Pintor e desenhista

agosto 29, 2007

Aproveito para indicar – a quem não conhece – o site do grande artista brasileiro Lydio Bandeira de Mello:

http://www.bandeirademello.art.br/?page_id=4&nav=galeria

Uma vez na página, rolar a barra até em baixo.

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Para pensar

agosto 29, 2007

Certa vez, no Manhatan Connection, Diogo Mainardi comentou que uma jovem diretora – Lara Velho, filha do P.C. Pereio – queria adaptar para o cinema seu livro ‘Contra o Brasil’. Ele declarou que não tinha nada contra, desde que na produção não fosse usado um tostão de dinheiro público. O próprio Mainardi, que escreveu os roteiros dos filmes de seu irmão, Vinícius, declarou que estes filmes tinham ao menos o mérito de terem sido feitos com capital privado. (filmes como 16060, que na época em que foi lançado, nem com o endosso ‘amigo’ de Paulo Francis na sua coluna imensamente influente, conseguiu ser bem sucedido.)

Este fato me veio a mente hoje, 29-08-2007, ao ler na coluna do Joaquim F. dos Santos, em O Globo (A imagem contida neste post será bem visualizada com o Internet Explorer. ):

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Speakers’ Corner

agosto 27, 2007

A Speakers’ Corner será um nicho do site onde EU exercerei, dentro dos limites do bom senso, o direito de falar mal dos outros. Sempre é um risco: “The tongue is the bullwhip of the body”  (A lingua é o chicote do corpo.)

Pra quem desconhece a verdadeira “Speakers’ Corner”, ela fica em Londres, sugiro ir na wikipedia.org, que lá tem (Em inglês. Sorry, não consegui dar link, talvez pela falta do www. ).

Os trechos em negrito foram explicações posteriores que achei necessárias adicionar ao que já se encontrava em emails antigos.

Em 05-2007 tinha me queixado da imbecilidade reinante no cinema e nas artes a um grupo de amigos.

Um deles respondeu: “acho que a saída para a coexistência pacífica é o deboche.”

Respondi:

Atenção, ISTO É UMA METÁFORA: Nós estamos desde crianças sendo estuprados por isso. Não dá pra debochar de algo que já te violou, pretende continuar te violando, e se algum dia vc tiver filhos, vai querer violá-los tb. Vai dizer o quê? ‘Ah, ah, senhor estuprador, seu pau já nem me machuca mais…’

Coexistência pacífica não é possível. Quando o ‘crítico’ (sic) de cinema do globo dá o bonequinho aplaudindo de pé os 300 (de Esparta) e escreve sobre aquele lixo: (o diretor) “Snyder revela uma veia autoral”, não é caso mais de debochar. Um incompetente está prestando um desserviço a milhares de pessoas, que gastarão seu dinheiro para ver aquilo (e claro que boa parte do público é tão imbecil que irá gostar do lixo).

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O que se segue é uma coletânea de emails sobre cinema, em geral enviados a um amigo crítico de cinema, o jornalista Marco Antonio Barbosa.

A respeito de ‘O Terminal’, de S. Spielberg.

‘Passando na Net ‘O Terminal’. Não me animei a gastar dinheiro para vê-lo, na tela ou em dvd. Fiz bem. É mais ingênuo que qualquer comédia americana dos anos 50, toda aquela gente bem intencionada. O filme parece ignorar que o cinema já nos deu B. Wilder, Altman, W. Allen; imagine um cientista escrevendo hoje um tratado sobre genética que ignorasse tudo que se publicou sobre o assunto nos últimos cinquenta anos. E o mais estranho é que o roteirista é o diretor-roteirista do interessante ‘O Senhor das Armas’, com Nicolas Cage. Sabe como é roteirista, Topa-tudo-por-dinheiro.

Zeta-Jones se interessa por um imigrante do leste europeu que nunca perde o ânimo diante das adversidades – ‘Forrestenko Gumpenkov’.

Mas Spiel filma bem pacacete, faz o que quer com a câmera, não sentia isso vendo um filme desde ‘O Pianista’ do Polanski, quando a fluidez da narrativa superou minha resistência ‘a mais um filme de campo de concentração pra ganhar Oscar’ – o 3o. em dez anos, com Schindler e ‘A vida é bela’.

Orson Welles, fã assumido de John Ford, no livro de entrevistas a Bogdanovich diz que ‘sentimentalismo é o vício de Jack’, sendo Jack um nick carinhoso para o velho Ford.

Spielberg é a mesma coisa. Mas como no caso de Ford, ‘quando ele consegue superar o vício, tem-se a verdadeira pureza’. (apud Welles)

Vc viu ‘Munique’? Sei que voltamos à causa das doze tribos da qual me queixei acima, mas tem coisas ótimas.’

———

Vi ontem ‘Crime Delicado’.

Não achei nenhuma maravilha. Mas vieram-me à mente algumas questões:

1) O filme mostrar uma deficiente física é ou não uma forma de exploração?  (É claro que não o é da mesma forma que o Sebastião Salgado explora os pobres, ela ali entra como atriz, está interpretando um personagem e tem uma característica física que coincide com a da personagem). Vieram-me à mente ‘Freaks’ de Tod Browing e o perneta Gary Sinise de Forest Gump. ‘Crime Delicado’ é ou não fetichismo sadomasoquista disfarçado de ‘discussão sobre fetichismo sadomasoquista’?

2) O personagem de Marcos Ricca realmente estuprou a moça?

3) Ela colocar a perna mecânica sob a pintura no final significa o quê? Que ela se libertou da convenção da sociedade ou que ela se libertou da manipulação do pintor?

4) Que todas as pinturas que aparecem no filme não são boas, eu nem discuto. Oito anos desenhando modelo-vivo me respaldam. Mesmo aquela pintura principal, que tem um grafismo razoável, é fraca, não tem composição. Ninguém desenha ao mesmo tempo que realiza o Kama Sutra, torcendo toda coluna como o personagem. O Paulo Halm fez há uns quatro anos um curta em que Ruy Guerra interpretava um pintor assassino, referência a Iberê Camargo, alguém viu este filme?  Como no filme de Halm, em ‘Crime’ o que eu sinto é que estes caras querem falar sobre pintura sem ter nenhum estudo prático-teórico sobre o assunto.

——–

O personagem da criança pobre, criminosa ou não, tornou-se tão emblemática no cinema brasileiro a partir dos anos 90 quanto o era o cangaceiro nos anos 60. Em ambos os casos ocorre a romantização da figura-símbolo e a culpabilização da sociedade (nunca se culpa o indivíduo por suas opções, ou seus pais por terem filhos que não podiam sustentar e educar). Mesmo que a maioria das crianças ou nordestinos pobres nunca tenha optado pela criminalidade, os que o fizeram não são mostrados como culpados, apenas vítimas.

Em ambos os casos nota-se uma curiosidade antropológica do artista (normalmente um jovem oriundo da classe alta) pelo objeto (o pobre). As vezes parece que a favela está para os ricos Moreira Salles como o extinto Simba Safári esteve para as famílias classe média paulistanas: um lugar para se ver espécimes exóticos em seu próprio ambiente.

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Troca de emails com uma amiga, sobre Cidade de Deus:
Ela escreveu:
“Outro dia eu estava justamente falando do contraste entre Pixote e Cidade de Deus. Como um é absolutamente contundente, duro, real e o outro é um clipe da miséria para inglês ver.”
Respondi:
CDD é um dos filmes mais mal-intencionados que eu já vi. E o que é pior, extremamente bem-feito. A cena que o traficante obriga um garoto a matar o outro é uma das coisas mais violentas e gratuitas que eu já vi no cinema, mostrar eles dando tiros nas mãos dos garotos já era mais do que o tolerável. Um filme como aquele marginaliza mais ainda um lugar como a CDD verdadeira, mostra como antro de bandidos um lugar onde 97 % da população é de trabalhadores. E esse pessoal todo de cinema, (NOMES QUE CONSTAVAM DO EMAIL, AQUI SUPRIMIDOS) têm uma relação muito promíscua com o tráfico.

Há mais alguns comentários sobre este mesmo filme alguns parágrafos abaixo, estão separados pois constavam de outro email.

Quando eu escrevia sobre cinema para um site, alguns cinéfilos mandavam mensagens, elogiando ou reclamando dos textos. Os textos continuaram no ar mesmo depois de eu encerrar minha colaboração no site. Em 2005, um jovem que desejava ingressar na carreira, me pediu opiniões. Logo pra quem ele foi pedir… Trocamos alguns emails, seguem trechos do que eu mandei a ele (há partes editadas, não estou a fim de me arriscar a levar processos a troco de nada). Evidentemente, em alguns momentos, para explicitar uma opinião, crio uma caricatura, exagero certos pontos. Sobre este tópico recomendo que leiam também “O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!”, do já citado jornalista Marco Antonio Barbosa, que pode ser encontrado na internet (link ao final do texto).

Vários dos comentários que ali se encontram são pertinentes para o aspirante a fazer cinema.

Voltando ao jovem, ele também havia perguntado sobre Goddard e o que eu achava de ‘Cidade de Deus”.

Respondi:
(…)Não sei qual a sua condição, e assim, seria leviano dar sugestões. Você parece sincero no seu gosto pela arte, então deve entender que há outras artes mais acessíveis que o cinema, E QUE PODEM SER UM MEIO DE SE CHEGAR AO CINEMA. Cinema só existe há cem anos, se Kurosawa, John Ford, Billy Wilder tivessem nascido em 1800, o que esses homens teriam feito na vida? Imagino que Kurosawa seria pintor, Wilder escreveria para o palco. John Ford, não sei.
Então, o que eu diria que é mais importante: procure escrever esquetes pra teatro e estude desenho, faça um curso de desenho sério, que tenha como base o modelo-vivo  (Não sei de nenhum nome em sua cidade para lhe sugerir).
O desenho te abre muitas portas, e seu trabalho não necessita de apoio externo ou verba. Se vc escrever um roteiro bom as pessoas não vão se dar ao trabalho de ler (falo por experiência própria), porque isso lhes tomaria entre uma e duas horas, mas um bom desenho pode ser identificado em 15 segundos. Talvez vc ache que não tenha jeito pra coisa, mas acredite, jeito pra coisa é menos importante que vontade e dedicação.
Vá aos primórdios, as fontes do que hoje chamamos de cinema: leia Shakespeare, Moliére, procure entender as obras de El Greco, Rembrandt, Delacroix. Se possível,  com o auxílio de professores e profissionais, pessoas que poderão te auxiliar a ter uma visão mais ampla – evite os charlatões,  que são muitos, e fuja de qualquer um com discurso de que ‘a arte deva ser um meio de transformação da sociedade’.
Sobre Goddard, seus filmes mais interessantes são “Uma mulher é uma mulher” e “Pierrot Le Fou (O Demônio das onze horas)”. Mais do que pedantes, os textos muitas vezes são indulgentes. Como quem tira um monte de fotos da cidade onde passou as férias e obriga os outros a verem os slides, achando que aquilo interessa a mais alguém.

Cidade de Deus é canalha porque não mostra que a violência na favela acontece em grande parte porque um bando de hedonistas querem cheirar pó e fumar maconha. A pobreza não ajuda, ok; mas em 1940, já existiam favelas habitadas por pobres, e não havia nada que se comparasse à violência pós-1970. É canalha porque mostra a periferia como uma região onde só tem bandido, quando estes são minoria.
E tem falhas de roteiro, Zé Pequeno depois de tomar uma facada no braço mata um colega porque esse ficou fazendo perguntas demais. Isso num filme tipo Pulp Fiction é engraçado; ali, que se pretende ser realista (embora em nenhum momento o seja) está fora de lugar.
O pobre do personagem do Buscapé não tem nem direito a um nome, quando a jornalista pergunta qual o nome dele, ele responde ‘Buscapé’. Vê se alguém que está procurando se colocar na empresa (ele era fotógrafo, e ela, superior a ele no jornal, certo?) vai dizer uma m… dessas.

O texto que mencionei encontra-se em http://telhadodevidro.wordpress.com/2007/05/27/o-verdadeiro-manual-do-candidato-ao-vestibular-de-jornalismo


replicantes* e treplicantes

agosto 19, 2007

Pra quem não lembra, ‘replicantes’ é como eram chamados os andróides do filme Blade Runner. Aqui no caso é usado pra definir quem faz réplicas. Sinta-se livre para comentar, de preferência sem me xingar.

Lancei aqui um texto sobre cinema (clique aqui), no qual recriava cenas de filmes importantes.

Eis o email de um amigo meu sobre os textos:

(Sobre ‘O Resgate do Soldado Ryan’.) “Pra mim, suas soluções são tão idiotas quanto as originais, no caso do médico.

(Sobre ‘Taxi driver’.) O nhem-nhem-nhem  dele com o ‘gualda’ muda completamente o tom do filme.

Meu reply:

“Pra mim, suas soluções são tão idiotas quanto as originais, no caso do médico.”

Claro que não. Na original eles libertam o prisioneiro (o que soa como propaganda do bom mocismo americano) e um dos soldados insinua desertar, o que em guerra significa fuzilamento sumário. Minha solução é muito melhor.

“O nhem-nhem-nhem  dele com o gualda muda completamente o tom do filme.”
Isso tem a ver com o texto que escrevi (cerca de 45 páginas, não lançado no site; talvez algum dia…), no qual o cara que é fã do Taxi Driver compra uma arma.

No filme o questionamento dele ao segurança é apresentado como esquizofrênico (Ok, o personagem é esquizofrênico). Mas eu mostro que pode-se questionar a presença de um segurança ali de modo que soe mais próximo do  normal.

E uma pessoa pode comprar uma arma e usá-la em legítima defesa (ou na de terceiros) e ainda assim ser plenamente racional.

O que Taxi Driver tenta afirmar é “alguém pra comprar uma arma tem que ser psicopata”. Você não vê isso como visão política?

Tanto que o cara que vende os revólveres pra ele, depois de ver que ele leva tudo, tenta oferecer várias drogas, um carro esporte (roubado, é claro).

Ou seja: “gente de bem não compra armas”. Algo que vai diretamente contra a formação da sociedade americana, que sempre foi liberal no direito de portar armas – foi assim que a marcha pro Oeste se deu.


TRIÂNGULO II

agosto 19, 2007

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

autor: Mauricio Dias 

PERSONAGENS

SENHORA, SENHORA 2 – Mulheres na faixa dos 40 anos.

HOMEM – malandro da Lapa carioca dos anos 40.

1 e 2, caracterizados de crianças

Uma SENHORA e dois MENINOS – 1 e 2 – ao redor de um caixão. Todos vestidos à moda dos anos 40. Os três choram. ENTRA uma SENHORA 2.

SENHORA 2

Querida, meus sentimentos. É uma perda irreparável.

SENHORA

Ah, querida… Sei que, esteja onde estiver, ele vai estar bem… O que me preocupa são os garotos. Como é que eles vão crescer sem um pai?

SENHORA 2

(SE APROXIMA DO CAIXÃO) Nossa, tá inchado, né?

SENHORA

Bebia muito, né? Cachaça…

SENHORA 2

Descanse em paz…

ENTRA um HOMEM, vestido de branco, usando chapéu, bigodinho, pinta de malandro dos anos 40.

HOMEM

A “madama” que é a viúva?

SENHORA 2

Não, é ela…

HOMEM

Minhas condolências… Seu marido era um grande puto… (t)Grande puto!

SENHORA

O Sr. veio até aqui pra ofender a memória de meu marido, ofender a minha família? (TRAZ OS MENINOS PARA JUNTO DE SI, AFAGA-LHES A CABEÇA)

SENHORA 2

Que espécie de monstro faria uma coisa dessas? Não respeita nem um funeral ?

1

(CHORANDO)Papi…

HOMEM

Não… Não vim aqui pra ofender ninguém… É a mais pura verdade.

SENHORA 2

Se eu fosse homem, ia-lhe à cara!

SENHORA

Não tem nenhum segurança nessa capela? (GRITA)Polícia!

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA FOTO, ESTENDE-A À SENHORA)

Aqui… Pra Sra. ver que não estou faltando com a verdade, Deus me livre… (DÁ TRÊS BATIDINHAS NO CAIXÃO)

SENHORA

Mas o… O que é isto ?

SENHORA 2

Deixa eu ver… (PAUSA) Não é o seu marido ?

1 e 2

(VÊEM A FOTO) Papai!

SENHORA

Parece, mas… Vestido de mulher? E beijando um negão?

HOMEM

Esse rapaz de cor é o Juvenal. A grande paixão da vida do falecido.

SENHORA

Juvenal? Meu marido numa foto com… (t)um Juvenal? 

SENHORA 2

Talvez seja um truque… Ouvi dizer que hoje em dia se consegue mudar muita coisa retocando uma foto.

HOMEM

Não há retoque, posso garantir. Eu tava presente quando a foto foi tirada.

SENHORA

Calúnia! Não acreditem nesse monstro, meninos! Ele quer destruir a memória do pai de vocês.

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA CARTA, ESTENDE-A À SENHORA) Acho que a Sra. reconhece a letra do falecido, não é ?

SENHORA

“Juvenal, amor… Quero te encontrar no nosso ninho…” (SEGUE LENDO, EM SILÊNCIO, CAMINHA UM POUCO)

SENHORA 2

É a letra dele mesmo?

SENHORA

Parece que sim… Mas… Como?

HOMEM

Desde Adão e Eva, ninguém nunca entendeu o porquê do amor. Não dá pra explicar, percebe?

2

(CHORANDO)

Papai… Boneca…

HOMEM

Tirando a cachaça, o Juvenal era a grande fraqueza do falecido. Mas a Sra. pode ter a certeza de que ele nunca traiu a Sra. com outra mulher.

SENHORA

E o Sr. acha que isso é um consolo? Saber que meu marido estava amasiado com um (t)negro?

HOMEM

O único mal-passo dele era o Juvenal. Mas ele sempre se preocupou com a Sra. e com os pequenos.

SENHORA 2

E-eu… acho que vou desmaiar…

HOMEM

Inclusive, chegou a pedir, que caso algum dia, ele, seu marido, faltasse à Sra., o Juvenal olhasse por vocês.

A SENHORA 2 cai no chão. Ninguém se importa com ela.

SENHORA

E onde está este Juvenal? Eu quero conhecer esse homem.

HOMEM

O navio em que ele trabalha desembarcou ontem à noite. Por isso ele não pôde vir velar o corpo. Este corpo que ele tanto amou.

SENHORA

Um marinheiro? Meu marido tinha um caso com um marinheiro?

HOMEM

Na época em que seu marido o conheceu, ele ainda era estivador. De dois anos pra cá é que ele virou marinheiro.

SENHORA

Há quantos anos já durava esse caso dos dois ?

HOMEM

Há coisa de uns dez anos… (PAUSA) Pra Sra. ver: o nome do seu filho caçula é Jonas, não é ?

SENHORA

Sim, é Jonas…

HOMEM

Pois foi o Juvenal quem escolheu esse nome.

SENHORA

Ai, meu Deus…

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UM ENVELOPE, ESTENDE-O À SENHORA)

O Juvenal pediu pra entregar isto à Sra.

SENHORA

(ABRE O ENVELOPE)

Dinheiro ?

HOMEM

Assim que puder, ele promete mandar mais.

SENHORA

Abençoado seja o Juvenal. (PASSA A MÃO DENTRO DO CAIXÃO, COMO SE FIZESSE UM CARINHO NA CABEÇA DO MORTO) Obrigada, querido.

HOMEM

Então eu vou andando. Qualquer notícia, entro em contato com a Sra.

SENHORA

O Sr. tem meu endereço, certinho?

HOMEM

Tenho, fique tranqüila… Até logo a todos. (SAI)

SENHORA

E eu que já ia pensando mal do pai de vocês… Pois sim… Era um pai exemplar…

1

(DE FORMA INFANTIL, NÃO AFEMINADA)

Quando eu crescer, quero ser veado que nem o papai.

2

Ah, eu também quero!

1

Invejoso, só porque eu falei…

2

Não, eu já tinha pensado muito antes… (OS DOIS SE EMPURRAM)

SENHORA

Meninos, não precisam brigar… (CONCILIADORA) Os dois podem ser veados…

1 e 2

(BATENDO PALMAS)

Oba!

Os três se abraçam, a SENHORA 2 começa a levantar, coçando a cabeça.


O Hamlet

agosto 19, 2007

Por Mauricio Dias, escrito em 2001

PERSONAGENS: Hamlet, Ofélia, Rei, Pai-de-santo, Guildestern e Freud

Um quarto. Hamlet ENTRA, trazendo Ofélia pela mão. Na parede do fundo, um pôster grande de Jimi Hendrix e uma ampliação de uma litogravura de Delacroix retratando Hamlet e Ofélia.

Hamlet
Ofélia, minha querida, estes são os aposentos de seu príncipe Hamlet, futuro rei da Dinamarca.

Ofélia
Eu não deveria estar entrando no quarto de um homem; se meu pai souber, vai me chicotear.

Hamlet
(Dá dois tapinhas na cama)
Deita aqui, deita…

Ofélia
Não, meu Senhor, que tipo de moça pensas que sou?

Hamlet
Ah, qual é, Ofélia? Veio até aqui, no (t) matadouro do príncipe, e vai fazer jogo duro agora?

Ofélia
Espero que o príncipe da Dinamarca saiba respeitar minha virtude.

Hamlet
Ih, que papo é esse? Ô, Ofélia, te conheço desde criança. Sei que tu não é nenhuma santinha. Deita aqui, deita…

Ofélia senta-se na cama, recatadamente. Hamlet a abraça, beija-lhe o pescoço.

Ofélia
Mais devagar, príncipe. Não sou dessas!

Hamlet
Ah, fala sério, Ofélia!

Ele a beija, ela retribui, os dois deitam na cama, rola o maior amasso. Ele abre a blusa dela.

Ofélia
Vai, meu príncipe!Invade este território!

Hamlet
Me chama de Tirésias, vai!

Ofélia
Tirésias!

Hamlet
Mais alto.

Ofélia
(grita)
Vai, Tirésias!

Entra o pai de Hamlet.

Pai
Hamlet! Hamlet, meu filho.

Hamlet
Quem me chama?

Pai
Sou eu, o finado rei, vosso pai.

Hamlet
Um espectro!

Ofélia
O que está havendo, meu príncipe? Não lhe agrado?

Hamlet
Não vês o fantasma de meu pai? (pausa) Cara, nunca mais tomo chá de cogumelo!
Ofélia levanta-se assustada.

Ofélia
É o finado rei. (ajoelha-se)

Pai
Doce Ofélia, saia do quarto, para que eu possa conversar a sós com meu filho.

Ofélia
Obrigada, meu bom rei. Sei que vós fostes enviados por Deus para preservar minha virtude. Chegastes em boa hora, que eu já estava prestes a sucumbir. Vou-me embora.

Hamlet
Pera aí, Ofélia. Vamos marcar pra daqui a uma hora. (pausa) Eu converso com meu pai, acerto os ponteiros, e você volta, pra gente fazer aquilo tudo.

Ofélia
Não vê que isto é um sinal de Deus para que não nos precipitemos? Adeus, príncipe. (SAI)

Hamlet
Porra, valeu, hein, pai? Sabe quantas horas eu tive que ficar falando no ouvido dela, gastando saliva, pra trazer ela pra cá?

Pai
O espírito é mais importante que a carne.

Hamlet
Isso pra você, que é fantasma. (pausa) Que o pariu, Ofélia tava no papo! (t) Boa pra cacete! Aí tu tem que aparecer com esse bundão branco aí.

Pai
Hamlet, meu filho, fui vítima de um sórdido crime.

Hamlet
É? Desembucha!

Pai
Aquele que agora ocupa o trono, é o culpado de minha morte.

Hamlet
Meu tio, né?

Pai
Sim, meu irmão seguiu os passos de Caim.

Hamlet
Chato… Concordo que não é agradável… Mas você não podia ter esperado uma horinha pra me dizer isso, não? Ofélia tava no ponto, eu tava com a corda toda.

Pai
Agora que já sabes da verdade, é teu dever tomar  providências.

Hamlet
Pode deixar, meu pai. ‘Xa comigo!

O pai sai.

Hamlet
Ele vai ver a providência que eu vou tomar! (SAI)

INSTANTES

Entra Hamlet, carregando uma sacola, acompanhado de um Pai-de-santo.

Pai-De-Santo
Foi aqui que zifio viu a assombração?

Hamlet confirma com a cabeça.

Pai-De-Santo
Zifio trouxe tudo que o “véio” pediu?

Hamlet
Tá aqui. (ABRE A SACOLA) Uma galinha preta, uma garrafa de marafo, um ramo de arruda e três velas de sete dias.

Pai-De-Santo
Então “vamo” fazer um trabalho pra esse espírito descansar em paz, e não aporrinhar mais suncê.

Entoam cantos de macumba, Hamlet dança. Apagam as luzes. INSTANTES. Quando tornam a acender, o Pai-De-Santo já se foi, e Hamlet está usando um camisolão e um gorro de dormir.

Hamlet
O príncipe da Dinamarca agora vai fazer naninha!

Deita na cama, cobre-se. Ronca.

Surge o Pai.

Pai
Hamlet, meu filho. Por que tentas afastar de ti a mão do destino?

Hamlet
(ajoelha-se na cama)
Ih, de novo? O preto-véio me garantiu que você não ia mais voltar.

Pai
É que isto aqui não é a realidade. Você está sonhando. Os poderes do Pai-De-Santo não valem no reino de Morpheu.

Hamlet
Quer dizer então que você vai poder aparecer nos meus sonhos sempre que quiser?

Pai
Até você cumprir sua missão: deves vingar a minha morte.

Hamlet
Pô, pai, pera aí. Tua vida acabou, deixa eu viver a minha. Não é justo jogar um peso destes nas minhas costas. Querer que eu te vingue… Eu não mato nem mosca.

Pai
O trono está manchado de sangue. Só se lava sangue com sangue!

Hamlet
Ih, cacete! O cara vai ficar no meu pé. Ó, pode parar! Vá pro quinto dos infernos, mas não me aporrinha mais não. O cara lá te matou; chato e tal, mas não tenho nada com isso.

Pai
E se eu  te disser que tua vida corre perigo?

Hamlet
É sério?

Pai
Claro. Ou você acha que meu irmão, agora que conquistou o trono, vai apenas reinar por alguns anos, até morrer, e então deixar tudo pra você?

Hamlet
É o costume. Além disso, ele não tem filhos.

Pai
Como sabes, ele casou com tua mãe. E já plantou nela sua semente. Ele deseja fazer seu sucessor na coroa da Dinamarca.

Hamlet
Mamãe tá grávida?

Pai
Nem ela sabe até agora, mas o fruto já foi encomendado. Daqui de onde estou, sabe-se das coisas com antecedência.

Hamlet
Tu não tá mentindo, não, né? Só pra me fazer tomar uma providência.

Pai
Hamlet, respeita teu pai. Assim que a criança nascer, tua vida valerá pouco.

Hamlet
Mas eu nem quero ser rei… (aponta pro pôster de Hendrix)… Meu negócio é música… Quero ser o maior tocador de alaúde do mundo.

Pai
Tua vida inteira gozaste do conforto e das benesses de ser filho do rei. Agora é justo que arques com as responsabilidades.

Hamlet
Recuso-me a aceitar tal fardo! Nunca serei instrumento da ira. Vai-te embora!

Apagam-se todas as luzes. INSTANTES. Quando as luzes tornam a acender, o Pai já saiu, e Hamlet debate-se sob os lençóis.

Hamlet
Vai embora, deixa-me em paz!

Hamlet levanta as cobertas, vemos seu  rosto. Olha para o ponto onde antes estava o espectro do Pai.

Hamlet
Era apenas um sonho, ou terá meu pai me visitado durante o sono? (sai da cama, caminha) Estarei enlouquecendo? Que demônios são esses, que me atormentam a alma? (pausa) Já sei. Há um médico austríaco de passagem pelo reino da Dinamarca. Dizem que faz maravilhas pelos espíritos confusos. Mandarei chamá-lo aos meus aposentos. (GRITA, fazendo sotaque nordestino) Guildestern! Ô, Guildestern!

ENTRA Guildestern.

Guildestern
Mandou chamar, senhor?

Hamlet
Andei sonhando com meu finado pai. Que sabes tu desse médico novo que anda por aí?

Guildestern
O austríaco? Parece que é um especialista em problemas da cachola. Estudou com os árabes e judeus, sendo inclusive, um membro deste último grupo.

Hamlet
Diga que o príncipe da Dinamarca quer vê-lo. Em meus aposentos.

Guildestern
Vivo para servi-lo, Sr. (sai)
Apagam as luzes. INSTANTES. Quando voltam a acender, sentado numa poltrona ao lado da cama de Hamlet está Sigmund Freud, usando terno. Hamlet está deitado.

Hamlet
E ele quer que eu mate meu tio. O que devo fazer, Dr. Freud? Me diga.

Freud
(com sotaque alemão)
Yá, você não suporta a idéia de algum homem dormindo com teu mamã. Os gregos já sabiam disso, pode ser visto no mito clássico do Édipo-Rei. E me parrece que estamos diante de um clássica caso de transferrência. A complexo de Édipo que você sentia em relação a teu papá, você agora está transferrindo parra teu tio, Yá?

Hamlet
Mas e o fantasma?

Freud
Das fantasma é uma símbolo. Temos que criar símbolos para tornar nossos sentimentos compreensíveis. Como a medo que você sente, a medo de nom ser mais amado por seu mamã, é a recordaçón de um medo tipicamente infantil, você recorre a um símbolo de medo presente no imaginário das crianças. No caso, das fantasma. Poderria também ser um bicho-papón, ou o ogro, ou a lobo dos contos de fada.

Hamlet
Mas Ofélia também viu meu pai.

Freud
Pelo que você me falou desta moça, ela nutre uma paixón por você, mas a educazón conservadora faz com que ela se reprima zexualmente. Ora, das repressón de ordem zexual é o principal componente da histerria feminina.

Hamlet
E se eu fizer sexo com ela, ela ficará curada?

Freud
Há a possibilidade. Mas pelo que você falou, ela associou o símbolo do fantasma com um apelo divino à castidade dela. Uma vez que isto esteja enraizado, ela nóm farra zexo sem casar antes. A mente medieval é muito religiosa.

Hamlet
Tadinha da bichinha, é complicada. Se não resolver isso, acaba enlouquecendo, se mata, vai ser a maior merda! (pausa) Renuncio à tragédia. (levanta) Se é pra curar Ofélia, caso com ela. Obrigado, Dr. Freud, o Sr. foi de grande ajuda. (cumprimenta-o, e vai saindo)

Freud
Ah, das príncipe, nóm estarria esquecendo de nada?

Hamlet
O quê?

Freud
Meus honorrários.

Hamlet tira uma bolsa da cintura e joga-a a Freud.

Hamlet
Obrigado, mais uma vez.(sai)

Entra Guildestern

Guildestern
Dr. Freud! Só o Sr. pode me ajudar. Desde que o príncipe sonhou com o rei, eu tô pensando em fazer uma fezinha no bicho. O rei era teimoso como uma mula, então tô pensando em cercar o burro.

Freud
A rainha já andava com o irmón dele quando o rei era vivo?

Guildestern
Corre o boato que sim.

Freud
Então o rei era corno. (mete a mão no bolso, entrega a Guildestern algumas moedas.) Vai dar boi na milhar; faz uma fezinha pra mim também.

Guildestern
Valeu, dotô. (sai)

Ouve-se a marcha nupcial. Entram Hamlet e Ofélia, Guildestern os segue, jogando arroz sobre os noivos.
//FIM


OS IDIOTAS 2 – A VINGANÇA

agosto 17, 2007

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

Por Mauricio Dias

Três amigos num bar, dois na faixa dos trinta anos, o outro com uns quarenta e cinco.

JOVEM 1

Esse cara só não é perfeito porque não tem uma filha linda de dezessete anos pra jogar na minha mão.

COROA

Taí. Se eu tivesse uma filha linda, eu jogava na tua mão.

JOVEM 1

Já imaginou? Tu podia ser meu sogro!

JOVEM 2

Mas se ele fosse teu sogro, o relacionamento de vocês ia ser uma merda!

JOVEM 1

Que é isso? Adoro esse coroa.

JOVEM 2

E não há dúvidas que ele gosta de você. Mas gosta por quê? Porque você é um beberrão, vagabundo e mulherengo. Agora, se essas qualidades todas fossem encontradas no marido da filha dele, ele ia ficar furioso: – Porra, minha filha casou com um traste! (pausa) Todas as características que hoje são motivo de aproximação entre vocês iam ser motivo de ojeriza.

COROA

Tem razão. Ia querer minha filha casada com um beberrão, vagabundo e mulherengo?  (aponta o JOVEM 2) Esse é um filósofo! Vai ver foi por isso que eu não tive filha, pra ela não causar discórdia entre minha pessoa e meus amigos.

JOVEM 2

Não… Você não teve filha porque você era broxa.

COROA

Conheci tua mãe antes de você nascer, tu sabe disso…

JOVEM 2

Claro que conheceu! Ela é tua prima…

COROA

Você sabe que prima não é irmã.  

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Tomar banho!… Ela é dez anos mais velha que você! Vê se ia dar mole pra um pirralho.

COROA

Os bons modos me impedem de comentar certas coisas…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Não vem com essa não, tu não vai conseguir me botar pulga atrás da orelha.

JOVEM 1

Pensando bem, vocês dois se parecem um pouco…

JOVEM 2

Parece nada. Eu sou bonito e ele é um caco.

COROA

(mostra o copo)

Quantos barris eu tenho de vantagem? Tu acha que vai chegar na minha idade sem barriga e papada? (aperta a bochecha do JOVEM 2) Coisa linda do papai!

JOVEM 2

Se eu fosse teu filho, tu agora ia ter que dar uma grana firme, pra compensar os anos todos em que você não me deu mesada, não pagou meu colégio, não me levou pra praia, futebol…

COROA

Ah, tá magoado… Liga não, papai tava ocupado, mas papai te ama…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Ô sujeito escroto…

JOVEM 1

Esse cara tinha que ser meu sogro. Eu ia morrer de cirrose antes dos quarenta.