duas palavrinhas sobre o legado cristão

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Sei que o termo civilização ocidental é uma generalização, há inúmeras diferenças entre a cultura característica do sul e do norte da Itália, mais ainda entre as da Itália e a da Holanda.

Três pontos em comum unem as culturas que englobarei aqui como constituintes da civilização ocidental: situam-se na Europa, foram parte do Império Romano e adotaram em algum momento o catolicismo como religião oficial – sendo todas elas ainda hoje predominantemente ligadas à alguma corrente cristã.

Romênia, Iugoslávia, Bulgária, também fizeram parte do Império Romano, mas não entram neste grupo. Nenhum país que após o grande cisma do século XI ficou sob a influência da Igreja Ortodoxa teve importância no processo de construção deste legado –  a Grécia entra por sua contribuição antiga, é o berço da civilização européia com seus filósofos, poetas e dramaturgos; mas já bem antes de seu período cristão tinha perdido irremediavelmente o bonde da história.

Outros cristãos Ortodoxos como Ucrânia e Rússia também não. Os protestantes Dinamarca e os escandinavos também; nenhum deles faz realmente parte do grupo que pretendo abordar.

A Polônia é um caso aberrante, uma nação católica que deu ao mundo Copérnico, uma importante contribuição cultural – mas também não lembro de outra.

Basicamente, ao me referir à civilização ocidental, estou falando da que permeou o território geográfico que cobre da Itália à Inglaterra, toda a faixa ocidental entre elas,  mais Áustria e uma parte da Alemanha. O cristianismo é um elemento comum a todas estas culturas – a despeito dos setecentos anos de invasão moura da península ibérica.

Comparada a uma civilização ideal – e este ideal é fluido, varia de um indivíduo pra outro – , a ocidental, com seu histórico de guerras, massacres e perseguições a minorias, sempre perderá feio. Mas comparemos esta civilização a outras que tiveram existências concreta e cronologicamente simultâneas, a civilização hindu ou a chinesa –  ambas também são termos genéricos para designar várias culturas heterogêneas e idiomas diversos que de alguma forma se conciliaram numa mesma área (na Índia se fala centenas de dialetos diferentes).

Estas outras civilizações, ao longo de toda a História, abarcaram populações numericamente superiores à englobada pela ocidental. Comparando a ocidental a elas, veremos que esta não sai mal na foto. As outras produziram massacres, guerras, déspotas da mesma forma. Mas, barbaridades a parte,  a ocidental produziu Tomás de Aquino, Dante, Michelângelo, Ticiano, Shakespeare, Rembrandt, Bach, Mozart, Leibniz… Que nomes as outras civilizações têm para comparar a estes?

Além do fato de não produzirem nomes de tal vulto como a ocidental, outras civilizações com outros enfoques religiosos também não se expandiram com a mesma habilidade. Por exemplo, a América está a meio caminho da Europa e da Ásia (aliás, pelo Estreito de Bering é bem mais próxima da Ásia). Mas quem chegou e colonizou o novo mundo foram os europeus. Nós brasileiros, assim como argentinos, norte-americanos, somos produto desta civilização. Assim também foi com a Austrália, muito mais próxima da Índia que da Inglaterra.

Não temos como saber o que teria sido do mundo ocidental sem o avanço do cristianismo, quanto tempo a Europa levaria para se reorganizar após a queda do Império romano se não houvesse a mão-de-obra qualificada da Igreja para assumir os cargos burocráticos. Mas esta é outra discussão.

Esta ênfase no cristianismo mostra que a Bíblia é uma das bases da nossa civilização ocidental. Para muitos ela é a palavra de Deus exposta, para outros um depósito de sabedoria compilada através de várias gerações. Para outros ainda, uma elaboração mitológica sem maior relevância que a mitologia grega ou egípcia – dos que compartilham esta visão falarei mais ao final.

Como todos sabem, os cristãos baseiam sua fé especificamente na dissidência judaica representada por Jesus, o Cristo. O calendário do mundo ocidental é dividido em antes e depois do seu nascimento. A História que conhecemos não divide a cronologia em antes/depois de Moisés; Sócrates; Alexandre, o Grande; Julio César. A História tomou como parâmetro Jesus, logo, seu nascimento é, sem dúvida, um fato altamente significante dentro dela.

Obs. Tanto Julio César quanto seu sobrinho-neto Otaviano Augusto conseguiram, em atos de auto-glorificação, inserir seus nomes no calendário ocidental, rebatizando em sua própria homenagem o sétimo e o oitavo mês do ano, nomes estes que usamos até hoje. Mas ainda assim, não se tornaram “o” parâmetro de medida.

Mesmo sendo uma dissidência do judaísmo, a nova religião dialoga com a anterior, os velhos livros são constantemente citados nos Evangelhos. O que sei dos livros judaicos é o que li do chamado Velho Testamento; não sei quantas adaptações ocorreram nos textos em relação aos originais.

Os Evangelhos são a base do Novo Testamento, sem eles não haveria os atos dos apóstolos, as cartas de Paulo, Tiago e Pedro. Já o Apocalipse segue uma tradição profética de forma e conteúdo que tem paralelos nos profetas do Velho Testamento.  Uma diferença singular entre o Velho Testamento e os Evangelhos é que, na forma como está na Bíblia, os acontecimentos do Velho Testamento são relatados de um único ponto de vista, enquanto a vida de Jesus é contada por quatro diferentes observadores. Quando o livro fala de Abraão, não há versões para o mesmo fato: “segundo o livro X, isto aconteceu assim, segundo o livro Z, houve também mais isto.” Evidentemente estou me reportando à forma em que este material chegou para o leitor leigo; nunca tive acesso aos manuscritos antigos, não falo hebraico, quanto mais ler em hebraico.

Entre os quatro Evangelhos, há uma série de discrepâncias, fatos que aparecem em um e não em outro.

Apenas alguns exemplos: A visita dos reis Magos e o episódio do Massacre dos Inocentes só são citados em Mateus (respectivamente, Mt 2: 9-11 e Mt 2: 16). Outros dois dos Evangelhos só acompanham Jesus a partir de sua ação como pregador, já em plena maturidade.

A genealogia de Jesus apresentada em Mt 1:1-16 é bem diferente da apresentada em Lc 3:23-28.

Em Mt 27:52-53, quando Jesus expira na cruz, os mortos dos cemitérios se erguem e aparecem às pessoas na Cidade Santa. Como explicar que três dos evangelhos não documentem este acontecimento tão milagroso e incomum?

Além da diferença formal entre o Velho e o Novo Testamento,  há uma diferença de conteúdo, que é muito mais importante que a formal – mais facilmente notada  no Ev. João: esta diferença é enunciada em Jo 1:17, “A lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” Esta escala é posteriormente reiterada na carta de Paulo aos Romanos 6:14, “O pecado não mais vos dominará, porque agora não estais mais sob a lei, e sim sob a graça.”

No Velho Testamento se aplica o rigor da lei de Moisés. Adúlteras deviam ser apedrejadas como é recomendado em Deut. 22:23-24. Não sei se semelhante castigo era aplicado aos homens adúlteros, mas o simples fato de os patriarcas e reis poderem ter mais de uma esposa deixa claro que o critério divergia: O Rei Salomão tinha setecentas esposas e trezentas concubinas ( I Reis 11:3). Dá quase três mulheres pra cada dia do ano, sobrava tempo pra governar? O encontro dos pais de Salomão também envolve adultério: seu pai, o Rei David dormiu com Betsabé, mulher de seu general Urias, e depois que ela engravidou, David o mandou para uma missão perigosa para que este morresse (livro 2 de Samuel 11). A criança que nasceu deste adultério pereceu – Salomão nasceria depois (2 Samuel 12:24).

Os livros listam outros pecados passíveis de morte por apedrejamento, que são descritos no link

http://en.wikipedia.org/wiki/Stoning#Bible_and_Judaic_references

O próprio Rei David esteve sob risco de ser apedrejado – I Samuel 30:6 – mas não por seu adultério, e sim por estar ausente de sua cidade quando de um ataque inimigo.

Segundo Jo 10: 31-35, Jesus também esteve perto de ser apedrejado por blasfêmia, mas conseguiu dissuadir aos que o acusavam. São Paulo foi apedrejado por blasfêmia, mas sobreviveu (Atos 14:18-20).

Quando é chegado o tempo de Jesus cumprir sua pregação, ele impede que uma adúltera seja apedrejada – algo que também consta apenas do Evangelho de João (Jo 8:3-11).

Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.” O avanço filosófico e moral que estas palavras representaram em seu tempo não pode ser subestimado. Ao invés de apontar os erros dos outros, pense onde você andou errando.

Quando eu enumerei os ícones da nossa civilização (Michelângelo, Ticiano, Shakespeare…) no segundo parágrafo, deixei de fora um comentário por julgar mais oportuno inseri-lo aqui: Nos dias de hoje, não estamos num patamar de idéias e debates particularmente bom, mas temos este passado digno de nota. E este momento atual ruim se dá pela predominância de idéias alheias ao cristianismo, muitas antagônicas a ele – marxismo, positivismo, materialismo científico, o ideário politicamente correto – as quais passaram a predominar e moldar a mente da intelectualidade, algumas já há mais de um século.

Esta mesma sociedade que abraçou idéias muitas vezes perversas, está sempre pronta a apedrejar a Igreja quando um de seus representantes, em algum pronunciamento, não abraça as causas que certos segmentos desta sociedade acham que a Igreja deveria aceitar. Algumas destas posições reivindicadas até são dignas de um debate, outras são diametralmente opostas à doutrina cristã e, portanto, inconciliáveis com ela – como aborto ou casamento gay.

Mas a indignação secular faz-me lembrar outra passagem dos Evangelhos: “Por que olhas a palha (ou o cisco) que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão“(Mt 7: 3-5). Resumindo, um sujeito que ainda hoje acredite em qualquer forma de marxismo, depois dos milhões de mortos no século XX, tem crédito moral para falar mal da Igreja?

Por fim, para os que acham que toda a Bíblia é uma elaboração mitológica, sem maior relevância que a mitologia grega ou egípcia, deixo um comentário de Renê Girard, num entrevista:

Por isso eles (pensadores católicos) acabaram me olhando com desconfiança, vendo em mim uma espécie de lobo em pele de cordeiro, sem perceber que minha obra, embora não tenha o menor intuito doutrinal ou apologético, abre novas e insuspeitadas perspectivas apologéticas para o catolicismo, na medida em que mostra a sua superioridade moral. Vivemos numa sociedade em que todos pensam que os Evangelhos são um mito e que todos os mitos são falsos; minha obra demonstra que só é possível compreender a falsidade dos outros mitos à luz dos Evangelhos e que eles não podem ser apenas mitos.” (extraído de http://oindividuo.com/2000/11/19/entrevista-com-rene-girard )

Sei que bem antes de surgir o Cristianismo, figuras de diferentes mitologias morreram e ressuscitaram. Antes de qualquer contestação, a argumentação comprobatória de Girard referente ao trecho sublinhado pode ser lida EM INGLÊS no link http://www.firstthings.com/article/2007/10/002-are-the-gospels-mythical-11

No texto, Girard expõe a sua teoria do bode expiatório (sacrificial). A argumentação dele em favor da veracidade do cristianismo pode ser questionada, é claro. Mas este questionamento há que ser muito embasado, pois a explanação de Girard é extremamente elaborada.

Uma idéia que me ocorreu após ler o texto de Girard foi que, na história de Jesus, vemos o individuo vindo do seio da sociedade seguir em oposição aos interesses desta mesma sociedade, enfrentar a reação dela, e conseguir sobreviver. E lembro dos gênios ocidentais já citados –  Tomás de Aquino, Dante, Michelângelo, entre outros… Certamente estes sujeitos enfrentaram, em diferentes níveis, resistência ao longo de suas trajetórias, seja por parte da família, dos primeiros grupos de amigos, de professores que não estavam preparados para a visão deles, de autoridades estatais e religiosas. Uma série de questões devem ter sido confrontadas por eles: solidão, renúncia, riscos, a comparação de seu próprio rumo com o de algum conhecido medíocre que conseguiu bom nível de conforto através de  um emprego seguro. E nestes momentos difíceis, a trajetória de Jesus devia ser simultaneamente um mapa e um consolo para eles.

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2 respostas para duas palavrinhas sobre o legado cristão

  1. [...] duas palavrinhas sobre o legado cristão [...]

  2. Leitor disse:

    Cara, baita análise. Quando argumenta que a sociedade que abraça idéias perversas critica posicionamentos da Igreja sobre temas opostos à própria Igreja, você vai direto ao ponto. Quando um juiz comete um crime, a Justiça não é responsabilizada. O mesmo para um médico. Quando um membro do clero erra, a Religião e a Bíblia são culpadas.. curioso, não? Infelizmente, há os que preferem comentar do cisco no olho do irmão..

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