Sinédoque

março 24, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Outro dia mandei um email a um velho amigo o meu, comentando com contrariedade um fato: uma conhecida dele se envolveu numa picaretagem artística das grossas, obtendo um apoio estatal.

Ele ironizou, sugerindo tal qual um flamenguista ao fim do Campeonato Carioca de 2008, que o que eu fazia era “chororô”.

Curioso é que ele mesmo admite que a proposta contemplada é totalmente sem propósito ou razão de ser. Para mim, a aprovação de verba para algo assim parece resultado de conluio(s); a pessoa que liberou a verba leva 10 % – prática corriqueira – ou tem algum relacionamento com o grupo beneficiado. Sobre o possível plural depois do termo ‘conluio’, cabe ali esta possibilidade graças à pergunta: por que critério se escolhe os que vão escolher?

Ah, os selecionadores têm mestrado, doutorado, etc., em arte.

Eu pergunto: Sabem desenhar? Pintam? Esculpem? Conheço ‘doutores em arte’ que não sabem desenhar uma figura ou o fazem primariamente. Porque, sem pelo menos uns três anos de estudo prático de desenho (fora um estudo teórico concomitante, absolutamente necessário),  o sujeito não tem conhecimento para tal.

Por conta desse desconhecimento prático, muitos críticos contemporâneos não sabem diferenciar um grande desenho de um medíocre. E existe dentro da Academia interesse em fazer com que saber de cor e salteado a biografia de Man Ray seja mais importante do que reconhecer e atribuir qualidade (ou a falta dela) à arte como ofício.

Todo um segmento da crítica ignora milhares de anos dos diversos ofícios em prol dos que nos últimos cem anos criaram o desprezo pelo ofício – deixando bem claro que, nos mesmos cem anos, outros seguiram a tradição figurativa com qualidade, sob tendências diversas: Matisse, Balthus, Giacometti, Kokoschka, Portinari, Lucian Freud…

E tem-se a coragem de a este desprezo pelo ofício chamar-se História da arte, com ‘h’ maiúsculo mesmo. É uma inversão perversa demais para ser fruto do acaso, isto é algo que foi urdido e reforçado ao longo das décadas. O que ocorre, é uma ‘metonímia’ no foco do estudo da teoria e história da arte. Concentram-se os artigos e estudos (e a concessão de verbas para tal) num determinado segmento de um determinado período histórico, e chamam isto de ‘História da arte’, ‘Teoria da arte’, dando o nome do ‘todo’ ao que é apenas uma parte bem pequena dele – parte esta que nem de longe é a mais relevante.

E como os selecionadores, curadores, etc, nos últimos trinta anos  já são formados nesta visão, dão quase sempre preferência  aos ‘praticantes’ que seguem este esquema; e é aí que acaba virando conluio sobre conluio, igual a juros em cascata. Pois, através da persuasão teórica, e da seleção direcionada, estende-se o benefício desta falta de know how – um direito do crítico, porque ele é um teórico – ao produtor de arte.

Um diálogo imaginário (Os quadros citados podem ser vistos em links ao final do texto.):

E aí, historiador da arte? Explica o esquema de composição da “Ressurreição” de Piero della Francesca?

- Bem, eu…

Como Rembrandt trabalhou as passagens de “A Noiva Judia”?

- Ah, bom, aí…

Explica como se deu o aprofundamento do uso da luminosidade no decorrer da obra de Turner?

- Seria uma pesquisa complexa…

Qual a secreção corporal que Duchamp jogou na tela e chamou de arte?

- Ah, essa eu sei! Foi sêmen! – ele responde aos pulinhos.

O diálogo é um exagero meu, claro. Não se pode esperar que um indivíduo tenha na ponta da língua a resposta a qualquer pergunta feita sobre um campo tão vasto quanto a história da arte.

Minha tréplica ao meu amigo (o do primeiro parágrafo) eu lanço aqui:

“Quando o ser humano não tem mais a capacidade de se indignar, é porque abriu mão de uma parte de sua humanidade.”

Links para as imagens (apertando a tecla F11 da fileira superior do teclado, as imagens ocupam a tela inteira do monitor. Repetindo a operação, volta ao modo normal de exibição.)

A Noiva Judia -

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=13209&size=large

Ressurreição -

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=25538

A obra de Joseph Mallord William Turner – uma vez na página rolar a barra pra baixo e clicar nas imagens desejadas. Tem 14 (!) páginas de imagens dele no site.

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137&page=11


26 anos atrás

março 21, 2009

Flanando na internet, achei uma briguinha de Caetano Veloso com Paulo Francis, em 1983. Na época, rendeu uma matéria de Ruy Castro. Está no link ao final do texto.

Começou com um deboche do Francis. A réplica do bahiano é tola, acusa o jornalista de “boneca travada”, algo como o popular “enrustida”. Se vai bater, bate direito! Era melhor ter dito que as tentativas de literatura do Francis, “Cabeça de Negro”, “Cabeça de Papel”, etc., eram pífias. Mas Caetano provavelmente nunca se deu ao trabalho de tentar ler os livros. E/ou sabia que ele próprio não tinha respaldo para falar de literatura, e isto seria explorado por Francis numa contra-argumentação. Se fosse malandro, Caetano teria dito: “Como apontaram José Guilherme Merquior e Wilson Martins, a tentativa de literatura que ele produziu está destinada à vala do esquecimento.”

Assim, para respondê-lo, Francis teria que se confrontar com o fato de que sua literatura fora realmente execrada por nomes de peso.

Mas pra que fui falar de uma pinimba que aconteceu há mais de um quarto de século? Sei lá… Falta de assunto melhor.

Digressão 1: Escrevendo dois parágrafos acima “o fato de que sua literatura fora realmente execrada…”, me veio a dúvida se este “fora” teria ainda o acento circunflexo, ou se isto teria sido abolido pela tal reforma ortográfica. Digressão 2: acento circunflexo, o velho “chapeuzinho do vovô” (em oposição ao acento agudo, o “grampo da vovó“, o que as pobres professoras têm que inventar para educar as crianças…). O fato de trinta anos depois eu ainda lembrar disto é um tributo à dedicação da “Tia Fátima”, que me alfabetizou.

Para ler mais sobre Caetano x Francis, clicar em :

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u465487.shtml


Bizarro

março 18, 2009

Sei que essa coisa de indicar links para imagens ou filmes é meio preguiçosa.

O filme que se vê no link abaixo é da série “teu passado te condena“. Foi dica do Leonardo Comprido, já citado neste blog.

Tem dois minutos de duração. Em que ano foi feito? Arriscaria 1967, 68. Engraçado é que Woody Allen faz o número usando óculos, um risco desnecessário.  Até que ele tem um belo jogo de pernas.

Ver aquele que foi a personalidade mais interessante do cinema mundial de 1977 até pelo menos 1990 fazer um papel destes dá esperanças a todos que ainda não conseguiram um lugar ao sol – grupo este no qual evidentemente me incluo. Em breve pretendo enfrentar um tamanduá, pra ver se mudo minha sorte. Deixá-lo-ei com a boca cheia de formiga. Clicar em:
http://www.youtube.com/watch?v=dPqvqPIGFts


Levando a vida na flauta

março 13, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

a) Preâmbulo

P.Q.P., estou sentado pra escrever sobre os quadrinhos do Arnaldo Branco, e um peruano pára em frente ao meu prédio com caixas de som que ficam tocando aquela música melancólica que eles fazem com aquela flautinha indígena – a que parece a flauta de Pan, e eu não faço nem idéia de qual seja o nome que eles dão ao instrumento.

Mas o tema da minha coluna/artigo já ta fixado, vou falar de quadrinistas da internet, em comparação ao Henfil. Então a flauta fica pra coluna que vem.

b) O texto em si

Isto tudo foi o que pensei há três dias, quando lancei o texto sobre quadrinhos, o qual está logo abaixo deste  (e há um link para ele ao final deste texto, não precisa interromper a leitura agora).

Agora, vou falar do peruano.

Aquela flautinha, que tristeza! Todo o anacronismo, a inviabilidade e inadequação ao mundo civilizado que ela traz inserida. Certos instrumentos trazem este sentimento embutido, como o acordeon. São como fotógrafos lambe-lambe de rua ou carrossel de parque bem pobre e fuleiro, com tinta descascando: restos de um mundo que não tem mais lugar.

E o que é pior, paro de escrever, pego o elevador, atravesso o corredor para ir lá ver qual é o esquema. É só a aparelhagem de som reproduzindo o cd. O andino, indolentemente recostado ao aparelho, nem sequer toca ao vivo. Assim, rola música sem interrupção para descanso, seja do músico ou dos infelizes ouvintes. Ouço “Don’t Cry For Me, Argentina”. Por que a Argentina iria chorar por vocês? Entregaram o jogo pra eles na Copa de 78.

E o apartamento onde moro não é de frente pra rua, uns trinta metros me separam do peruano. Imagino quem mora de frente – o volume certamente é bem mais alto: estes devem ter ganas de fazer uma maldade com o pobre sujeito, jogar um balde d’água, algo assim. Imagino um casal de vizinhos meus, já idosos, e que moram no apto. 101, bem de frente pra cena do crime. Estão no sossego do seu lar, começa o cantar da flautinha agourenta.

- Ih, o peruano de novo, o que a gente faz com ele?

- Lima!

- É pra limar o cara ou mandar ele pra Lima?

- Whatever, desde que ele pare!

Na real, acho que o meu vizinho, o ‘Seu Luiz’, do alto de seus 80 e tantos anos não fala “Whatever”.

“Imagine”; “Hey Jude”. O repertório do cara é eclético. Triste que John Lennon tenha morrido com uma overdose de chumbo no lombo; mas seria ainda mais triste se ele estivesse vivo vendo o peruano maltratar “Imagine”. Cadê o psicopata Mark Chapman com o revólver, quando a gente precisa dele?

Garotos que tocam rabeca na porta do Shopping Center também são tristes, claro! Mas este peruano – ou boliviano, sei lá – é mais triste ainda: ele veio de longe pra isso. Isso é o ápice da vida dele. Se o cara viajou 5.000 km pra tocar flauta numa rua do Rio de Janeiro, pensa qual devia ser a perspectiva de vida que lhe era reservada em sua terra?

Tento imaginar sua vida, partindo de uma série de estereótipos: ele criança em sua cidadezinha natal, descalço no quintal enlameado do casebre da família, onde mora com seis irmãos e a mãe, viúva desde que o pai morreu numa explosão na mina de prata onde trabalhava. Ele come um prato de farinha de mandioca, enquanto olha as galinhas ciscando a terra, e pensa: Se Dios quiser, um dia ainda vou pro Brasil pra ser músico.

Aposto que o Pablo, do “Qual é a Música?”, aquela figura brega e purpurinada, um dia sonhou a mesma coisa. Quem disse que a fada-madrinha não atende os desejos? Queriam Brasil, aqui estão. Vidão, hein?

(Aliás, não sei se é por ter falado no Pablo, lembrei de uma curiosidade: “Peruanos” é para muitos gays a palavra mais bonita da língua portuguesa. Começa em “peru” e termina …)

Alguém pode argumentar que um cara que toca Bach ao piano também não está inserido no mundo que conhecemos. Também. Mas se ele toca razoavelmente bem, pode se consolar que o que ele faz é bom, o mundo é que não está a altura dele. O peruano da flautinha não. Ele não é melhor que o mundo; ele é chato, irrelevante, alijado da essência. Periférico como uma prostituta de zona de garimpo.

Pra quem não viu, recomendo “Broadway Danny Rose” do Woody Allen. Uma obra muito humana, está embutida deste sentimento do começo ao fim. Ou “A Última Sessão de Cinema”, de Bogdanovich. Quem é da minha geração, e viu os cinemas onde passou a infância virarem igrejas evangélicas vai se identificar um pouco.

Sobre quadrinistas da internet,  rolar um pouco a barra para baixo, é o segundo texto (ou clicar no link :  http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/03/10/opiniao-e-que-nem-o-simbolo-quimico-do-cobre )


Caveira, meu capitão!

março 12, 2009

hamlet

…para ter essa caveira aqui é preciso ter caráter. Coisa que o senhor não tem.” Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, em ‘Tropa de Elite’.

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Sexta, dia 13 de março, estréia no Rio de Janeiro a versão de Hamlet, dirigida por Aderbal Freire-Filho e com Wagner Moura interpretando o papel-título (informação tirada do ‘blog oficial’ do ator  – http://www.wagnermoura.blogger.com.br).

Não resisto a uma bobagem, imagino um breve diálogo entre o príncipe da Dinamarca e o Capitão Nascimento.

Hamlet – Ser… ou não ser?

Capitão Nascimento (entra atirando em Hamlet) – Nunca sereis!

Eu mesmo já postei aqui minha versão – cômica – da história, no link http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/08/19/o-hamlet

A versão de Shakespeare, como a maioria de sua obra, também não é a original, mas uma melhoria de versões anteriores.


Opinião é que nem o símbolo químico do cobre

março 10, 2009

Andei relendo os arquivos do Arnaldo Branco, ainda da época do site/portal gardenal.

Esta já é velha (fevereiro/2007 ), mas very amusing – essa mania de usar expressões em inglês ainda vai me trazer má fama :

http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2007/02/09/arte-sequencial

Em vez de arte poderia ser música de câmara: Bach no primeiro quadrinho, Beethoven no segundo e John Cage no terceiro.

Ler e reler o trabalho do Arnaldo e do André Dahmer sempre rende boas risadas. Exatamente o inverso do que eu sinto lendo o trabalho do Henfil, republicado no Globo diariamente, e o qual acho chato pra cacete. O próprio Arnaldo Branco discordaria, assim como muitos me taxariam de herege por falar mal do irmão do Betinho – a equação de fama se inverteu com o passar do tempo. Na época do lançamento da música “O Bêbado e a Equilibrista” o mais famoso era o cartunista.

A vantagem de não ser um nome conhecido é que, ao falar algo assim, ninguém vai se dar ao trabalho de me crucificar como fizeram com Marcelo Madureira no episódio “Glauber Rocha é uma merda”.

O fato de ser ‘contra o sistema’ transformava qualquer coisa em ícone nos anos 1970. Até algo totalmente sem razão de ser, como ‘Ubaldo, o paranóico’.

E não venham dizer que minha opinião é afetada pelo distanciamento temporal em relação à elaboração da obra, uma visão dos anos 2000 sobre os anos 1970. Tenho um livro do ‘Amigo da Onça’, do Péricles, que é muito mais velho que o Henfil, e acho bacana. Livros do Recruta Zero, coletâneas da MAD, os trabalhos de Jules Feiffer (Sick,Sick Sick), tudo dos anos 1950 e 60, oscilando de ótimo a interessante. E há o ‘Rango’ do Edgar Vasques, contemporâneo do Henfil e altamente politizado, que até hoje proporciona uma releitura saborosa.

Quanto ao Arnaldo e ao André Dahmer, caso haja quem ainda não os conheça, já há tempos tem links para os sites dos dois na minha página de ‘links’, em ‘humor': http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/links


O tenaz cultivo do joio

março 7, 2009

Uma amiga enviou-me um newsletter que ela recebe. Nele, lia-se um artigo de Cleber Benvegnú para o jornal Zero Hora, ed. 15885, 20/02/2009. (http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2411684.xml&template=3898.dwt&edition=11750&section=1012 )

O artigo trazia comentários do autor referentes a uma entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja, criticando a ganância de boa parte dos que entram no mundo da política. Um trecho chamou-me particularmente a atenção:

O mandato público virou quase exclusividade de quem, com uma sólida estrutura logística e financeira por trás, consegue criar uma rede de fisiologismo, de corporativismo e de favores recíprocos. Quem não joga esse jogo, fica praticamente alijado.

Para entender o grand  monde das artes, basta pegar a sentença acima, e substituir a expressão ‘mandato público’ por ‘acesso do artista à mídia’.  Ou seja, qualidade artística não tem muito peso na equação.

O problema é que este domínio quase que absoluto da atividade – seja  ela a política ou a arte – por um segmento, tem duas consequências imediatas:

1)      Estabelece para o público a imagem deste segmento como o único caminho possível.

2)      Tende a afastar pessoas que não se encaixem neste perfil da prática de tal atividade.

E tanto na política quanto na arte, seria fundamental que pessoas preparadas e bem-intencionadas estivessem atuando de acordo com seus valores.

Mas do jeito que é hoje, estrangula-se vocações e aspirações antes de elas sequer ganharem vida.


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