A saudade de um desenho animado dos anos 50 me levou a uma pequena reflexão

Setembro 1, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Lembrei de um desenho animado da turma do Pernalonga, que se passava numa fazenda e tinha um galo grandão atazanado um cachorro, que tentava dar o troco. Quando eu era moleque, adorava.

A princípio eu não tinha certeza se era mesmo do Chuck Jones – podia ser do Tex Avery. Entrei no imdb, fui no ‘google imagens’, youtube. Como não sabia os nomes dos personagens, procurava “cock + dog”. No google imagens, o uso deste verbetes forneceu, entre outras coisas, imagens de go-go-boys, garotões musculosos olhando languidamente para a câmera. Duplamente deprimente: é deprimente por si só, e mais ainda por você estar procurando um troço ligado à época inocente da tua infância e se deparar com isso.

Procurei várias combinações, foi aí que descobri que o nome do galo em inglês era ‘Foghorn Leghorn’. A partir disso, deitei e rolei no youtube. Depois de já ter rido muito, comecei a pensar: há alguns anos isso não seria possível – o youtube foi fundado em 2005.

Lembrei-me de Gil Scott-Heron, um dos precursores do rap, e sua ótima música ‘The Revolution Will Not Be Televised’, de 1971. Hoje, estamos vivendo uma revolução, e ela está se mostrando a nós pelo monitor: um garoto de 12 anos nem sabe que houve um tempo em que não havia youtube nem download de músicas. Não é esta a revolução que o Gil pretendia, claro. Acho que é muito melhor. A música do Gil Scott-Heron, eu conheci porque um amigo da faculdade tinha o disco e gravou um cassete pra mim. Era assim que se fazia nos anos 90, pré-revolução, quando você dava a sorte de ter um amigo que tinha muitos discos – sorte esta que não acontecia para a grande maioria das pessoas.

The Revolution Will Not Be Televised’ é um libelo contra a acomodação gerada pela televisão nos espectadores. A letra em inglês pode ser encontrada no link http://www.gilscottheron.com/lyrevol.html

Encontrei dois clipes de ‘The Revolution Will Not Be Televised’ no youtube – o máximo do contra-senso. Os clipes são feitos a partir de uma ‘Early Version’ da música, que aparece no primeiro disco de Gil, ‘A New Black Poet – Small Talk at 125th and Lenox’ (1970), a qual só conta com o ‘canto falado’ de Gil e uma percussão, ainda sem a bela melodia e o instrumental de fundo que entrariam na versão do disco ‘Pieces of a Man’ (1971).

Seguem links para “o galo e o cachorro”, tudo em inglês:

http://www.youtube.com/watch?v=94OnHsHTQ8E

http://www.youtube.com/watch?v=E7-b0×8SD3E

Gil Scott-Heron – “The Revolution Will Not Be Televised- [Early Version] – Ghetto Style

http://www.youtube.com/watch?v=BS3QOtbW4m0

A coletânea de Gil Scott-Heron “The Revolution Will Not Be Televised” em mp3 para download, com a versão ‘melódica’ da faixa título , pode ser encontrada no link abaixo (pra quem gosta de fazer downloads: proteja-se SEMPRE contra spywares e afins).

http://rs168.rapidshare.com/files/128713731/Gil_Scott-Heron.rar

ou

http://www.megaupload.com/?d=9E25UOQY


Os quadrinhos sem desenhos – parte 3

Agosto 27, 2009

Mais uma história de quadrinhos sem desenhos, no link

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/quadrinhos-sem-desenhos-3


My Favorite Things

Agosto 25, 2009

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Raindrops on roses and whiskers on kittens
Bright copper kettles and warm woolen mittens
Brown paper packages tied up with strings
These are a few of my favorite things
“       (Rodgers and Hammerstein)

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

François Truffaut dizia que o cinema foi inventado para que um filme como ‘Os Pássaros’ existisse. Isto é um manifesto contra a cerebralização do cinema.

O cinema começou como curiosidade exibida em circos a um centavo, para um público de analfabetos. Depois das inovações narrativas e de conteúdo, passou a existir como passível de ser arte.

Muita coisa mudou ao longo do século XX, o público tornou-se mais maduro (embora muitas vezes cinismo seja confundido com maturidade), a diversidade de movimentos cinematográficos – expressionismo, neo-realismo, nouvelle-vague – e autores ímpares como Fritz Lang, Welles, Bergman, Kurosawa e Buñuel conferiram novos conteúdo e forma ao cinema.

A partir dos final dos anos 50 alguns diretores europeus começaram a embarcar numa ‘egotrip’ meio existencialista. Boa parte dos filmes resultantes desta idéia são pernósticos. Cinema é ação, isto está na própria origem da palavra, do grego ‘Kinos’. Quando digo ação não quero dizer tiros e socos, mas no sentido de algo dinâmico, não estático.

Desde os meus vinte e poucos anos não consigo rever ‘O Ano Passado em Marienbad’. Tentei, não consegui. Não sei que opinião Truffaut tinha sobre este filme de Alain Resnais. E, se alguma vez Truffaut manifestou-se publicamente sobre a obra, não significa que tenha dito o que verdadeiramente pensava. Ambos eram franceses, da mesma geração, há muito corporativismo entre os intelectuais afins.

Mas o aspecto inicial do cinema como entretenimento para a ‘plebe’ não deve ser esquecido – aliás, o que muitas vezes era ‘entretenimento para a plebe’ antigamente torna-se o clássico de nossos dias.

No link abaixo, Fred Astaire na sala de musculação em ‘Núpcias Reais’. A leveza, a graça. Como ele faz parecer fácil algo que, na verdade, é elaboradíssimo. O cinema foi inventado para que uma cena como essa existisse.

http://www.youtube.com/watch?v=-pjlrrMvdtw


As dumb as an actor

Agosto 18, 2009

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Quando Quentin Tarantino surgiu nos anos 1990, todos que gostam de cinema ficaram surpresos. ‘Cães de Aluguel’ e principalmente ‘Pulp Fiction’ eram tensos, tinham diálogos muito bem compostos, e as cenas de ação eram eletrizantes. E além de tudo, o sujeito tinha um senso de humor bizarro, mais notadamente no segundo filme – o diálogo sobre hambúrgueres na França, a história do relógio no Vietnã, o gângster negro sendo sodomizado por dois ‘rednecks’.

Logo surgiram os boatos de que ‘Cães de Aluguel’ era plágio de um filme de ação chinês (‘Lung fu fong wan’ ; feito em 1987); mas ao que parece, o filme de Tarantino era apenas  ‘inspirado’ pelo chinês – eu não vi este último, nem pretendo.

‘Jackie Brown’ ainda tinha coisas interessantes, mas a partir daí Tarantino desceu a ladeira. Alguns especularam serem problemas com drogas.

Mas nesse vídeo aqui – link abaixo – , há uma indicação mais clara de qual seja o problema. No vídeo, Tarantino cita os filmes preferidos dele de 1992 pra cá. Entre uma quase totalidade de bombas de ação, um dos piores do Woody Allen.  Então, o problema do Tarantino é o seguinte: o cara é um boçal.

http://www.youtube.com/watch?v=Wz4K-Rxx2Bk


Errata

Agosto 15, 2009

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No último texto, ‘duas palavrinhas sobre o legado cristão’, escrevi aqui: “A Polônia é um caso aberrante, uma nação católica que deu ao mundo Copérnico, uma importante contribuição cultural – mas também não lembro de outra.”

Esqueci Joseph Conrad, que apesar de polonês só escreveu em inglês, depois de já ter migrado. Mas apesar de já ter reconhecido o enorme talento dele em outro texto aqui (http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/05/06/heart-of-darkness), acho que ele não está no nível de ‘moldador da cultura ocidental’ como os que citei no texto.

Tampouco o Papa João Paulo II, Karol Józef Wojtyla, igualmente polonês, e figura muito importante no último quarto do século XX.

As pessoas tem que entender que quando listei os nomes, estava falando dos que formaram este mundo. Uma analogia rasteira, para facilitar a compreensão: Por mais importante que Ronaldo Fenômeno tenha sido para o futebol brasileiro, sua importância não pode ser comparada as de Didi, Pelé e Garrincha.

Pelo simples fato de que estes construíram o legado do futebol brasileiro, que até então tinha quase nenhuma expressão mundial.

Ronaldo foi muito importante, ganhou uma copa do mundo, mas então o Brasil já era um poderio do futebol, tendo ganho quatro copas. Uma coisa é construir um castelo onde não havia nada, outra é herdar o castelo já pronto e melhorá-lo, adicionar mais quartos – já havia um castelo ali antes.

Pra quem não leu, ‘duas palavrinhas sobre o legado cristão’ está no link http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/duas-palavrinhas-sobre-o-legado-cristao


I’m a believer

Agosto 13, 2009

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Já escrevi neste mesmo blog sobre a Bíblia, de forma descontraída (um texto do qual eu gosto, no link http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/09/07/eu-sou-serio-as-vezes-nao-sempre ).

Agora escrevi outro, este segundo de forma mais séria, e o lancei como página ao invés de post.

Não acho que ambos os textos sejam antagônicos. São apenas visões distintas. Mas tudo o que escrevi no primeiro parágrafo do primeiro texto (“Já leu o Velho Testamento? Tem sempre alguém sendo queimado, estuprado, apedrejado…”), mesmo agora, anos depois, ainda me parece pertinente. Continuo achando que tem alto grau de insanidade e preconceito embutidos ali – OK, está se falando de textos que foram escritos há quatro, três mil anos, por um povo que vivia numa região semi-desértica e em constante disputa por território com outros povos; não era uma vida fácil, e tinha-se que ser duro para sobreviver. Mas, nos dias de hoje alguém seguir e crer ortodoxamente no que está no Velho Testamento, NÃO me parece socialmente razoável.

O texto sério está no link abaixo, cerca de 5 laudas, é só clicar:

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/duas-palavrinhas-sobre-o-legado-cristao


Segura na mão do Stevie e Vai

Agosto 10, 2009

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Continuando o post anterior – link para ele mais abaixo.

Curiosamente, o próprio Stevie Wonder demonstra em outra música de seu Innervisions, chamada ‘Higher Ground’, uma fé inabalável numa razão de ser (tradução abaixo):

I’m so darn glad he let me try it again
Cause my last time on earth I lived a whole world of sin
I’m so glad that I know more than I knew then
Gonna keep on tryin
Till I reach the highest ground

“Estou felicíssimo que ele me deixou tentar de novo,

Pois a última vez que estive na terra vivi uma infinidade de pecados,

Fico grato por saber mais agora do que sabia antes

Vou continuar seguindo em frente,

Até atingir o último andar.”

Esta observação se refere ao texto do link

http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/08/07/um-abraco-no-stevie

P.S. O título do texto é uma apropriação de um trocadilho alheio. ‘Steve Vai’ é um guitarrista virtuose. Pra falar a verdade, nem conheço o trabalho do sujeito, mas achei que a piada encaixava bem.


Um abraço no Stevie

Agosto 7, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Enquanto escrevo isto estou ouvindo Stevie Wonder, o disco ‘Songs In The Key Of Life’. Eu já tinha há anos outros discos dele, os belos ‘Innervisions’ e ‘Talking Book’. Mesmo o ‘Songs in…’ eu já tinha ouvido algumas vezes, emprestado de um amigo.

Pra quem não sabe – sei lá quem me lê na internet – , Stevie é cego de nascença. É maravilhoso o cara transcender sua limitação física e, apesar dela, fazer belas músicas, que tocaram as pessoas – os três discos citados são da década de 70 do século passado – e continuarão transmitindo beleza e sentimento enquanto forem ouvidos.

Recentemente tenho lido filosofia, focando em metafísica. Um pensamento que me ocorre ouvindo Stevie hoje não é, em princípio, diferente do que eu tinha ou poderia ter aos quinze anos, antes de qualquer leitura significativa. A diferença apenas é que hoje me sinto mais seguro para expressá-lo, sem tanto medo de soar ingênuo.

Qual a razão da cegueira? Não a razão médica, esta dá pra entender em duas linhas. Refiro-me à razão primordial, se é que há alguma? Se há um sentido para a existência, qual a lógica de vir ao mundo para não ver? ‘Vontade de Deus’, ‘Karma’?

Ter que vagar por este mundo sem ver o que se passa ao seu redor é terrível. É claro que ‘a possibilidade de ver’ é diferenciada em vários níveis, não só o do sentido biológico da visão. Um garoto que seja filho de um culto e sofisticado diplomata inglês, e que acompanha os pais viajando o mundo todo,  em princípio, verá coisas do mundo que o garoto que é filho de um lavrador do interior do Maranhão não verá – e vice versa. Mas seria hipócrita de nossa parte não admitir que o mundo que o filho do diplomata vai conhecer será, em princípio, mais vasto.  Ignorância, pobreza, isolamento geográfico, tudo isso contribui para limitar a visão. Não é à toa que nossa civilização se desenvolveu no entorno do Oriente Médio e Mediterrâneo, rota de encontro de três continentes e diversos povos.

Essa diferenciação também ocorre no tempo, claro: um garoto classe média de hoje com internet, videogames, TV digital e a cabo, DVD, mp3, vê coisas que seu tataravô jamais imaginou. Mas é provável que jamais tenha andado a cavalo e feito uma série de coisas que pro tataravô eram corriqueiras.

Citando um exemplo pessoal, depois que estudei desenho comecei a enxergar muito mais; a percepção muda, você detém o olhar em coisas que antes passavam batidas.

Voltando a Stevie, em uma das músicas de um dos seus discos, justamente uma chamada ‘visions’ (olha a insistência no tema, o disco se chama ‘Innervisions’, e a música ‘visions’), ele canta ‘I’m not one who make believes, I know that leaves are green, They only change to brown when autumn comes around’.

Mas, sendo cego de nascença, ele não sabe o que é verde ou marrom. São conceitos abstratos para ele. É uma limitação muito séria, não dá pra bancar a Pollyana da literatura – aquela que tentava ver o lado bom de tudo – com isso. A pessoa ter que passar a vida toda assim, puxa vida… Por isso, ouvindo Stevie, às vezes sinto compaixão por ele. Não sei se deveria, o cara fez coisas maravilhosas, de certa forma se imortalizou, tem milhões de fãs, ganhou rios de dinheiro, criou bem seus filhos. Foi uma vida MUITO rica. E que bem traz a alguém você sentir compaixão por ele? Entra embutido no sentimento a idéia de que ele está inferiorizado em relação a você. E pelo estágio atual em que me encontro, profissional, pessoal, e o de Stevie, isso é muito longe da verdade.

Mas não poder ver as coisas é dureza. Esta condenação não prescreve? “Serás cego até os trinta anos, aí descobrirão uma cura, como no filme do Chaplin com a florista”. Mas no caso de Stevie não prescreveu, ele já vai fazer sessenta anos.

E tem os cegos que não são talentosos nem ricos; que não têm quem os ajude e verifique se as roupas deles estão manchadas antes de eles saírem; os que vivem de caridade. Tinha o cego que ficava cantando no Largo do Machado, segurando um copinho onde as pessoas colocavam moedas; passei por ele por toda a minha adolescência, no verão o cara suava de pingar. Agora tem um outro cego lá, que não canta, e fica a vinte metros de onde ficava o outro, mas segura um copinho idêntico. Morreu o primeiro? Passou o ponto?

A alma de fato é imortal, como pregava São Tomás de Aquino? Depois dos 70 ou 90 anos que vive um ser humano, o que sobra? O cara que foi deficiente em vida recebe alguma indenização? Ou os 90 anos de cegueira não são nada diante da eternidade? Mas a eternidade é uma suposição, para muitos uma aposta, enquanto uma vida de cegueira é algo concreto. E de mais a mais, o cara que tem boa visão, que se locomove bem, que é saudável e bem-nascido vai ter tanto direito à eternidade quanto o cego, o paralítico, o doente, o miserável. Então, definitivamente estes últimos estão, de alguma forma, pagando um preço mais caro.

Nelson Rodrigues, em uma crônica autobiográfica de ‘A cabra vadia’, conta como ao longo de toda a vida, cismou e sonhou com a cegueira – ele enxergava muito mal – e que toda esta cisma lhe pareceu profética no dia em que soube que sua filha, ainda bebê, era cega. A crônica é belíssima.

Mas voltando à minha compaixão, não faço por maldade, ela vem acompanhada de muito carinho. Eu queria dar um abraço no Stevie Wonder. E dizer ‘Obrigado por tudo, não só pela música, por você ser um exemplo!’

Mas mesmo uma palavra e um gesto de afago – e ele com certeza tem isso elevado exponencialmente, tem o carinho de milhões – não compensam o não-ver.


O pessoal do traço

Julho 30, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Ao longo de nove anos estudando desenho em diferentes lugares, conheci muita gente que desenha. Diferentes estilos, desde o cara que estuda desenho clássico porque quer ser pintor, ao que tem vocação pra cartunista, da moça que ilustra livros ao que se encaixa mais na animação.

Aqui abaixo, links para blogs/sites de alguns destes desenhistas – devo ter esquecido alguém, quem tiver um blog de desenho, dê um toque:

. DESENHO CLÁSSICO / PINTURA :

http://fabioscaglione.blogspot.com

http://diegoeba.blogspot.com

http://www.sandranunes.com/gallery.html

http://desenhodemodelovivo.blogspot.com

http://fernandogopal.blogspot.com

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. CARTUNS / ILUSTRAÇÕES/ MÍDIAS VARIADAS

http://cerejas.blogspot.com

http://eduardoarruda.blogspot.com

http://jeucken.wordpress.com

http://rudsoncosta.blogspot.com

http://raphaelargento.blogspot.com


O show de Truman

Julho 25, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Obs. Apesar do título, este texto não é sobre o filme ‘O show de Truman’, mas como uma das questões que ele trata é o fato de as pessoas quererem estar em visibilidade permanente, o título me pareceu adequado.

Reza o folclore que nos anos 1990 o então presidente dos EUA Bill Clinton teria dito sobre a maconha: “Fumei, mas não traguei.”

Isto gerou a ótima blague: “Fumo, mas não trago. Quem traz é um amigo meu.” O autor, o autor?? Seria do Agamenon Mendes Pedreira?

A frase de Clinton eu ‘googlei’, na verdade é “When I was in England, I experimented with marijuana a time or two, and I didn’t like it. I didn’t inhale and never tried it again.

Lembrei disso ao decidir que queria escrever algo envolvendo twitters: ‘Leio o dos outros, mas não tenho o meu.’

Pode ser que algum dia eu resolva aderir, mas a princípio não tenho interesse.  Não sei, twitter é algo que só tem sentido se for ligado ao instantâneo, o que, pro meu modo de escrever, não é muito adequado. É útil pra você dar links para coisas bizarras e engraçadas, o que eu já faço por email com os amigos e vice-versa – mas no twitter você atinge quem não te conhece, o que por um lado é interessante. E isto se multiplica em curto prazo, pela velocidade da comunicação dos links: quem usa vai estabelecendo novos contatos, pessoas com as quais possa ter afinidades. Pra quem trabalha com comunicação/mídia, serve até pra abrir portas, profissionalmente falando.

Comecei a ler twitter porque no site/blog do Arnaldo Branco tinha link pro dele, http://twitter.com/arnaldobranco. O http://twitter.com/MALVADOS do Dahmer foi conseqüência natural do anterior. Ao final do texto listo os twitters os quais, além dos já mencionados, acompanho já há algum tempo. E porque resolvi falar sobre isso agora? Falta de assunto melhor? É uma boa hipótese… O fato detonador foi que lendo o do Dahmer em 23/07 vi o post “Estética nerd é a bola da vez entre moderninhos”, e havia um link para o artigo que se encontra em http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1203744-5606,00-OCULOS+DE+ESTILO+NERD+SAO+A+TENDENCIA+PARA+HOMENS.html

No artigo, abaixo da segunda foto, a legenda: “O estudante Diogo Ferraz usa o óculos redondo para compor seu visual despojado.”

Pera aí, que visual despojado é este que tem que ser composto?

Não escrevo aqui para criticar o rapaz que usa óculos, nem o autor da matéria – não está assinada, atribuída a “Do G1, no Rio”. Entre a confecção da matéria e a publicação, rola um editor, como seria de se esperar? Quem será o pai da gafe?

Mas é transparente a falta de senso crítico, o jornalista que a redigiu não o fez por ironia. Este é o mundo imediatista da mídia. Ter um twitter envolve a questão de que você precisa preencher aquele espaço com alguma freqüência, então vira-se refém das novidades. Qualquer coisa nova, você lança antes que fique velha, para não ficar defasado. Então vira linha de produção.

Esta notícia que eu citei acima, ‘ÓCULOS DE ESTILO NERD SAO A TENDÊNCIA PARA HOMENS’, quer coisa mais irrelevante que isso? No entanto, um cara inteligente como o Dahmer dá espaço pra uma bobagem dessas, e eu, que sou uma besta, ainda me dou ao trabalho de comentar o fato. Ao invés de estarmos falando da filosofia de São Tomás de Aquino, Leibniz, ou de Shakespeare, Ticiano, Rembrandt, viramos caixa de ressonância de algo que beira a debilidade mental. Isto é a história do mundo do século XVIII pra cá, ao invés de se falar do que é grande e essencial, tenta-se preencher o tempo-espaço com o que estiver ao alcance. Começou há séculos, mas explodiu no século XX, o século da mídia de massa, das revistas, do rádio, da TV. A arte consagrada do século XX é um produto da falta de assunto dos jornalistas, os quais em geral não têm uma bagagem de pensamento organizado, apenas um simulacro muito superficial de conhecimento dos assuntos em pauta – pauta esta que é ditada por eles, então se restringem ao seu pequeno universo mental.

Não é apenas que os críticos de música dos jornais não sejam capazes de entender Bach; em geral, é muito mais sério, eles não têm conhecimento teórico algum, não estudaram para tocar instrumento nenhum, não diferenciam as notas, nem fazem idéia de como ler uma partitura. E os jornalistas que cobrem artes plásticas não sabem nada de desenho, e os jornalistas da área de divulgação científica só lêem o que é necessário para escrever os artigos. Se você é inteligente e tem verdadeiro interesse em conhecer, acaba por se livrar deste tipo de mentalidade depois de adulto. Mas o normal é passar a infância,  adolescência e até o início da juventude totalmente escravizado pela mídia. Existem invenções em todos os níveis, desde as várias feitas para pegar adolescentes imbecis, até aquelas para pessoas que gostam de se atribuir qualidades intelectuais. Deleuze, Guattari, tudo isso é armadilha pra pegar trouxa. Mas é o que a faculdade de comunicação ensina. Zé Celso Martinez Corrêa, Gerald Thomas, Walther Salles, Tom Zé, poesia neoconcreta, Richard Serra, Susan Sontag, David Lynch, Robert Mapplethorpe, toda esta gente ‘sensível’ ou ‘contestadora’ incensada pela mídia… Quando você é garoto, uma parte de você quer se integrar e não se sente confiante para contestar a babação de ovo midiática; leva tempo até criar anticorpos.

Fico com medo de soar como aqueles caras que só falam de coisa do século XIX pra trás – e ainda não consigo me referir a algo ocorrido “no século XX” como “no século passado”, afinal, foi neste século que nasci e cresci. Há sujeitos que acham que tudo tem que ter uma motivação filosófica ou algo assim. Não é isso, há coisas que não querem dizer nada e são divertidíssimas. Os ‘versos’ “Gitchi gitchi ya ya here Mocha chocolata, ya ya” não dizem coisa nenhuma, mas cantados por Patti LaBelle em “Lady Marmalade” ficam maravilhosos – tô ouvindo um cd duplo dela direto! Maravilhoso! Música feita “no século passado”…

Voltando ao twitter, essa coisa de escrever casualmente sem saber quem está lendo é complicada. Tem gente que escreve como se estivesse de cueca no sofá da sala. Escrevi no quinto parágrafo: ‘no twitter você atinge quem não te conhece, o que por um lado é interessante.’ Mas, por outro lado, pode não ser: Nesses twitters que eu acompanho, já vi gente escrevendo “Vou estar no bar tal às tal horas”. Não acha que isto é se expor muito? Sabe lá quem está lendo? Não viram “O Rei da Comédia” de Martin Scorsese?

Sei lá… Por que eles escrevem? Por que eu escrevo sobre eles? Meta-linguagem levada ao paroxismo? Por um lado, “Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo” (Clarice Lispector). Por outro, tem horas na vida em que fazer o que se gosta é o máximo que se pode esperar de estar vivo.

Twitters pelos quais eu costumo passar para uma olhada:

http://twitter.com/marlosm

http://twitter.com/ulissesmattos

http://twitter.com/sergiomaggi