Rubem Braga

outubro 23, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Tenho alternado leituras, como é de costume. Em meio a livros sobre cinema e roteiro, para me distrair leio crônicas do Rubem Braga (‘200 Crônicas Escolhidas – as melhores de Rubem Braga’; Ed. Record, 1978).

A leitura do Braga, em geral, é uma delícia. O senso de humor, o amor pela vida, pelos seres e coisas; a tranqüilidade que ele passa ao leitor. Parece que, enquanto escreve, não está vivendo como mero ser humano, mas observando a vida de um patamar mais alto.

Para quem lê, parece que era muito fácil ao Braga escrever daquela forma; que ele sentava meia hora diante da máquina e saíam as páginas prontas. Não tenho idéia do quanto era demorado ou trabalhoso para ele escrever. Mas vá você tentar escrever daquela forma. Vai suar a camisa, poderá levar horas; e dificilemente chegará perto do resultado que ele obtém.

À época em que foram escritas, as crônicas eram semanais, publicadas em jornais e revistas. Numa delas, o Braga começa a contar uma aventura que viveu na cidade marroquina de Casablanca. Só que, por ser uma narrativa mais longa, não coube no espaço mais ou menos fixo que uma única crônica ocuparia no veículo de imprensa a que se destinava. Se bem que, pela leitura do material selecionado no livro, vê-se que o autor dispunha de certa elasticidade no espaço – algumas crônicas ocupam apenas uma página, outras, três ou quatro páginas. Ainda assim, havia um espaço máximo que não se podia ultrapassar, e a longa narrativa dos fatos ocorridos em Casablanca forçosamente o faria.

Então optou-se por dividi-la ao longo de três crônicas. Na segunda dentre elas, o autor começa (o negrito é meu, para destacar uma frase sensacional):

Muitos leitores me dizem que estão indignados com esse negócio de eu começar uma história num domingo e não acabar. Consolem-se comigo, que também me aborreço muito. Hoje, por exemplo, devo acabar de contar minhas aventuras em Casablanca. Ora, quando eu comecei aquilo, estava convencido de que era uma boa história. Hoje, relendo a primeira parte, fiquei com sono e desanimado; e quando penso que devo fazer a segunda, francamente, sinto náuseas.

Afinal, o leitor nada tem a ver com o que me aconteceu em Casablanca. E não me perguntou nada. Eu é que me meti a contar a história. Se tivesse contado de uma só vez, vá lá. Mas neste momento  estou na posição de uma pessoa que começa a contar uma anedota e é interrompida; e quando pretende continuar se dá conta, subitamente, de que a anedota não tem nenhuma graça nem interesse, ou, o que é lamentável, ele se esqueceu do fim. Está visto que não me esqueci do fim de minhas aventuras em Casablanca. Mas só agora percebo que fiz uma horrível imprudência; porque, francamente, não me é possível contar a história tal como aconteceu. Como acontece em muitas histórias, a parte mais interessante é de caráter confidencial; seria da maior inconveniência que eu a contasse em público. Mesmo em particular, quando sou interrogado, guardo um pesado silêncio, ou digo qualquer mentira que me ocorre, pois alem de ser um homem responsável perante minha Pátria, Deus e minha Família, sou um perfeito cavalheiro, e um perfeito cavalheiro deve saber guardar perfeito silêncio em circunstâncias como essas.

Se havia de fato algum leitor que se queixara, depois de ler o primeiro parágrafo do texto acima já haveria perdoado o autor. Se alguém começasse a ler esta crônica, ser ter lido a anterior, iria ligar para os amigos para saber se guardaram o jornal da semana passada. Porque, lendo um trecho do Braga, dá vontade de ler mais.

Algumas das crônicas podem ser lidas na coluna na parte à esquerda da tela no link http://www.releituras.com/rubembraga_menu.asp

Os livros podem ser encontrados em sites como o http://www.submarino.com.br, http://www.livrariasaraiva.com.br  e, usados, no http://www.estantevirtual.com.br

Valem muito a pena.


Quem precisa de mais um texto sobre Tropa de Elite 2?

outubro 10, 2010

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Confesso que estava ansioso para ver ‘Tropa de Elite 2’, e o fiz assim que estreou em grande circuito, dia 8-10. Um filme extremamente bem realizado do ponto de vista técnico: produção, montagem, fotografia, elenco. No mesmo dia, saiu no RioShow do jornal ‘O Globo’ uma versão editada de um texto de Jorge Antonio Barros que apontava inverossimilhanças no roteiro do filme. Barros é editor adjunto do caderno Rio e responsável pelo blog ‘Repórter do Crime’ do Globo. Ou seja, alguém com conhecimento de causa nos assuntos retratados no filme. O texto, muito válido, pode ser lido integralmente aqui:

http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/posts/2010/10/08/tropa-de-elite-2-nem-tudo-verdade-mas-quase-tudo-330978.asp

Mas as discrepâncias que Barros aponta são aquelas entre filme/realidade. Eu pretendo aqui comentar as discrepâncias internas do filme.

Todo filme tem que ser coerente, não pode uma hora dizer uma coisa e depois dizer outra. No caso de uma continuação, além de ser internamente coerente, ela tem que ter coerência com o filme que a gerou. Isto posto, temos a reviravolta do personagem Capitão Nascimento (no segundo filme promovido a Coronel), que desde o primeiro filme é mostrado como beligerante, proto-fascista e alguém que tem verdadeira abjeção por pseudo-liberalismos hipócritas da sociedade (“- Quando vejo uma passeata pela paz tenho vontade de sair dando porrada” – diz no primeiro filme).  Agora, no segundo filme, Nascimento termina por se juntar ao personagem de um militante/deputado que tem várias características que antes ele repudiava. É uma forma de incoerência, mas isto está bem resolvido no filme, a mudança de Nascimento se dá devido a descobertas feitas ao longo da trama, faz parte do que em roteiro se chama de ‘arco do personagem’.

Mas há problemas maiores. Não queria nem falar do fato de Rosane, a personagem que era a esposa de Nascimento no primeiro filme, ter se divorciado dele e casado com outro personagem que é quase uma nêmese do Cap. Nascimento. Este dado é um “Deus Ex Machina“, uma forçação de barra brutal: A mulher que teve seu primeiro casamento destruído pela dedicação obsessiva de seu marido à segurança pública vai se casar justamente com outro homem que dedica, por outros meios, obsessivamente sua vida à segurança pública? É trocar um problema por outro. Mas rende bons frutos à trama: a ironia embutida no fato, a confusão entre os dois pólos gerada na cabeça do filho agora adolescente de Nascimento. Então, vamos deixar passar.

Mas um outro problema, este me parece inexplicável: No segundo filme temos a questão das milícias, personificada no Major Rocha. E o sujeito é a encarnação do mal, brutal e corrupto ao extremo. Nem o agora oficial André Matias (qual a patente dele? Capitão?) nem o Coronel Nascimento parecem saber nada sobre o Major Rocha: Matias aceita tomar parte numa operação capitaneada por Rocha; e após a execução de um personagem do Bope (não vou dizer quem, para não estragar a surpresa pra quem ainda não viu), o Coronel Nascimento não consegue fazer a conexão entre o crime e o provável autor do mesmo.

Pois bem, vamos retroceder para esclarecer o ponto incômodo: No primeiro filme o Capitão Nascimento é designado para ministrar um curso para os candidatos ao Bope. Antes do curso começar, os oficiais da instituição se reúnem numa mesa para debater o que se sabe sobre os candidatos. ( “-Esse está na lista do jogo do bicho.” “-Esse é barra pesada. Cafetão de puta em Copacabana!”). Ou seja, no primeiro filme eles tinham informações sobre todo policial corrupto pé-de-chinelo da cidade. E no ‘Tropa 2’, este serviço de inteligência, que antes funcionava miraculosamente bem, agora é incapaz de saber que o Major Rocha é o chefão das milícias? Não dá pra acreditar. E esta situação se estende por anos, e o Coronel Nascimento só vai tomar ciência dele através do ativista de direitos humanos? Que é isso? Parece que o diretor e roteirista estão pedindo desculpas por um certo endosso à truculência no primeiro filme: “Olha, aquela cena em que o policial invade a passeata da paz e sai batendo num ‘avião’ (passador de droga), não quer dizer que sejamos anti-pacifistas. O personagem é que era brutal; nós não. Até o Coronel Nascimento teve que reconhecer a sua inferioridade em relação a um militante dos direitos humanos. O cara lhe toma a mullher, o amor do filho, e ainda descobre coisas que ele não foi capaz.

Talvez ainda volte ao assunto. De qualquer forma, ‘Tropa de Elite 2’ é um filme que tem que ser visto e debatido.

Ah, mudando de assunto, aderi ao tal twitter:

http://twitter.com/mauricioasodias

Já havia, aqui mesmo neste blog, declarado que não acreditava que iria fazê-lo:

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/07/25/o-show-de-truman

Logo, cobro coerência do filme, mas eu mesmo não sou 100 % coerente. Mas também não sou um filme.


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