TRIÂNGULO II

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

autor: Mauricio Dias 

PERSONAGENS

SENHORA, SENHORA 2 – Mulheres na faixa dos 40 anos.

HOMEM – malandro da Lapa carioca dos anos 40.

1 e 2, caracterizados de crianças

Uma SENHORA e dois MENINOS – 1 e 2 – ao redor de um caixão. Todos vestidos à moda dos anos 40. Os três choram. ENTRA uma SENHORA 2.

SENHORA 2

Querida, meus sentimentos. É uma perda irreparável.

SENHORA

Ah, querida… Sei que, esteja onde estiver, ele vai estar bem… O que me preocupa são os garotos. Como é que eles vão crescer sem um pai?

SENHORA 2

(SE APROXIMA DO CAIXÃO) Nossa, tá inchado, né?

SENHORA

Bebia muito, né? Cachaça…

SENHORA 2

Descanse em paz…

ENTRA um HOMEM, vestido de branco, usando chapéu, bigodinho, pinta de malandro dos anos 40.

HOMEM

A “madama” que é a viúva?

SENHORA 2

Não, é ela…

HOMEM

Minhas condolências… Seu marido era um grande puto… (t)Grande puto!

SENHORA

O Sr. veio até aqui pra ofender a memória de meu marido, ofender a minha família? (TRAZ OS MENINOS PARA JUNTO DE SI, AFAGA-LHES A CABEÇA)

SENHORA 2

Que espécie de monstro faria uma coisa dessas? Não respeita nem um funeral ?

1

(CHORANDO)Papi…

HOMEM

Não… Não vim aqui pra ofender ninguém… É a mais pura verdade.

SENHORA 2

Se eu fosse homem, ia-lhe à cara!

SENHORA

Não tem nenhum segurança nessa capela? (GRITA)Polícia!

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA FOTO, ESTENDE-A À SENHORA)

Aqui… Pra Sra. ver que não estou faltando com a verdade, Deus me livre… (DÁ TRÊS BATIDINHAS NO CAIXÃO)

SENHORA

Mas o… O que é isto ?

SENHORA 2

Deixa eu ver… (PAUSA) Não é o seu marido ?

1 e 2

(VÊEM A FOTO) Papai!

SENHORA

Parece, mas… Vestido de mulher? E beijando um negão?

HOMEM

Esse rapaz de cor é o Juvenal. A grande paixão da vida do falecido.

SENHORA

Juvenal? Meu marido numa foto com… (t)um Juvenal? 

SENHORA 2

Talvez seja um truque… Ouvi dizer que hoje em dia se consegue mudar muita coisa retocando uma foto.

HOMEM

Não há retoque, posso garantir. Eu tava presente quando a foto foi tirada.

SENHORA

Calúnia! Não acreditem nesse monstro, meninos! Ele quer destruir a memória do pai de vocês.

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UMA CARTA, ESTENDE-A À SENHORA) Acho que a Sra. reconhece a letra do falecido, não é ?

SENHORA

“Juvenal, amor… Quero te encontrar no nosso ninho…” (SEGUE LENDO, EM SILÊNCIO, CAMINHA UM POUCO)

SENHORA 2

É a letra dele mesmo?

SENHORA

Parece que sim… Mas… Como?

HOMEM

Desde Adão e Eva, ninguém nunca entendeu o porquê do amor. Não dá pra explicar, percebe?

2

(CHORANDO)

Papai… Boneca…

HOMEM

Tirando a cachaça, o Juvenal era a grande fraqueza do falecido. Mas a Sra. pode ter a certeza de que ele nunca traiu a Sra. com outra mulher.

SENHORA

E o Sr. acha que isso é um consolo? Saber que meu marido estava amasiado com um (t)negro?

HOMEM

O único mal-passo dele era o Juvenal. Mas ele sempre se preocupou com a Sra. e com os pequenos.

SENHORA 2

E-eu… acho que vou desmaiar…

HOMEM

Inclusive, chegou a pedir, que caso algum dia, ele, seu marido, faltasse à Sra., o Juvenal olhasse por vocês.

A SENHORA 2 cai no chão. Ninguém se importa com ela.

SENHORA

E onde está este Juvenal? Eu quero conhecer esse homem.

HOMEM

O navio em que ele trabalha desembarcou ontem à noite. Por isso ele não pôde vir velar o corpo. Este corpo que ele tanto amou.

SENHORA

Um marinheiro? Meu marido tinha um caso com um marinheiro?

HOMEM

Na época em que seu marido o conheceu, ele ainda era estivador. De dois anos pra cá é que ele virou marinheiro.

SENHORA

Há quantos anos já durava esse caso dos dois ?

HOMEM

Há coisa de uns dez anos… (PAUSA) Pra Sra. ver: o nome do seu filho caçula é Jonas, não é ?

SENHORA

Sim, é Jonas…

HOMEM

Pois foi o Juvenal quem escolheu esse nome.

SENHORA

Ai, meu Deus…

HOMEM

(PUXA DO PALETÓ UM ENVELOPE, ESTENDE-O À SENHORA)

O Juvenal pediu pra entregar isto à Sra.

SENHORA

(ABRE O ENVELOPE)

Dinheiro ?

HOMEM

Assim que puder, ele promete mandar mais.

SENHORA

Abençoado seja o Juvenal. (PASSA A MÃO DENTRO DO CAIXÃO, COMO SE FIZESSE UM CARINHO NA CABEÇA DO MORTO) Obrigada, querido.

HOMEM

Então eu vou andando. Qualquer notícia, entro em contato com a Sra.

SENHORA

O Sr. tem meu endereço, certinho?

HOMEM

Tenho, fique tranqüila… Até logo a todos. (SAI)

SENHORA

E eu que já ia pensando mal do pai de vocês… Pois sim… Era um pai exemplar…

1

(DE FORMA INFANTIL, NÃO AFEMINADA)

Quando eu crescer, quero ser veado que nem o papai.

2

Ah, eu também quero!

1

Invejoso, só porque eu falei…

2

Não, eu já tinha pensado muito antes… (OS DOIS SE EMPURRAM)

SENHORA

Meninos, não precisam brigar… (CONCILIADORA) Os dois podem ser veados…

1 e 2

(BATENDO PALMAS)

Oba!

Os três se abraçam, a SENHORA 2 começa a levantar, coçando a cabeça.

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