O universo está se expandindo

O título deste texto foi tirado de uma fala de Annie Hall, de Woody Allen, sendo pronunciada pelo protagonista na infância, num momento de crise. É mais ou menos este o assunto do texto, como você irá ver, se tiver paciência de ler até o final.

Tenho mais alguns textos humorísticos prontos que eu poderia lançar aqui no site – tanto textos para teatro, quanto prosa literária. Mas pra quê?

Além disso tenho alguma idéias anotadas, as quais, se forem desenvolvidas, acho que podem render bons textos. Mas, repetindo, pra quê?

Num texto sobre a internet, Umberto Eco mencionou (cito de cabeça) : Se ao procurar um assunto, encontro um milhão de textos sobre ele, acaba sendo tão inútil como se não tivesse nenhum.

Primeiro lugar: as pessoas não tem tempo para ler um número infinito de textos. Se não há um índice de referência, não há como separar o joio do trigo. Segundo, o excesso de informação a banaliza. No Antigo Egito, saber escrever me garantiria um lugar na côrte. Hoje em dia, vale muito pouco. Se as pessoas abrem uma lista e nela tem dez mil blogs, o meu se perde lá dentro, e acaba ficando na mesma categoria do da menina de treze anos que acha importante escrever suas impressões sobre a primeira menstruação. E com isso não digo que a primeira menstruação seja um assunto irrelevante, apenas que, aos treze, certamente ela não terá vivência e bagagem literária para escrever algo relevante.

Lembro-me da época em que comprava cds de jazz, 1994, 95. Era um de cada vez, não tinha muita grana, as discografias ainda estavam sendo lançadas em cd. O prazer da descoberta, aos poucos… Duke Ellington, Charles Mingus, Miles Davis, John Coltrane, Charlie Haden… Dependendo do quanto gostasse ouvia o disco duas vezes por dia, certas faixas eram reptidas incessantemente. Só uma ou duas semanas depois ia comprar outro. Hoje em dia um moleque de doze anos com uma boa banda larga pode baixar todos os discos do Mingus em horas. Por um lado é bom, democratiza, o moleque não teria grana pra comprar os cds ou que fosse. Por outro lado, a discografia completa assim de mão beijada fica banalizada. Não há um processo de apreciação gradual, onde se descobre afinidade com o que consta da obra. Não há tempo de leitura, maturação, é massificado. Nem há degraus galgados, nem sentimento de conquista. Porra, eu estava há meses procurando ‘A Love Supreme’ do Coltrane – já tinha ouvido emprestado – quando o encontrei, foi aquele ‘até que enfim’.  

Em segundo lugar: lançando textos aqui, estou voluntariamente fazendo algo que equivale a abrir a carteira e verificar seu conteúdo num vagão de Metrô lotado às 18:45 – estou facilitando para levarem o que tiver ali.

“Este cara é muito pretensioso”, você deve estar pensando.

Seria, se eu dissesse que a minha carteira no Metrô estava cheia de dinheiro, aí eu estaria atribuindo algum valor aos meus textos. Não estou: um gatuno rouba minha carteira, lá acha dez reais, nenhum cartão de crédito, nada de valor – pra ele foi inútil. Mas acontece que minha carteira de identidade, a única cópia de uma foto minha com meus sobrinhos, uma medalhinha de Nossa Senhora que minha avó me deu, um monte de coisas que, pro ladrão são fúteis, mas a mim são caras, estavam ali.

Isso tudo é uma metáfora: nem uso carteira, nem  tenho medalhinha de Nossa Senhora. Ia incluir no conteúdo fictício da carteira fictícia um guardanapo com o telefone de uma menina (no momento, também ela fictícia, mas mês que vem ela aparece.). Mas lembrei: guardanapo não, porra, hoje em dia anota-se os números no celular.

Bom, blá-blá-blá, e tudo isso pra quê? Que estou ganhando com isso?

Parafraseando um diálogo de  Maus de Art Spiegelman (tenho um desenho – um rabisco – autografado dele), o alter-ego do autor fala: “Samuel Beckett já disse: Toda palavra é uma mancha desnecessária no silêncio e no vazio.

E depois, o mesmo personagem emenda: “- Por outro lado, ele DISSE isso.” (caixa alta do texto original)

Sei que citar Beckett através de uma história em quadrinhos é muito low brow. Mas, aviso aos navegantes, realmente li Becket.

O que quero colocar é que a constatação do vazio e da falta de sentido em se manifestar não calam o desejo de se manifestar. Pois ‘não se manifestar’ é a morte, e se estamos vivos queremos negá-la, esquecer dela.

Amebas e protozoários existem? Fisicamente, é claro; mas tomam decisões, gostam ou desgostam das situações que se apresentam a eles? E as pessoas que assistem novelas, em que categoria entram? O que é realmente ser, estar? Por setenta milhões de anos os dinossauros mandaram na terra e o que eles deixaram, pilhas de ossos? Michelângelo viveu menos que noventa anos, mas sua arte, a declaração contida nela, suas opções, vitalidade, está tudo aí. Se ainda estará aqui nos próximos setenta milhões de anos, é pouco provável, mas a relativa brevidade da duração de sua vivência é contabalançada pelo fato de que todo o mundo pensante conheceu sua obra.

Ele influenciou o homem, moldou um caminho, tornou-se inquestionavelmente um cânone.  

Então, eu que não tenho recursos pra fazer um filme, não devo me furtar ao direito de dizer que Coppola cometeu erros no Poderoso Chefão 2, mas que ainda assim este é um GRANDE FILME. Ao apontar defeitos posso soar como um músico de forró dizendo que Beethoven cometeu erros, querer discutir algo que está muito acima do meu gabarito; mas eu exibo argumentos em prol do que eu acho, não é na base do “não gosto e f***-se”.

Sei que Coppola não é para o cinema o equivalente a Beethoven em música, não sou tão filisteu assim, era uma caricatura. Aliás, a música é muito maior que o cinema.

Segue o link para o texto sobre O Poderoso Chefão 2 –https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/coppola-e-os-chefoes

Entrando na página, há outros links para textos na coluna à direita da tela.

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