Notinhas sobre a Segunda Guerra

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

Levei um tempo pra lançar este texto, que já estava pronto. Tinha medo de ser odiado. Mas como diz um amigo meu, “procuro sarna pra me coçar”. Podem me pichar. Je suis un chauviniste.

Novembro de 2007. Há coisa de um mês tive um atrito com um amigo nipo-descendente. Ele condenava os EUA – “americano é muito escroto” – por, entre outras coisas, terem jogado as bombas atômicas no Japão.

Aleguei que os japoneses tinham feito por merecer, levando em consideração o que fizeram com as populações de todos os territórios conquistados desde a década de 1930 – execução e maus-tratos a prisioneiros, prostituição compulsória das mulheres (duzentas mil, segundo o que se lê no texto extraído de http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/6374961.stm , “Historians believe at least 200.000 young women captured during World War II were forced to serve in Japanese army brothels.”)

E do ponto de vista americano, o ódio se justificava por terem os nipônicos lançado um ataque contra os EUA sem declaração prévia de Guerra.

Lancei ainda como justificativa o uso de armas biológicas na China:

(extraído de http://veja.abril.com.br/031001/p_088.html)

“As armas biológicas são microorganismos que causam doenças mortais ou incapacitantes. Podem ser também toxinas extraídas de animais e plantas ou sintetizadas em laboratório. O primeiro e único país a usá-las foi o Japão, na guerra contra a China, nos anos 30. O Exército japonês tinha até uma divisão especializada nesse tipo de recurso, a Unidade 731, que lançava mão de expedientes traiçoeiros. Numa ocasião, 3.000 prisioneiros chineses foram libertados sem mais nem menos. Era uma armadilha. Antes de saírem da prisão, eles haviam sido infectados com a bactéria da febre tifóide, o que acabou ocasionando uma epidemia na China. Em 1942, o governo japonês fez chegar à província chinesa de Nanquim uma partida de chocolates contaminados com anthrax, a mais temida das armas biológicas.”

Quem ainda estiver descrente, aconselho procurar no google: “japanese bombing Shanghai” e o slogan japonês para a China, sanko sakusen : “Kill all, loot all, burn all” – Mate todos, saqueie tudo, queime tudo (en.wikipedia.org/wiki/Three_Alls_Policy). Mais de 2 milhões de chineses morreram graças à implementação desta política.

Lendo os parágrafos acima, alguém pode dizer que um erro não justifica o outro: o fato de o Japão ter cometido atrocidades não justifica a ocorrência de outras. Concordo. NÃO DEFENDO O ATAQUE A POPULAÇÃO CIVIL. Já vi os documentários sobre os efeitos da bomba atômica, li e recomendo ‘Gen – Pés descalços’ de Kenji Nakazawa, o relato de um sobrevivente que perdeu quase toda a família no bombardeio de Hiroshima. Sinceramente, chorei lendo o relato daquele sofrimento inimaginável imposto a crianças.

Mas a discordância minha ou do leitor não muda o fato de que estamos aqui, a sessenta anos de distância dos eventos, em nossas respectivas casas, confortáveis, não-envolvidos em nenhum combate.

Imagine por um momento que você é o presidente americano Truman. Você era o vice de F.D. Roosevelt, o qual era muito popular e ficou no cargo por três mandatos seguidos. Após a morte dele, você assumiu o país em meio a uma Guerra de proporções colossais. Os alemães capitularam, mas a guerra continua acirrada no Pacífico. O exército inimigo, apesar de já virtualmente derrotado, força aérea destruída, é formado por fanáticos para os quais morrer pelo seu país levando o máximo de inimigos com eles é uma honra. Siga imaginando que você é o presidente americano, desde que você assumiu seu exército luta na ilha de Okinawa, onde 12.000 de seus homens foram mortos, 38.000 foram feridos. E 107.000 soldados inimigos e 100.000 civis morreram.

O Japão já não tinha como ganhar esta guerra desde o afundamento dos porta-aviões em Midway, em 1942. Mas continuou lutando ferozmente, numa política de vender caro cada metro quadrado. Em março de 1945, com o espaço aéreo japonês livre para as operações americanas, um ataque com bombas incendiárias foi lançado contra Tóquio. Entre 80.000 e 100.000 civis morreram, 375.000 ficaram desabrigados. Números absurdos, pelas dimensões. Mas o Japão não se rendeu.

Voltando o raciocínio: e então seus cientistas revelam a você, presidente americano, que a poderosa arma que vinham desenvolvendo ficou pronta. Você tem que se preocupar primeiro com sua população civil, depois com seus soldados. A população do Estado adversário deve ser mais importante do que a vida de seus soldados? Nunca na história militar desde Heródoto foi assim, por que agora deveria ser? Os gregos que sitiavam Tróia não se preocuparam com a população civil da cidade – isto era assunto dos comandantes troianos. Os antigos romanos antes de cercarem uma cidade não diziam:

“-Temos catapultas, mas não vamos usá-las, porque a população civil não pode ser envolvida.”

Nunca foi assim. Quem tinha a obrigação de zelar pelo bem estar da população nipônica, o governo japonês ou o americano?

O fato é que citam estas bombas em Hiroshima e Nagasaki como barbaridades singulares, o que, excluindo a novidade tecnológica, elas não são. Todos os números da Segunda Guerra são assustadores. As pessoas não sabem o que foi o bombardeio de Dresden (en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Dresden_in_World_War_II), a Batalha de Stalingrado, o massacre de Katina, ignoram fatos básicos, mas isto não as impede de se manifestar – em geral, burramente. É válido lembrar aquela pergunta sobre um quilo de algodão ou um quilo de chumbo. O que mata mais, um quilo de urânio enriquecido ou uma tonelada de TNT?

E a fome, que não tem peso, também foi usada amplamente pelos governos em guerra como arma de extermínio contra povos dominados e prisioneiros. Barbárie, horror. Isso é o que é a guerra. Se as bombas não fossem usadas, por quanto tempo a luta iria se prolongar? Quantos civis morreriam no fogo cruzado?

Na época que escrevia para outro site, tive uma troca de emails com um leitor, o qual posteriormente se auto-proclamou professor de história (eu não tinha como verificar se ele de fato o era.). Ele sustentou, babando de ódio, que os americanos jogaram a bomba no Japão e não na Alemanha por racismo – os alemães, por serem europeus caucasianos estariam livres de tal retaliação, só aplicável a ‘amarelos de olhos puxados’. Não sei de onde aquele energúmeno tirou este raciocínio. Espero que a alegação dele ser professor de história fosse falsa, porque senão, a educação deste país estaria pior do eu jamais achei que pudesse estar.

Tive que explicar pro sujeito que a Alemanha se rendeu em maio de 1945 e o Japão continuou lutando até agosto – três meses de diferença, período no qual a bomba foi testada (“… on July 16, 1945, the world’s first atomic bomb exploded one hundred feet over a portion of the southern New Mexico desert…”, em http://www.lanl.gov/history/atomicbomb/trinity.shtml). Aliás, na época os EUA só tinham material radioativo para fazer aquelas duas bombas.

Vejam os absurdos que a mistificação pode produzir. E se este sujeito é mesmo um professor de história e está ensinando mentiras a crianças e adolescentes? Uma das razões que motivou-me a escrever sobre tal assunto foi que há poucos dias recebi um email de um leitor, que vou manter anônimo. Dele constava:

“Costumo brincar quando encontro algum amigo judeu, observando que nem estaríamos conversando se não fosse por Stalin e Zhukov; e se por milagre estivéssemos, seria em alemão.”

Isto é uma meia-verdade perigosa.

Respondi, embora sem os links, que acrescento aqui para verificação:

Hitler e Stalin assinaram um pacto de não-agressão (o tratado Molotov-Ribbentrop, ver pt.wikipedia.org/wiki/Pacto_Molotov-Ribbentrop) e atacaram a Polônia pelo oeste e leste, dividindo-a entre si.

Depois que o pacto foi rompido por Hitler, o combate entre eles começou. A partir de 1941, um terço do PIB soviético era ajuda econômica e envio de equipamentos americanos, (US $ 11 bilhões durante a guerra, e um bi naquela época era muito, muito mais do que é hoje, ver http://uboat.net/allies/documents/lend-lease.htm, http://www.encyclopedia.com/doc/1E1-lendleas.html e http://www.customessaymeister.com/customessays/World%20War%20II/3086.htm) – americanos os quais, além de enfrentar os alemães na Europa tinham que lidar com um perigo igualmente grande no Pacífico.

Mas veja o que é a historiografia oficial: os soviéticos são saudados por derrotar os alemães (usando a própria população civil, além de ucranianos e outros como bucha de canhão, e podendo contar no combate com imenso apoio britânico e americano que atacavam os alemães no front ocidental, desviando parte considerável dos recursos e contingentes inimigos), os americanos são condenados por usarem bomba atômica no Japão (quando lutavam praticamente sozinhos, a Inglaterra concentrou suas forças na Europa e a URSS só declarou guerra ao Japão depois da bomba de Hiroshima, querendo ganhar algum dos espólios).

Na verdade, qualquer daqueles países, Inglaterra, URSS, Alemanha, Japão, num conflito daquelas dimensões, teria usado a bomba atômica se a tivesse. Como não tinham, o mundo se volta contra os EUA por terem sido mais eficientes.

Aliás, na já citada obra ‘Gen – Pés descalços’, o maior vilão apontado não são os americanos, mas o acirrado espírito militarista japonês. Antes da bomba atingir Hiroshima a família do personagem principal sofre o diabo nas mãos de seus vizinhos, porque o pai dele se manifestava contra a guerra.

A História normalmente fica do lado dos vencedores. Stálin, se tivesse perdido a guerra, mesmo com toda a rede de proteção repressivo-partidária que o envolvia, provavelmente seria cobrado pelos erros e crimes cometidos – não estou nem falando do ditador sanguinário que sempre foi, mas do comandante em armas desqualificado. Já os principais responsáveis pelo sofrimento da população japonesa foram a crença na superioridade por direito do homem japonês, a ausência da idéia de indivíduo – idéia parcialmalmente inexistente nos países do extremo Oriente – , e a mentalidade teocrática. Um dado revelador disso é que, nos outros países do Eixo derrotados, Mussolini foi executado e seu corpo exibido em praça pública; e Hitler se matou para escapar de qualquer julgamento. No Japão, o Imperador Hirohito, que permitiu a seu país se envolver e permancer prolongadamente na Segunda Guerra, após todo o sofrimento e a derrota, pôde continuar como figura simbólica intocada por mais quatro décadas, jamais sofrendo um julgamento.

Quem puder, leia o ótimo texto de Gustavo Corção sobre o ‘massacre de Katina’ em http://www.permanencia.org.br/gustavocorcao/Artigos/falsificacoes.htm

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4 Responses to Notinhas sobre a Segunda Guerra

  1. diana disse:

    Ainda bem que vc nao é politico.

  2. mauricioodias disse:

    É, eu não faço parte desta nobre classe que engloba Renan Calheiros, Hugo Chávez e Evo Morales.
    Deve ser porque eu tomo banho todos os dias.
    Mesmo eu colocando no primeiro parágrafo do texto “Podem me pichar. Je suis un chauviniste” , incrível que ainda haja gente que se dê ao trabalho de fazê-lo.

  3. mauricioodias disse:

    A todos os leitores:
    Já escrevi sobre erros jornalísticos, e admiti alguns dos meus.
    Mas há pouco cometi um novo, graúdo: ninguém chegou a escrever para me cobrar, mas teve um deslize colossal no textinho sobre a Segunda Guerra
    (https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/11/12/notinhas-sobre-a-segunda-guerra/).
    Em dado momento eu tinha falado de entre vinte e trinta milhões de chineses mortos na Guerra.
    Isto aconteceu por que ao pesquisar reuni no mesmo arquivo de Word vários textos em inglês sobre a Segunda Guerra e um sobre a Revolução Maoísta. Selecionava, copiava, e colava no mesmo arquivo de Word.
    De repente, na hora de buscar uns números no texto, lá no meio estava “some 30 million Chinese starved to death” (extraído de http://www.bmj.com/cgi/content/full/319/7225/1619)
    Na pressa, texto já quase pronto, eu lancei este número na conta da Segunda Guerra (na verdade, refere-se ao período “… between the spring of 1959 and the end of 1961”). Nem lembrei que tinha no meio dos meus alfarrábios um texto sobre a China Comunista e o insano plano do “Grande Salto a Frente”.
    Os 30 milhões estão na conta do camarada Mao – segundo outros autores, o número seria ainda maior.
    Os números atribuídos aos japoneses na Segunda Guerra também são controversos, fala-se de 1,5 milhão até 8 milhões.
    Lancei o “entre vinte e trinta milhões”, mas relendo, achei exagerado. Corrigi dois dias depois. Se fosse um jornal impresso, não tinha como correr atrás do tempo perdido – mas num jornal tem editor, coisa de que não disponho.
    Foi um erro primário, que muito me irrita. Depois de corrigido, eu podia deixar pra lá – apenas meia dúzia de gatos pingados devem ter lido, e aparentemente ninguém se importou. Mas fiquei tão puto comigo mesmo que mereço dar a cara à tapa. Mea maxima culpa.
    Mas adianto que a diferença entre os números finais não muda minha opinião em nada. Que seja um milhão na conta dos japoneses, já é um número mais que suficiente para destituir-lhes da condição de vítimas ao final da Guerra.
    Guerra é uma barbárie – mas selecionar informações para atribuir a babárie apenas a uma dentre muitas das partes, é ser criminosamente conivente.

  4. Maloca disse:

    Camarada, às vezes você me assusta. Digo, pela quantidade de informação que você reúne. Qual o seu ponto? Qualquer um que tivesse a bomba a teria usado? É, pode ser. Difícil falar em “se” em História. De fato, temos EUA e URSS saindo da Guerra como superpotências, a Guerra Fria e, mais recentemente, a vitória final do capitalismo. Só lamento que as potências derrotadas voltaram a ser potências, ou ao menos, países desenvolvidos (Alemanha, Itália, Japão) enquanto nos continuamos o eterno país do futuro. Ou melhor, nem isso. País do Futuro já é a China há tempos.

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