Chato ainda ter que tocar nestes assuntos

novembro 28, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Saiu na coluna Gente Boa do O Globo de 27-11-2007:

A filha-da-Vera-Fischer … procura um travesti que queira posar para suas lentes num ensaio “totalmente x-rated” em homenagem a Pedro Almodóvar. “Ele não pode ser operado, meu objetivo é chocar. Vou botá-lo de vestido de santo em cima do altar.”

Esta atitude adolescente de “chocar os burgueses” sempre foi ridícula desde que surgiu, e já não é novidade há uns setenta anos.

E, é claro, em se tratando de uma filha de celebridade, sempre há um “jornalista” para dar destaque a uma merda dessas. Os punks ingleses tinham um slogan sarcástico, que era estampado em camisetas: “Mantenha a cidade limpa. Mate um pombo!”

As vezes desejo que a idéia fosse estendida a jornalistas dos cadernos culturais.

Voltando ao clã das Fischer… A mãe, Vera, também se meteu a ser pintora depois de entrada em anos. E claro, lá estavam as fotos das pinturas no Segundo Caderno do Globo, sempre pronto a dar espaço a esse tipo de coisa – uma espécie de Revista “Caras” de circulação diária.

Não vou escrever uma linha sobre as pinturas, não tenho estômago pra isso. Mas sempre que vejo alguém pintando dessa forma, me dá vontade de perguntar:

– Por que você não optou por tocar piano?

A resposta óbvia seria: “Mas não sei tocar piano.”

E eu poderia emendar a tréplica: – Também não sabe pintar, mas, ao que parece, isso não foi empecilho.

Segue um email que enviei a um crítico de arte e a um restaurador há alguns meses, ligeiramente editado:

O caos nas artes não é exclusividade nossa. Conheci gente que estudou em Paris e outros que visitaram escolas de arte italianas, e o desalento é geral.

O que me parece é que o ensino de arte universitário tentou minimizar a importância do desenho. O Prof. Lydio Bandeira de Mello comenta que na época dele de aluno (final dos anos 40) da EBA eram necessárias 600 horas de modelo vivo para se formar. Desde os anos 80 não passam de 90 horas, quem quiser mais tem que fazer por conta própria.

E há aberrações como a EAV do Parque Lage, um lugar voltado para o ensino de ‘como se fazer marketing’, mas que efetivamente tem muito pouco a ver com o ensino de arte.

E entre ir para os cafundós da Ilha do Fundão, cercada de favelas, e ir para o bucólico Parque Lage, a moçada dourada de Ipanema a Gávea opta pelo segundo. E estas pessoas são justamente parte do grupo que tem uma segurança financeira familiar que lhes permitiria tempo para estudar arte sem a pressão econômica batendo à porta. E são também aqueles que conseguem mais facilmente notas em jornal ou bolsas da Funarte, Rioarte, Minc…

Vivemos numa era de decadência geral, não há um Tom Jobim, um João Cabral de Mello Neto, um Guimarães Rosa. Algo na pós-modernidade, talvez a sede por comodidade, fez o artista se afastar da preparação. Em vez de ser pintor, o jovem compra uma câmera digital e vai ser designer, em vez de estudar piano, vai ser dj. 

O fato é que mesmo alguns dos poucos nomes sérios que há na EBA hoje em dia, xxxxx xxxxx, yyyyy yyyyy, (nomes de professores que citei no email, mas que não acho correto reproduzir aqui.) não têm um trabalho artístico relevante. xxxxx tem muita teoria, mas vi pinturas dele que não se equiparavam ao discurso teórico. E isto é um problema concreto, na EBA já deram aula nomes como Marques Jr., os irmãos Chambelland, era um outro nível. (xxxxx e yyyyy têm boa formação, ao criticar o trabalho artístico deles, não posso deixar de ressaltar sua seriedade como professores.)

Então como reagir ao caos se não há um trabalho concreto para afirmarmos o que estamos falando? Se eu virar pro Carlos zzzzz e falar “teu trabalho é ruim”, quem contemporâneo eu posso mostrar como sendo exemplo de ‘bom’? João Câmara? Ele não é daqui… Conheço pessoas na faixa dos 35-40 que têm bom desenho, e talvez cheguem lá, mas ainda não chegaram. E podem até não chegar, mas também nunca vão ser ruins como o que se vê por aí hoje.

Acredito que haja boa gente por aí, mas fora do meu grupo, não tenho como chegar a eles. Pois eles (1) não expõem no Paço, no MNBA no CCBB, e (2) não saem nos jornais. Ou seria 2 causa e 1 conseqüência, ovo ou galinha?

E mesmo no ambiente acadêmico, que seria um mundo a parte desse circo midiático, os concursos para admissão de professores hoje são cartas marcadas. É mais importante ter mestrado em algo do que saber desenhar. O rótulo ‘arte contemporânea’ é a academia de hoje. Saindo por um instante das artes plásticas, o crítico literário Harold Bloom, em artigo publicado na Folha de São Paulo (06-08-1995) dizia: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Façam qualquer outra coisa, garantam a sobrevivência do jeito que for, mas não como professores universitários. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria, para ler e escrever sozinhos, porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade.”

E o mestrado em artes é ainda pior, é como se fosse a hóstia de uma missa negra: ‘Você aceita o diabo como seu salvador?’ E o sujeito ao aceitar fazer aquela prova, com aquela bibliografia tendenciosa, diante das bancas que costumam arrumar, diz ‘Aceito’ e engole.

Qual a chance, de reunirmos um grupo de pessoas com trabalhos relevantes, expor num espaço bem localizado, com condições favoráveis, e atrair atenção?

Temos interesse? É viável? Há trabalhos dignos? Se a resposta for “Não”, ficaremos sempre no nível do discurso ‘contra o que está aí’.


Antes dos Soprano havia os Corleone

novembro 25, 2007

Texto novo sobre dramaturgia – Francis Ford Coppola. Clicar no link

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/coppola-e-os-chefoes-ps


Para não passar em branco

novembro 21, 2007

Não escrevi nada de novo, então vou só postar uns links que acho interessantes.

Além dos links para outros sites que se encontram na página com o mesmo nome – https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/links – (que pode ser acessado clicando-se no quadradinho no topo da página), venho aqui indicar novos links.

No site http://www.victor.brecheret.nom.br podem-se ver a biografia do mestre paulistano (1894-1955).

As obras estão em

http://www.victor.brecheret.nom.br/obras1.htm

Clicar nas fotos para ampliar.

http://www.victor.brecheret.nom.br/obras2.htm

http://www.victor.brecheret.nom.br/obras3.htm

Pode seguir, trocando só o número, até

http://www.victor.brecheret.nom.br/obras7.htm

Josep Maria Subirachs é o escultor catalão que foi escolhido para fazer as últimas esculturas do “templo de la Sagrada Familia”, obra inacabada de Antonio Gaudí.

N.A. – Quando lancei o post, havia um link muito bom, o http://www.subirachs.org ; mas foi retirado do ar.

Algumas das obras podem ser vistas nos links abaixo:

http://centrecultural.caixapenedes.com/foto.thm?foto=329&q=a

http://centrecultural.caixapenedes.com/foto.thm?foto=3611&q=a

http://centrecultural.caixapenedes.com/foto.thm?foto=631&q=a

.

Texto sobre jornalistas partidários: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/031007/mainardi.shtml


Teatro 4 – o link

novembro 14, 2007

Já há tempos que não lanço nada de teatro aqui. Não posso deixar morrer o dramaturgo que mora dentro de mim.

Até porque o pulha nunca pagou aluguel e me deve a maior grana por todo o tempo que ocupou o imóvel – teatro não dá dinheiro, fazer o quê?

É mais um esquete curto, mas ao contrário dos outros é mais sério. Existencialista, quase um Camus – just kidding. Camus, aliás, se negava a ser rotulado ‘existencialista’.

O texto está no link:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/teatro-4

Na página há links para outros textos de teatro.


Notinhas sobre a Segunda Guerra

novembro 12, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

Levei um tempo pra lançar este texto, que já estava pronto. Tinha medo de ser odiado. Mas como diz um amigo meu, “procuro sarna pra me coçar”. Podem me pichar. Je suis un chauviniste.

Novembro de 2007. Há coisa de um mês tive um atrito com um amigo nipo-descendente. Ele condenava os EUA – “americano é muito escroto” – por, entre outras coisas, terem jogado as bombas atômicas no Japão.

Aleguei que os japoneses tinham feito por merecer, levando em consideração o que fizeram com as populações de todos os territórios conquistados desde a década de 1930 – execução e maus-tratos a prisioneiros, prostituição compulsória das mulheres (duzentas mil, segundo o que se lê no texto extraído de http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/6374961.stm , “Historians believe at least 200.000 young women captured during World War II were forced to serve in Japanese army brothels.”)

E do ponto de vista americano, o ódio se justificava por terem os nipônicos lançado um ataque contra os EUA sem declaração prévia de Guerra.

Lancei ainda como justificativa o uso de armas biológicas na China:

(extraído de http://veja.abril.com.br/031001/p_088.html)

“As armas biológicas são microorganismos que causam doenças mortais ou incapacitantes. Podem ser também toxinas extraídas de animais e plantas ou sintetizadas em laboratório. O primeiro e único país a usá-las foi o Japão, na guerra contra a China, nos anos 30. O Exército japonês tinha até uma divisão especializada nesse tipo de recurso, a Unidade 731, que lançava mão de expedientes traiçoeiros. Numa ocasião, 3.000 prisioneiros chineses foram libertados sem mais nem menos. Era uma armadilha. Antes de saírem da prisão, eles haviam sido infectados com a bactéria da febre tifóide, o que acabou ocasionando uma epidemia na China. Em 1942, o governo japonês fez chegar à província chinesa de Nanquim uma partida de chocolates contaminados com anthrax, a mais temida das armas biológicas.”

Quem ainda estiver descrente, aconselho procurar no google: “japanese bombing Shanghai” e o slogan japonês para a China, sanko sakusen : “Kill all, loot all, burn all” – Mate todos, saqueie tudo, queime tudo (en.wikipedia.org/wiki/Three_Alls_Policy). Mais de 2 milhões de chineses morreram graças à implementação desta política.

Lendo os parágrafos acima, alguém pode dizer que um erro não justifica o outro: o fato de o Japão ter cometido atrocidades não justifica a ocorrência de outras. Concordo. NÃO DEFENDO O ATAQUE A POPULAÇÃO CIVIL. Já vi os documentários sobre os efeitos da bomba atômica, li e recomendo ‘Gen – Pés descalços’ de Kenji Nakazawa, o relato de um sobrevivente que perdeu quase toda a família no bombardeio de Hiroshima. Sinceramente, chorei lendo o relato daquele sofrimento inimaginável imposto a crianças.

Mas a discordância minha ou do leitor não muda o fato de que estamos aqui, a sessenta anos de distância dos eventos, em nossas respectivas casas, confortáveis, não-envolvidos em nenhum combate.

Imagine por um momento que você é o presidente americano Truman. Você era o vice de F.D. Roosevelt, o qual era muito popular e ficou no cargo por três mandatos seguidos. Após a morte dele, você assumiu o país em meio a uma Guerra de proporções colossais. Os alemães capitularam, mas a guerra continua acirrada no Pacífico. O exército inimigo, apesar de já virtualmente derrotado, força aérea destruída, é formado por fanáticos para os quais morrer pelo seu país levando o máximo de inimigos com eles é uma honra. Siga imaginando que você é o presidente americano, desde que você assumiu seu exército luta na ilha de Okinawa, onde 12.000 de seus homens foram mortos, 38.000 foram feridos. E 107.000 soldados inimigos e 100.000 civis morreram.

O Japão já não tinha como ganhar esta guerra desde o afundamento dos porta-aviões em Midway, em 1942. Mas continuou lutando ferozmente, numa política de vender caro cada metro quadrado. Em março de 1945, com o espaço aéreo japonês livre para as operações americanas, um ataque com bombas incendiárias foi lançado contra Tóquio. Entre 80.000 e 100.000 civis morreram, 375.000 ficaram desabrigados. Números absurdos, pelas dimensões. Mas o Japão não se rendeu.

Voltando o raciocínio: e então seus cientistas revelam a você, presidente americano, que a poderosa arma que vinham desenvolvendo ficou pronta. Você tem que se preocupar primeiro com sua população civil, depois com seus soldados. A população do Estado adversário deve ser mais importante do que a vida de seus soldados? Nunca na história militar desde Heródoto foi assim, por que agora deveria ser? Os gregos que sitiavam Tróia não se preocuparam com a população civil da cidade – isto era assunto dos comandantes troianos. Os antigos romanos antes de cercarem uma cidade não diziam:

“-Temos catapultas, mas não vamos usá-las, porque a população civil não pode ser envolvida.”

Nunca foi assim. Quem tinha a obrigação de zelar pelo bem estar da população nipônica, o governo japonês ou o americano?

O fato é que citam estas bombas em Hiroshima e Nagasaki como barbaridades singulares, o que, excluindo a novidade tecnológica, elas não são. Todos os números da Segunda Guerra são assustadores. As pessoas não sabem o que foi o bombardeio de Dresden (en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Dresden_in_World_War_II), a Batalha de Stalingrado, o massacre de Katina, ignoram fatos básicos, mas isto não as impede de se manifestar – em geral, burramente. É válido lembrar aquela pergunta sobre um quilo de algodão ou um quilo de chumbo. O que mata mais, um quilo de urânio enriquecido ou uma tonelada de TNT?

E a fome, que não tem peso, também foi usada amplamente pelos governos em guerra como arma de extermínio contra povos dominados e prisioneiros. Barbárie, horror. Isso é o que é a guerra. Se as bombas não fossem usadas, por quanto tempo a luta iria se prolongar? Quantos civis morreriam no fogo cruzado?

Na época que escrevia para outro site, tive uma troca de emails com um leitor, o qual posteriormente se auto-proclamou professor de história (eu não tinha como verificar se ele de fato o era.). Ele sustentou, babando de ódio, que os americanos jogaram a bomba no Japão e não na Alemanha por racismo – os alemães, por serem europeus caucasianos estariam livres de tal retaliação, só aplicável a ‘amarelos de olhos puxados’. Não sei de onde aquele energúmeno tirou este raciocínio. Espero que a alegação dele ser professor de história fosse falsa, porque senão, a educação deste país estaria pior do eu jamais achei que pudesse estar.

Tive que explicar pro sujeito que a Alemanha se rendeu em maio de 1945 e o Japão continuou lutando até agosto – três meses de diferença, período no qual a bomba foi testada (“… on July 16, 1945, the world’s first atomic bomb exploded one hundred feet over a portion of the southern New Mexico desert…”, em http://www.lanl.gov/history/atomicbomb/trinity.shtml). Aliás, na época os EUA só tinham material radioativo para fazer aquelas duas bombas.

Vejam os absurdos que a mistificação pode produzir. E se este sujeito é mesmo um professor de história e está ensinando mentiras a crianças e adolescentes? Uma das razões que motivou-me a escrever sobre tal assunto foi que há poucos dias recebi um email de um leitor, que vou manter anônimo. Dele constava:

“Costumo brincar quando encontro algum amigo judeu, observando que nem estaríamos conversando se não fosse por Stalin e Zhukov; e se por milagre estivéssemos, seria em alemão.”

Isto é uma meia-verdade perigosa.

Respondi, embora sem os links, que acrescento aqui para verificação:

Hitler e Stalin assinaram um pacto de não-agressão (o tratado Molotov-Ribbentrop, ver pt.wikipedia.org/wiki/Pacto_Molotov-Ribbentrop) e atacaram a Polônia pelo oeste e leste, dividindo-a entre si.

Depois que o pacto foi rompido por Hitler, o combate entre eles começou. A partir de 1941, um terço do PIB soviético era ajuda econômica e envio de equipamentos americanos, (US $ 11 bilhões durante a guerra, e um bi naquela época era muito, muito mais do que é hoje, ver http://uboat.net/allies/documents/lend-lease.htm, http://www.encyclopedia.com/doc/1E1-lendleas.html e http://www.customessaymeister.com/customessays/World%20War%20II/3086.htm) – americanos os quais, além de enfrentar os alemães na Europa tinham que lidar com um perigo igualmente grande no Pacífico.

Mas veja o que é a historiografia oficial: os soviéticos são saudados por derrotar os alemães (usando a própria população civil, além de ucranianos e outros como bucha de canhão, e podendo contar no combate com imenso apoio britânico e americano que atacavam os alemães no front ocidental, desviando parte considerável dos recursos e contingentes inimigos), os americanos são condenados por usarem bomba atômica no Japão (quando lutavam praticamente sozinhos, a Inglaterra concentrou suas forças na Europa e a URSS só declarou guerra ao Japão depois da bomba de Hiroshima, querendo ganhar algum dos espólios).

Na verdade, qualquer daqueles países, Inglaterra, URSS, Alemanha, Japão, num conflito daquelas dimensões, teria usado a bomba atômica se a tivesse. Como não tinham, o mundo se volta contra os EUA por terem sido mais eficientes.

Aliás, na já citada obra ‘Gen – Pés descalços’, o maior vilão apontado não são os americanos, mas o acirrado espírito militarista japonês. Antes da bomba atingir Hiroshima a família do personagem principal sofre o diabo nas mãos de seus vizinhos, porque o pai dele se manifestava contra a guerra.

A História normalmente fica do lado dos vencedores. Stálin, se tivesse perdido a guerra, mesmo com toda a rede de proteção repressivo-partidária que o envolvia, provavelmente seria cobrado pelos erros e crimes cometidos – não estou nem falando do ditador sanguinário que sempre foi, mas do comandante em armas desqualificado. Já os principais responsáveis pelo sofrimento da população japonesa foram a crença na superioridade por direito do homem japonês, a ausência da idéia de indivíduo – idéia parcialmalmente inexistente nos países do extremo Oriente – , e a mentalidade teocrática. Um dado revelador disso é que, nos outros países do Eixo derrotados, Mussolini foi executado e seu corpo exibido em praça pública; e Hitler se matou para escapar de qualquer julgamento. No Japão, o Imperador Hirohito, que permitiu a seu país se envolver e permancer prolongadamente na Segunda Guerra, após todo o sofrimento e a derrota, pôde continuar como figura simbólica intocada por mais quatro décadas, jamais sofrendo um julgamento.

Quem puder, leia o ótimo texto de Gustavo Corção sobre o ‘massacre de Katina’ em http://www.permanencia.org.br/gustavocorcao/Artigos/falsificacoes.htm


O Haiti não é aqui

novembro 8, 2007

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Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Saiu na primeira página do Segundo Caderno de O Globo em 07-11-2007 uma série de perguntas feitas por pessoas do meio cinematográfico a Silvio Da-Rin, que assume no dia 19 o comando da Secretaria do Audiovisual.

O exibidor Luiz Severiano Ribeiro, citando o exemplo de “Tropa de Elite” pergunta quais os planos da nova Secretaria para minimizar a pirataria.

Da-Rin responde:

“(…) Não podemos encarar o fenômeno da pirataria apenas como uma questão criminal. Há uma dimensão socioeconômica na origem dela. Em países em que a produção circula de forma acessível, como a Nigéria, por exemplo, há uma pirataria residual.”

Que a Nigéria seja exemplo de pujança cultural mostra o que vem por aí. Muitos ficaram furiosos quando, no Pan-Americano do Rio de Janeiro, aquele gerente de imprensa do Comitê Olímpico americano escreveu num quadro-negro “WELCOME TO THE CONGO” (ver http://pan2007.globo.com/PAN/Noticias/0,,MUL68656-3853,00.html ).

O que vão achar disto?


Decadência planejada

novembro 6, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

No final de agosto fui na abertura da Exposição “Eliseu Visconti – Arte e Design” no Centro Cultural da Caixa, no Rio de Janeiro. Visconti foi um dos maiores pintores brasileiros, mas por centrar-se no seu trabalho com design, a exposição em si era mais interessante histórica do que artisticamente.

Logo que se entrava na sala destinada à mostra, havia uma biografia do artista afixada à parede. Lá eu li algo que até então desconhecia: “Em julho de 1944 Visconti sofre um assalto em seu atelier da Av. Mem de Sá. Foi encontrado desacordado, ferido na cabeça e sem os seus pertences – relógio, documentos de identidade e dinheiro. Quando pôde falar, Visconti afirmou ter sido procurado por dois homens que lhe teriam oferecido frutas e com os quais teria conversado algum tempo. Depois disso, não se recordava de nada, presumindo-se que tenha sido atacado pelas costas. Durante dois meses permaneceu Eliseu Visconti em agonia, encerrado em uma câmara de respiração artificial.” O artista acabaria falecendo em 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade. Mais detalhes podem ser lidos no site do pintor, no link http://www.eliseuvisconti.com.br/bio_maturidade.htm

Somente agora, meses depois de ter tido conhecimento das circunstâncias violentas da morte de Visconti, me ocorreu relacioná-la a um outro ‘marco’ histórico da arte visual brasileira, o tributo de Hélio Oiticica à morte do traficante Cara de Cavalo: (extraído de http://www.geocities.com/a_fonte_2000/oiticica.htm)

             “O estandarte com a foto do traficante morto com a frase seja marginal, seja herói, também participa de uma manifestação com outros artistas no Largo General Osório, em Ipanema no Rio de Janeiro, em 1968.

             Na obra BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem à Cara de Cavalo (1966), Oiticica constrói um bólide em que o traficante Cara de Cavalo aparece morto de braços abertos. A obra chama a atenção não apenas pela estética mas principalmente por seu conteúdo político.

             Sobre esta obra, Hélio explica: Afora qualquer simpatia subjetiva pela pessoa em si mesma, este trabalho representou para mim um ‘momento ético’ que se refletiu poderosamente em tudo o que fiz depois: revelou para mim mais um problema ético do que qualquer coisa relacionada com estética. Eu quis aqui homenagear o que penso que seja a revolta individual social: a dos chamados marginais. Tal idéia é muito perigosa mas algo necessário para mim: existe um contraste, um aspecto ambivalente no comportamento do homem marginalizado: ao lado de uma grande sensibilidade está um comportamento violento e muitas vezes, em geral, o crime é uma busca desesperada de felicidade.(OITICICA, em DUARTE, 1998)

             Nestes trabalhos, Hélio Oiticica utiliza a fotografia de forma documental. Um registro de um fato real. A morte de seu amigo, o traficante Cara de Cavalo, assassinado violentamente pela policia.

            Nos estandartes, a frase Seja marginal, seja herói expressa ainda mais o protesto de Hélio Oiticica. Cara-de-Cavalo vivia à margem da sociedade. Mais que isso, era um criminoso, um traficante. Em sua marginalidade, o traficante revolta-se contra a sociedade. Vive em um mundo à parte, em uma revolução.

             Mas os trabalhos de Hélio Oiticica não se restringem à fotografia documental. Em BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem a Cara de Cavalo é necessário que o público participe da obra, que a toque, que a sinta. Que o público entre na obra, que faça parte dela. ”

Ainda sobre H. Oiticica, “Nos anos 70, morando em Nova York, apelou a um biscate no tráfico de drogas e se deu mal. Inadimplente junto à máfia, recebeu ultimato: Ou paga a dívida ou é um homem morto. Os irmãos César e Cláudio o socorreram com US$ 300 por mês.”   (de http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/arquitetura/arq13.htm)

Ou seja, para quem for estudar Visconti, o fora-da-lei é o assassino, o vilão covarde que agride um homem de quase oitenta anos e acaba por causar a sua morte. Para quem for estudar Oiticica o fora-da-lei é, no caso do próprio Hélio, o ser livre das amarras da sociedade, ou no caso de seu anti-herói Cara de Cavalo, a vítima da brutalidade policial. Como pode em vinte e quatro anos (1944-1968) a mentalidade vigente sofrer uma reviravolta de 180 graus? Isto não se dá por acaso, há que haver muita pressão neste sentido. O quanto isto é sintomático de uma patologia moral? Quão imerso nela um país tem que estar para não enxergá-la? E se alguém quiser usar a ditadura militar pós-1964 como justificativa para louvar aquele que desafia o sistema, devo lembrar que no ano da morte de Visconti, 1944, o Brasil estava ainda na ditadura Vargas. E ainda assim, o ladrão que matou Visconti não foi transformado em herói, continuou sendo um mero criminoso.

E nós, quarenta anos após a homenagem de Oiticica ao traficante, vivendo num Rio de Janeiro dominado por traficantes, de que lado estamos?

Eu sei qual lado goza de minha simpatia, tanto artística quanto filosoficamente. Mas não creio que esta seja a opinião vigente. Basta lembrar que no Rio de Janeiro existe um Centro de Arte Hélio Oiticica (http://www.rio.rj.gov.br/rioarte/site/projeto_t1.php?codProjeto=45), mantido com dinheiro público; mas não existe na cidade um Centro de Arte Eliseu Visconti. Aliás, é no mínimo irônico que no Brasil o anti-establishment seja mantido pelo Estado.

Mas o esquecimento proposital de alguns setores para com Visconti não é novo. Sobre o pintor, pode-se ler no mesmo link citado: “Não tendo sido convidado, acompanhou com interesse os acontecimentos da Semana de Arte Moderna de 22, embora não aceitasse manifestações onde a falta de conhecimento técnico fosse flagrante. Pietro Maria Bardi, em entrevista a “ISTO É” em dezembro de 1977, comentou sobre a ausência de Eliseu Visconti na Semana de 22: Não foi convidado. Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti.”

Felizmente, a internet pode minimizar algumas injustiças históricas. Quem quiser ver um pouco da obra do mestre, pode ir nos links abaixo, e lá clicar nas imagens para ampliá-las: http://www.eliseuvisconti.com.br/obras_nus.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1913.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1920.htm

A primeira página do site é http://www.eliseuvisconti.com.br