Considerações sobre ‘Os Suspeitos’

Por Mauricio O. Dias

Um dia desses eu assisti o documentário canadense ‘100 Films and a Funeral’, sobre o período na década de 1990 quando a Polygram inglesa tentou estender à indústria cinematográfica o poder que já havia obtido no negócio musical.

Em uma certa parte do documentário um executivo fala sobre o filme ‘Os Suspeitos’ (‘The Usual Suspects’), um dos destaques da empresa. E ele diz que foi o melhor roteiro que já tinha lido.

Ouvindo isso, lembrei que eu não tinha gostado de ‘Os Suspeitos’, quando o vi, lá na década de 1990. E eu não tinha gostado do enredo, também.

Considerando a hipótese que eu houvesse julgado mal o filme, procurei no imdb.com para mais informações a respeito. Foi premiado com dois Oscars, um deles de Melhor Roteiro Original (escrito diretamente para a tela). É claro, um Oscar não é garantia de valor artístico: ‘Titanic’ ganhou onze Oscars e ninguém com um cérebro pode pensar que é um bom filme.

Mas houve mais sobre ‘Os Suspeitos’. Em uma página do site do ‘Writers Guild of America’ – http://www.wga.org/uploadedFiles/news_and_events/101_screenplay/101press.pdf  – onde ‘Os 101 Melhores Roteiros’ foram listados, ‘Os Suspeitos’ foi apontado como o 35º melhor roteiro. A lista da WGA não discrimina roteiros baseados em romances ou peças de teatro e os que foram escritos diretamente para a tela.

Sendo colocado como o 35º. melhor roteiro, isto significa que ‘Os Suspeitos’ tem um roteiro melhor do que os de ‘Taxi Driver’, ‘Os Bons Companheiros’ e ‘Touro Indomável’, todos de Scorsese; que o de ‘O Tesouro de Sierra Madre’ de John Huston,’ de ‘Manhattan’ e ‘Crimes e Pecados’, de Woody Allen; do que ‘O Silêncio dos Inocentes’ de Jonathan Demme; do que ‘Janela Indiscreta’ de Alfred Hitchcock e ‘8 ½’ de Fellini – apenas para citar alguns títulos importantes.

Então eu pensei que eu provavelmente tinha perdido alguma coisa quando assisti o filme. Talvez eu estivesse cansado, de mau humor, ou algo assim. E resolvi rever ‘Os Suspeitos’.

E, após o fim, eu mantive a mesma impressão da primeira vez que vi, ou ainda pior. Não é um bom roteiro.

Agora eu quero listar os motivos que me fazem sentir assim. Se você ainda não viu o filme e tenciona fazê-lo, comentarei à frente partes que podem estragar a surpresa (os famosos spoilers):

1) A história que é contada ao Oficial de Alfândega Dave Kujan (e para o público) por Kint Roger “Verbal” é ilógica. Se no mundo real houver um criminoso internacional tão importante como Keyser Söze, com poder suficiente para escolher todos os criminosos que vão ficar em uma acareação em uma Delegacia de Polícia de NY, ele também teria contatos na polícia de Los Angeles para pedir-lhes para ir revistar um navio em um porto de Los Angeles – especialmente se ele estava cheio de cocaína – e apreendê-lo. Não era sua intenção roubar a droga para ele mesmo vendê-la, pois ordenara que o navio fosse explodido. Não me diga que ele só tinha poder sobre a Polícia de NY, e não poderia fazer o mesmo em LA. Ele é um criminoso INTERNACIONAL, não um gangster local de NY, como Don Vito Corleone (e mesmo Don Vito tinha poder suficiente pra mandar cortar a cabeça do cavalo em Los Angeles, fora de sua ‘área de poder’). Mais tarde, descobrimos que a história da cocaína era falsa, e a razão real para entrar no navio era que Keyser Söze tinha a intenção de matar um inimigo que estava lá. Mas nenhum dos criminosos que fazia parte do grupo designado para essa missão – os caras na foto do poster do filme – considerou um pouco estranho ter que ir a bordo?

2) Keyser Soze, um homem que supostamente foi criado na Turquia, dificilmente não teria algum sotaque.

3) Se Keyser Söze queria explodir o navio em um porto de Los Angeles, por que ele envia homens a um tiroteio intenso dentro do navio antes de explodi-lo? Se você é um criminoso internacional, que vende armas no Paquistão, e Irlanda do Norte, você também tem acesso a mísseis, morteiros, bazucas, e todo o tipo de explosivos. Por que entrar no navio e encarar Deus sabe quantos criminosos armados em uma batalha pelos corredores apertados do navio, se você pode explodi-lo de uma distância segura? E nenhum dos outros personagens do filme aponta isto para Kobayashi, o lugar-tenente de Keyser Söze?

4) Considerando o fato de que os homens no navio são todos traficantes de drogas armados, e havia muitos deles, é estranhamente surpreendente o quão fácil é para apenas dois criminosos – aqueles interpretados por Stephen Baldwin e Gabriel Byrne – entrar e matar todos eles. Nem mesmo um par de John Rambos iria realizar essa missão sem receber um único tiro.

5) Se Keyser Söze é tão poderoso, como o Oficial de Alfândega Dave Kujan o prende após a explosão do navio? Se você é um criminoso, tão poderoso e com muitas conexões, por que você não desaparece após o serviço que você pediu já estar feito? Por que perder tempo em uma delegacia de polícia? Pela diversão de zombar do bovino Oficial?

6) O freqüentador de cinema médio pode pensar que ‘Os Suspeitos’ tem um ‘final surpresa’, como o de ‘O Sexto Sentido’, mas não é. Em ‘Os Suspeitos’ toda a história que nos foi contada durante uma hora e 40 minutos é um monte de mentiras inventadas por Kint Roger ‘Verbal’ com base nos folhetos grampeados no quadro de avisos atrás do Oficial de Alfândega – até mesmo os nomes de alguns dos personagens de sua história foram tirados de lá. Então, nós, espectadores, não sabemos realmente o que aconteceu. Será que os personagens da história que ele nos conta realmente existem e ele só mudou os seus nomes? Ou eram apenas uma parte ficcional de sua história enganosa? Nós não sabemos. Este não é um ‘final surpresa’, é um blefe.

7) Há pessoas que têm algum tipo de crença religiosa, e há aqueles que não têm. Aqueles que têm geralmente acreditam em um Deus onipresente e onipotente. Em um filme como ‘Os Suspeitos’ essas características divinas são atribuídas a Keyser Söze (após sua família ser tomada como reféns, o que causou sua metamorfose de um pequeno traficante de drogas em um tipo de bicho-papão). Ele assume o lugar de Deus. Um assassino cruel é elevado ao nível de uma figura demiúrgica. Ele sabe tudo o que acontece, ele governa o mundo, ele faz as coisas acontecerem. Alguns podem considerar que isto é satanismo. Isto é tão filosoficamente pequeno, tão vil. ‘Os Suspeitos’ não é sobre seres humanos, é sobre criaturas míticas unidimensionais, não mais elaborados do que aqueles nos quadrinhos ‘X-Men’. Ao contrário, os personagens dos quadrinhos ‘X-Men’ têm sentimentos, amizade, empatia, arrependimentos. Em quase todos os personagens de ‘Os Suspeitos’ falta esta humanidade. A única chance de redenção, o amor que o personagem interpretado por Gabriel Byrne sente por sua namorada – o qual faz dele um homem melhor, capaz de sentir remorso após esmurrar um homem aleijado – é destruída, com Keyser Söze ordenando a morte da moça, mesmo depois de ter todos os seus problemas resolvidos.

8.) E apesar de todas as coisas más que ele faz, Keyser Söze vence. Ele é o último homem de pé.

Como pode um roteiro como esse ser o 35º. melhor de todos os tempos?

3 respostas para Considerações sobre ‘Os Suspeitos’

  1. Jacy Alves Santos disse:

    Talvez seja por isso mesmo.
    Jacy

  2. Carlos Maurício Ardissone disse:

    Olá Maurício,

    Tudo bem? Interessante o seu texto. Curiosamente, revi ‘Os Suspeitos’ já pouco tempo também. Parabéns por atentar para uma série de aspectos interessantes no roteiro que eu não atentara. Apenas acho que um aspecto merece ser também explorado: o que movia Keyser Soze contra os “suspeitos” era um sentimento pessoal de vingança por terem atrapalhado negócios seus no passado. Desfazer-se deles e, ao mesmo tempo, da testemunha que estava no navio era o que desejava e, para tal, ele ofereceu $$ e, claro, a promessa de que esqueceria como eles lhe prejudicaram no passado. Concordo que há furos no roteiro sim, mas particularmente, não os considerei tão prejudiciais assim. Vejo o filme mais como uma brincadeira despretensiosa do que como preocupado com a realidade. Abraços!

  3. mauricioodias disse:

    Carlos Maurício,
    Um roteiro ter enormes furos pode até ser aceitável. O problema é, como está colocado nos parágs. 5 e 6 do meu texto, este mesmo roteiro constar do site do ‘Writers Guild of America’ como o 35o. melhor de todos os tempos, a frente de muitos roteiros que são infinitamente melhores.

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