Chato ainda ter que tocar nestes assuntos

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Saiu na coluna Gente Boa do O Globo de 27-11-2007:

A filha-da-Vera-Fischer … procura um travesti que queira posar para suas lentes num ensaio “totalmente x-rated” em homenagem a Pedro Almodóvar. “Ele não pode ser operado, meu objetivo é chocar. Vou botá-lo de vestido de santo em cima do altar.”

Esta atitude adolescente de “chocar os burgueses” sempre foi ridícula desde que surgiu, e já não é novidade há uns setenta anos.

E, é claro, em se tratando de uma filha de celebridade, sempre há um “jornalista” para dar destaque a uma merda dessas. Os punks ingleses tinham um slogan sarcástico, que era estampado em camisetas: “Mantenha a cidade limpa. Mate um pombo!”

As vezes desejo que a idéia fosse estendida a jornalistas dos cadernos culturais.

Voltando ao clã das Fischer… A mãe, Vera, também se meteu a ser pintora depois de entrada em anos. E claro, lá estavam as fotos das pinturas no Segundo Caderno do Globo, sempre pronto a dar espaço a esse tipo de coisa – uma espécie de Revista “Caras” de circulação diária.

Não vou escrever uma linha sobre as pinturas, não tenho estômago pra isso. Mas sempre que vejo alguém pintando dessa forma, me dá vontade de perguntar:

– Por que você não optou por tocar piano?

A resposta óbvia seria: “Mas não sei tocar piano.”

E eu poderia emendar a tréplica: – Também não sabe pintar, mas, ao que parece, isso não foi empecilho.

Segue um email que enviei a um crítico de arte e a um restaurador há alguns meses, ligeiramente editado:

O caos nas artes não é exclusividade nossa. Conheci gente que estudou em Paris e outros que visitaram escolas de arte italianas, e o desalento é geral.

O que me parece é que o ensino de arte universitário tentou minimizar a importância do desenho. O Prof. Lydio Bandeira de Mello comenta que na época dele de aluno (final dos anos 40) da EBA eram necessárias 600 horas de modelo vivo para se formar. Desde os anos 80 não passam de 90 horas, quem quiser mais tem que fazer por conta própria.

E há aberrações como a EAV do Parque Lage, um lugar voltado para o ensino de ‘como se fazer marketing’, mas que efetivamente tem muito pouco a ver com o ensino de arte.

E entre ir para os cafundós da Ilha do Fundão, cercada de favelas, e ir para o bucólico Parque Lage, a moçada dourada de Ipanema a Gávea opta pelo segundo. E estas pessoas são justamente parte do grupo que tem uma segurança financeira familiar que lhes permitiria tempo para estudar arte sem a pressão econômica batendo à porta. E são também aqueles que conseguem mais facilmente notas em jornal ou bolsas da Funarte, Rioarte, Minc…

Vivemos numa era de decadência geral, não há um Tom Jobim, um João Cabral de Mello Neto, um Guimarães Rosa. Algo na pós-modernidade, talvez a sede por comodidade, fez o artista se afastar da preparação. Em vez de ser pintor, o jovem compra uma câmera digital e vai ser designer, em vez de estudar piano, vai ser dj. 

O fato é que mesmo alguns dos poucos nomes sérios que há na EBA hoje em dia, xxxxx xxxxx, yyyyy yyyyy, (nomes de professores que citei no email, mas que não acho correto reproduzir aqui.) não têm um trabalho artístico relevante. xxxxx tem muita teoria, mas vi pinturas dele que não se equiparavam ao discurso teórico. E isto é um problema concreto, na EBA já deram aula nomes como Marques Jr., os irmãos Chambelland, era um outro nível. (xxxxx e yyyyy têm boa formação, ao criticar o trabalho artístico deles, não posso deixar de ressaltar sua seriedade como professores.)

Então como reagir ao caos se não há um trabalho concreto para afirmarmos o que estamos falando? Se eu virar pro Carlos zzzzz e falar “teu trabalho é ruim”, quem contemporâneo eu posso mostrar como sendo exemplo de ‘bom’? João Câmara? Ele não é daqui… Conheço pessoas na faixa dos 35-40 que têm bom desenho, e talvez cheguem lá, mas ainda não chegaram. E podem até não chegar, mas também nunca vão ser ruins como o que se vê por aí hoje.

Acredito que haja boa gente por aí, mas fora do meu grupo, não tenho como chegar a eles. Pois eles (1) não expõem no Paço, no MNBA no CCBB, e (2) não saem nos jornais. Ou seria 2 causa e 1 conseqüência, ovo ou galinha?

E mesmo no ambiente acadêmico, que seria um mundo a parte desse circo midiático, os concursos para admissão de professores hoje são cartas marcadas. É mais importante ter mestrado em algo do que saber desenhar. O rótulo ‘arte contemporânea’ é a academia de hoje. Saindo por um instante das artes plásticas, o crítico literário Harold Bloom, em artigo publicado na Folha de São Paulo (06-08-1995) dizia: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Façam qualquer outra coisa, garantam a sobrevivência do jeito que for, mas não como professores universitários. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria, para ler e escrever sozinhos, porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade.”

E o mestrado em artes é ainda pior, é como se fosse a hóstia de uma missa negra: ‘Você aceita o diabo como seu salvador?’ E o sujeito ao aceitar fazer aquela prova, com aquela bibliografia tendenciosa, diante das bancas que costumam arrumar, diz ‘Aceito’ e engole.

Qual a chance, de reunirmos um grupo de pessoas com trabalhos relevantes, expor num espaço bem localizado, com condições favoráveis, e atrair atenção?

Temos interesse? É viável? Há trabalhos dignos? Se a resposta for “Não”, ficaremos sempre no nível do discurso ‘contra o que está aí’.

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3 Responses to Chato ainda ter que tocar nestes assuntos

  1. Mauricio Dias disse:

    Ao escrever “João Câmara? Ele não é daqui… ” eu estava me referindo ao eixo-Rio-SP.

  2. Bom dia Maurício,
    Concordo plenamente com você!
    Ser artista plástico, pintor principalmente, deve ser a coisa mais fácil que existe no momento.
    Pintar virou porto de cabeças vazias nesse oceano das artes. É descanso, é relaxante, é aposentadoria com remuneração garantida e com status de ser artista.
    Tocar piano é muito difícil, ninguém quer… mas pintar, ora! Não precisa nem saber desenhar.
    Cadê os retratistas? Me indique um grande pintor retratista hoje. São pouquíssimos.
    Desenhar é muito difícil. Figura humana então, nem se fala…

  3. JORGE EDUARDO disse:

    Caro Maurício,
    Quando me apresentam como “artista plástico” eu corrijo: “Não. Sou de carne e osso”.
    Essa história de artista plástico nasceu junto com a permissão de pintar ou desenhar sem saber nem um nem outro desses atributos fundamentais.
    Pergunto sempre se Rembrandt, ou Guignard foram “artistas plásticos”. Foram, isto sim, PINTORES. Tanto que quando me perguntam qual minha profissão e à resposta “pintor”, perguntam de novo: ” De quadros?”.
    A tal Arte Contemporânea, depende de bula. Os caras não pintam. Discutem. Instalam. Relêem. Mas não pintam.
    Aqui no Bananão – como diz Ivan Lessa – nós realistas somos execrados. Lá em Nova York não existe preconceito. Nem jornalistas que começaram com coluninhas de arte e pouco a pouco, via divulgadores e grana de pseudo-marchands, passassem a ser respeitados como críticos de arte sem nunca terem saído das redações para conhecer de fato a verdadeira arte.
    Lembro-me quando encontrei o finado Jaime Maurício – então crítico de arte do Correio da Manhã – em Florença, deslumbrado com o Ufizzi.
    Peguntei se ele estava mandando suas impressões sobre Florença e tudo mais, ele disse: “não posso dar a pala de que eu estou aqui pela primeira vez na vida. Pode pegar mal. Estou mandando matérias sobre a arte atual.”
    Por ironia classifico-me como um “Pintor de retaguarda” : a Vanguarda vai abrindo as portas e eu as vou fechando.

    Abraços

    Jorge Eduardo

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