Representando um papel-moeda

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Há meses venho pensando na questão da arte como conceito – não na simples questão do nicho denominado arte conceitual – mas na arte contemporânea como um todo, e sua relação com o dinheiro. Pois o dinheiro também é um conceito, e a arte contemporânea, sob muitos aspectos, é uma nova moeda.

O valor do dinheiro é atribuído, não real. Uma nota de cem reais é (ou pode ser) feita do mesmo material que é feita a de cinco reais. Mas se aceita que a primeira vale vinte vezes o valor da outra, pois a instituição que as emite atribuiu-lhes estes valores e os confirma.

Um banco federal de um país atribui determinado valor à sua moeda, e se ele tiver credibilidade aquele valor é aceito internacionalmente, tendo em geral o valor do ouro como referência. A moeda da Suíça ou do Canadá tende a valer mais que a da Bolívia ou a do Sudão, pois os primeiros são instituições mais sólidas.

Da mesma forma, alguns CDs e DVDs custam muito mais caro que os outros. Embora materialmente todos – à exceção de edições especiais e encartes luxuosos – sejam basicamente a mesma coisa: um estojo de plástico com uma capa de papel impresso e um disco de plástico. Uma série de questões entra no valor final: popularidade dos artistas envolvidos, interesse do público, percentual da empresa que produz, direitos autorais, custos de divulgação embutidos. Penso que, principalmente, o que é decisivo no preço é o público-alvo a que se destina o produto.

Para uma distribuidora lançar aqui um cd oficial da pianista Carla Bley, tem que cobrar um preço mais caro, pois ainda que a venda no exterior daquela gravação já tenha coberto seus custos, a reprensagem local é feita para um público sabidamente mais reduzido. Para justificar os gastos e ainda dar algum lucro, a taxa de rateio é mais elevada.

E no caso das artes plásticas, quem atribui os valores? Falando apenas de artistas vivos, quem estabelece que um trabalho de tal artista vale mil vezes o valor de outro trabalho feito por outro artista?

Os marchands? Os críticos? Os jornalistas? O público consumidor? Alguém tem alguma sugestão de uma classe que esteja faltando? Cartas pra redação.

Vamos supor que o filho do Bill Gates amanhã decida pintar. O pai é dono da Microsoft, logo ele tem dinheiro de família para bancar os melhores assessores de imprensa, e assim arranjar espaço nos jornais. E o simples fato de o Bill Gates Jr. estar pintando já é em si notícia. Ele também tem dinheiro para pagar um crítico para escrever o texto do catálogo. E este crítico, e os colegas que o mesmo cultivou durante os anos de sua carreira, não vão negar publicamente as qualidades atribuídas no texto do catálogo.

E como o Gates Jr. não precisa vender o produto do seu trabalho para viver, pode jogar os preços de suas obras para qualquer valor que lhe der na telha. Arte não é feijão, não é gênero de primeira necessidade; não é tabelada. Gates Jr. diz aos quatro ventos que cada tela sua custa 200 mil dólares. Se alguém quiser pagar, ok.

Ocorre neste caso um desvirtuamento de valores, atribui-se qualidade a algo que provavelmente não a detêm. Mas até aí, tudo bem.

Pensem como a coisa pode ficar pior: Um texano dono de poços de petróleo que tem muitos negócios com Gates pai compra um quadro do Gates filho. Uma boa ação entre amigos, de repente Gates pai manda junto o equivalente a 50 mil dólares em computadores para o texano, como agradecimento pelo incentivo ao Jr. O texano abate boa parte da despesa do imposto de renda como mecenato. Doa a tela para um Museu influente de Nova York, onde passará a constar como benemérito. O quadro entra para o acervo, ficando num lugar de destaque.

Neste caso –  totalmente hipotético – a marca da grife Microsoft, o valor atribuído a esta empresa daria credibilidade aos quadros do Gates Jr. Os quadros dele seriam simbólicos deste poder, logo um conceito, uma moeda. Em vez do Bill Gates e os computadores, poderia ser um fabricante de armas e uns caixotes de Uzis.

Vamos trocá-los então por outros. Mudar também o cenário: num país da América do Sul a esposa de um ministro decide ser fotógrafa. O presidente de uma estatal daquele mesmo país destina um patrocínio de 200 mil “dinheiros” para uma exposição e a confecção de um catálogo com o trabalho da moça. Mais uma vez, melhores assessores de imprensa = espaço nos jornais.

Neste último caso o desvirtuamento foi ainda pior, pois envolveu prevaricação com o dinheiro público. E favores deste nível têm que ser pagos com favores equivalentes.

E o tempo todo, não se falou em qualidade da arte. É uma pretensa arte que tem valor econômico, pois este valor é atribuído por poderes econômicos constituídos. Mas alguém disse que é boa arte? E se alguém o disse, este alguém tem credibilidade para isso? Para um jornalista dizer que algo é bom, em contrapartida deve ter algo que ele NÃO ache bom. A alguém que nada pareça ruim, falta senso crítico. E sem senso crítico não pode haver credibilidade.

Mudemos de personagem e situação. Digamos que o bilionário russo Roman Abramovich,  dono do Chelsea, estivesse indo para a Austrália fechar um negócio, e seu jato particular caísse próximo a uma ilha do Pacífico. Abramovich e os tripulantes conseguem chegar até a Ilha, que é habitada por pescadores que quase nunca têm contato com a civilização e não falam nenhum idioma ocidental. Os celulares dos recém-chegados se estragaram pelo contato com a água salgada, mas o talão de cheques de Abramovich está ileso.

Um cheque assinado por Abramovich terá valor para aquela gente? Eles aceitarão lhe dar cocos, peixes e canoas em troca de um pedaço de papel escrito à mão? Melhor seria para ele ter uma bolsa cheia de espelhos, tesouras e facas de aço inox, isto poderia ter valor para aquela gente.

É claro, trata-se de uma situação pra lá de forçada. Tem um quê do bom selvagem de Rousseau (que eu abomino), o bilionário descobrindo que sua riqueza não vale nada para os homens simples. Mas não é bem assim. Não é que aqueles ilhéus não se interessem pela riqueza. Se for mostrado a eles que o valor do cheque significa mulheres bonitas, refeições suntuosas, criados, transatlânticos, avião particular, vinhos caríssimos, carrões, mansões, poder, eles vão se interessar. O que eles talvez não consigam seja associar a riqueza àquele pedaço de papel, que é apenas um símbolo de toda aquela riqueza.

Extrapolemos mais ainda. Criemos um milionário hipotético inglês. Não há nenhum parente, amante ou amigo dele metido com arte, mas ele decidiu que vai ‘criar’ do nada um artista. Pede a seus assessores que selecionem alguns nomes. De preferência do terceiro mundo, ajuda aos pobres é sempre bem vista. Se for de uma minoria étnica é melhor. Aí os assessores trazem um garoto analfabeto da Tanzânia que cresceu numa tribo que foi dizimada por outra tribo rival. Ensinam um pouco de inglês para o garoto, dão-lhe umas aulas de história da arte, pedem a ele que faça desenhos representando a miséria e violência em que cresceu. O garoto – criemos um nome para ele, Djembê – nunca teve como se interessar por arte, sua preocupação era sobreviver às duras condições, não ser mutilado por uma mina explosiva, jogar futebol descalço e tentar fazer sexo com as moças próximas a ele sem contrair o vírus HIV. Apesar de só ter 16 anos, Djembê já tem dois filhos – é comum entre os pobres procriar cedo.

Alguém tem dúvida que uma exposição de um personagem com esta biografia, sendo apoiado por uma força econômica, vai ser sucesso absoluto no Circuito Elisabeth Arden? Que todos os textos relatando “a coragem de Djembê” e “a luta pela inocência perdida” vão dar páginas e páginas nos cadernos culturais?

E o desenho dele, tem alguma qualidade? Isso é totalmente irrelevante. O veredicto já foi decidido de antemão.

E assim como eu criei esta biografia em minutos, qualquer milionário pode pedir a sua equipe que crie uma equivalente.  Acha que alguma instituição vai se dar ao trabalho de verificar uma pretensa tribo da Tanzânia que não tem registros oficiais escritos?

Vejam um trabalho do famoso Richard Serra no link http://www.guggenheim-bilbao.es/secciones/programacion_artistica/nombre_exposicion_claves.php?idioma=en&id_exposicion=121

Se em vez de Richard Serra, o mesmo trabalho tivesse sido feito pelo Seu Manoel da padaria, alguém lhe atribuiria algum valor?

Penso que assim como o exemplo dos cheques do bilionário, obras como esta só tem valor perante uma sociedade que feche um pacto em torno dela. Mas, fora da sociedade, cada indivíduo em seu íntimo e no recesso de seu lar, atribuirá a ela um valor bem diverso do socialmente aceito.

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