Levando a vida na flauta

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

a) Preâmbulo

P.Q.P., estou sentado pra escrever sobre os quadrinhos do Arnaldo Branco, e um peruano pára em frente ao meu prédio com caixas de som que ficam tocando aquela música melancólica que eles fazem com aquela flautinha indígena – a que parece a flauta de Pan, e eu não faço nem idéia de qual seja o nome que eles dão ao instrumento.

Mas o tema da minha coluna/artigo já ta fixado, vou falar de quadrinistas da internet, em comparação ao Henfil. Então a flauta fica pra coluna que vem.

b) O texto em si

Isto tudo foi o que pensei há três dias, quando lancei o texto sobre quadrinhos, o qual está logo abaixo deste  (e há um link para ele ao final deste texto, não precisa interromper a leitura agora).

Agora, vou falar do peruano.

Aquela flautinha, que tristeza! Todo o anacronismo, a inviabilidade e inadequação ao mundo civilizado que ela traz inserida. Certos instrumentos trazem este sentimento embutido, como o acordeon. São como fotógrafos lambe-lambe de rua ou carrossel de parque bem pobre e fuleiro, com tinta descascando: restos de um mundo que não tem mais lugar.

E o que é pior, paro de escrever, pego o elevador, atravesso o corredor para ir lá ver qual é o esquema. É só a aparelhagem de som reproduzindo o cd. O andino, indolentemente recostado ao aparelho, nem sequer toca ao vivo. Assim, rola música sem interrupção para descanso, seja do músico ou dos infelizes ouvintes. Ouço “Don’t Cry For Me, Argentina”. Por que a Argentina iria chorar por vocês? Entregaram o jogo pra eles na Copa de 78.

E o apartamento onde moro não é de frente pra rua, uns trinta metros me separam do peruano. Imagino quem mora de frente – o volume certamente é bem mais alto: estes devem ter ganas de fazer uma maldade com o pobre sujeito, jogar um balde d’água, algo assim. Imagino um casal de vizinhos meus, já idosos, e que moram no apto. 101, bem de frente pra cena do crime. Estão no sossego do seu lar, começa o cantar da flautinha agourenta.

– Ih, o peruano de novo, o que a gente faz com ele?

– Lima!

– É pra limar o cara ou mandar ele pra Lima?

– Whatever, desde que ele pare!

Na real, acho que o meu vizinho, o ‘Seu Luiz’, do alto de seus 80 e tantos anos não fala “Whatever”.

“Imagine”; “Hey Jude”. O repertório do cara é eclético. Triste que John Lennon tenha morrido com uma overdose de chumbo no lombo; mas seria ainda mais triste se ele estivesse vivo vendo o peruano maltratar “Imagine”. Cadê o psicopata Mark Chapman com o revólver, quando a gente precisa dele?

Garotos que tocam rabeca na porta do Shopping Center também são tristes, claro! Mas este peruano – ou boliviano, sei lá – é mais triste ainda: ele veio de longe pra isso. Isso é o ápice da vida dele. Se o cara viajou 5.000 km pra tocar flauta numa rua do Rio de Janeiro, pensa qual devia ser a perspectiva de vida que lhe era reservada em sua terra?

Tento imaginar sua vida, partindo de uma série de estereótipos: ele criança em sua cidadezinha natal, descalço no quintal enlameado do casebre da família, onde mora com seis irmãos e a mãe, viúva desde que o pai morreu numa explosão na mina de prata onde trabalhava. Ele come um prato de farinha de mandioca, enquanto olha as galinhas ciscando a terra, e pensa: Se Dios quiser, um dia ainda vou pro Brasil pra ser músico.

Aposto que o Pablo, do “Qual é a Música?”, aquela figura brega e purpurinada, um dia sonhou a mesma coisa. Quem disse que a fada-madrinha não atende os desejos? Queriam Brasil, aqui estão. Vidão, hein?

(Aliás, não sei se é por ter falado no Pablo, lembrei de uma curiosidade: “Peruanos” é para muitos gays a palavra mais bonita da língua portuguesa. Começa em “peru” e termina …)

Alguém pode argumentar que um cara que toca Bach ao piano também não está inserido no mundo que conhecemos. Também. Mas se ele toca razoavelmente bem, pode se consolar que o que ele faz é bom, o mundo é que não está a altura dele. O peruano da flautinha não. Ele não é melhor que o mundo; ele é chato, irrelevante, alijado da essência. Periférico como uma prostituta de zona de garimpo.

Pra quem não viu, recomendo “Broadway Danny Rose” do Woody Allen. Uma obra muito humana, está embutida deste sentimento do começo ao fim. Ou “A Última Sessão de Cinema”, de Bogdanovich. Quem é da minha geração, e viu os cinemas onde passou a infância virarem igrejas evangélicas vai se identificar um pouco.

Sobre quadrinistas da internet,  rolar um pouco a barra para baixo, é o segundo texto (ou clicar no link :  https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/03/10/opiniao-e-que-nem-o-simbolo-quimico-do-cobre )

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