Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa
Passando os cadernos de O Globo de Sábado, 1-12-2007, cheguei ao caderno Ela. Segundo um amigo meu jornalista, o caderno deveria se chamar Êla, com acento, pois é muito mais voltado para o público gay do que o feminino.
Logo na capa estava a matéria que guardei para escrever hoje: os editores tiveram a idéia de perguntar a um grupo de “mudernos estilosos” (designers, cenógrafos, etc) o que é cool e o que não é.
O termo cool é aceitável quando dito por americano ou inglês. Se usado por brasileiros, é um anglicismo babaca.
Se o brasileiro em questão for do sexo masculino, ao usar a expressão cool, além de ser inequivocamente um idiota deslumbrado, ele levanta sobre si próprio a forte suspeita de que morde a fronha, atende pela porta dos fundos, entuba uma brachola, etc, etc.
Imagina um repórter chegando numa academia de jiu-jitsu ou num campo de terra do Aterro do Flamengo e perguntando pros bastiões da virilidade o que é cool?
Mesmo na minha pelada de coroas – onde todo mundo tem de 30 e alguns pra cima – e a galera tem nível universitário, se chegar um maluco falando que algo é cool, já será visado para levar um corretivo.
- Gosta de falar “cool”? Então do umbigo pra baixo é tudo canela.
Antigamente tinha as listas do que era in e do que era out – que também eram ridículas. Mas cool é demais. Sempre que vejo uma matéria dessas, me lembro das entrevistas do Bruno, o personagem menos famoso do humorista inglês Sacha Baron Cohen – que faz também o Ali G e o Borat (ver http://www.imdb.com/name/nm0056187). É sempre uma entrevista com algum deslumbrado do mundo da moda que se dispõe a falar as maiores merdas sem nenhum pudor.
As pessoas podem ser idiotas na adolescência – aliás, espera-se que elas o sejam, e caiam em esparrelas criadas pela mídia. Conheço mulheres de diferentes faixas etárias que foram fãs de grupos juvenis-pop-pré-fabricados como o Menudo ou dos lourinhos Hanson. Aos 13 anos isto é aceitável. Não creio que os entrevistados da tal matéria achem que Menudo ou Hanson tenham algum dia sido cool.
O problema da manipulação de mentes muda totalmente de proporção quando pessoas próximas ou mesmo acima dos 30 anos continuam tendo a preocupação adolescente de serem “antenados” – torna-os alvos fáceis da picaretagem institucionalizada. Aí, toda a sociedade vai se imbecilizando, e tendendo cada vez mais a pensar em bloco.
No último texto aqui postado reproduzi um email que enviei há meses. “Algo na pós-modernidade, talvez a sede por comodidade, fez o artista se afastar da preparação. Em vez de ser pintor, o jovem compra uma câmera digital e vai ser designer, em vez de estudar piano, vai ser dj.”
Citar a si próprio provavelmente é não-cool, diria um dos entrevistados da matéria.
E numa coluna no site em que escrevi há anos, citei um trecho de Raymond Chandler, que embora autor de romances policiais, possuía fina ironia. O trecho também versava sobre o assunto:
“- … Não se pode esperar qualidade de pessoas cujas vidas são uma sujeição à falta de qualidade. Não se pode ter qualidade com produção em massa. Não se deseja isso porque demoraria muito a chegar. Portanto, para substituir isso há o estilo. Que é um logro comercial com a intenção de produzir coisas obsoletas e artificiais. A produção de massa não poderia vender seus produtos no ano que vem a não ser que faça o que vendeu este ano ficar fora de moda. Temos as cozinhas mais brancas e os banheiros mais brilhantes do mundo. Mas na adorável cozinha branca a dona-de-casa americana média não consegue cozinhar uma refeição boa de se comer, e o adorável banheiro brilhante é sobretudo um receptáculo para desodorantes, laxativos, soníferos e produtos desta quadrilha de vigaristas que se chama indústria de cosméticos. Nós fazemos as embalagens mais bonitas do mundo, Sr. Marlowe. O que está lá dentro é, na maior parte, lixo.” (in O Longo Adeus , L&PM POCKET, pág. 253)
E para finalizar, pode-se acrescentar que jornalistas sem nada relevante para dizer ficam inventando matérias idiotas sobre o que é cool.