O negócio é perguntar pela Maria

por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

O título do post foi escolhido na última hora, tirado de um bordão do famoso Zé Trindade. Inicialmente era pra ser outro título. Fiquei a semana toda lembrando daquele diálogo hilário do ‘Tropa de Elite’, quando um mecânico da PM vai a um superior pedir pra sair de férias. ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir.’ – fala o oficial, com a maior cara de pau do mundo, sorrindo coadjuvado por um Aspone. O ator faz o picareta muito bem, como aliás toda essa parte da PM é uma crítica cheia de humor – destaque para o ator Milhem Cortaz, como o Capitão Fábio.

Este ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir’ seria o título anterior do post. Mas isto é uma digressão, o assunto não é o filme ‘Tropa de Elite’, já falei bastante sobre ele – posts abaixo.

Na verdade todo o post de hoje deve começar com o mero registro de uma bobagem sem fim: ocorre que outro dia minha mãe estava na cozinha cantando uma marchinha do tempo do onça. Eis a letra, que pedi pra ela anotar:

Zé Corneteiro,

Casado com um peixão.

Levou sua mulher

Pra mostrar no batalhão.

No outro dia

Por ordem do major,

O Zé foi promovido

A Corneteiro-mor.

Lá vai o Zé, dar serviço de corneta.

É o corneteiro mais feliz deste planeta.

Quando ele passa,

O mundo inteiro

Aponta o Zé:

Lá vai ele, o corneteiro!

Não sei se a letra está cem por cento certa – foi baseada em memórias de meio século. Agora, imaginem a cena: uma senhora sexagenária de cabelos brancos, e avó de três, cantando esta pérola. A letra, que sugere um humor de caserna, é uma marchinha de Lalá Araújo pro carnaval de 1953 – quando foi gravada pela vedete Virgínia Lane. Info – http://cravoalbin.ibest.com.br/detalhe.asp?nome=Virg%EDnia+Lane&tabela=T_FORM_A&qdetalhe=art

Muitas destas marchinhas antigas são, com o perdão do arcaísmo – mas este se aplica bem ao tema – , do balaco-baco.

Outro dia vendo o Canal Brasil, rolava uma daquelas chanchadas carnavalescas dos anos 50. Uma senhorinha com pinta de dona de armarinho de costura (‘armarinho’? Eu tô muito antigo hoje…) cantava em meio aos foliões de revista. A letra era um incentivo aos homens para se aproximarem das donzelas sem temor – afinal, nesses filmes é sempre carnaval. Só consigo lembrar uma estrofe, hilária:

Mulher é igual a pudim,

Goiabada, rocambole.

Não vá achando que é duro,

Vai que é mole!

Vai que é mole!

Gosto de humor, quem ler este site de cabo a rabo vai perceber isso. Mas até que ponto as ‘obras’ descritas acima são reveladoras do caráter brasileiro? Alguém imagina num filme do Bergman um tenente sueco falando a um subordinado: ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir.’?

Ou a população de Munique cantando em coro pelas ruas: “Por ordem do major/ O Zé foi promovido/ A Corneteiro-mor.”

Ambas as suposições partem da idéia de uma versão traduzida do original tupiniquim, é claro. Zé Corneteiro em alemão deve ficar uma beleza – merece um libreto de Wagner. Ok, excluamos os alemães da comparação, pois eles sempre darão margem a comentários do tipo: Por outro lado, não somos belicosos, não mandamos minorias para campos de extermínio (mas reduzimos consideravelmente a população indígena ao longo de 500 anos).

E quem já viu os gringos fazendo turismo no calçadão de Copacabana com mulatas alugadas a preços módicos, sabe que eles não são sérios em tempo integral. Mas até a intensidade com que se dedicam ao dionisíaco em seu tempo de lazer é um dado da seriedade com que vivem no dia-a-dia. Os caras são robôs onze meses e meio por ano, na quinzena de férias alopram o mais que podem.

É claro que isto é uma generalização. Indivíduos são diferentes, tem formações e personalidade diferentes, não é o fato de terem nascido na mesma rua ou no mesmo prédio que vai torná-los iguais: mesmo irmãos são diferentes.

Mas que existem certas tendências comportamentais geo-culturais, isto existe. Nas sociedades mais abertas não são determinantes, mas influem na conduta das pessoas.

Já um sujeito que nasça numa comunidade isolada, sei lá, um Amish (lembra do filme ‘A Testemunha’, com Harrison Ford?), ou o membro de uma comunidade de pescadores de Fernando de Noronha, por falta de acesso a outros modus vivendi estará mais sujeito ao determinismo.

Retornando à falta de seriedade, o quanto esta é responsável pelo atraso brasileiro? O quanto ela nos torna passivos ao ponto de nem conseguirmos ver os problemas conjunturais, quanto mais combatê-los?

Não sei, e acho mesmo que não existe uma resposta geral. Como disse acima, indivíduos são diferentes, tem formações e personalidade diferentes. Então a percepção e disposição para lidar com tais questões variará de um para o outro. E há que saber também se há interesse em mudar certas situações. Para muitos não há, eles se beneficiam com a esculhambação.

E com isto não estou pedindo: ‘acabemos com o carnaval e com as marchinhas’ – estas meio que acabaram mesmo, perderam boa parte do apelo que um dia tiveram.

Mas em certas horas me pergunto: o que pode um cidadão comum fazer para demonstrar de facto sua indignação com relação a certos fatos e indivíduos notórios em Brasília? Como é possível que nenhum voluntarioso, possuidor de disposição e recursos, aja?

4 respostas para O negócio é perguntar pela Maria

  1. Marlos disse:

    Caro,
    Não disponho de cabedal antropológico, sociológico ou psicanalítico para discutir o tema, que acredito ser caro a Darcy Ribeiro e Roberto da Matta. Contudo, fico em dúvida se o que você chama de falta de seriedade é causa ou conseqüência do comportamento do brasileiro. A pergunta tostines é: o brasileiro não é sério porque o país é uma zona ou o país é uma zona porque o brasileiro não é sério.
    Prefiro, aliás, nem entrar na discussão por considerá-la inócua. Só lembraria que o ser humano é capaz de se adaptar às mais adversas condições, daí nossa sobrevivência enquanto espécie. Contudo não há seriedade que resista a uma suruba sistêmica e renitente a cercar o cidadão nas mais diversas esferas. Vai no Detran, tem que molhar a mão do dispachante. Chega o PM, tem que molhar a mão para não levar multa. E todas as demais mazelas que conhecemos. Um dia, o seu cidadão sério grita: “moralize-se a suruba ou locupletemo-nos todos” (não lembro a frase exata nem o autor, mas “locupletar” é uma palavra deliciosa), ou então repete o lema do Casseta&Planeta: “Suruba Brasil: ou organiza ou me convida”.

  2. O cavalheiro que forjou a frase acima citada foi o jornalista Aparício Torelly, o Barão de Itararé, e a frase correta era “ou restaura-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”.

    Um grande abraço e parabéns pelo Blog! Vou adicionar!

  3. nana2099@gmail.com disse:

    Minha mãe cantava muito essa marchinha para minha filha ha uns 6 anos atras inclusive ela pegou a “mania” de só dormir ao som de zé corneteiro por meses.

  4. mauricioodias disse:

    Sabe se a letra que eu transcrevi estava certa? Conforme coloquei no texto, havia dúvidas sobre a última estrofe.

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