Já é quase novembro

Queria fazer uma listinha de discos favoritos, pois é uma bela maneira de encher lingüiça. Mas depois que entrei no tema comecei a pensar em outras questões, e pronto, o que era pra ser breve foi se alongando. 

Há aqueles que ouvem música clássica só para poder falar: “-Eu ouço Wagner e Bach.” Ouvem menos pela música em si do que por encarar o ato como uma espécie de refúgio cultural em meio à massa de tribais. Não estou dizendo que são a maioria dos ouvintes de Bach, mas existem.

Bach é muito bacana. Mas não sou alemão, e nasci na segunda metade do século XX. Minha realidade é outra, eu também quero Tom Jobim e Cole Porter – tampouco sou americano, mas nasci no século que foi americano – o foi sem dúvida pela avassaladora predominância de sua cultura; e economia e poder militar, ok.

Cresci vendo Gene Kelly e Fred Astaire – ótimos veículos para o tipo de música que se fazia lá nos anos entre 30 e 50. Sinatra, Ella…

É claro que ao escrever tento embelezar minha figura: estes nomes do parágrafo acima só vieram depois dos pêlos no rosto. Como alguém que cresceu nos anos 1980, a referência era ver os clipes do Michael Jackson e tentar você mesmo reproduzir o passo do Moonwalk. Mas Quincy Jones estava na jogada também, dando certo respaldo.

A verdade é que prefiro ouvir Charles Mingus e Miles Davis a ouvir Bach. Sou um filisteu? Não disse que são melhores, sei que não são; apenas me identifico mais, e ouço com muito mais freqüência. Já minha atitude diante da pintura é totalmente oposta: não troco Rembrandt ou Ticiano por nenhum pintor do séc. XX. Poderia dizer que isto é fruto de ter tido uma educação plástica e pictórica (ainda que tardia, gostaria de ter estudado isso já na adolescência) e não ter tido uma educação musical. Conheço a linguagem da pintura, enquanto a da música aprecio apenas intuitivamente, num nível mais superficial.

Mas já gostava mais de pintores antigos do que de contemporâneos antes mesmo de ter estudado desenho. O gosto e a percepção se refinaram MUITO ao longo dos anos, mas já havia a tendência desde o início.

Esta questão me fez pensar. Pintores antigos chegam até nós com a mesma carga de interferência com que músicos ou dramaturgos, mesmo do que escritores antigos – especialmente os que não escreviam em português?

Tudo bem que a maioria das pinturas que eu conheço, só as vi em foto – neste caso, nunca tive contato com as obras originais em suas dimensões reais. Mas salvo uma ou outra restauração mal executada – e pinturas de três a quatro séculos podem já ter sofrido muito, e mais de uma vez em mãos despreparadas – espera-se que o artista esteja falando diretamente a você.

Bach, alguém tem interpretar para eu ouvir. Shakespeare, alguém tem que traduzir para eu ler (inglês medieval eu não encaro); se for encenado então, sabe lá o quanto o texto pode ser violado. Herman Melville, Joseph Conrad, outros, só li traduzidos.

Se eu comprar um cd com Nelson Freire interpretando Chopin, admite-se que a obra está mais preservada em sua integridade ali do que se eu comprar um livro com reproduções da obra de Portinari. Mas ambos são cópias, ou registros, não a obra em si.

Outra questão é que embora a música popular tenha decaído imensamente (jazz-rock-rap é uma linha involutiva no tempo), ainda há coisas boas para se ouvir. A boa pintura que existe vive em guetos, à parte da mídia.

Nas sessões de discos de revistas e jornais a crítica é setorizada. Ninguém espera que o crítico que escreve sobre rock fale também de ópera. Já nas artes plásticas, só há espaço para o pop mais descartável e a perversidade picareta.

Não há necessidade de alguém que entenda do assunto escrevendo sobre pintura? Ou há interesses econômicos contrários a isso? Não sei. Mas há a questão que, considerando a obra em sua integridade, a música é mais facilmente transportável do que a pintura. Trazer uma orquestra holandesa para o Brasil pode ser inviável, mas trazer um solista é possível. Vai tentar trazer os quadros de Van Gogh, vê se os museus de lá vão aceitar liberar suas “jóias”, fora a despesa de seguro, transporte, segurança.

Talvez o número de boas pinturas disponíveis ou possíveis de serem exibidas ao público no Brasil seja pequeno demais para compensar uma crítica artística digna. Da mesma forma que a Noruega não precisa de bons repórteres policiais, pois a taxa de crimes é muito baixa, não precisamos de experts em arte nos veículos de imprensa.

Outra questão é que alguns artistas e obras envelhecem pior do que outros. Não precisa nem ir tão longe no tempo, outro dia estava ouvindo “Canção do Amor Demais”, o disco que foi o marco inicial da bossa nova. Gosto de Elizete Cardoso, mas o modo de cantar dela é “antigo”, aquela impostação, aqueles “erres” pronunciados de forma intensa para criar dramaticidade. Fica over. Ela própria mudaria depois, já na célebre gravação de “Consolação”, vê-se uma mudança de impostação.

E não é que fosse uma característica da época, tenho discos do mesmo período de Caymmi, Lúcio Alves e Roberto Silva onde já se ouve um cantar, digamos, “moderno”.

Todo esse bla-bla-bla, e não consigo chegar a uma conclusão. Vou mandar a lista de discos no próximo post.

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