Je suis béjaune

outubro 18, 2008

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Lembram-se daquele político Eudes Mattar?  Concorreu à presidência em 1989, e seu slogan era: “o último da lista”, dada sua posição na cédula, no tempo em que o voto ainda era feito no papel.  Lá se vão praticamente vinte anos, puta merda… Bem…sonhei com este nome outro dia.  Sério. Sabe-se lá como funciona o inconsciente, só no sonho me dei conta do cacófato ali contido (pra quem não lembra ou não concluiu o primeiro grau, cacófato é a figura de linguagem caracterizada por ambiguidade ou som desagradável provocado pela combinação de duas palavras.).

E no sonho, talvez pela suspensão da auto-censura, eu achava uma graça infinita dessa bobagem, ficava repetindo pra mim mesmo, “Eu, desmatar?” Falando em desmatar, pensei em fazer gracejo somando o trocadilho com o fato de que vai sair uma nova Playboy da Cláudia Ohana. Mas acho que aqui não é o lugar para baixaria.

Mais de uma vez, a primeira delas ainda na infância, parentes meus disseram que eu ria desbragadamente em meio ao sono. Após eu acordar vieram me inquirir por que ria tanto. Se alguma vez me flagraram em meio a um sonho erótico, tiveram a cortesia de não o revelar a mim. Ainda bem, seria constrangedor.

Esta coisa de ter estudado roteiro me faz ter certo controle sobre os sonhos. Não é papo de maluco, não – e nem este controle é absoluto, longe disso. Mas muitas vezes, dormindo, a trama se compondo na mente, vem o pensamento, não de forma verbalizada, mas algo mais ou menos como “não estou gostando deste caminho que a estória está seguindo, vamos tentar de outra maneira”, e como num DVD, volto ao ponto em que a coisa começou a me desagradar, e tento de outra forma. Tudo isso sem acordar. Às vezes não controlo, já tive pesadelos desagradáveis, só o despertar pôs fim à uma situação angustiante.

Voltando ao humor (“Eu, desmatar?”)… Meu amigo Leonardo, o Comprido, certa feita atribuiu a frase “O trocadilho é a mais baixa forma de humor” a Mark Twain (1835 – 1910). Procurei no google, não consegui a confirmação. Leonardo a mandou por email, em inglês; a construção da frase é um pouco mais rebuscada : “no circumstances, however dismal, will ever be considered a sufficient excuse for the admission of that last and saddest evidence of intellectual poverty, the Pun”.  Certa feita, quando circulou um boato sobre a morte de Twain, o mesmo veio a público, e com grande ironia declarou “the rumours about my death have been greatly exaggerated”.

Pode ser a mais baixa forma de humor, mas se funcionar, eu rio tanto quanto um garoto de oito anos. Um velho conhecido, Celso Taddei, uma vez me definiu como “a claque de si mesmo”. ‘Claque’ são aquelas risadas gravadas que se ouvem imediatamente após as piadas em programas cômicos de TV, para subliminarmente induzirem o espectador ao riso. Deve ser herança do tempo do rádio, “Balança mas não cai”, “PRK-30”.  A frase do Celso vinha do fato de que a cada chiste meu eu era o primeiro a rir – muitas vezes, eu era o ÚNICO a rir; sabe como os gênios nem sempre são compreendidos.

Por que cargas d’água estou escrevendo sobre isso? Por que alguém escreve num blog?

Talvez o motivador tenha sido mais uma vez o já citado Leonardo: numa brevíssima troca de emails sobre o filósofo Mário Ferreira dos Santos, o meu amigo atribuiu (ele gosta muito de atribuir frases; deixa ele…) a MFS  a frase “Alguma coisa há, e o nada absoluto não há”. E eu, tendo sonhado com esta bobagem sobre Eudes Mattar, pensei: é melhor registrar do que não registrar. Se algum dia eu for, graças a registros como este, considerado um bobo alegre, este julgamento caberá a terceiros, não a mim.

Ainda assim, é claro que me censuro quando escrevo, e mesmo quando falo – salvo com meus irmãos e uns quatro ou cinco amigos mais próximos. Para alguns, eu mandei o email sobre “desmatar + Ohana”, que omiti nesta página virtual.

Gosto de humor, mesmo diante das adversidades. É a tábua de salvação diante das agruras deste mundo. Eric Iddle crucificado no final de “A Vida de Brian” cantando “Always look on the bright side of life”, desde a primeira vez que eu vi, aos quinze anos,  até as muitas reprises, foi sempre uma revelação.  Fora do humor, só nos resta o caminho que leva ao já citado “nada absoluto”.

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Quebrando longo silêncio

outubro 18, 2008

Pág. 8 do Segundo Caderno do Globo de 17-10, metade de baixo da pág., uma matéria sobre artes plásticas:

Acho totalmente equivocado o colecionador que fica escolhendo porque gosta disso ou daquilo. O papel dele é estimular a produção do artista, confiar que ele vai produzir um trabalho importante de ser arquivado ou protegido numa coleção. ” – Ricardo Basbaum, um artista.

O sujeito, per si, declara inválido o direito de escolha do cliente e ainda estabelece qual o papel deste na pantomima – por acaso, um papel conveniente ao autor da sentença. E a jornalista autora da matéria, ao publicar tal fala sem nenhuma réplica ou comentário crítico, está, mesmo que involuntariamente, respaldando-a.