Homero e eu

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Este site já teve mais de doze mil acessos. Deve ter muita gente que procurou uma expressão ou nome no Google e, ao entrar em minha página, viu que não tinha nada a ver com o que procurava, dando meia volta sem ler nada. Ainda assim, esta gente acaba computada na estatística do provedor.

Doze mil não é um número muito expressivo, longe disso. E alguns dos meus amigos já devem ter entrado na página várias vezes. Assim, qual será o número de pessoas que realmente leram algo que escrevi? Oito mil? Seis mil?

Levando em conta o número de gregos alfabetizados que viviam há três mil anos, e da dificuldade da divulgação de textos na época em que tinham que ser copiados a mão, é bem provável que eu já tenha tido mais leitores em vida do que Homero teve durante a vida dele.

Um raciocínio cretino, claro; não quero me comparar ao autor da Ilíada. As facilidades de produção e acesso estão todas a meu favor, além de a população e o percentual de alfabetizados terem crescido imensamente. Mas faz a gente pensar. Qualquer folhetim novelesco da Globo, por mais medíocre que seja, deve atingir pelo menos quatro milhões de pessoas em território nacional, fora o vasto público estrangeiro que consome o produto.

De vez em quando, lendo sobre os gênios do passado, Aristóteles, Roger Bacon, Shakespeare, fico pensando. Se tivessem a oportunidade, será que teriam gostado de ouvir a música de Sonny Rollins? E Beethoven? (Não comparando um com o outro, pelo amor de Deus.) Teriam gostado das pinturas dos impressionistas? Dos melhores filmes de Hitchcock? Dos grandes clássicos de Disney, ‘Pinóquio’, ‘Fantasia’? Se pudessem ver Marlon Brando dizendo “I could have been a contender” ou De Niro em frente ao espelho dizendo “Are you talking to me“?

Não é evidente que muito do que constitui o nosso universo conhecido foi negado a essas pessoas? Elas nasceram num mundo em que se acreditava haver serpentes gigantes no mar ou que o sol girava ao redor da terra, ou que os deuses moravam numa montanha e doenças eram causadas por espíritos malignos. Onde a escravidão era aceitável – Aristóteles achava-a justa.

Estes gênios do passado nunca viram um gol de Pelé, Fred Astaire dançando, nem sonhavam com o homem pisando na lua, todas estas cenas que já estavam no acervo da humanidade antes de eu nascer. Nunca comeram uma pizza ou sentiram o sabor do chocolate. Se, aos doze anos Aristóteles tivesse ouvido o The Who ou James Brown, ainda assim teria sido “o” Aristóteles que conhecemos? E se aos quinze, ele tivesse acesso a fotos de lindas mulheres nuas – na época dele já havia erotismo e pornografia, mas não eram tão bem produzidas e universalmente acessíveis – , em que isso tudo teria mudado as reflexões que viria a produzir no futuro?

O.K, eles não tinham ar contaminado por chumbo e gases residuais produzidos por indústria e queima de petróleo, vegetais contaminados com pesticidas e carne de animais alterada com hormônios para engorda. Sabe-se lá que diferenças todas estas coisas podem causar ao cérebro, e, por conseguinte, ao raciocínio.

Mas ao olhar para o passado remoto por um lado, vê-se que havia menos distração na busca pelo saber. O mar de estímulos sensoriais em que vivemos hoje nos dispersa. Fico olhando meus sobrinhos, perdidos num mundo de jogos eletrônicos, eles muitas vezes mal se apercebem do mundo real. Pode-se argumentar que bibliófilos, amantes da música e cinéfilos também dedicam-se a um mundo virtual em detrimento do real. É verdade, mas nestes diversos cultos há uma diferença considerável no nível desta conexão mundo real/virtual. A boa música, a literatura e o bom cinema podem nos dizer coisas profundas sobre o mundo real. Já neste mundo de videogames, quando exacerbado, há uma fuga da realidade que beira o autismo.

Se recuarmos à pré-História, há dez ou vinte mil anos, um garoto de 14-16 anos provavelmente já estaria prestes a enfrentar o início da paternidade, com todas as dificuldades que isto acarreta. OK, há até hoje os que são pais com 14 anos. E pra falar a verdade até hoje deve haver gente que acredita haver serpentes gigantes no mar, que o sol gira ao redor da terra, etc. Tem gente que não acredita em vida microscópica. Mas esses estão fora do mundo contemporâneo, são as exceções; houve um tempo em que eram a norma, e mulheres engravidarem aos 13-15 anos era normal.

No parágrafo acima, quando listamos as crenças infundadas, não estávamos falando de comunidades tribais isoladas ou indivíduos ignorantes. Eram épocas em que as classes cultas da humanidade realmente acreditavam nisso. Mas isto não impediu Shakespeare de ser Shakespeare, ou Aristóteles de ser Aristóteles.

Mas para os que nascemos hoje, a necessidade de termos em nossas mentes todo este acervo antes de produzir nossa contribuição a este mesmo acervo pode tornar-se um fardo. Homero ao escrever não tinha a difícil tarefa de conhecer toda a história da literatura ocidental. Ele só escrevia. Hoje, se você for escrever sem uma boa noção do que já foi feito, é provável que soe anacrônico, ingênuo e reiterativo. Talvez, todo este texto que eu estou escrevendo já tenha sido escrito, com outras palavras, várias vezes.

Toda esta etapa de preparação para a vida é bem mais longa, e é necessário que seja assim. Um filhote de tubarão já nasce apto para viver por si só, mas ele não vai além do que seu bisavô foi. Já o ser humano em quatro gerações passou da locomotiva para a viagem espacial.

Ainda assim, eu tendo a preferir um bom desenho reproduzindo um corpo humano – por mais que isto já tenha sido feito ao longo de séculos – a uma instalação artística. Não faço disto um dogma, não digo que qualquer desenho figurativo seja melhor que qualquer instalação. Aliás, figurativo ruim é de doer. Mas até hoje não lembro de ter visto uma instalação que me fez pensar “daqui a 20 anos isto ainda terá valor artístico”. Em geral, tudo é celebração do efêmero, atrai pela novidade. E os artistas que produzem tal arte parecem nem se incomodar com isso, produzem visando o consumo imediato.

Isso tem a ver com uma questão que coloquei num parágrafo acima: ‘Se aos doze anos, Aristóteles tivesse ouvido o The Who ou James Brown, ainda assim teria sido “o” Aristóteles que conhecemos?’ Talvez ele deixasse de lado a filosofia e resolvesse aprender a tocar um baixo elétrico. Há mais possibilidade de se divertir e conseguir garotas e fortuna dessa forma.

Em nosso mundo cultor da juventude e do prazer imediato, provocar um sorriso cúmplice na classe média é mais desejável do que tentar provocar uma epifania nela – até porque a classe média não tem muitos recursos intelectuais para saber o que é uma epifania e menos ainda para se interessar em ter uma. Aliás, não só a classe média, as pessoas em geral, falo da classe média porque ela é que é o público que compra como verdade as bobagens que saem em cadernos culturais de jornais. Ou seja, ao invés de o artista puxar o público para o alto, ele se delicia em ir para o nível do público.

Apenas um aparte: pode parecer injusto envolver o Who ou James Brown neste imbróglio. Explico-me: não os usei como exemplos da imbecilização da sociedade, em absoluto, porque ambos foram bons pra cacete no que faziam – que era divertir o público, coisa que muito poucos conseguiriam fazer com a competência apresentada por eles. E quarenta anos depois de o terem feito, o trabalho deles ainda é bom e merece ser lembrado.

O The Who ou James Brown, ou as obras de David Bowie ou Jorge Ben nos anos 70 entram aqui para exemplificar uma outra frase do texto: “O mar de estímulos sensoriais em que vivemos nos dispersa.

Pois é difícil ficar indiferente à sua música. Assim como, num nível diverso, é difícil ficar indiferente à uma aparição na tela da Liv Tyler no começo da carreira. Nenhum homem normal vê Eva Green em “Os Sonhadores” do Bertolucci e pensa “agora vou estudar algoritmos“. Não, aquilo é algo que obriga o sujeito a reagir, se posicionar.

Mas enquanto o apelo estético do músico é conseguido pela sua habilidade e criatividade, o do filme do Bertolucci é um aliciamento em que ele utiliza-se de um recurso pré-existente e externo a ele, a beleza de Eva. Há algum mérito nisto também, claro, mas um diretor de cinema deveria ter objetivos diferentes dos de um caça-talentos de agência de modelos. E não é pelo fato de a moça ser linda que vou dizer que o filme seja bom, porque, absolutamente, não é.

Mas toda esta reflexão é a de um homem adulto reconhecendo que ele próprio foi alvo da mesma manipulação durantes décadas. Não é uma queixa, mas uma constatação: aos doze anos eu babava pela Kelly LeBrock de “A Dama de Vermelho”. Mas esta criação de ícones de beleza, que faz parte do mar de estímulos sensoriais é algo recente na humanidade; não havia tal culto até o sec. XIX. O quanto este advento mudou nosso comportamento?

A mesma revolução tecnológica-midiática que faz com que meus textos circulem hoje mais facilmente que os de Homero (ou Homer, como o chamam os ingleses e americanos) em sua época também uniformiza nossos gostos e padrões, moldando nosso comportamento. Mas pelo menos fugi da obviedade boba de traçar um paralelo do tempo Homérico com o atual, dizendo que vivemos a era de Homer Simpson. Isto seria imperdoável.

Uma resposta para Homero e eu

  1. Patricia Newman disse:

    Maurício,
    sinto que estou mergulhada em profunda “inguinorânça”, mas orgulhosa em ter um amigo (eu o considero assim, não sei se a recíproca é verdadeira!)!!!!!
    Adorei ler!
    Beijos,

    Pat

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