Decadência planejada

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

No final de agosto fui na abertura da Exposição “Eliseu Visconti – Arte e Design” no Centro Cultural da Caixa, no Rio de Janeiro. Visconti foi um dos maiores pintores brasileiros, mas por centrar-se no seu trabalho com design, a exposição em si era mais interessante histórica do que artisticamente.

Logo que se entrava na sala destinada à mostra, havia uma biografia do artista afixada à parede. Lá eu li algo que até então desconhecia: “Em julho de 1944 Visconti sofre um assalto em seu atelier da Av. Mem de Sá. Foi encontrado desacordado, ferido na cabeça e sem os seus pertences – relógio, documentos de identidade e dinheiro. Quando pôde falar, Visconti afirmou ter sido procurado por dois homens que lhe teriam oferecido frutas e com os quais teria conversado algum tempo. Depois disso, não se recordava de nada, presumindo-se que tenha sido atacado pelas costas. Durante dois meses permaneceu Eliseu Visconti em agonia, encerrado em uma câmara de respiração artificial.” O artista acabaria falecendo em 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade. Mais detalhes podem ser lidos no site do pintor, no link http://www.eliseuvisconti.com.br/bio_maturidade.htm

Somente agora, meses depois de ter tido conhecimento das circunstâncias violentas da morte de Visconti, me ocorreu relacioná-la a um outro ‘marco’ histórico da arte visual brasileira, o tributo de Hélio Oiticica à morte do traficante Cara de Cavalo: (extraído de http://www.geocities.com/a_fonte_2000/oiticica.htm)

             “O estandarte com a foto do traficante morto com a frase seja marginal, seja herói, também participa de uma manifestação com outros artistas no Largo General Osório, em Ipanema no Rio de Janeiro, em 1968.

             Na obra BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem à Cara de Cavalo (1966), Oiticica constrói um bólide em que o traficante Cara de Cavalo aparece morto de braços abertos. A obra chama a atenção não apenas pela estética mas principalmente por seu conteúdo político.

             Sobre esta obra, Hélio explica: Afora qualquer simpatia subjetiva pela pessoa em si mesma, este trabalho representou para mim um ‘momento ético’ que se refletiu poderosamente em tudo o que fiz depois: revelou para mim mais um problema ético do que qualquer coisa relacionada com estética. Eu quis aqui homenagear o que penso que seja a revolta individual social: a dos chamados marginais. Tal idéia é muito perigosa mas algo necessário para mim: existe um contraste, um aspecto ambivalente no comportamento do homem marginalizado: ao lado de uma grande sensibilidade está um comportamento violento e muitas vezes, em geral, o crime é uma busca desesperada de felicidade.(OITICICA, em DUARTE, 1998)

             Nestes trabalhos, Hélio Oiticica utiliza a fotografia de forma documental. Um registro de um fato real. A morte de seu amigo, o traficante Cara de Cavalo, assassinado violentamente pela policia.

            Nos estandartes, a frase Seja marginal, seja herói expressa ainda mais o protesto de Hélio Oiticica. Cara-de-Cavalo vivia à margem da sociedade. Mais que isso, era um criminoso, um traficante. Em sua marginalidade, o traficante revolta-se contra a sociedade. Vive em um mundo à parte, em uma revolução.

             Mas os trabalhos de Hélio Oiticica não se restringem à fotografia documental. Em BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem a Cara de Cavalo é necessário que o público participe da obra, que a toque, que a sinta. Que o público entre na obra, que faça parte dela. ”

Ainda sobre H. Oiticica, “Nos anos 70, morando em Nova York, apelou a um biscate no tráfico de drogas e se deu mal. Inadimplente junto à máfia, recebeu ultimato: Ou paga a dívida ou é um homem morto. Os irmãos César e Cláudio o socorreram com US$ 300 por mês.”   (de http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/arquitetura/arq13.htm)

Ou seja, para quem for estudar Visconti, o fora-da-lei é o assassino, o vilão covarde que agride um homem de quase oitenta anos e acaba por causar a sua morte. Para quem for estudar Oiticica o fora-da-lei é, no caso do próprio Hélio, o ser livre das amarras da sociedade, ou no caso de seu anti-herói Cara de Cavalo, a vítima da brutalidade policial. Como pode em vinte e quatro anos (1944-1968) a mentalidade vigente sofrer uma reviravolta de 180 graus? Isto não se dá por acaso, há que haver muita pressão neste sentido. O quanto isto é sintomático de uma patologia moral? Quão imerso nela um país tem que estar para não enxergá-la? E se alguém quiser usar a ditadura militar pós-1964 como justificativa para louvar aquele que desafia o sistema, devo lembrar que no ano da morte de Visconti, 1944, o Brasil estava ainda na ditadura Vargas. E ainda assim, o ladrão que matou Visconti não foi transformado em herói, continuou sendo um mero criminoso.

E nós, quarenta anos após a homenagem de Oiticica ao traficante, vivendo num Rio de Janeiro dominado por traficantes, de que lado estamos?

Eu sei qual lado goza de minha simpatia, tanto artística quanto filosoficamente. Mas não creio que esta seja a opinião vigente. Basta lembrar que no Rio de Janeiro existe um Centro de Arte Hélio Oiticica (http://www.rio.rj.gov.br/rioarte/site/projeto_t1.php?codProjeto=45), mantido com dinheiro público; mas não existe na cidade um Centro de Arte Eliseu Visconti. Aliás, é no mínimo irônico que no Brasil o anti-establishment seja mantido pelo Estado.

Mas o esquecimento proposital de alguns setores para com Visconti não é novo. Sobre o pintor, pode-se ler no mesmo link citado: “Não tendo sido convidado, acompanhou com interesse os acontecimentos da Semana de Arte Moderna de 22, embora não aceitasse manifestações onde a falta de conhecimento técnico fosse flagrante. Pietro Maria Bardi, em entrevista a “ISTO É” em dezembro de 1977, comentou sobre a ausência de Eliseu Visconti na Semana de 22: Não foi convidado. Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti.”

Felizmente, a internet pode minimizar algumas injustiças históricas. Quem quiser ver um pouco da obra do mestre, pode ir nos links abaixo, e lá clicar nas imagens para ampliá-las: http://www.eliseuvisconti.com.br/obras_nus.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1913.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1920.htm

A primeira página do site é http://www.eliseuvisconti.com.br

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2 Responses to Decadência planejada

  1. Parabéns, seu texto é muito bom e corajoso. É também especialmente significativo o ângulo que você escolheu: embora sendo tão espantoso do ponto-de-vista do comportamento social, representa com perfeição a mesmíssima oposição radical entre obras e idéias de artistas do porte de Eliseu Visconti e egocêntricos midiáticos como Hélio Oiticica — e isso os leitores leigos hoje em dia têm dificuldade para perceber.

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