Speakers’ Corner

A Speakers’ Corner será um nicho do site onde EU exercerei, dentro dos limites do bom senso, o direito de falar mal dos outros. Sempre é um risco: “The tongue is the bullwhip of the body”  (A lingua é o chicote do corpo.)

Pra quem desconhece a verdadeira “Speakers’ Corner”, ela fica em Londres, sugiro ir na wikipedia.org, que lá tem (Em inglês. Sorry, não consegui dar link, talvez pela falta do www. ).

Os trechos em negrito foram explicações posteriores que achei necessárias adicionar ao que já se encontrava em emails antigos.

Em 05-2007 tinha me queixado da imbecilidade reinante no cinema e nas artes a um grupo de amigos.

Um deles respondeu: “acho que a saída para a coexistência pacífica é o deboche.”

Respondi:

Atenção, ISTO É UMA METÁFORA: Nós estamos desde crianças sendo estuprados por isso. Não dá pra debochar de algo que já te violou, pretende continuar te violando, e se algum dia vc tiver filhos, vai querer violá-los tb. Vai dizer o quê? ‘Ah, ah, senhor estuprador, seu pau já nem me machuca mais…’

Coexistência pacífica não é possível. Quando o ‘crítico’ (sic) de cinema do globo dá o bonequinho aplaudindo de pé os 300 (de Esparta) e escreve sobre aquele lixo: (o diretor) “Snyder revela uma veia autoral”, não é caso mais de debochar. Um incompetente está prestando um desserviço a milhares de pessoas, que gastarão seu dinheiro para ver aquilo (e claro que boa parte do público é tão imbecil que irá gostar do lixo).

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O que se segue é uma coletânea de emails sobre cinema, em geral enviados a um amigo crítico de cinema, o jornalista Marco Antonio Barbosa.

A respeito de ‘O Terminal’, de S. Spielberg.

‘Passando na Net ‘O Terminal’. Não me animei a gastar dinheiro para vê-lo, na tela ou em dvd. Fiz bem. É mais ingênuo que qualquer comédia americana dos anos 50, toda aquela gente bem intencionada. O filme parece ignorar que o cinema já nos deu B. Wilder, Altman, W. Allen; imagine um cientista escrevendo hoje um tratado sobre genética que ignorasse tudo que se publicou sobre o assunto nos últimos cinquenta anos. E o mais estranho é que o roteirista é o diretor-roteirista do interessante ‘O Senhor das Armas’, com Nicolas Cage. Sabe como é roteirista, Topa-tudo-por-dinheiro.

Zeta-Jones se interessa por um imigrante do leste europeu que nunca perde o ânimo diante das adversidades – ‘Forrestenko Gumpenkov’.

Mas Spiel filma bem pacacete, faz o que quer com a câmera, não sentia isso vendo um filme desde ‘O Pianista’ do Polanski, quando a fluidez da narrativa superou minha resistência ‘a mais um filme de campo de concentração pra ganhar Oscar’ – o 3o. em dez anos, com Schindler e ‘A vida é bela’.

Orson Welles, fã assumido de John Ford, no livro de entrevistas a Bogdanovich diz que ‘sentimentalismo é o vício de Jack’, sendo Jack um nick carinhoso para o velho Ford.

Spielberg é a mesma coisa. Mas como no caso de Ford, ‘quando ele consegue superar o vício, tem-se a verdadeira pureza’. (apud Welles)

Vc viu ‘Munique’? Sei que voltamos à causa das doze tribos da qual me queixei acima, mas tem coisas ótimas.’

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Vi ontem ‘Crime Delicado’.

Não achei nenhuma maravilha. Mas vieram-me à mente algumas questões:

1) O filme mostrar uma deficiente física é ou não uma forma de exploração?  (É claro que não o é da mesma forma que o Sebastião Salgado explora os pobres, ela ali entra como atriz, está interpretando um personagem e tem uma característica física que coincide com a da personagem). Vieram-me à mente ‘Freaks’ de Tod Browing e o perneta Gary Sinise de Forest Gump. ‘Crime Delicado’ é ou não fetichismo sadomasoquista disfarçado de ‘discussão sobre fetichismo sadomasoquista’?

2) O personagem de Marcos Ricca realmente estuprou a moça?

3) Ela colocar a perna mecânica sob a pintura no final significa o quê? Que ela se libertou da convenção da sociedade ou que ela se libertou da manipulação do pintor?

4) Que todas as pinturas que aparecem no filme não são boas, eu nem discuto. Oito anos desenhando modelo-vivo me respaldam. Mesmo aquela pintura principal, que tem um grafismo razoável, é fraca, não tem composição. Ninguém desenha ao mesmo tempo que realiza o Kama Sutra, torcendo toda coluna como o personagem. O Paulo Halm fez há uns quatro anos um curta em que Ruy Guerra interpretava um pintor assassino, referência a Iberê Camargo, alguém viu este filme?  Como no filme de Halm, em ‘Crime’ o que eu sinto é que estes caras querem falar sobre pintura sem ter nenhum estudo prático-teórico sobre o assunto.

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O personagem da criança pobre, criminosa ou não, tornou-se tão emblemática no cinema brasileiro a partir dos anos 90 quanto o era o cangaceiro nos anos 60. Em ambos os casos ocorre a romantização da figura-símbolo e a culpabilização da sociedade (nunca se culpa o indivíduo por suas opções, ou seus pais por terem filhos que não podiam sustentar e educar). Mesmo que a maioria das crianças ou nordestinos pobres nunca tenha optado pela criminalidade, os que o fizeram não são mostrados como culpados, apenas vítimas.

Em ambos os casos nota-se uma curiosidade antropológica do artista (normalmente um jovem oriundo da classe alta) pelo objeto (o pobre). As vezes parece que a favela está para os ricos Moreira Salles como o extinto Simba Safári esteve para as famílias classe média paulistanas: um lugar para se ver espécimes exóticos em seu próprio ambiente.

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Troca de emails com uma amiga, sobre Cidade de Deus:
Ela escreveu:
“Outro dia eu estava justamente falando do contraste entre Pixote e Cidade de Deus. Como um é absolutamente contundente, duro, real e o outro é um clipe da miséria para inglês ver.”
Respondi:
CDD é um dos filmes mais mal-intencionados que eu já vi. E o que é pior, extremamente bem-feito. A cena que o traficante obriga um garoto a matar o outro é uma das coisas mais violentas e gratuitas que eu já vi no cinema, mostrar eles dando tiros nas mãos dos garotos já era mais do que o tolerável. Um filme como aquele marginaliza mais ainda um lugar como a CDD verdadeira, mostra como antro de bandidos um lugar onde 97 % da população é de trabalhadores. E esse pessoal todo de cinema, (NOMES QUE CONSTAVAM DO EMAIL, AQUI SUPRIMIDOS) têm uma relação muito promíscua com o tráfico.

Há mais alguns comentários sobre este mesmo filme alguns parágrafos abaixo, estão separados pois constavam de outro email.

Quando eu escrevia sobre cinema para um site, alguns cinéfilos mandavam mensagens, elogiando ou reclamando dos textos. Os textos continuaram no ar mesmo depois de eu encerrar minha colaboração no site. Em 2005, um jovem que desejava ingressar na carreira, me pediu opiniões. Logo pra quem ele foi pedir… Trocamos alguns emails, seguem trechos do que eu mandei a ele (há partes editadas, não estou a fim de me arriscar a levar processos a troco de nada). Evidentemente, em alguns momentos, para explicitar uma opinião, crio uma caricatura, exagero certos pontos. Sobre este tópico recomendo que leiam também “O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!”, do já citado jornalista Marco Antonio Barbosa, que pode ser encontrado na internet (link ao final do texto).

Vários dos comentários que ali se encontram são pertinentes para o aspirante a fazer cinema.

Voltando ao jovem, ele também havia perguntado sobre Goddard e o que eu achava de ‘Cidade de Deus”.

Respondi:
(…)Não sei qual a sua condição, e assim, seria leviano dar sugestões. Você parece sincero no seu gosto pela arte, então deve entender que há outras artes mais acessíveis que o cinema, E QUE PODEM SER UM MEIO DE SE CHEGAR AO CINEMA. Cinema só existe há cem anos, se Kurosawa, John Ford, Billy Wilder tivessem nascido em 1800, o que esses homens teriam feito na vida? Imagino que Kurosawa seria pintor, Wilder escreveria para o palco. John Ford, não sei.
Então, o que eu diria que é mais importante: procure escrever esquetes pra teatro e estude desenho, faça um curso de desenho sério, que tenha como base o modelo-vivo  (Não sei de nenhum nome em sua cidade para lhe sugerir).
O desenho te abre muitas portas, e seu trabalho não necessita de apoio externo ou verba. Se vc escrever um roteiro bom as pessoas não vão se dar ao trabalho de ler (falo por experiência própria), porque isso lhes tomaria entre uma e duas horas, mas um bom desenho pode ser identificado em 15 segundos. Talvez vc ache que não tenha jeito pra coisa, mas acredite, jeito pra coisa é menos importante que vontade e dedicação.
Vá aos primórdios, as fontes do que hoje chamamos de cinema: leia Shakespeare, Moliére, procure entender as obras de El Greco, Rembrandt, Delacroix. Se possível,  com o auxílio de professores e profissionais, pessoas que poderão te auxiliar a ter uma visão mais ampla – evite os charlatões,  que são muitos, e fuja de qualquer um com discurso de que ‘a arte deva ser um meio de transformação da sociedade’.
Sobre Goddard, seus filmes mais interessantes são “Uma mulher é uma mulher” e “Pierrot Le Fou (O Demônio das onze horas)”. Mais do que pedantes, os textos muitas vezes são indulgentes. Como quem tira um monte de fotos da cidade onde passou as férias e obriga os outros a verem os slides, achando que aquilo interessa a mais alguém.

Cidade de Deus é canalha porque não mostra que a violência na favela acontece em grande parte porque um bando de hedonistas querem cheirar pó e fumar maconha. A pobreza não ajuda, ok; mas em 1940, já existiam favelas habitadas por pobres, e não havia nada que se comparasse à violência pós-1970. É canalha porque mostra a periferia como uma região onde só tem bandido, quando estes são minoria.
E tem falhas de roteiro, Zé Pequeno depois de tomar uma facada no braço mata um colega porque esse ficou fazendo perguntas demais. Isso num filme tipo Pulp Fiction é engraçado; ali, que se pretende ser realista (embora em nenhum momento o seja) está fora de lugar.
O pobre do personagem do Buscapé não tem nem direito a um nome, quando a jornalista pergunta qual o nome dele, ele responde ‘Buscapé’. Vê se alguém que está procurando se colocar na empresa (ele era fotógrafo, e ela, superior a ele no jornal, certo?) vai dizer uma m… dessas.

O texto que mencionei encontra-se em http://telhadodevidro.wordpress.com/2007/05/27/o-verdadeiro-manual-do-candidato-ao-vestibular-de-jornalismo

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