Os brancos que se entendam

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Foi assunto de todos os jornais, o  cientista James Watson, ganhador do prêmio Nobel de medicina por ser um dos responsáveis pela descoberta da estrutura do DNA nos anos 1950, fez uma declaração altamente controversa, de que haveria diferença de inteligência entre raças.

Clicar em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1307829&idCanal=13

Com este currículo, Watson não é exatamente um qualquer. A mesma divulgação científica que está sempre pronta para abraçar o simulacro de ciência produzido por Richard Dawkins, condenou taxativamente Watson. É compreensível, por tudo o que se viu na política e história do século XX, que a ciência não tenha nenhum interesse em respaldar algo assim.

No jornal O Globo (18-10-2007), esta vontade de negar Watson chegou a um humor involuntário. Num box intitulado “Watson está ficando gagá ou quer aparecer”, é citado o geneticista Sérgio Penna, autor da frase que deu título ao tijolinho. Penna ali é citado às vezes entre aspas (o que se assume como sendo ipsis literis, apesar de os editores de jornais serem prodigiosos em mudarem o sentido de textos), às vezes de forma indireta.

Consta do texto:

1) “Na opinião do geneticista, nos últimos 500 anos a África tem sido vítima de um imperialismo europeu impiedoso e selvagem, que criou dissensões entre grupos étnicos e manteve o continente de joelhos.”

2) E, atribuído diretamente a Sérgio Penna: “Watson falou besteira, em uma área totalmente fora da sua”.

O mesmo cientista que no trecho destacado 2 critica Watson por se manifestar fora de sua área específica, usa no trecho destacado 1 a História como meio de explicar o processo. Se ele é geneticista, tem autoridade pra falar de História? 

Este é um assunto mais que desagradável, que pode ferir suscetibilidades. Tenho amigos negros brilhantes, não sei a quem interessa erguer a bandeira que Watson está levantando. Mas isto não significa que eu deva ouvir calado uma argumentação que não me parece embasada. Voltemos ao trecho destacado 1:

“Na opinião do geneticista, nos últimos 500 anos a África tem sido vítima de um imperialismo europeu impiedoso e selvagem, que criou dissensões entre grupos étnicos e manteve o continente de joelhos.”

A Índia sofreu com o imperialismo britânico, a China idem,  o Brasil e o México sofreram primeiro com o colonialismo ibérico e depois com o imperialismo. Malgrado todos os problemas sociais que estes países enfrentam hoje, a Índia tem um dos maiores pólos de informática do mundo, a China manda homens para o espaço, a produção econômica só do estado de São Paulo é maior que a de 90 % dos países africanos, a economia mexicana dispara na frente na América Latina.

Se as idéias de Watson nos desagradam, devemos ao menos tentar entender como chegou a elas e que argumentos tem, antes de condená-las.

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4 Responses to Os brancos que se entendam

  1. Marlos Mendes disse:

    Em 18/10/07, Marlos Mendes
    vi seu blog, depois te falo melhor, mas acho que vc pode melhorar ao fazer referências/links. o velho racista não explica a tese, ficou tudo no achismo.

    On 10/18/07, Mauricio wrote:
    o velho racista não explica a tese, ficou tudo no achismo.”
    Ele escreveu um livro sobre o assunto:
    “Agora Watson, que se prepara para publicar mais um livro (“Avoid boring people: lessons from a life in Science”), e que anseia pelo dia em que os cientistas deixem a tarefa de falar politicamente correcto… para os políticos, defende que, geneticamente, os brancos são mais inteligentes que os negros.” ( extraído de http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1307829&idCanal=13)
    Conhecemos a argumentação dele? Eu não, o jornal não deu – talvez só possa ser lida no livro. Agora, o cara que contra-argumentou, o fez de forma pífia.

    Em 18/10/07, Marlos Mendes escreveu:
    discussão sem sentido.
    na boa, isso é coisa de marqueteiro.
    não vou comprar um livro para saber porque ele concluiu que uma raça é menos inteligente.
    até a teoria da relatividade pode ser explicada (o básico) em poucas palavras. Se ele não faz isso, se não dá de cara o fundamento da tese, está se lixando para a ciência e ligando muito para a venda do livro.
    portanto, ele que se dane.

    On 10/18/07, Mauricio wrote:
    Também não sou simpático à idéia de Watson.
    até a teoria da relatividade pode ser explicada (o básico) em poucas palavras.

    A da Evolução também, o sistema heliocêntrico… uma penca de idéias hoje podem ser explicadas em poucas palavras, visto que já são universalmente aceitas.
    Mas em sua época, Copérnico e Darwin tiveram que enfrentar embates seriíssimos com colegas e a igreja.
    E na primeira década do séc. XX Einstein deve ter ralado páginas e páginas, para convencer o mundo que aquilo era viável.
    O que não quer dizer que eu esteja de antemão colocando o caso de Watson neste patamar.
    Como coloquei no texto anterior, “não sei a quem interessa erguer a bandeira que Watson está levantando.”
    Mas isto não muda o meu interesse em saber se ele tem alguma argumentação baseada em dados, ao invés de rejeitá-lo a priori.

  2. […] Para aqueles que leram o controverso post abaixo, recomendo que leiam o espaço ‘comentário’. Ali há uma troca de emails entre minha pessoa e o grande Marlos, a qual acho que deixa ainda mais clara minha posição ao decidir postar um texto sobre aquela notícia – o pós-escrito pode também ser encontrado no link https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/18/os-brancos-que-se-entendam/#comment-22 […]

  3. Marlos disse:

    Camarada,
    Claro que ficamos com curiosidade de saber do que se trata. Mas repito: se ele não mostra o fundamento de tese tão polêmica logo de cara é porque isso é menos importante do que causar polêmica — e vender livros. Poderia ser algo raso, só para chamar minha atenção. Tipo, os albinos têm olhos e peles mais sensíveis ao sol por falta de melanina, o que é provocado por genes recessivos. Ele poderia dizer, os negros são menos inteligentes porque geneticamente são determinados a fazer menos sinapses nervosas e criar as conexões entre neurônios responsáveis pela memória. O que não pode é simplismente ignorar a História e ficar no determinismo geográfico. Enfim, como já disse, do jeito que está esse assunto é perda de tempo.

  4. mauricioodias disse:

    Não sei exatamente qual o conceito que este indivíduo tem de inteligência.
    James Baldwin, Thomas Sowell, Machado de Assis, Lima Barreto, Duke Ellington, Miles Davis, John Coltrane, Pixinguinha, Cartola. Os conjuntos do trabalho deles são demonstrações manifestas de inteligência; então eu não sei exatamente a que Watson se refere.

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