia.

Aqueles que discordavam dos dogmas católicos no séc. XVI fundaram sua própria Igreja. Um direito deles. Mas querer mudar uma instituição por dentro para que ela se adeque aos interesses de um grupo minoritário me soa estranhíssimo.

Sei lá, vou entrar para um clube de adeptos da alimentação macrobiótica, e comparecer aos encontros levando hambúrgueres e batata-frita, e ficar insistindo para que eles aceitem aquilo como parte da dieta?

Não! Eu posso, se quiser, fundar um novo clube, o dos Macrobióticos Que Aceitam Junk Food, uma dissidência não vinculada ao grupo original. Mas ficar panfletando para mudar radicalmente aquela instituição pré-existente, cujas regras eu já conhecia, e à qual ninguém me obrigou a aderir? Isto não é algo que se faça por vontade de ingressar num grupo, mas simplesmente por desejo de enfraquecer o mesmo e desestabilizá-lo.

Já é o segundo trabalho que eu recuso por questões morais. Dói no bolso, mas não consigo ser de outra forma.

Mudando de assunto, quadrinhos em língua inglesa cheios de non-sense e crueldade, mas hilários:

http://www.pbfcomics.com

(tem que ir na listinha na parte inferior da tela e ir clicando nome a nome).


O mapa da mina

Outubro 22, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Não por estar com preguiça de escrever, mas por achar que escrever não seja o fim, mas um meio – dentre vários outros -  para se chegar ao fim em si, hoje vou começar só indicando textos e links que acho interessantes.

A Rainha Elizabeth em dois tempos e estilos diferentes – olha o contraste:

Retrato feito por Pietro Annigoni em 1956 -

http://www.artrenewal.org/asp/database/image.asp?id=25270

E a maldade feita por Lucian Freud em 2001 -

http://www.qmmemorial.gov.uk/output/Page4048.asp

ou

http://www.tinmangallery.com/portraits/queenFreud/queenPortraitFreud.html

Semana passada escrevi sobre o tipo de evento ou “forma de expressão” que é considerado merecedor de incentivos por parte do Ministério da Cultura (post abaixo).

Depois de postar aquele breve comentário, lembrei-me de um livro excelente, publicado na Inglaterra em 1944, “O CAMINHO DA SERVIDÃO”, do prêmio Nobel de Economia Friedrich A. Hayek:

“E quando as autoridades controlam diretamente o uso de mais da metade da renda nacional acabam controlando indiretamente quase toda a vida econômica da nação. Assim sucedeu, por exemplo, na Alemanha desde 1928 e prosseguiu por todo o governo Nazista, de 1933 a 1945. Em tal quadro, poucos serão os objetivos individuais cuja realização não dependa da ação estatal; quase todos eles serão abrangidos pela “escala de valores sociais” que orienta a ação do Estado.” Pág 77 (parag. 3) – 78 (parag. 1), 5a. Edição, Instituto Liberal – RJ.

Este livro de Hayek, essencial, pode ser comprado no site http://www.institutoliberal.org.br

No caso dos incentivos do Ministério da Cultura brasileiro, não posso deixar de ver ali uma distorção de valores a que não se chega por acaso. Aquilo é fruto de um planejamento, e de anos de pré-anestesia injetada pela mídia no público – o qual, via de regra, não concorda com tais critérios, mas, dopado, não tem capacidade de reação. Esta “injeção” é ministrada visando certos obejtivos. Quais são, por enquanto deixarei a cargo do leitor. 

Alem de “O CAMINHO DA SERVIDÃO”, este texto abaixo, de Olavo de Carvalho, serve como introdução para compreender o Brasil: Clicar no link http://www.olavodecarvalho.org/textos/2005doencaexistencial.html

A falta de interesse nacional pela rica tradição cultural ocidental faz com que a passividade diante do que se autoproclama arte – a celebração do grotesco, do engodo, da fraude óbvia -,  por aqui se alastre como fogo no palheiro, mas este não é um problema exclusivo brasileiro.

E aqui volta-se ao primeiro tópico do post: gosto de Lucian Freud, mas alguém encomendar a ele um retrato de efeméride da realeza demonstra no mínimo falta de percepção. Mas pode ser também um caso de sabotagem interna. Alguém consegue imaginar se num evento em que a Rainha estivesse presente, um dj lançasse no sistema de som a ultrajante versão de “God Save The Queen” dos Sex Pistols?  (ver http://letras.terra.com.br/sex-pistols/35850)

Pois se até a Rainha da Inglaterra, cercada de conselheiros e assessores, cai na esparrela de se permitir ser ridicularizada em nome da arte (e ainda pagar $$ caro por isso), que chance de defesa tem o público classe média brasileiro?

Nenhuma, permance dopado, pagando imposto e alimentando regiamente sinecuras: uma mina de ouro, inesgotável.


Tem alguém com a mão no meu bolso?

Outubro 19, 2007

Às vezes eu escrevo páginas inteiras para tentar tornar clara uma crítica que pretendo fazer. Outras vezes sinto que não preciso redigir uma linha, pois o que pretendo criticar já é tão óbvio, que qualquer acréscimo de minha parte é desnecessário.

Veja para onde vai o dinheiro do imposto que você paga:

                                                                                                   
http://www.cultura.gov.br/apoio_a_projetos/editais/index.php?p=27008&more=1&c=1&pb=1

“O Concurso Cultura GLTB está aberto à participação de organizações e instituições de direito público e privado, sem fins lucrativos, que desenvolvem ações de caráter cultural voltadas para a afirmação da identidade de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais. As inscrições poderão ser realizadas entre o dia 22 de maio e 01 julho de 2007.”

http://www.cultura.gov.br/noticias/noticias_do_minc/index.php?p=30533&more=1&c=1&pb=1

“Entre os dias 20 e 21 de outubro será realizado em Londres (Inglaterra) o Festival de Capoeira do Reino Unido. O evento é uma iniciativa da Brazilian Contemporary Arts (BCA) e conta com o apoio do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual e da Cinemateca Brasileira.”

http://www.cultura.gov.br/apoio_a_projetos/editais/index.php?p=30390&more=1&c=1&pb=1 

“Prêmio Culturas Indígenas 2007    Edital do Concurso Público Prêmio Culturas Indígenas 2007 – Edição Xicão Zukuru. Edital nº. 5, de 9 de Outubro.
Concurso Público destinado ao reconhecimento das iniciativas coletivas dos povos indígenas (programas, projetos, ações, empreendimentos e outros) para o fortalecimento de suas expressões culturais.”

Ainda bem que finalmente alguém lembrou de homenagear Xicão Zukuru, seja lá ele quem for, não podia passar em branco. 

E o Festival de Capoeira do Reino Unido? Aposto como este ano os inglesinhos vão levar um choque de brasilidade. Finalmente irão descobrir o que é cultura, e acabarão por cancelar a “annual Shakespeare’s Birthday Celebration at the Globe Theatre” (ver www.london.gov.uk/view_press_release.jsp?releaseid=3143). A rainha vai conhecer a nossa batucada.

- – -

Para aqueles que leram o controverso post abaixo, recomendo que leiam o espaço ‘comentário’. Ali há uma troca de emails entre minha pessoa e o grande Marlos, a qual acho que deixa ainda mais clara minha posição ao decidir postar um texto sobre aquela notícia – o pós-escrito pode também ser encontrado no link
http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/18/os-brancos-que-se-entendam/#comment-22

Mas é melhor só o ler depois do texto inicial.


Os brancos que se entendam

Outubro 18, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Foi assunto de todos os jornais, o  cientista James Watson, ganhador do prêmio Nobel de medicina por ser um dos responsáveis pela descoberta da estrutura do DNA nos anos 1950, fez uma declaração altamente controversa, de que haveria diferença de inteligência entre raças.

Clicar em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1307829&idCanal=13

Com este currículo, Watson não é exatamente um qualquer. A mesma divulgação científica que está sempre pronta para abraçar o simulacro de ciência produzido por Richard Dawkins, condenou taxativamente Watson. É compreensível, por tudo o que se viu na política e história do século XX, que a ciência não tenha nenhum interesse em respaldar algo assim.

No jornal O Globo (18-10-2007), esta vontade de negar Watson chegou a um humor involuntário. Num box intitulado “Watson está ficando gagá ou quer aparecer”, é citado o geneticista Sérgio Penna, autor da frase que deu título ao tijolinho. Penna ali é citado às vezes entre aspas (o que se assume como sendo ipsis literis, apesar de os editores de jornais serem prodigiosos em mudarem o sentido de textos), às vezes de forma indireta.

Consta do texto:

1) “Na opinião do geneticista, nos últimos 500 anos a África tem sido vítima de um imperialismo europeu impiedoso e selvagem, que criou dissensões entre grupos étnicos e manteve o continente de joelhos.”

2) E, atribuído diretamente a Sérgio Penna: “Watson falou besteira, em uma área totalmente fora da sua”.

O mesmo cientista que no trecho destacado 2 critica Watson por se manifestar fora de sua área específica, usa no trecho destacado 1 a História como meio de explicar o processo. Se ele é geneticista, tem autoridade pra falar de História? 

Este é um assunto mais que desagradável, que pode ferir suscetibilidades. Tenho amigos negros brilhantes, não sei a quem interessa erguer a bandeira que Watson está levantando. Mas isto não significa que eu deva ouvir calado uma argumentação que não me parece embasada. Voltemos ao trecho destacado 1:

“Na opinião do geneticista, nos últimos 500 anos a África tem sido vítima de um imperialismo europeu impiedoso e selvagem, que criou dissensões entre grupos étnicos e manteve o continente de joelhos.”

A Índia sofreu com o imperialismo britânico, a China idem,  o Brasil e o México sofreram primeiro com o colonialismo ibérico e depois com o imperialismo. Malgrado todos os problemas sociais que estes países enfrentam hoje, a Índia tem um dos maiores pólos de informática do mundo, a China manda homens para o espaço, a produção econômica só do estado de São Paulo é maior que a de 90 % dos países africanos, a economia mexicana dispara na frente na América Latina.

Se as idéias de Watson nos desagradam, devemos ao menos tentar entender como chegou a elas e que argumentos tem, antes de condená-las.


Uma no cravo, outra na ferradura

Outubro 14, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Semana passada, em reportagem do jornal britânico “Daily Telegraph” vieram à tona novos fatos sobre a execução de Jean Charles de Menezes, ocorrida em Londres no ano de 2005  (ver link http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL149739-5602,00-SCOTLAND+YARD+SABIA+QUE+JEAN+CHARLES+NAO+ERA+TERRORISTA+DIZ+JORNAL.html).

Deveria eu escrever sobre isto aqui? Pra quê? Saiu em todos os jornais, impressos ou da TV.

Bom, digamos que me deu vontade de dizer uma coisinha ou duas sobre o assunto – pra falar a verdade, nada de novo. Todos os anos, nas grandes cidades do mundo, pessoas são assassinadas. Em algumas cidades, como Rio de Janeiro e Bogotá, em virtude de fatores sociais e políticos, isto é mais comum. Em outras, como Montreal ou Estocolmo, é mais raro.

É inerente à aglomerações de seres humanos. Somos primatas violentos, isso é algo que uns meros vinte mil anos de vida mais ou menos organizada em sociedades agrícolas e sedentárias não mudou. Não creio que esta propensão à violência vá algum dia desaparecer por completo.

Mas quando um assassinato ocorre pelas mãos de uma polícia que sempre posou de modelo de eficiência, como foi com Jean Charles, todo o funcionamento das engrenagens que deveriam servir de segurança fica em xeque.

Como é possível que erros grotescos ocorram em cascata, e em nenhum momento antes do trágico desfecho os responsáveis envolvidos tenham se questionado: “Os dados A, B, C não se encaixaram bem, vamos partir pra ação D?” “Devemos seguir em frente?”

Parece-me um pouco aquela coisa da hierarquia militar, ‘ordens são ordens’. O soldado tem que cumprir a ordem do sargento, senão este fica mal com o tenente, que por sua vez…

Andei fuçando uns blogs sobre o assunto, notei certos discursos. Sempre achei que, como brasileiros, não podemos deixar que este caso ganhe ares de um ato de lesa-pátria ou ‘confirmação do racismo britânico’. Foi um erro policial, puro e simples.

Com os erros policiais que presenciamos no cotidiano nacional, não temos o direito de achar que estamos moralmente acima dos ingleses. Não falo nem das barbáries como o Massacre do Carandiru, ou os policiais filmados torturando e matando na Favela Naval. Tenho certeza que o policial que avançou contra o criminoso no episódio do sequestro do ônibus 174 estava bem intencionado,  mas os seus erros foram  responsáveis pela morte de Geísa Firmo Gonçalves.(pt.wikipedia.org/wiki/Ônibus_174)

Com todo o destaque na mídia internacional, esperamos que os responsáveis no caso Jean Charles sejam legalmente punidos, e a família da vítima, indenizada – tentativas vãs para atenuar a revolta justíssima que acompanhará para sempre seus parentes.

Isso tudo foi pra cumprir o formulário-padrão do texto bem intencionado. Agora vamos falar de verdade: ‘Jean Charles’ e ‘Geísa’ são nomes que deixam claro a classe social a que pertenciam. Morreram por erros policiais, um andando de metrô, outro de ônibus.  Não lembro da polícia matando alguém que andasse de Audi.

Alguém consegue imaginar uma nota numa coluna social de jornal, ‘herdeira de uma tradicional família quatrocentona e freqüentadora do Country Club, Geísa vestia Givenchy…’ não dá, né?

Há alguns meses estava na casa do meu amigo Leonardo, uma roda de velhos conhecidos mamando umas cervejas. A TV ligada ou no GNT (por que com três homens no recinto a TV estaria no GNT?) ou na Globonews. Começou uma matéria sobre moda (hum… três homens vendo moda… já entendi…), então falou-se sobre uma bonita modelo brasileira, chamada Michelly-qualquer-coisa. Para escrever isto aqui, dei uma fuçada no google, descobri que tem uma modelo com o nome Michelly Pettri. Deve ser a mesma da matéria.

O já citado Leonardo, ‘o piadista da piada fácil’, colocou o golpe certeiro: - O sufixo ‘ele-ele-ípsilon’ (lly) em um nome significa ‘eu nasci pobre’.

Mudando de assunto, falemos de arte.

Abaixo, os links para o site de uma escultora.

O curioso é que o desenho dela não tem nada de mais – não é ruim, mas tudo é apenas ‘estudo para algo’, não tem desenho ACABADO.

http://www.paigebradley.com/early_work/index.html

http://www.paigebradley.com/early_work/index2.html

http://www.paigebradley.com/sculpture/index3.html

Na última página mencionada, há links para outras duas páginas de esculturas. 


Laranja Mecânica – link

Outubro 9, 2007

A famosa seleção holandesa de futebol que brilhou na Copa de 1974, graças ao laranja de sua camisa ficou conhecida como ‘Laranja Mecânica’. Mas o título do post não se refere à ela, nem tampouco ao livro de Anthony Burguess que deu origem ao filme. O texto é sobre o filme mesmo.  Estou um pouco enrolado com outras coisas, vou postar algo antigo – um trecho da minha monografia de final de curso na faculdade, sobre o cineasta Stanley Kubrick. Quando foi escrita, Kubrick ainda estava vivo e não tinha rodado ‘De Olhos Bem Fechados’. Não sei se o trecho selecionado é de interesse geral, o estilo é ‘acadêmico’, mas como não é muito extenso – quatro páginas -, creio que vale uma olhada. Não faço ali um juízo de valores, mas com o passar dos anos, mais claro fica pra mim o aspecto de imoralidade do filme – nunca é mostrado o sofrimento das vítimas do protagonista Alex, a violência praticada por ele é coreografada num estilo musical, o que a descaracteriza como barbárie, para inseri-la no campo da bufonaria. Ao passo que as torturas que Alex sofre durante o tratamento estatal e nas mãos de seus ex-amigos, agora convertidos em policiais, é expandida dramaticamente na tela para dar ênfase na brutalidade. Dois pesos, duas medidas. Isto não é por acaso, um acidente de roteiro, mas o resultado de um processo consciente. Kubrick, já desde o Dr. Fantástico (1964), foi com o passar dos anos, mais e mais se tornando um maquiavélico mestre da manipulação – a qual se pode ver em seu ápice em seu penúltimo filme, “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, 1987).

Curiosidades: o personagem do escritor Frank Alexander – aquele, espancado ao som de ‘Singin’ In The Rain’ - é interpretado por Patrick Magee, um dos atores preferidos do dramaturgo Samuel Beckett (que chegou a escrever textos para serem interpretados especificamente por Magee). O personagem do halterofilista fortão, encarregado de carregar e auxiliar Frank Alexander é interpretado por David Prowse, que seis anos mais tarde apareceria nas telas usando a armadura de Darth Vader em ‘Guerra nas Estrelas’ – sendo que a voz do pai de Luke era a do ator James Earl Jones. Está no link http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/laranja-mecanica-a-clockwork-orange-1971

E abri também uma página com links para fora do site – ver o quadrado ‘Links’ no topo da página. A última descoberta ali é o link para o site com aquarelas de Antônio Giacomin – que tem uma técnica refinada.


Predadores oportunistas

Outubro 8, 2007

shark-cuba-1945.jpg

(Se você teve problemas para vizualizar a foto acima, clique no link

http://comoeueratrouxaaos18anos.files.wordpress.com/2007/11/shark-cuba-1945.jpg )

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Escrevi há uns três posts sobre erros jornalísticos. Esqueci de um de minha autoria – neste caso não chega bem a ser erro, há controvérsias: No texto sobre Spielberg no digestivocultural, disse que era verdadeira a estória contada pelo personagem Quint no filme ‘Tubarão’: um relato oral sobre o naufrágio do USS Indianapolis – ver http://www.ussindianapolis.org – ocorrido no Oceano Pacífico em 1945, em plena Segunda Guerra Mundial. Segundo o relato que é visto no filme, centenas de marinheiros teriam sido devorados por tubarões.

Depois, vendo um documentário sobre o naufrágio, vi que a versão narrada no filme foi relativamente incrementada. Boa parte dos muitos náufragos morreu por uma mistura de desidratação, exaustão, insolação – morrer de falta de água potável, estando cercado de água por todos os lados é uma triste ironia. Os tubarões atacaram alguns marinheiros, isto é fato. (“Shark attacks began with sunrise of the first day and continued until the men were physically removed from the water, almost five days later.” – www.ussindianapolis.org/story.htm).

Parte considerável dos que foram devorados já estavam mortos – os corpos boiando graças aos coletes salva-vidas. Alguns sobreviventes declararam não ter visto um único ataque de tubarão.

É uma história épica, imagine quantas vezes situações como esta se repetiram ao longo da jornada humana, desde as canoas dos pescadores ainda na pré-história, passando pelas batalhas navais entre gregos, persas e fenícios? Além dos antigos navegadores chineses, ou os povos polinésios, que sempre tiveram íntima ligação com o oceano.

Os naufrágios causados por tempestades, choque com recifes, erros humanos. Homens boiando desesperados, aguardando a morte.

Há vasta bibliografia sobre homens à deriva no mar, com inúmeras variações: no Velho Testamento já se fala de Jonas e o grande peixe, que muitos associaram a uma baleia. E Robinson Crusoe, e trechos de Moby Dick. Recomendo ler o maravilhoso ‘A Ilha Do Dia Anterior’, de Umberto Eco.

Géricault, pintor francês do séc. XIX, abordou magistralmente o tema em ‘A balsa do Medusa’ – ver http://www.artrenewal.org/asp/database/image.asp?id=2187, sendo que aqui os homens ainda estão em relativa segurança, dentro de uma jangada improvisada.

Ainda hoje, nestes tempos de devastação intensa, e onde curiosos com câmeras vasculham toda a extensão do globo, o mar e sua vastidão permanecem uma fonte de mistério.

Entrevista com o cineasta Nelson Pereira dos Santos no link http://revistazepereira.com.br/node/37

É esclarecedor ter acesso as idéias do Nelson. Porque, apesar de ele ter sido professor do curso de cinema da UFF, e na época que entrei seu nome ser o principal chamariz daquela pocil…well, instituição… nos anos em que lá estive como aluno (1991-1996), só o vi uma vez, conversando com um outro professor. Uma única vez em seis anos? E é um fato, tenho testemunhas disso, colegas. Não creio que fosse o que se chama de funcionário assíduo. Fica aqui o registro, como uma metáfora da relação do cinema brasileiro com o dinheiro público.

Para fugir um pouco destes assuntos , este site que mencionei acima, o artrenewal – clicar em http://www.artrenewal.org/asp/database/contents.asp -  tem um dos melhores bancos de dados on line de pintura que eu já vi, organizados em ordem alfabética.  Vale uma conferida.