Uma no cravo, outra na ferradura

outubro 14, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Semana passada, em reportagem do jornal britânico “Daily Telegraph” vieram à tona novos fatos sobre a execução de Jean Charles de Menezes, ocorrida em Londres no ano de 2005  (ver link http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL149739-5602,00-SCOTLAND+YARD+SABIA+QUE+JEAN+CHARLES+NAO+ERA+TERRORISTA+DIZ+JORNAL.html).

Deveria eu escrever sobre isto aqui? Pra quê? Saiu em todos os jornais, impressos ou da TV.

Bom, digamos que me deu vontade de dizer uma coisinha ou duas sobre o assunto – pra falar a verdade, nada de novo. Todos os anos, nas grandes cidades do mundo, pessoas são assassinadas. Em algumas cidades, como Rio de Janeiro e Bogotá, em virtude de fatores sociais e políticos, isto é mais comum. Em outras, como Montreal ou Estocolmo, é mais raro.

É inerente à aglomerações de seres humanos. Somos primatas violentos, isso é algo que uns meros vinte mil anos de vida mais ou menos organizada em sociedades agrícolas e sedentárias não mudou. Não creio que esta propensão à violência vá algum dia desaparecer por completo.

Mas quando um assassinato ocorre pelas mãos de uma polícia que sempre posou de modelo de eficiência, como foi com Jean Charles, todo o funcionamento das engrenagens que deveriam servir de segurança fica em xeque.

Como é possível que erros grotescos ocorram em cascata, e em nenhum momento antes do trágico desfecho os responsáveis envolvidos tenham se questionado: “Os dados A, B, C não se encaixaram bem, vamos partir pra ação D?” “Devemos seguir em frente?”

Parece-me um pouco aquela coisa da hierarquia militar, ‘ordens são ordens’. O soldado tem que cumprir a ordem do sargento, senão este fica mal com o tenente, que por sua vez…

Andei fuçando uns blogs sobre o assunto, notei certos discursos. Sempre achei que, como brasileiros, não podemos deixar que este caso ganhe ares de um ato de lesa-pátria ou ‘confirmação do racismo britânico’. Foi um erro policial, puro e simples.

Com os erros policiais que presenciamos no cotidiano nacional, não temos o direito de achar que estamos moralmente acima dos ingleses. Não falo nem das barbáries como o Massacre do Carandiru, ou os policiais filmados torturando e matando na Favela Naval. Tenho certeza que o policial que avançou contra o criminoso no episódio do sequestro do ônibus 174 estava bem intencionado,  mas os seus erros foram  responsáveis pela morte de Geísa Firmo Gonçalves.(pt.wikipedia.org/wiki/Ônibus_174)

Com todo o destaque na mídia internacional, esperamos que os responsáveis no caso Jean Charles sejam legalmente punidos, e a família da vítima, indenizada – tentativas vãs para atenuar a revolta justíssima que acompanhará para sempre seus parentes.

Isso tudo foi pra cumprir o formulário-padrão do texto bem intencionado. Agora vamos falar de verdade: ‘Jean Charles’ e ‘Geísa’ são nomes que deixam claro a classe social a que pertenciam. Morreram por erros policiais, um andando de metrô, outro de ônibus.  Não lembro da polícia matando alguém que andasse de Audi.

Alguém consegue imaginar uma nota numa coluna social de jornal, ‘herdeira de uma tradicional família quatrocentona e freqüentadora do Country Club, Geísa vestia Givenchy…’ não dá, né?

Há alguns meses estava na casa do meu amigo Leonardo, uma roda de velhos conhecidos mamando umas cervejas. A TV ligada ou no GNT (por que com três homens no recinto a TV estaria no GNT?) ou na Globonews. Começou uma matéria sobre moda (hum… três homens vendo moda… já entendi…), então falou-se sobre uma bonita modelo brasileira, chamada Michelly-qualquer-coisa. Para escrever isto aqui, dei uma fuçada no google, descobri que tem uma modelo com o nome Michelly Pettri. Deve ser a mesma da matéria.

O já citado Leonardo, ‘o piadista da piada fácil’, colocou o golpe certeiro: – O sufixo ‘ele-ele-ípsilon’ (lly) em um nome significa ‘eu nasci pobre’.

Mudando de assunto, falemos de arte.

Abaixo, os links para o site de uma escultora.

O curioso é que o desenho dela não tem nada de mais – não é ruim, mas tudo é apenas ‘estudo para algo’, não tem desenho ACABADO.

http://www.paigebradley.com/early_work/index.html

http://www.paigebradley.com/early_work/index2.html

http://www.paigebradley.com/sculpture/index3.html

Na última página mencionada, há links para outras duas páginas de esculturas. 


Laranja Mecânica – link

outubro 9, 2007

A famosa seleção holandesa de futebol que brilhou na Copa de 1974, graças ao laranja de sua camisa ficou conhecida como ‘Laranja Mecânica’. Mas o título do post não se refere à ela, nem tampouco ao livro de Anthony Burguess que deu origem ao filme. O texto é sobre o filme mesmo.  Estou um pouco enrolado com outras coisas, vou postar algo antigo – um trecho da minha monografia de final de curso na faculdade, sobre o cineasta Stanley Kubrick. Quando foi escrita, Kubrick ainda estava vivo e não tinha rodado ‘De Olhos Bem Fechados’. Não sei se o trecho selecionado é de interesse geral, o estilo é ‘acadêmico’, mas como não é muito extenso – quatro páginas -, creio que vale uma olhada. Não faço ali um juízo de valores, mas com o passar dos anos, mais claro fica pra mim o aspecto de imoralidade do filme – nunca é mostrado o sofrimento das vítimas do protagonista Alex, a violência praticada por ele é coreografada num estilo musical, o que a descaracteriza como barbárie, para inseri-la no campo da bufonaria. Ao passo que as torturas que Alex sofre durante o tratamento estatal e nas mãos de seus ex-amigos, agora convertidos em policiais, é expandida dramaticamente na tela para dar ênfase na brutalidade. Dois pesos, duas medidas. Isto não é por acaso, um acidente de roteiro, mas o resultado de um processo consciente. Kubrick, já desde o Dr. Fantástico (1964), foi com o passar dos anos, mais e mais se tornando um maquiavélico mestre da manipulação – a qual se pode ver em seu ápice em seu penúltimo filme, “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, 1987).

Curiosidades: o personagem do escritor Frank Alexander – aquele, espancado ao som de ‘Singin’ In The Rain’ – é interpretado por Patrick Magee, um dos atores preferidos do dramaturgo Samuel Beckett (que chegou a escrever textos para serem interpretados especificamente por Magee). O personagem do halterofilista fortão, encarregado de carregar e auxiliar Frank Alexander é interpretado por David Prowse, que seis anos mais tarde apareceria nas telas usando a armadura de Darth Vader em ‘Guerra nas Estrelas’ – sendo que a voz do pai de Luke era a do ator James Earl Jones. Está no link https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/laranja-mecanica-a-clockwork-orange-1971

E abri também uma página com links para fora do site – ver o quadrado ‘Links’ no topo da página. A última descoberta ali é o link para o site com aquarelas de Antônio Giacomin – que tem uma técnica refinada.


Predadores oportunistas

outubro 8, 2007

shark-cuba-1945.jpg

(Se você teve problemas para vizualizar a foto acima, clique no link

https://comoeueratrouxaaos18anos.files.wordpress.com/2007/11/shark-cuba-1945.jpg )

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Escrevi há uns três posts sobre erros jornalísticos. Esqueci de um de minha autoria – neste caso não chega bem a ser erro, há controvérsias: No texto sobre Spielberg no digestivocultural, disse que era verdadeira a estória contada pelo personagem Quint no filme ‘Tubarão’: um relato oral sobre o naufrágio do USS Indianapolis – ver http://http://www.ussindianapolis.org – ocorrido no Oceano Pacífico em 1945, em plena Segunda Guerra Mundial. Segundo o relato que é visto no filme, centenas de marinheiros teriam sido devorados por tubarões.

Depois, vendo um documentário sobre o naufrágio, vi que a versão narrada no filme foi relativamente incrementada. Boa parte dos muitos náufragos morreu por uma mistura de desidratação, exaustão, insolação – morrer de falta de água potável, estando cercado de água por todos os lados é uma triste ironia. Os tubarões atacaram alguns marinheiros, isto é fato. (“Shark attacks began with sunrise of the first day and continued until the men were physically removed from the water, almost five days later.” – http://www.ussindianapolis.org/story.htm).

Parte considerável dos que foram devorados já estavam mortos – os corpos boiando graças aos coletes salva-vidas. Alguns sobreviventes declararam não ter visto um único ataque de tubarão.

É uma história épica, imagine quantas vezes situações como esta se repetiram ao longo da jornada humana, desde as canoas dos pescadores ainda na pré-história, passando pelas batalhas navais entre gregos, persas e fenícios? Além dos antigos navegadores chineses, ou os povos polinésios, que sempre tiveram íntima ligação com o oceano.

Os naufrágios causados por tempestades, choque com recifes, erros humanos. Homens boiando desesperados, aguardando a morte.

Há vasta bibliografia sobre homens à deriva no mar, com inúmeras variações: no Velho Testamento já se fala de Jonas e o grande peixe, que muitos associaram a uma baleia. E Robinson Crusoe, e trechos de Moby Dick. Recomendo ler o maravilhoso ‘A Ilha Do Dia Anterior’, de Umberto Eco.

Géricault, pintor francês do séc. XIX, abordou magistralmente o tema em ‘A balsa do Medusa’ – ver http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=2187&size=large, sendo que aqui os homens ainda estão em relativa segurança, dentro de uma jangada improvisada.

Ainda hoje, nestes tempos de devastação intensa, e onde curiosos com câmeras vasculham toda a extensão do globo, o mar e sua vastidão permanecem uma fonte de mistério.

Entrevista com o cineasta Nelson Pereira dos Santos no link

http://www.revistazepereira.com.br/um-fim-de-tarde-com-nelson-pereira-dos-santos

É esclarecedor ter acesso as idéias do Nelson. Porque, apesar de ele ter sido professor do curso de cinema da UFF, e na época que entrei seu nome ser o principal chamariz daquela pocil…well, instituição… nos anos em que lá estive como aluno (1991-1996), só o vi uma vez, conversando com um outro professor. Uma única vez em seis anos? E é um fato, tenho testemunhas disso, colegas. Não creio que fosse o que se chama de funcionário assíduo. Fica aqui o registro, como uma metáfora da relação do cinema brasileiro com o dinheiro público.

Para fugir um pouco destes assuntos , este site que mencionei acima, o artrenewal – clicar em http://www.artrenewal.org/pages/search.php –  tem um dos melhores bancos de dados on line de pintura que eu já vi, organizados em ordem alfabética.  Vale uma conferida.


O negócio é perguntar pela Maria

outubro 3, 2007

por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

O título do post foi escolhido na última hora, tirado de um bordão do famoso Zé Trindade. Inicialmente era pra ser outro título. Fiquei a semana toda lembrando daquele diálogo hilário do ‘Tropa de Elite’, quando um mecânico da PM vai a um superior pedir pra sair de férias. ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir.’ – fala o oficial, com a maior cara de pau do mundo, sorrindo coadjuvado por um Aspone. O ator faz o picareta muito bem, como aliás toda essa parte da PM é uma crítica cheia de humor – destaque para o ator Milhem Cortaz, como o Capitão Fábio.

Este ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir’ seria o título anterior do post. Mas isto é uma digressão, o assunto não é o filme ‘Tropa de Elite’, já falei bastante sobre ele – posts abaixo.

Na verdade todo o post de hoje deve começar com o mero registro de uma bobagem sem fim: ocorre que outro dia minha mãe estava na cozinha cantando uma marchinha do tempo do onça. Eis a letra, que pedi pra ela anotar:

Zé Corneteiro,

Casado com um peixão.

Levou sua mulher

Pra mostrar no batalhão.

No outro dia

Por ordem do major,

O Zé foi promovido

A Corneteiro-mor.

Lá vai o Zé, dar serviço de corneta.

É o corneteiro mais feliz deste planeta.

Quando ele passa,

O mundo inteiro

Aponta o Zé:

Lá vai ele, o corneteiro!

Não sei se a letra está cem por cento certa – foi baseada em memórias de meio século. Agora, imaginem a cena: uma senhora sexagenária de cabelos brancos, e avó de três, cantando esta pérola. A letra, que sugere um humor de caserna, é uma marchinha de Lalá Araújo pro carnaval de 1953 – quando foi gravada pela vedete Virgínia Lane. Info – http://cravoalbin.ibest.com.br/detalhe.asp?nome=Virg%EDnia+Lane&tabela=T_FORM_A&qdetalhe=art

Muitas destas marchinhas antigas são, com o perdão do arcaísmo – mas este se aplica bem ao tema – , do balaco-baco.

Outro dia vendo o Canal Brasil, rolava uma daquelas chanchadas carnavalescas dos anos 50. Uma senhorinha com pinta de dona de armarinho de costura (‘armarinho’? Eu tô muito antigo hoje…) cantava em meio aos foliões de revista. A letra era um incentivo aos homens para se aproximarem das donzelas sem temor – afinal, nesses filmes é sempre carnaval. Só consigo lembrar uma estrofe, hilária:

Mulher é igual a pudim,

Goiabada, rocambole.

Não vá achando que é duro,

Vai que é mole!

Vai que é mole!

Gosto de humor, quem ler este site de cabo a rabo vai perceber isso. Mas até que ponto as ‘obras’ descritas acima são reveladoras do caráter brasileiro? Alguém imagina num filme do Bergman um tenente sueco falando a um subordinado: ‘- Quem quer rir, tem que fazer rir.’?

Ou a população de Munique cantando em coro pelas ruas: “Por ordem do major/ O Zé foi promovido/ A Corneteiro-mor.”

Ambas as suposições partem da idéia de uma versão traduzida do original tupiniquim, é claro. Zé Corneteiro em alemão deve ficar uma beleza – merece um libreto de Wagner. Ok, excluamos os alemães da comparação, pois eles sempre darão margem a comentários do tipo: Por outro lado, não somos belicosos, não mandamos minorias para campos de extermínio (mas reduzimos consideravelmente a população indígena ao longo de 500 anos).

E quem já viu os gringos fazendo turismo no calçadão de Copacabana com mulatas alugadas a preços módicos, sabe que eles não são sérios em tempo integral. Mas até a intensidade com que se dedicam ao dionisíaco em seu tempo de lazer é um dado da seriedade com que vivem no dia-a-dia. Os caras são robôs onze meses e meio por ano, na quinzena de férias alopram o mais que podem.

É claro que isto é uma generalização. Indivíduos são diferentes, tem formações e personalidade diferentes, não é o fato de terem nascido na mesma rua ou no mesmo prédio que vai torná-los iguais: mesmo irmãos são diferentes.

Mas que existem certas tendências comportamentais geo-culturais, isto existe. Nas sociedades mais abertas não são determinantes, mas influem na conduta das pessoas.

Já um sujeito que nasça numa comunidade isolada, sei lá, um Amish (lembra do filme ‘A Testemunha’, com Harrison Ford?), ou o membro de uma comunidade de pescadores de Fernando de Noronha, por falta de acesso a outros modus vivendi estará mais sujeito ao determinismo.

Retornando à falta de seriedade, o quanto esta é responsável pelo atraso brasileiro? O quanto ela nos torna passivos ao ponto de nem conseguirmos ver os problemas conjunturais, quanto mais combatê-los?

Não sei, e acho mesmo que não existe uma resposta geral. Como disse acima, indivíduos são diferentes, tem formações e personalidade diferentes. Então a percepção e disposição para lidar com tais questões variará de um para o outro. E há que saber também se há interesse em mudar certas situações. Para muitos não há, eles se beneficiam com a esculhambação.

E com isto não estou pedindo: ‘acabemos com o carnaval e com as marchinhas’ – estas meio que acabaram mesmo, perderam boa parte do apelo que um dia tiveram.

Mas em certas horas me pergunto: o que pode um cidadão comum fazer para demonstrar de facto sua indignação com relação a certos fatos e indivíduos notórios em Brasília? Como é possível que nenhum voluntarioso, possuidor de disposição e recursos, aja?