Eu sou sério às vezes – não sempre.

Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Já leu o Velho Testamento? Tem sempre alguém sendo queimado, estuprado, apedrejado – imagina o efeito traumático que isso teve no imaginário infantil durante centenas de gerações. O Pentateuco é mais assustador que os quadros de Hieronymus Bosch. Noé amaldiçoa o próprio neto (e toda sua geração ! – Gênese 9:25), por um erro cometido pelo pai deste – o que o filho tem com isso? O Criador pede a Abraão para matar o próprio filho com uma faca, apenas para provar sua fé (Gênese 22). A cólera divina mata 250 judeus opositores de Moisés (Números 16, v.31 – 35) e depois mata mais 14700 judeus (Números 17, v. 9 -15). É compreensível que aqueles nascidos no mundo contemporâneo civilizado questionem a lógica destes trechos bíblicos. ‘Por quê?’- é uma pergunta perfeitamente válida.

Groucho Marx, Billy Wilder, Woody Allen, Mel Brooks, creio que muitos judeus desenvolvem o senso de humor como escape das barbaridades que lhe são ensinadas quando jovens.

Além disso, há a questão célebre da mãe judaica dominadora. A velha piada, a mãe judia nova-yorkina andando com dois meninos, alguém passa e comenta:

– Que gracinhas! Quantos anos eles têm?

– O médico tem cinco e o advogado três.

Que também a mãe de Jesus era dominadora, não há dúvida. Ver Ev. João 2. 3-11: Nas bodas de Canaã, Jesus é ordenado pela mãe a repor o vinho. E já era homem feito então. Imagina ele criança:

– Mãe! Vou brincar de pique-esconde com o pessoal!

– Nem pensar, você tem que estudar as escrituras! Ou já esqueceu que daqui há uma semana tem que impressionar os sábios do templo?

– Ah, droga, eu não quero ser o messias…

– Não discuta com sua mãe!

Por isso que alguns judeus desenvolvem este senso de humor; é um drible contra o fardo histórico/social. Se bem que dizem que os essênios, seita que se julga semelhante à de João Batista, condenavam expressamente o riso. Costumo simpatizar com o santo, apesar da dieta de gafanhotos (Ev. Mc 1:6) ser esquisita. Mas tá louco, banir o humor? Humor é divino, como a música, a pintura, é alimento pro espírito. Platão também baniu boa parte disso tudo da República. Soa como atitude de bicha velha…

Se eu tivesse interessado numa seita ou sistema filosófico, e o representante me falasse que o riso tava proibido, eu mandava o cara à m****! Se bem que essa até podia ser a prova de admissão. Imagine: ao ouvir da proibição, você condena o absurdo. João Batista, sorridente, viraria pra você: – És um justo, passaste na prova. Espero que entendas: temos que perguntar isso em todas as admissões. De vez em quando, surgem por essas bandas uns malucos de olhar rútilo, e ao dizer-lhes que o humor é proibido, eles concordam. Ora, um louco desses não tem espaço aqui.

Então ele poria a mão sobre meu ombro, amigavelmente:

– Já ouviu aquela do Lot, que escapou de Sodoma e Gomorra ? Morreu de pressão alta, o coitado…

– Sério ?

– A mulher dele virou uma pedrona de sal, ele falou: – vou comer ela assim mesmo…

E eu, gargalhando: – Gostei do João Batista, é um cara cabeça!

Quanto ao humor de Jesus, você vê que ele tinha até seu bordão próprio, à maneira dos comediantes radiofônicos. Cada vez que na Bíblia leio Jesus dizer: – “Em verdade, em verdade vos digo…” , imagino que é uma senha, os apóstolos, sorridentes, trocavam cotoveladinhas para chamar a atenção de um qualquer que estivesse distraído, como quem diz:

– Presta atenção, que Jesus vai mandar uma boa!

– Vai lá, Jesa! …

Imagino um esquete: Jesus, com as chagas, na fila do INPS de então. Na fila, à frente dele, uma adúltera com pedra até nos rins e um centurião romano, aparentemente normal, mas que por baixo do saiote leva uma cenoura que foi plantada em solo nada sagrado (do latim ‘marius gomus’).

Após penar no calvário da fila, Jesus se vê diante da funcionária, armada com o mal humor habitual das recepcionistas de órgãos públicos.

– Primeiro nome?

Ele, exausto, com um suspiro: – Jesus…

– Sobrenome?

– Cristo (a maior parte das pessoas acha que Cristo é sobrenome, eu vou seguir daí…)

– Trouxe a carteirinha ?

– Não…

– Algum documento ou comprovante?

Ele pega aquele sudário menor, triangular, o só do rosto.

Ela examina: – Não tá muito parecido, é antigo ?

– Foi tirado ainda agora…

– Você pegou o nada-consta?

– Não… – A essa altura as chagas já encheram de sangue a mesa da mulher.

– Vai precisar do nada-consta.. – Ela pega um paninho e vai limpando a mesa..

– Onde é que pego isso ?…

– Ih, você vai ter que ir lá no templo de Jerusalém… – Ela dá uma olhada na ampulheta – E tem que ser rápido, que lá fecha na décima hora… Próximo!

Jesus, exausto, suando e sangrando: – Por que eu não tenho Golden Cross ?

P.S. para os monoglotas (a ignorância deste fato pode estragar a piada) – “cross” é cruz em inglês, Golden Cross = cruz dourada.

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One Response to Eu sou sério às vezes – não sempre.

  1. […] neste mesmo blog sobre a Bíblia, de forma descontraída (um texto do qual eu gosto, no link https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/09/07/eu-sou-serio-as-vezes-nao-sempre […]

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