Escrevi já há alguns meses um esquete de humor abjeto. Curtinho, uma colcha de estereótipos sobre o personagem arquetípico conhecido como “mulher-de-malandro”. No meu texto há uma inversão de papéis que é praticamente a razão de ser da obra. Não é um texto que vai mudar a História do teatro – aliás, tem mais cara de TV do que de teatro. É uma bobagem. O problema é que sempre que o releio, acho engraçado. Mas sei que é abjeto, pela linguagem e caracterização dos personagens, tipos repelentes.
E as pessoas que me conhecem pessoalmente? Lendo o que escrevo, não só este, também os outros mais para trás, hão de se chocar? As senhoras, o que vão pensar? “Aquele menino tão educadinho (sim, ainda há, embora cada vez menos, aqueles para quem sou um menino), só escreve baixaria e pornografia. É um taradinho.”
E aí, o que eu faço? Lanço no site ou não?
Depois que já lancei um texto sobre a bomba de Hiroshima, que até um amigo meu achou pesado, o que ainda pode ser considerado ofensivo? Não que meu objetivo seja ofender, já falei aqui mesmo contra quem faz “arte” para “épater les bourgeois” – chocar os burgueses.
E quando eu quiser falar sério, ainda terei credibilidade? Ou ficarei caracterizado como “o cara que faz piada”?
O texto segue abaixo. Ao fim dele há links para outros textos de teatro.
Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa
“O casal”
O esquete tem que ser interpretado por um HOMEM PESADO, DE GRANDE ESTATURA; e uma MULHER PEQUENA, quanto maior o contraste entre os tipos físicos, melhor.
A Mulher – Ana – está sentada na sala, vendo futebol na TV, bebendo cerveja. O Homem chega, usando UM AVENTAL, cabisbaixo, assustado, esfregando uma mão na outra (junto ao peito).
Homem
Ana?
Ana
(rude)
Que é, porra?
Homem
Eu queria falar com você…
Ana
Tô vendo o jogo. Vai embora, tu dá azar.
Homem
Mas é importante…
Ana
Tu sabe que é pé-frio. É você chegar na sala, o Vasco se fode!
Homem
Mas eu não tô nem olhando pra TV, ela tá de costas pra mim… Posso falar daqui mesmo?
Ana
Fala…Mas se o time levar gol, vou ‘te meter-lhe’ a porrada.
Homem
(choramingando)
Ai, não fala assim…
Ana
(debochando)
Já vai chorar? A troco de nada? (pausa) Quer, eu te dou um motivo pra chorar de verdade.(mostra o punho fechado)
Homem
Eu ainda tô todo roxo da última surra que você me deu.
Ana
Você mereceu…
O Homem, chorando, SAI. As luzes diminuem, até escurecer. Foco no Homem, que volta e dirige-se à platéia.
Homem
(com ódio de novela mexicana, histriônico)
Vocês viram como ela me trata? Viram? (pausa) Papai me dizia: não casa com ela, vem de uma família de gentalha… Não tem um pingo de educação. (funga) Mas eu era novo… (t) bobo… inexperiente. (pausa) Casei por amor… (faz uma dobra no avental e a alisa) Foi! (t) Amor… (assoa o nariz no avental) Naquela época ela não era assim. Era carinhosa, me tratava bem. E nos primeiros seis meses, o casamento foi bom… Mas depois, ela começou a mostrar um desinteresse… De noite, na cama, se eu alisasse a barriga dela, ela falava pra eu parar. Dizia que tava cansada, e virava de costas pra mim… Cansada, sei!… Aposto que era algum pirocudo do escritório. (pausa) Certeza, eu não tenho… Se eu tivesse certeza… Se descubro que ela me trai, eu juro que boto veneno de rato na comida. Ela ia morrer botando sangue pela boca.(pausa) Eu ia comer também. Não quero ir pra cadeia. Melhor morrer. Ficar trancado numa cela, ser enrabado? Melhor morrer.
As Luzes acendem, Ana vem andando na direção do Homem.
Ana
Tá falando sozinho?
Homem
Pensando em voz alta…
Ana
(agarra-o pela cintura)
Pensa muito não… Quando tu pensa, remexe as merdas que tu tem na cabeça, começa a feder a casa toda. (morde o braço dele, insinuante)
Homem
Precisa falar assim?
Ana
(aperta o peito do homem)
Fon-fon!… A buzina, como é o barulho da buzininha?
Homem, em silêncio, um pouco constrangido.
Ana
(aperta o peito do homem)
Faz o barulho da buzina! Faz você… (aperta o peito do homem, de novo.)
Homem (sorrisinho tímido de canto de boca)
Fon-fon!…
Ana
(continua alisando ele)
Você gosta disso, né? Safado…
Homem
(ri) Eu não sou safado…
Ana
Você sabe que é…
Homem
Quanto foi o jogo?
Ana
Vascão dois a zero.
Homem
(totalmente forçado)
Que bom!
Ana
(morde o braço dele)
Canta o hino…
Homem
Não lembro a letra…
Ana
(aperta bochecha dele)
Eu mandei você cantar…
Homem
Vamos todos cantar de coração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez.
Ana
Continua…
Homem
Tua imensa torcida é bem feliz,
Norte-sul, norte-sul deste país…
Ana
(empurrando, conduzindo-o para fora do palco)
Continua… Vai cantando até a cama. (belisca-lhe o traseiro)
Homem
Tua estrela, na terra a brilhar,
Ilumina o mar…
SAEM. Apagam as luzes.
+ teatro no link
[...] Teatro 5 [...]
Como posso ler esse texto nai integra? Abraço
hahahaha…
adorei!