Destrinchando O Passageiro

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Ainda sou relativamente jovem. Não mais um garoto, mas ainda não dobrei o cabo da Boa Esperança. O próprio nome deste site tem a ver com o reconhecimento posterior da ingenuidade natural da juventude. A vida é assim, a percepção depois dos trinta anos é bem diferente do que era aos vinte. Isto é um sintoma de alguma evolução ao longo da vida – evolução esta que às vezes cobra um custo bem alto.

Tenho revisto alguns filmes que eu vi com vinte anos. Rever certas obras depois de um longo tempo pode causar reações diversas. Às vezes é a confirmação das qualidades que você atribuiu a ela quando da primeira vez, um prazer renovado. Às vezes, um filme que você não gostou muito da primeira vez, cresce posteriormente; e o inverso também ocorre.

Revi “O Passageiro – Profissão Repórter”, de Michelangelo Antonioni. Quando dos meus vinte anos achei sensacional. Agora, o meu lado racional interferiu na apreciação.

Se você não viu o filme e ainda pretende fazê-lo, saiba que no texto eu conto detalhes, inclusive o final.

E o fato de eu tecer algumas críticas ao filme não significa de forma alguma que eu o ache dispensável. Não escreveria três ou quatro páginas sobre algo que eu não ache importante.

O filme é bem realizado, MUITO bem filmado. Consegue, pelo uso de paisagens áridas, passar a sensação de descaminho, falta de sentido.

Antonioni domina o metier: os diálogos entre o personagem de Jack Nicholson e o falecido hóspede do quarto ao lado têm passagens de tempo interessantes, alternando passado e futuro, uso do som “off” inteligente, incluindo uma brincadeira com o gravador, instrumento de trabalho do personagem principal.

No entanto, mais uma vez, como já narrei aqui ter me acontecido ao ver outros filmes, atribuí ao roteiro as fraquezas que não consegui engolir – o roteiro é de Mark Peploe, Peter Wollen e do próprio Antonioni, a partir de uma história de Peploe.

Já desde o momento que Jack Nicholson decide falsificar o passaporte do falecido, pra se fazer passar por ele, a coisa começa a ficar esquisita. Não vou entrar (por enquanto) na questão da falta de ética envolvida em se apossar da identidade de um morto; no momento, o que me interessa é: a troco de quê ele faz isso?

Não lembro onde li, mas numa entrevista Billy Wilder falava sobre sua clássica comédia “Quanto mais quente melhor”. Ele já tinha a idéia dos dois músicos se vestirem de garotas e acompanharem uma banda feminina. A idéia inicial era que, por estarem completamente sem dinheiro, eles aceitariam tal situação para simplesmente estar empregados. Mas Wilder achava que não era motivação suficiente, e após elaborar algumas possibilidades, chegou à idéia de os músicos terem testemunhado um Massacre de gângsteres e estarem com a cabeça a prêmio. Isso, sem dúvida, faz um sujeito encarar situações que de outra forma ele não agüentaria.

Por se tratar de uma comédia, gênero menos realista por sua própria natureza, tal preocupação com a motivação talvez nem fosse necessária. Don McGuire, Larry Gelbart e Murray Schisgal ao escreverem “Tootsie” de Sydney Pollack, seguiram simplesmente a idéia do artista desempregado se travestir para arranjar trabalho; e funcionou. Blake Edwards fez o mesmo em “Victor ou Vitória”. De qualquer forma, no filme de Wilder a questão dos gângsteres acrescentou veracidade e densidade à trama.

Mas “O Passageiro” é um drama, as coisas não podem acontecer sem uma razão. Por que um anglo-americano num país desértico do norte da África iria se arriscar a falsificar um passaporte? Correr à toa o risco de virar a “mulherzinha da cela” numa prisão do Marrocos?

Se ele estivesse sendo perseguido; se tivesse uma doença terminal e quisesse morrer sem deixar sinais; se o cara de quem ele está roubando a identidade tivesse uma fortuna na qual ele aspirasse botar a mão… sei lá quantas outras hipóteses pode haver para justificar tal ato. Mas o filme não oferece nenhuma.

Depois vamos saber que ele está entediado com sua vida. Mas estar num deserto na África já é estar livre de uma série de amarras. Se ele quer sumir do mundo, ali é um bom ponto de partida. Não precisa falsificar um passaporte de um falecido.

OK, tem a coisa de viver OUTRA vida, um papel diferente, o Mattia Pascal de Pirandello, OK. E ele é um repórter, “ser” outro vai dar-lhe um ponto de vista de uma dimensão que ele nunca teve. Uma vidinha cubista, digamos assim.

Mas já de volta à Europa, ele descobre que o finado era um contrabandista de armas. E ganha uma bolada de dinheiro por um serviço já prestado. E continua interpretando o papel.

Qualquer ser humano normal pensaria: tráfico de armas é uma parada extremamente perigosa; se descobrirem que sou um farsante (o que fatalmente VAI acontecer, pois ele não tem a menor idéia dos contatos e modus operandi do falecido) não vão me dar “apenas um puxão de orelha”. Incorrer na ira deste tipo de gente costuma ser fatal, e antes de ser fatal, pode ser penosamente doloroso.

Mas ele continua, vai pra Espanha e segue com a interpretação.

Não tinha como eu acreditar nisto. Talvez eu seja um burguesinho mal acostumado… Ok, culpado, admito… Mas aí é que eu digo, só fui me tocar disso tudo em relação ao filme agora, pós-30. Quando vi o filme aos vinte, embarquei totalmente; e eu já era então o burguesinho mal acostumado, logo não deve ser esta a razão da descrença. Talvez tenha a ver com o meu desencanto com utopias. Talvez seja conseqüência das circunstâncias da vida: “De cada amor herdarás apenas o cinismo”.

Mas alguém, como aquele personagem, ir atrás de sarna pra se coçar tão gratuitamente… Se ele tivesse algum ideal ou propósito: “eu vou fazer uma revolução contra um regime ditatorial”; “eu vou salvar vidas”; “eu vou fazer uma matéria pra ganhar o prêmio Pulitzer”; “eu vou encher o rabo de dinheiro”. Eu não concordaria, mas entenderia. Mas não, nada… Ele é movido… pelo tédio…

E aí surge uma mulher. Maria Schneider, “O ÍCONE” de jovenzinha libidinosa e liberada dos anos 1970, desde o episódio do besuntamento de manteiga do Ultimo Tango em Paris. Estudante de arquitetura em visita às obras de Gaudi, ela embarca na aventura, torna-se cúmplice. Com o mesmo desprendimento do personagem principal, não acha ruim nem quando Jack Nicholson fura um bloqueio policial, com ela dentro do carro. Claro, por que alguém vai fugir diante de uma aventura – que não promete recompensa nenhuma – só pelo risco de levar bala da polícia? E por que se incomodar em ter sua liberdade e vida postas em risco por decisão de outrem?

Ela não é das que se incomodam com bobagens como estas. Bem diferente de todos os humanos racionais que já conheci.

Um parêntese, o filme apresenta uma cena “jornalística” de fuzilamento que parece ser real. Espero que não seja, pois se for, é totalmente gratuita, e de um voyeurismo sádico.

Depois ainda vem o ponto mais fraco do filme, Jack e Maria deitados lado a lado, ele conta a história do cego que recuperou a visão graças a uma cirurgia e se horrorizou ao ver a sujeira e feiúra do mundo, terminando por se matar. Ainda por cima é contado como sendo uma história verdadeira. Maria, amedrontada, reclina a cabeça pra frente, encostando-a na de Jack, e o abraça como que pedindo “me proteja deste mundo”.

Se você não estiver atento, se deixa levar, Nicholson sabe ser convincente. Na verdade o diálogo todo é ridículo, falso, especialmente a fala “Quando ele era cego atravessava a rua com a bengala, mas depois que começou a ver, não tinha mais coragem”.

É um niilismo pobre, um Hamlet que entre o “ver” ou “não ver” prefere a segunda opção. Como Antonioni, alguém que faz cinema – algo intimamente ligado ao fetiche e prazer do olhar – pode corroborar uma besteirada dessas?

Aqui entra uma implicância besta minha: sei que a vida pessoal do artista não deve ser levada em conta na avaliação da obra, mas algumas coisas não consigo dissociar. Soa muito falso ver Jack Nicholson fazendo um niilista desencantado, quando você sabe que ele na vida real é um hedonista pueril que adora putas, boxe e baseball…

Voltando ao roteiro: como pode um personagem falsificar a identidade de um morto, sumir sem se incomodar se isto vai preocupar aos seus conhecidos, se envolver com traficantes de armas (que as usam para matar quem? Quantos?), colocar em risco a vida de uma jovem de vinte anos, e no filme não haver nenhuma condenação moral disto tudo?

Ok, o personagem morre no final. Mas isso é tratado com impessoalidade e frieza quase matemáticas, e já como ato consumado: os criminosos foram atrás dele e o mataram. Não vimos o momento, mas está bem claro. Mas não é como nas tragédias gregas, onde os deuses punem as más ações; é uma crônica que termina com o personagem principal morto. Não há nenhuma censura ao personagem.

OK, é muito bem feito. O célebre plano final, a câmera atravessando a janela gradeada, sem cortes. Muito bom, em nenhum momento neguei a qualidade artesanal da filmagem. Mas um filme, ou qualquer obra de arte, não pode ser só habilidade; há que ter uma condição humana no sentido mais amplo do termo.

Mas é um filme imperdível.

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