Pintor e desenhista

agosto 29, 2007

Aproveito para indicar – a quem não conhece – o site do grande artista brasileiro Lydio Bandeira de Mello:

http://www.bandeirademello.art.br/?page_id=4&nav=galeria

Uma vez na página, rolar a barra até em baixo.


Para pensar

agosto 29, 2007

Certa vez, no Manhatan Connection, Diogo Mainardi comentou que uma jovem diretora – Lara Velho, filha do P.C. Pereio – queria adaptar para o cinema seu livro ‘Contra o Brasil’. Ele declarou que não tinha nada contra, desde que na produção não fosse usado um tostão de dinheiro público. O próprio Mainardi, que escreveu os roteiros dos filmes de seu irmão, Vinícius, declarou que estes filmes tinham ao menos o mérito de terem sido feitos com capital privado. (filmes como 16060, que na época em que foi lançado, nem com o endosso ‘amigo’ de Paulo Francis na sua coluna imensamente influente, conseguiu ser bem sucedido.)

Este fato me veio a mente hoje, 29-08-2007, ao ler na coluna do Joaquim F. dos Santos, em O Globo (A imagem contida neste post será bem visualizada com o Internet Explorer. ):

drixm


Speakers’ Corner

agosto 27, 2007

A Speakers’ Corner será um nicho do site onde EU exercerei, dentro dos limites do bom senso, o direito de falar mal dos outros. Sempre é um risco: “The tongue is the bullwhip of the body”  (A lingua é o chicote do corpo.)

Pra quem desconhece a verdadeira “Speakers’ Corner”, ela fica em Londres, sugiro ir na wikipedia.org, que lá tem (Em inglês. Sorry, não consegui dar link, talvez pela falta do www. ).

Os trechos em negrito foram explicações posteriores que achei necessárias adicionar ao que já se encontrava em emails antigos.

Em 05-2007 tinha me queixado da imbecilidade reinante no cinema e nas artes a um grupo de amigos.

Um deles respondeu: “acho que a saída para a coexistência pacífica é o deboche.”

Respondi:

Atenção, ISTO É UMA METÁFORA: Nós estamos desde crianças sendo estuprados por isso. Não dá pra debochar de algo que já te violou, pretende continuar te violando, e se algum dia vc tiver filhos, vai querer violá-los tb. Vai dizer o quê? ‘Ah, ah, senhor estuprador, seu pau já nem me machuca mais…’

Coexistência pacífica não é possível. Quando o ‘crítico’ (sic) de cinema do globo dá o bonequinho aplaudindo de pé os 300 (de Esparta) e escreve sobre aquele lixo: (o diretor) “Snyder revela uma veia autoral”, não é caso mais de debochar. Um incompetente está prestando um desserviço a milhares de pessoas, que gastarão seu dinheiro para ver aquilo (e claro que boa parte do público é tão imbecil que irá gostar do lixo).

—–

O que se segue é uma coletânea de emails sobre cinema, em geral enviados a um amigo crítico de cinema, o jornalista Marco Antonio Barbosa.

A respeito de ‘O Terminal’, de S. Spielberg.

‘Passando na Net ‘O Terminal’. Não me animei a gastar dinheiro para vê-lo, na tela ou em dvd. Fiz bem. É mais ingênuo que qualquer comédia americana dos anos 50, toda aquela gente bem intencionada. O filme parece ignorar que o cinema já nos deu B. Wilder, Altman, W. Allen; imagine um cientista escrevendo hoje um tratado sobre genética que ignorasse tudo que se publicou sobre o assunto nos últimos cinquenta anos. E o mais estranho é que o roteirista é o diretor-roteirista do interessante ‘O Senhor das Armas’, com Nicolas Cage. Sabe como é roteirista, Topa-tudo-por-dinheiro.

Zeta-Jones se interessa por um imigrante do leste europeu que nunca perde o ânimo diante das adversidades – ‘Forrestenko Gumpenkov’.

Mas Spiel filma bem pacacete, faz o que quer com a câmera, não sentia isso vendo um filme desde ‘O Pianista’ do Polanski, quando a fluidez da narrativa superou minha resistência ‘a mais um filme de campo de concentração pra ganhar Oscar’ – o 3o. em dez anos, com Schindler e ‘A vida é bela’.

Orson Welles, fã assumido de John Ford, no livro de entrevistas a Bogdanovich diz que ‘sentimentalismo é o vício de Jack’, sendo Jack um nick carinhoso para o velho Ford.

Spielberg é a mesma coisa. Mas como no caso de Ford, ‘quando ele consegue superar o vício, tem-se a verdadeira pureza’. (apud Welles)

Vc viu ‘Munique’? Sei que voltamos à causa das doze tribos da qual me queixei acima, mas tem coisas ótimas.’

———

Vi ontem ‘Crime Delicado’.

Não achei nenhuma maravilha. Mas vieram-me à mente algumas questões:

1) O filme mostrar uma deficiente física é ou não uma forma de exploração?  (É claro que não o é da mesma forma que o Sebastião Salgado explora os pobres, ela ali entra como atriz, está interpretando um personagem e tem uma característica física que coincide com a da personagem). Vieram-me à mente ‘Freaks’ de Tod Browing e o perneta Gary Sinise de Forest Gump. ‘Crime Delicado’ é ou não fetichismo sadomasoquista disfarçado de ‘discussão sobre fetichismo sadomasoquista’?

2) O personagem de Marcos Ricca realmente estuprou a moça?

3) Ela colocar a perna mecânica sob a pintura no final significa o quê? Que ela se libertou da convenção da sociedade ou que ela se libertou da manipulação do pintor?

4) Que todas as pinturas que aparecem no filme não são boas, eu nem discuto. Oito anos desenhando modelo-vivo me respaldam. Mesmo aquela pintura principal, que tem um grafismo razoável, é fraca, não tem composição. Ninguém desenha ao mesmo tempo que realiza o Kama Sutra, torcendo toda coluna como o personagem. O Paulo Halm fez há uns quatro anos um curta em que Ruy Guerra interpretava um pintor assassino, referência a Iberê Camargo, alguém viu este filme?  Como no filme de Halm, em ‘Crime’ o que eu sinto é que estes caras querem falar sobre pintura sem ter nenhum estudo prático-teórico sobre o assunto.

——–

O personagem da criança pobre, criminosa ou não, tornou-se tão emblemática no cinema brasileiro a partir dos anos 90 quanto o era o cangaceiro nos anos 60. Em ambos os casos ocorre a romantização da figura-símbolo e a culpabilização da sociedade (nunca se culpa o indivíduo por suas opções, ou seus pais por terem filhos que não podiam sustentar e educar). Mesmo que a maioria das crianças ou nordestinos pobres nunca tenha optado pela criminalidade, os que o fizeram não são mostrados como culpados, apenas vítimas.

Em ambos os casos nota-se uma curiosidade antropológica do artista (normalmente um jovem oriundo da classe alta) pelo objeto (o pobre). As vezes parece que a favela está para os ricos Moreira Salles como o extinto Simba Safári esteve para as famílias classe média paulistanas: um lugar para se ver espécimes exóticos em seu próprio ambiente.

—————-

Troca de emails com uma amiga, sobre Cidade de Deus:
Ela escreveu:
“Outro dia eu estava justamente falando do contraste entre Pixote e Cidade de Deus. Como um é absolutamente contundente, duro, real e o outro é um clipe da miséria para inglês ver.”
Respondi:
CDD é um dos filmes mais mal-intencionados que eu já vi. E o que é pior, extremamente bem-feito. A cena que o traficante obriga um garoto a matar o outro é uma das coisas mais violentas e gratuitas que eu já vi no cinema, mostrar eles dando tiros nas mãos dos garotos já era mais do que o tolerável. Um filme como aquele marginaliza mais ainda um lugar como a CDD verdadeira, mostra como antro de bandidos um lugar onde 97 % da população é de trabalhadores. E esse pessoal todo de cinema, (NOMES QUE CONSTAVAM DO EMAIL, AQUI SUPRIMIDOS) têm uma relação muito promíscua com o tráfico.

Há mais alguns comentários sobre este mesmo filme alguns parágrafos abaixo, estão separados pois constavam de outro email.

Quando eu escrevia sobre cinema para um site, alguns cinéfilos mandavam mensagens, elogiando ou reclamando dos textos. Os textos continuaram no ar mesmo depois de eu encerrar minha colaboração no site. Em 2005, um jovem que desejava ingressar na carreira, me pediu opiniões. Logo pra quem ele foi pedir… Trocamos alguns emails, seguem trechos do que eu mandei a ele (há partes editadas, não estou a fim de me arriscar a levar processos a troco de nada). Evidentemente, em alguns momentos, para explicitar uma opinião, crio uma caricatura, exagero certos pontos. Sobre este tópico recomendo que leiam também “O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!”, do já citado jornalista Marco Antonio Barbosa, que pode ser encontrado na internet (link ao final do texto).

Vários dos comentários que ali se encontram são pertinentes para o aspirante a fazer cinema.

Voltando ao jovem, ele também havia perguntado sobre Goddard e o que eu achava de ‘Cidade de Deus”.

Respondi:
(…)Não sei qual a sua condição, e assim, seria leviano dar sugestões. Você parece sincero no seu gosto pela arte, então deve entender que há outras artes mais acessíveis que o cinema, E QUE PODEM SER UM MEIO DE SE CHEGAR AO CINEMA. Cinema só existe há cem anos, se Kurosawa, John Ford, Billy Wilder tivessem nascido em 1800, o que esses homens teriam feito na vida? Imagino que Kurosawa seria pintor, Wilder escreveria para o palco. John Ford, não sei.
Então, o que eu diria que é mais importante: procure escrever esquetes pra teatro e estude desenho, faça um curso de desenho sério, que tenha como base o modelo-vivo  (Não sei de nenhum nome em sua cidade para lhe sugerir).
O desenho te abre muitas portas, e seu trabalho não necessita de apoio externo ou verba. Se vc escrever um roteiro bom as pessoas não vão se dar ao trabalho de ler (falo por experiência própria), porque isso lhes tomaria entre uma e duas horas, mas um bom desenho pode ser identificado em 15 segundos. Talvez vc ache que não tenha jeito pra coisa, mas acredite, jeito pra coisa é menos importante que vontade e dedicação.
Vá aos primórdios, as fontes do que hoje chamamos de cinema: leia Shakespeare, Moliére, procure entender as obras de El Greco, Rembrandt, Delacroix. Se possível,  com o auxílio de professores e profissionais, pessoas que poderão te auxiliar a ter uma visão mais ampla – evite os charlatões,  que são muitos, e fuja de qualquer um com discurso de que ‘a arte deva ser um meio de transformação da sociedade’.
Sobre Goddard, seus filmes mais interessantes são “Uma mulher é uma mulher” e “Pierrot Le Fou (O Demônio das onze horas)”. Mais do que pedantes, os textos muitas vezes são indulgentes. Como quem tira um monte de fotos da cidade onde passou as férias e obriga os outros a verem os slides, achando que aquilo interessa a mais alguém.

Cidade de Deus é canalha porque não mostra que a violência na favela acontece em grande parte porque um bando de hedonistas querem cheirar pó e fumar maconha. A pobreza não ajuda, ok; mas em 1940, já existiam favelas habitadas por pobres, e não havia nada que se comparasse à violência pós-1970. É canalha porque mostra a periferia como uma região onde só tem bandido, quando estes são minoria.
E tem falhas de roteiro, Zé Pequeno depois de tomar uma facada no braço mata um colega porque esse ficou fazendo perguntas demais. Isso num filme tipo Pulp Fiction é engraçado; ali, que se pretende ser realista (embora em nenhum momento o seja) está fora de lugar.
O pobre do personagem do Buscapé não tem nem direito a um nome, quando a jornalista pergunta qual o nome dele, ele responde ‘Buscapé’. Vê se alguém que está procurando se colocar na empresa (ele era fotógrafo, e ela, superior a ele no jornal, certo?) vai dizer uma m… dessas.

O texto que mencionei encontra-se em http://telhadodevidro.wordpress.com/2007/05/27/o-verdadeiro-manual-do-candidato-ao-vestibular-de-jornalismo


replicantes* e treplicantes

agosto 19, 2007

Pra quem não lembra, ‘replicantes’ é como eram chamados os andróides do filme Blade Runner. Aqui no caso é usado pra definir quem faz réplicas. Sinta-se livre para comentar, de preferência sem me xingar.

Lancei aqui um texto sobre cinema (clique aqui), no qual recriava cenas de filmes importantes.

Eis o email de um amigo meu sobre os textos:

(Sobre ‘O Resgate do Soldado Ryan’.) “Pra mim, suas soluções são tão idiotas quanto as originais, no caso do médico.

(Sobre ‘Taxi driver’.) O nhem-nhem-nhem  dele com o ‘gualda’ muda completamente o tom do filme.

Meu reply:

“Pra mim, suas soluções são tão idiotas quanto as originais, no caso do médico.”

Claro que não. Na original eles libertam o prisioneiro (o que soa como propaganda do bom mocismo americano) e um dos soldados insinua desertar, o que em guerra significa fuzilamento sumário. Minha solução é muito melhor.

“O nhem-nhem-nhem  dele com o gualda muda completamente o tom do filme.”
Isso tem a ver com o texto que escrevi (cerca de 45 páginas, não lançado no site; talvez algum dia…), no qual o cara que é fã do Taxi Driver compra uma arma.

No filme o questionamento dele ao segurança é apresentado como esquizofrênico (Ok, o personagem é esquizofrênico). Mas eu mostro que pode-se questionar a presença de um segurança ali de modo que soe mais próximo do  normal.

E uma pessoa pode comprar uma arma e usá-la em legítima defesa (ou na de terceiros) e ainda assim ser plenamente racional.

O que Taxi Driver tenta afirmar é “alguém pra comprar uma arma tem que ser psicopata”. Você não vê isso como visão política?

Tanto que o cara que vende os revólveres pra ele, depois de ver que ele leva tudo, tenta oferecer várias drogas, um carro esporte (roubado, é claro).

Ou seja: “gente de bem não compra armas”. Algo que vai diretamente contra a formação da sociedade americana, que sempre foi liberal no direito de portar armas – foi assim que a marcha pro Oeste se deu.


TRIÂNGULO II

agosto 19, 2007

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

autor: Mauricio Dias 

PERSONAGENS

SENHORA, SENHORA 2 – Mulheres na faixa dos 40 anos.

HOMEM – malandro da Lapa carioca dos anos 40.

1 e 2, caracterizados de crianças

Uma SENHORA e dois MENINOS – 1 e 2 – ao redor de um caixão. Todos vestidos à moda dos anos 40. Os três choram. ENTRA uma SENHORA 2.

SENHORA 2

Querida, meus sentimentos. É uma perda irreparável.

SENHORA

Ah, querida… Sei que, esteja onde estiver, ele vai estar bem… O que me preocupa são os garotos. Como é que eles vão crescer sem um pai?

SENHORA 2

(SE APROXIMA DO CAIXÃO) Nossa, tá inchado, né?

SENHORA

Bebia muito, né? Cachaça…

SENHORA 2

Descanse em paz…

ENTRA um HOMEM, vestido de branco, usando chapéu, bigodinho, pinta de malandro dos anos 40.

HOMEM

A “madama” que é a viúva?

SENHORA 2

Não, é ela…

HOMEM

Minhas condolências… Seu marido era um grande puto… (t)Grande puto!

SENHORA

O Sr. veio até aqui pra ofender a memória de meu marido, ofender a minha família? (TRAZ OS MENINOS PARA JUNTO DE SI, AFAGA-LHES A CABEÇA)

SENHORA 2

Que espécie de monstro faria uma coisa dessas? Não respeita nem um funeral ?

1

(CHORANDO)Papi…

HOMEM

Não… Não vim aqui pra ofender ninguém… É a mais pura verdade.

SENHORA 2

Se eu fosse homem, ia-lhe à cara!

SENHORA

Não tem nenhum segurança nessa capela? (GRITA)Polícia!

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA FOTO, ESTENDE-A À SENHORA)

Aqui… Pra Sra. ver que não estou faltando com a verdade, Deus me livre… (DÁ TRÊS BATIDINHAS NO CAIXÃO)

SENHORA

Mas o… O que é isto ?

SENHORA 2

Deixa eu ver… (PAUSA) Não é o seu marido ?

1 e 2

(VÊEM A FOTO) Papai!

SENHORA

Parece, mas… Vestido de mulher? E beijando um negão?

HOMEM

Esse rapaz de cor é o Juvenal. A grande paixão da vida do falecido.

SENHORA

Juvenal? Meu marido numa foto com… (t)um Juvenal? 

SENHORA 2

Talvez seja um truque… Ouvi dizer que hoje em dia se consegue mudar muita coisa retocando uma foto.

HOMEM

Não há retoque, posso garantir. Eu tava presente quando a foto foi tirada.

SENHORA

Calúnia! Não acreditem nesse monstro, meninos! Ele quer destruir a memória do pai de vocês.

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA CARTA, ESTENDE-A À SENHORA) Acho que a Sra. reconhece a letra do falecido, não é ?

SENHORA

“Juvenal, amor… Quero te encontrar no nosso ninho…” (SEGUE LENDO, EM SILÊNCIO, CAMINHA UM POUCO)

SENHORA 2

É a letra dele mesmo?

SENHORA

Parece que sim… Mas… Como?

HOMEM

Desde Adão e Eva, ninguém nunca entendeu o porquê do amor. Não dá pra explicar, percebe?

2

(CHORANDO)

Papai… Boneca…

HOMEM

Tirando a cachaça, o Juvenal era a grande fraqueza do falecido. Mas a Sra. pode ter a certeza de que ele nunca traiu a Sra. com outra mulher.

SENHORA

E o Sr. acha que isso é um consolo? Saber que meu marido estava amasiado com um (t)negro?

HOMEM

O único mal-passo dele era o Juvenal. Mas ele sempre se preocupou com a Sra. e com os pequenos.

SENHORA 2

E-eu… acho que vou desmaiar…

HOMEM

Inclusive, chegou a pedir, que caso algum dia, ele, seu marido, faltasse à Sra., o Juvenal olhasse por vocês.

A SENHORA 2 cai no chão. Ninguém se importa com ela.

SENHORA

E onde está este Juvenal? Eu quero conhecer esse homem.

HOMEM

O navio em que ele trabalha desembarcou ontem à noite. Por isso ele não pôde vir velar o corpo. Este corpo que ele tanto amou.

SENHORA

Um marinheiro? Meu marido tinha um caso com um marinheiro?

HOMEM

Na época em que seu marido o conheceu, ele ainda era estivador. De dois anos pra cá é que ele virou marinheiro.

SENHORA

Há quantos anos já durava esse caso dos dois ?

HOMEM

Há coisa de uns dez anos… (PAUSA) Pra Sra. ver: o nome do seu filho caçula é Jonas, não é ?

SENHORA

Sim, é Jonas…

HOMEM

Pois foi o Juvenal quem escolheu esse nome.

SENHORA

Ai, meu Deus…

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UM ENVELOPE, ESTENDE-O À SENHORA)

O Juvenal pediu pra entregar isto à Sra.

SENHORA

(ABRE O ENVELOPE)

Dinheiro ?

HOMEM

Assim que puder, ele promete mandar mais.

SENHORA

Abençoado seja o Juvenal. (PASSA A MÃO DENTRO DO CAIXÃO, COMO SE FIZESSE UM CARINHO NA CABEÇA DO MORTO) Obrigada, querido.

HOMEM

Então eu vou andando. Qualquer notícia, entro em contato com a Sra.

SENHORA

O Sr. tem meu endereço, certinho?

HOMEM

Tenho, fique tranqüila… Até logo a todos. (SAI)

SENHORA

E eu que já ia pensando mal do pai de vocês… Pois sim… Era um pai exemplar…

1

(DE FORMA INFANTIL, NÃO AFEMINADA)

Quando eu crescer, quero ser veado que nem o papai.

2

Ah, eu também quero!

1

Invejoso, só porque eu falei…

2

Não, eu já tinha pensado muito antes… (OS DOIS SE EMPURRAM)

SENHORA

Meninos, não precisam brigar… (CONCILIADORA) Os dois podem ser veados…

1 e 2

(BATENDO PALMAS)

Oba!

Os três se abraçam, a SENHORA 2 começa a levantar, coçando a cabeça.


O Hamlet

agosto 19, 2007

Por Mauricio Dias, escrito em 2001

PERSONAGENS: Hamlet, Ofélia, Rei, Pai-de-santo, Guildestern e Freud

Um quarto. Hamlet ENTRA, trazendo Ofélia pela mão. Na parede do fundo, um pôster grande de Jimi Hendrix e uma ampliação de uma litogravura de Delacroix retratando Hamlet e Ofélia.

Hamlet
Ofélia, minha querida, estes são os aposentos de seu príncipe Hamlet, futuro rei da Dinamarca.

Ofélia
Eu não deveria estar entrando no quarto de um homem; se meu pai souber, vai me chicotear.

Hamlet
(Dá dois tapinhas na cama)
Deita aqui, deita…

Ofélia
Não, meu Senhor, que tipo de moça pensas que sou?

Hamlet
Ah, qual é, Ofélia? Veio até aqui, no (t) matadouro do príncipe, e vai fazer jogo duro agora?

Ofélia
Espero que o príncipe da Dinamarca saiba respeitar minha virtude.

Hamlet
Ih, que papo é esse? Ô, Ofélia, te conheço desde criança. Sei que tu não é nenhuma santinha. Deita aqui, deita…

Ofélia senta-se na cama, recatadamente. Hamlet a abraça, beija-lhe o pescoço.

Ofélia
Mais devagar, príncipe. Não sou dessas!

Hamlet
Ah, fala sério, Ofélia!

Ele a beija, ela retribui, os dois deitam na cama, rola o maior amasso. Ele abre a blusa dela.

Ofélia
Vai, meu príncipe!Invade este território!

Hamlet
Me chama de Tirésias, vai!

Ofélia
Tirésias!

Hamlet
Mais alto.

Ofélia
(grita)
Vai, Tirésias!

Entra o pai de Hamlet.

Pai
Hamlet! Hamlet, meu filho.

Hamlet
Quem me chama?

Pai
Sou eu, o finado rei, vosso pai.

Hamlet
Um espectro!

Ofélia
O que está havendo, meu príncipe? Não lhe agrado?

Hamlet
Não vês o fantasma de meu pai? (pausa) Cara, nunca mais tomo chá de cogumelo!
Ofélia levanta-se assustada.

Ofélia
É o finado rei. (ajoelha-se)

Pai
Doce Ofélia, saia do quarto, para que eu possa conversar a sós com meu filho.

Ofélia
Obrigada, meu bom rei. Sei que vós fostes enviados por Deus para preservar minha virtude. Chegastes em boa hora, que eu já estava prestes a sucumbir. Vou-me embora.

Hamlet
Pera aí, Ofélia. Vamos marcar pra daqui a uma hora. (pausa) Eu converso com meu pai, acerto os ponteiros, e você volta, pra gente fazer aquilo tudo.

Ofélia
Não vê que isto é um sinal de Deus para que não nos precipitemos? Adeus, príncipe. (SAI)

Hamlet
Porra, valeu, hein, pai? Sabe quantas horas eu tive que ficar falando no ouvido dela, gastando saliva, pra trazer ela pra cá?

Pai
O espírito é mais importante que a carne.

Hamlet
Isso pra você, que é fantasma. (pausa) Que o pariu, Ofélia tava no papo! (t) Boa pra cacete! Aí tu tem que aparecer com esse bundão branco aí.

Pai
Hamlet, meu filho, fui vítima de um sórdido crime.

Hamlet
É? Desembucha!

Pai
Aquele que agora ocupa o trono, é o culpado de minha morte.

Hamlet
Meu tio, né?

Pai
Sim, meu irmão seguiu os passos de Caim.

Hamlet
Chato… Concordo que não é agradável… Mas você não podia ter esperado uma horinha pra me dizer isso, não? Ofélia tava no ponto, eu tava com a corda toda.

Pai
Agora que já sabes da verdade, é teu dever tomar  providências.

Hamlet
Pode deixar, meu pai. ‘Xa comigo!

O pai sai.

Hamlet
Ele vai ver a providência que eu vou tomar! (SAI)

INSTANTES

Entra Hamlet, carregando uma sacola, acompanhado de um Pai-de-santo.

Pai-De-Santo
Foi aqui que zifio viu a assombração?

Hamlet confirma com a cabeça.

Pai-De-Santo
Zifio trouxe tudo que o “véio” pediu?

Hamlet
Tá aqui. (ABRE A SACOLA) Uma galinha preta, uma garrafa de marafo, um ramo de arruda e três velas de sete dias.

Pai-De-Santo
Então “vamo” fazer um trabalho pra esse espírito descansar em paz, e não aporrinhar mais suncê.

Entoam cantos de macumba, Hamlet dança. Apagam as luzes. INSTANTES. Quando tornam a acender, o Pai-De-Santo já se foi, e Hamlet está usando um camisolão e um gorro de dormir.

Hamlet
O príncipe da Dinamarca agora vai fazer naninha!

Deita na cama, cobre-se. Ronca.

Surge o Pai.

Pai
Hamlet, meu filho. Por que tentas afastar de ti a mão do destino?

Hamlet
(ajoelha-se na cama)
Ih, de novo? O preto-véio me garantiu que você não ia mais voltar.

Pai
É que isto aqui não é a realidade. Você está sonhando. Os poderes do Pai-De-Santo não valem no reino de Morpheu.

Hamlet
Quer dizer então que você vai poder aparecer nos meus sonhos sempre que quiser?

Pai
Até você cumprir sua missão: deves vingar a minha morte.

Hamlet
Pô, pai, pera aí. Tua vida acabou, deixa eu viver a minha. Não é justo jogar um peso destes nas minhas costas. Querer que eu te vingue… Eu não mato nem mosca.

Pai
O trono está manchado de sangue. Só se lava sangue com sangue!

Hamlet
Ih, cacete! O cara vai ficar no meu pé. Ó, pode parar! Vá pro quinto dos infernos, mas não me aporrinha mais não. O cara lá te matou; chato e tal, mas não tenho nada com isso.

Pai
E se eu  te disser que tua vida corre perigo?

Hamlet
É sério?

Pai
Claro. Ou você acha que meu irmão, agora que conquistou o trono, vai apenas reinar por alguns anos, até morrer, e então deixar tudo pra você?

Hamlet
É o costume. Além disso, ele não tem filhos.

Pai
Como sabes, ele casou com tua mãe. E já plantou nela sua semente. Ele deseja fazer seu sucessor na coroa da Dinamarca.

Hamlet
Mamãe tá grávida?

Pai
Nem ela sabe até agora, mas o fruto já foi encomendado. Daqui de onde estou, sabe-se das coisas com antecedência.

Hamlet
Tu não tá mentindo, não, né? Só pra me fazer tomar uma providência.

Pai
Hamlet, respeita teu pai. Assim que a criança nascer, tua vida valerá pouco.

Hamlet
Mas eu nem quero ser rei… (aponta pro pôster de Hendrix)… Meu negócio é música… Quero ser o maior tocador de alaúde do mundo.

Pai
Tua vida inteira gozaste do conforto e das benesses de ser filho do rei. Agora é justo que arques com as responsabilidades.

Hamlet
Recuso-me a aceitar tal fardo! Nunca serei instrumento da ira. Vai-te embora!

Apagam-se todas as luzes. INSTANTES. Quando as luzes tornam a acender, o Pai já saiu, e Hamlet debate-se sob os lençóis.

Hamlet
Vai embora, deixa-me em paz!

Hamlet levanta as cobertas, vemos seu  rosto. Olha para o ponto onde antes estava o espectro do Pai.

Hamlet
Era apenas um sonho, ou terá meu pai me visitado durante o sono? (sai da cama, caminha) Estarei enlouquecendo? Que demônios são esses, que me atormentam a alma? (pausa) Já sei. Há um médico austríaco de passagem pelo reino da Dinamarca. Dizem que faz maravilhas pelos espíritos confusos. Mandarei chamá-lo aos meus aposentos. (GRITA, fazendo sotaque nordestino) Guildestern! Ô, Guildestern!

ENTRA Guildestern.

Guildestern
Mandou chamar, senhor?

Hamlet
Andei sonhando com meu finado pai. Que sabes tu desse médico novo que anda por aí?

Guildestern
O austríaco? Parece que é um especialista em problemas da cachola. Estudou com os árabes e judeus, sendo inclusive, um membro deste último grupo.

Hamlet
Diga que o príncipe da Dinamarca quer vê-lo. Em meus aposentos.

Guildestern
Vivo para servi-lo, Sr. (sai)
Apagam as luzes. INSTANTES. Quando voltam a acender, sentado numa poltrona ao lado da cama de Hamlet está Sigmund Freud, usando terno. Hamlet está deitado.

Hamlet
E ele quer que eu mate meu tio. O que devo fazer, Dr. Freud? Me diga.

Freud
(com sotaque alemão)
Yá, você não suporta a idéia de algum homem dormindo com teu mamã. Os gregos já sabiam disso, pode ser visto no mito clássico do Édipo-Rei. E me parrece que estamos diante de um clássica caso de transferrência. A complexo de Édipo que você sentia em relação a teu papá, você agora está transferrindo parra teu tio, Yá?

Hamlet
Mas e o fantasma?

Freud
Das fantasma é uma símbolo. Temos que criar símbolos para tornar nossos sentimentos compreensíveis. Como a medo que você sente, a medo de nom ser mais amado por seu mamã, é a recordaçón de um medo tipicamente infantil, você recorre a um símbolo de medo presente no imaginário das crianças. No caso, das fantasma. Poderria também ser um bicho-papón, ou o ogro, ou a lobo dos contos de fada.

Hamlet
Mas Ofélia também viu meu pai.

Freud
Pelo que você me falou desta moça, ela nutre uma paixón por você, mas a educazón conservadora faz com que ela se reprima zexualmente. Ora, das repressón de ordem zexual é o principal componente da histerria feminina.

Hamlet
E se eu fizer sexo com ela, ela ficará curada?

Freud
Há a possibilidade. Mas pelo que você falou, ela associou o símbolo do fantasma com um apelo divino à castidade dela. Uma vez que isto esteja enraizado, ela nóm farra zexo sem casar antes. A mente medieval é muito religiosa.

Hamlet
Tadinha da bichinha, é complicada. Se não resolver isso, acaba enlouquecendo, se mata, vai ser a maior merda! (pausa) Renuncio à tragédia. (levanta) Se é pra curar Ofélia, caso com ela. Obrigado, Dr. Freud, o Sr. foi de grande ajuda. (cumprimenta-o, e vai saindo)

Freud
Ah, das príncipe, nóm estarria esquecendo de nada?

Hamlet
O quê?

Freud
Meus honorrários.

Hamlet tira uma bolsa da cintura e joga-a a Freud.

Hamlet
Obrigado, mais uma vez.(sai)

Entra Guildestern

Guildestern
Dr. Freud! Só o Sr. pode me ajudar. Desde que o príncipe sonhou com o rei, eu tô pensando em fazer uma fezinha no bicho. O rei era teimoso como uma mula, então tô pensando em cercar o burro.

Freud
A rainha já andava com o irmón dele quando o rei era vivo?

Guildestern
Corre o boato que sim.

Freud
Então o rei era corno. (mete a mão no bolso, entrega a Guildestern algumas moedas.) Vai dar boi na milhar; faz uma fezinha pra mim também.

Guildestern
Valeu, dotô. (sai)

Ouve-se a marcha nupcial. Entram Hamlet e Ofélia, Guildestern os segue, jogando arroz sobre os noivos.
//FIM


OS IDIOTAS 2 – A VINGANÇA

agosto 17, 2007

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

Por Mauricio Dias

Três amigos num bar, dois na faixa dos trinta anos, o outro com uns quarenta e cinco.

JOVEM 1

Esse cara só não é perfeito porque não tem uma filha linda de dezessete anos pra jogar na minha mão.

COROA

Taí. Se eu tivesse uma filha linda, eu jogava na tua mão.

JOVEM 1

Já imaginou? Tu podia ser meu sogro!

JOVEM 2

Mas se ele fosse teu sogro, o relacionamento de vocês ia ser uma merda!

JOVEM 1

Que é isso? Adoro esse coroa.

JOVEM 2

E não há dúvidas que ele gosta de você. Mas gosta por quê? Porque você é um beberrão, vagabundo e mulherengo. Agora, se essas qualidades todas fossem encontradas no marido da filha dele, ele ia ficar furioso: – Porra, minha filha casou com um traste! (pausa) Todas as características que hoje são motivo de aproximação entre vocês iam ser motivo de ojeriza.

COROA

Tem razão. Ia querer minha filha casada com um beberrão, vagabundo e mulherengo?  (aponta o JOVEM 2) Esse é um filósofo! Vai ver foi por isso que eu não tive filha, pra ela não causar discórdia entre minha pessoa e meus amigos.

JOVEM 2

Não… Você não teve filha porque você era broxa.

COROA

Conheci tua mãe antes de você nascer, tu sabe disso…

JOVEM 2

Claro que conheceu! Ela é tua prima…

COROA

Você sabe que prima não é irmã.  

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Tomar banho!… Ela é dez anos mais velha que você! Vê se ia dar mole pra um pirralho.

COROA

Os bons modos me impedem de comentar certas coisas…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Não vem com essa não, tu não vai conseguir me botar pulga atrás da orelha.

JOVEM 1

Pensando bem, vocês dois se parecem um pouco…

JOVEM 2

Parece nada. Eu sou bonito e ele é um caco.

COROA

(mostra o copo)

Quantos barris eu tenho de vantagem? Tu acha que vai chegar na minha idade sem barriga e papada? (aperta a bochecha do JOVEM 2) Coisa linda do papai!

JOVEM 2

Se eu fosse teu filho, tu agora ia ter que dar uma grana firme, pra compensar os anos todos em que você não me deu mesada, não pagou meu colégio, não me levou pra praia, futebol…

COROA

Ah, tá magoado… Liga não, papai tava ocupado, mas papai te ama…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Ô sujeito escroto…

JOVEM 1

Esse cara tinha que ser meu sogro. Eu ia morrer de cirrose antes dos quarenta.


O REI LEAR (e os três porquinhos)

agosto 17, 2007

2003 – Mauricio Dias

PERSONAGENS

Rei; Porquinhos 1, 2, e 3; Advogado; Lobo; Bobo da corte

CENA 1

O Rei e os três Porquinhos, estáticos.

Entra o Bobo da Corte.

Bobo

Agora apresentaremos ao distinto público a Tragédia do Rei Lear (pausa), e dos três porquinhos.

SAI

Rei

Meus filhos, jamais duvidei da fidelidade de vossa mãe, que descanse em paz. Sendo assim, encaro a diferença de espécie entre pai e filhos como um destes caprichos dos deuses. A natureza achou por bem me legar porcos como herdeiros.

Prático

Sábias palavras, meu pai.

Rei

E agora que me aproximo do fim de meus dias, decidi dividir entre vós as minhas posses enquanto ainda vivo, pois assim evita-se que os irmãos disputem a herança após o meu passamento.

Cícero

O rei exala realeza em todas as suas falas.

Rei

Pro meu filho mais velho, o porco Prático, deixo meu castelo de tijolos, tido como inexpugnável aos inimigos. Pro meu filho do meio, Cícero, deixo meu castelo de madeira, um pouco frio no inverno, mas agradável no verão. Pro meu filho mais novo, Heitor, deixo meu castelo de palha, o qual se é pobre em predicados, ao menos é rodeado pelas terras mais ricas dentre os três.

Heitor

Castelo de palha? É isto que queres me dar? Meu irmão ganha um castelo de tijolos e eu ganho um de palha?

Rei 

Recusas minha oferta? Então a partir deste momento estás deserdado, e não o considero mais meu filho. Será o castelo de palha e as terras que o circundam divididos entre os dois filhos que me restam. E eu passarei os dias sempre com meus filhos, um mês com Prático, outro com Cícero.

Heitor SAI.

Cícero

Vamos dividir entre nós o espólio de nosso irmão. Que tal se tu ficares com o castelo e eu ficar com as terras em volta dele?

Prático

E que tal o contrário?

Cícero

Que tal se plantarmos milho nas terras do castelo e dividirmos o produto entre nós?

Prático

Aí teremos forragem pro ano todo. (Ri, sua risada se assemelha aos grunhidos de um porco) Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc.

Cícero

Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc. Me alegro só de pensar em todo esse milho. (passa a mão na barriga) Ficarei cevado e bem gordinho. Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc.

Rei

Bem, agora que já distribuí meus bens entre vocês, vou passar este mês com meu filho mais velho, porco Prático.

SAEM TODOS

CENA 2

Heitor está andando em círculos, irritado.

Heitor

Castelo de palha… Enfie no rabo! Era só o que me faltava… Aqueles dois puxa-sacos, só falam o que o velho quer ouvir (imita): O rei exala realeza em todas as suas falas.

ENTRA o Lobo.

Lobo

Posso saber por que o porquinho está tão irritado?

Heitor

(trêmulo de medo)

O Lo- Lobo…

O Lobo se aproxima.

Lobo

Não precisa ter medo. (mete a mão dentro da camisa, tira uma estrela de David) Eu agora me converti ao judaísmo, e não posso mais comer carne de porco.

Heitor

N-Não a-acredito…

Lobo

Pode acreditar. Quer ver? (dança) Hava nagila,
hava nagila, hava – nu uzhe havatit
.

Heitor

Puxa, que susto me destes!

CENA 3  – CASTELO DE TIJOLOS

Prático passa espanador nas paredes, depois começa a varrer o chão. O Rei ENTRA, fica olhando, esfrega um dedo na parede pra verificar a poeira.

Rei

Acho que esta parede precisa de uma espanada.

Prático

Mas acabei de espanar.

Rei

E o chão também está muito mal varrido. Quando este castelo era meu, as coisas estavam sempre limpas.

Prático

Claro, tinha um monte de empregados pra deixar tudo brilhando. Eu estou tendo que fazer tudo sozinho.

ENTRA um Advogado.

Advogado

Ó do castelo… Quero falar com o senhor do castelo!

Prático

Pode entrar.

Advogado

Poderia chamar o senhor do castelo pra mim?

Prático

Sou eu mesmo.

Advogado

Ah, desculpe. Eu vi a vassoura em sua mão e pensei…  Bem, não interessa… Eu vim aqui trazer uma ordem judicial. Sou representante da Fundação em prol memória de Shakespeare, e achamos que esta bobagem que os senhores estão representando denigre o texto original. Esta montagem deve ser interrompida imediatamente.

Rei

(Ouvindo mais de longe, se aproxima)

Escutei bem, meu filho? Este homem veio até o castelo nos dizer o que podemos ou não fazer?

Prático

É isso aí, papi.

O Rei saca a espada e crava na barriga do Advogado. O Advogado agoniza.

Advogado

Dura lex, sed lex!

O Advogado cai, morto.

Rei

Era só o que me faltava. Vou tomar uma cerveja. Hoje à noite vou sair, vai ter Liverpool contra Arsenal, e eu quero ver o jogo sossegado, lá no pub. (pausa) Cadê o meu bobo, pra me contar umas piadas de escocês? Bobo, ô, bobo! Cadê este traste?

SAI.

Prático

Ah, valeu, pai. Agora vou ter de limpar todo o sangue do chão, levar o corpo lá pra fora. (canta, como ‘RETIRANTES’ de DORIVAL CAYMMI – música tema de Escrava Isaura) Porco tá molhado de suor, o chispe do porco tá que é calo só. (arrasta o corpo pra fora do palco) Trabalha, trabalha, porco. Trabalha, trabalha, porco. 

ESCURECE.

CENA 4 – CASTELO DE MADEIRA

Cícero segura uma carta.

Cícero

Uma carta de meu irmão Prático: Caro irmão, papai está me enlouquecendo, ele fica em casa o dia todo de pijama, reclama de tudo. Definitivamente a aposentadoria não está sendo uma boa coisa para ele. Felizmente, ao menos para mim, o período que ele passa comigo está chegando ao fim, e o próximo mês ele ficará com você. Verás como está mal-humorado. Não creio que possamos suportar isso por muito tempo. Algo terá que mudar.    

Cícero fecha a carta.

Cícero

E esta agora ? Papai vai ficar me enfernizando a vida. Bem sei como aquele velho é rabugento. Meu irmão Heitor é que sabia lidar com ele, mas agora que foi deserdado, o Rei não vai querer vê-lo nem coberto de ouro. (pausa) Talvez eu devesse procurar meu irmão, ele pode ter alguma idéia.

SAI.

CENA 5 – CASTELO DE TIJOLOS

O Bobo, segurando uma buzina, entretém o Rei.

Bobo

Aí o escocês falou: Segura no pincel, que eu vou puxar a escada! AH, ah, ah, ah, ah, ah, ah. (Aperta a buzina, várias vezes.)

Rei

(irritado)

Não tem graça! As suas piadas não tem graça!

Bobo

Calma, rei, calma. Olhe isto. (Faz malabarismos com bolas.)

ENTRA o Prático, trazendo uma mala.

Prático

Pai, o mês que você tinha de passar comigo já terminou, agora você deve ir pro castelo de meu irmão, Cícero. Aqui está sua mala.

Rei

Você parece com pressa de se livrar de mim.

Prático

Entenda como quiser.

DEIXA A MALA E SAI.

Rei

Está vendo só? Dei a ele um castelo de tijolos e este é o tipo de pagamento que eu ganho.

Bobo

Sei de uma anedota que alegrará o rei: Estavam vindo pela estrada um irlandês, um escocês e um galês…

Rei

Cale a boca, bobo! Não é hora de piadas. (pausa) Traga-me uma cerveja. 

Bobo

Sim, meu rei!

SAI APRESSADO.

REI

(levanta-se, pega a mala.)

Já vi que é hora de ir embora.

VOLTA O BOBO, COM A CERVEJA NA MÃO.

Rei

(agarra a cerveja)

Tome, carregue minha mala. (toma um gole)

SAI, O BOBO VAI ATRÁS, CARREGANDO A MALA.

CENA 6

Heitor está pescando. Cícero se aproxima.

Cícero

Olá, irmão.

Heitor

Ah, é você. O que queres?

Cícero

Papai tem infernizado a vida de nosso irmão. E agora eu temo que venha a infernizar a minha também.

Heitor

E o que eu tenho com isso?

Cícero

Você sempre soube lidar com o velho. Mas aí vocês tiveram aquela briga por causa da herança. Se você nos ajudar a contornar a situação com papai, nós intercederemos por você junto a ele.

Heitor

Você fala só por você, ou também representa nosso irmão?

Cícero estende-lhe uma carta. Heitor começa a lê-la.

Cícero

Como pode ver, ele autorizou-me a procurar você. Falo por mim e por ele.

Heitor

Então apresentarei minhas condições: venderemos os castelos de tijolos, madeira e palha, e compraremos apartamentos para mim, para você, nosso irmão e papai. Apartamentos iguais, para ninguém ser lesado.

Cícero

Nosso pai não vai aceitar, os castelos estão na família há gerações.

Heitor

Eu saberei convencê-lo.

Cícero

Mas ele nem irá falar com você. Não quer te ver.

Heitor

Deixa comigo.

ESCURECE

CENA 7 – CASTELO DE MADEIRA

O Rei e o Bobo estão parados.

Bobo

Ó do castelo! (bate palmas) Não adianta, meu Rei. Ninguém atende.

Rei

E essa agora? Será que saiu pra caçar?

Sai do castelo o Lobo.

Lobo

Por que vieram me interromper enquanto eu dormia?

Bobo

(se esconde atrás do Rei)

Um lobo!

Rei

(puxa a espada)

Afasta-te, animal horrendo! O que fazes no castelo de meu filho?

Lobo

Teu filho? Aquele presuntinho delicioso que morava aqui era teu filho?

Bobo

Oh, não! Ele comeu o príncipe!

Rei

(desolado)

Meu filho! Carne de minha carne! Bacon do meu bacon… Mas o que estou dizendo? Pagarás por isso, fera!

O Rei corre atrás do Lobo, dão duas voltas no palco, e depois SAEM de CENA, sempre em perseguição.

Bobo

Pega ele, rei! Pega! (imita um locutor de futebol) O Lobo avançou pela ponta, o Rei cercou na intermediária, um sensacional drible de corpo, o Lobo consegue passar, o Rei segue atrás…

Entram Cícero e Heitor, por trás do Bobo, o cutucam no ombro.

Bobo

(casual) Opa, e aí príncipe, beleza? (assusta-se) PRÍNCIPE?! Você está vivo?

O Rei ENTRA pelo lado oposto, encurvado, cansado.

Rei

(ofegante)

O diabo desse lobo é muito rápido, não dá pra ir atrás dele sem um cavalo. (pausa) O quê, meu filho?

O Rei corre até Cícero, e o abraça.

Rei

Pensei que tinha virado comida de Lobo.

Cícero

Quase, pai. Ele entrou no castelo, eu consegui fugir por uma janela. Ele veio atrás de mim. Por sorte Heitor estava por perto, e jogou pedras no Lobo.  Ele acabou voltando para o castelo.

Rei

(para Heitor)

Então tu salvaste a vida de meu filho? Sendo assim, desfaço minha última ordem e te reconheço como filho novamente. (abraça Heitor, com o outro braço, ficam os três abraçados)

Bobo

Adoro finais felizes! Eba, abraço em grupo. (abraça os três)

Heitor

Pai, depois de hoje, ficou provado que castelo de madeira não é mais seguro nesses dias.

Rei

Tem razão, meu filho. Vamos comprar quatro apartamentos num condomínio, na Barra! Teremos segurança e seremos vizinhos. (pausa) Mas não quero ninguém ouvindo música alta de madrugada, hein?

Cícero

Então vamos avisar nosso irmão, Prático.

Bobo

Isso, vamos espalhar a boa nova.

SAEM Cícero, o Bobo e o Rei. Heitor remexe uma moita, e tira um pernil.  O Lobo ENTRA.

Lobo

Puxa, teu pai me deu uma corrida!

Heitor

Aqui o carneiro que eu te prometi. Fizeste por merecer.

Lobo

(lambe os beiços, esfrega as mãos, pega o pernil)

Foi bom fazer negócio com você. Mazzle tov.

Heitor

Mazzle tov.

ESCURECE.

O Bobo, só. 

Bobo

E assim termina esta história, que nem foi tão trágica assim. O Rei e seus filhos foram morar num condomínio. Por idéia do Príncipe Prático, os irmãos aprenderam a tocar instrumentos musicais e formaram um grupo de grande sucesso nas paradas.  (alto) SOM NA CAIXA, REI.

Entram os três porquinhos, com Guitarra, Baixo e Pandeiro.

Porquinhos

(cantando)

Eu quero mocotó!

Eu quero mocotó!

Eu quero mocotó!

ESCURECE – FIM


O TRIÂNGULO

agosto 17, 2007

De Mauricio Dias

ESQUETE PARA TEATRO

PERSONAGENS

1 e 2 – dois rapazes de cerca de 25 anos, serão recorrentes nos outros textos.

CENÁRIO DESPOJADO, DUAS POLTRONAS E UMA TV LIGADA

1 e 2  assistem televisão. Passa um episódio de “Flipper”. 1 bebe uma cerveja.

1

Falam que os golfinhos são inteligentes pra burro, né? Mais inteligentes até que os chimpanzés…

2

Se tivesse que escolher entre ser um dos dois, eu preferia ser um chimpanzé… Golfinho não tem mãos. Não pode se masturbar.

1

(RI) Então você ia preferir ser um chimpanzé, só pra poder brincar com seu foguetinho? (BEBE UM GOLE)

2

Se eu fosse um chimpanzé, eu ia viver descascando a banana.

1

Isso você já faz.

2

Mas se fosse golfinho, não ia mais poder fazer. Por que você acha que eles soltam aquela água pela cabeça ? Estão tão cheios de amor pra dar, que acaba jorrando pela cabeça.

1

Ah, sei. É um orgasmo cerebral?

2

Tem que ser, porque eles não tem como aliviar a tensão. Não podem descarregar os fluidos vitais, e aí acaba transbordando.

1

Este é um problema que os chimpanzés não tem.

2

Não só os chimpanzés. Gorilas, orangotangos. Basta você ir no zoológico, e vai ver. Estão sempre envolvidos com atividades auto-eróticas. 

1

E os pobres golfinhos sofrendo.

2

Vamos supor que eu seja um chimpanzé-macho…

1

Eu até consigo te ver na posição de um chimpanzé… Mas é difícil imaginar você como sendo macho, acho muito fantasioso.

2

(ENFÁTICO) Sou um chimpanzé-macho… Espada!… Aí passa por mim aquela bela macaca chita.

1

Aquelas belas pernas peludas… (BEBE UM GOLE)

2

Aí eu não resisto. Viro pra ela e falo : “E aí, gracinha ? Vamos ali na minha árvore, pra eu catar os seus piolhos?” (PAUSA) Ai, é claro, ela me manda passear. O que eu faço? Vou pra minha árvore sozinho, cuspo na palma da mão e mando ver. É óbvio. A gíria pra masturbação em inglês é “spank the monkey”; bater no macaco, por que será ? 

1

É uma bela teoria. Dá pra você conseguir uma bolsa de doutorado com isso. 

2

Agora, se eu fosse um golfinho, o que eu ia fazer depois de tomar um fora da golfinha? Nada. Fazer o quê? Me esfregar num banco de corais? E me arranhar todo? (PAUSA) Tá vendo só, que situação? Se é um animal inteligente, o golfinho deve ter as fantasias sexuais dele. Se não, não é um animal inteligente. Concorda? Mas não adianta ter as fantasias, por que ele não tem (EXIBE AS MÃOS) os meios de realizá-las.

1

Os golfinhos sofrem com aquilo que Freud chamou de inveja das mãos.

2

Claro, masturbação é o melhor amigo do macho. É um exercício de imaginação que está intimamente ligado ao teatro. Você não só cria o seu personagem, que é o fodão infalível e irresistível, mas você ainda cria o outro personagem. (FINGE ESTAR ABRAÇADO A ALGUÉM) “Isso, querida, assim… (COM VOZ FEMININA) Não, é muito grande!…” (VOLTA AO NORMAL) Teatro puro. Cada vez que um homem se masturba, é como se gritasse : evoé, piroca!

1

Mas como pode ser teatro se não há público?

2

É um teatro autófago, você alimenta-se sozinho. É-se ao mesmo tempo ator e público. Ou melhor. Ator não, o elenco completo, pois acaba-se tendo que compor o personagem que é uma versão idealizada de você mesmo e o amante, ou amantes, ao mesmo tempo; e além disso você ainda é o público, que se delicia com aquelas elocubrações. Um exercício fascinante! Já fui Sultão das Arábias e tinha aos meus pés um séqüito de odaliscas, já fui Imperador romano comandando orgias, já fui Júpter me transfomando em moedas de ouro para cair no colo de Danae. (PAUSA. COM AR TRISTE) E os pobres golfinhos jamais terão esse prazer.

1

Mas tem muitos outros animais que não tem como resolver esse problema. Um gato, por exemplo. O que ele vai fazer com aquelas patas?

2

Em compensação, os gatos conseguem chegar com a língua nos lugares mais incríveis do próprio corpo.

1

Ah, quer dizer…

2

É claro… Ou você acredita naquela história de que eles estão só se limpando ? Rá…

1

Você é um doente.

2

Há controvérsias se animais inferiores também sofrem com estes problemas. Não se sabe se seus cérebros primitivos possuem a faculdade de imaginar. Mas novas descobertas dos paleontólogos sexuais colocam isso em dúvida.

1

Paleontólogos sexuais?

2

Você não viu a porcaria daquele “Jurassic Park”? Por que o tiranossauro era tão bravo? (OLHA PARA O PRÓPRIO COLO, IMITA OS BRAÇOS CURTOS DO ANIMAL) Droga, está logo ali embaixo… Se essas drogas de braços fossem um pouco mais compridos… (URRA ALTO) UAAUUAHHH… O jeito é sair e ver se como alguém…

1

Ah, sei. Os paleontólogos sexuais até encontraram fósseis em posições comprometedoras. Os dinossauros faziam loucuras nas piscinas de piche.

2

Agora, quando se trata de um animal brilhante como o golfinho, não há duvidas de que ele tem o poder de imaginar. E só nos resta ter pena dessa brilhante criatura sem mãos.

1

É… pensando bem, eu também não ia querer ser golfinho. (BEBE UM GOLE)

2

Você já está com uma bela barriga, ainda toma litros diários de cerveja. Tá mais pra baleia que golfinho.

1

Vá à merda!


Introduzindo-me ao leitor

agosto 17, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

Qualquer um que goste de escrever, acaba ficando com um problema: textos acumulados, seja no hd do computador, numa gaveta ou num caderninho.

Eu tinha vários textos acumulados dos últimos anos, e achei que era melhor postar em algum lugar do que deixá-los ad aeternum no meu hd.

Por que este nome para o blog? Foi simplesmente o que me veio na cabeça. Mas não é por causa do nome que pretendo escrever reminiscências sobre o fim da adolescência.

Nesta idade de 18, eu entrei na faculdade de cinema (a qual concluí já há uma década).  Depois comecei a estudar desenho, e espero que este estudo me acompanhe a vida inteira. A princípio este blog versará principalmente sobre estes assuntos; e também sobre política, música e o que mais me der na telha.

Com certeza eu era um trouxa aos 18. Ter ido estudar cinema na faculdade está profundamente relacionado com isso. Excesso de autoconfiança.

O fato de, logo no nome do blog eu declarar que era um trouxa, não significa que eu ache que deixei de sê-lo. Digamos apenas que sou menos trouxa agora.

Mauricio Dias

Sempre assinei assim, meu primeiro nome e o último dos muitos sobrenomes. Acontece que  Mauricio Dias é um nome comum, há um artista plástico e “videomaker” com este nome, e um ex-editor do Jornal do Brasil, que se não me engano, hoje faz documentários.

Como em geral escrevo sobre cinema e pintura, é bem possível ser confundido com estes dois. Mas quero deixar claro que não sou nenhum deles, como já escrevi em  http://www.digestivocultural.com.br/colunistas/coluna.asp?codigo=1109