Sinédoque

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Outro dia mandei um email a um velho amigo o meu, comentando com contrariedade um fato: uma conhecida dele se envolveu numa picaretagem artística das grossas, obtendo um apoio estatal.

Ele ironizou, sugerindo tal qual um flamenguista ao fim do Campeonato Carioca de 2008, que o que eu fazia era “chororô”.

Curioso é que ele mesmo admite que a proposta contemplada é totalmente sem propósito ou razão de ser. Para mim, a aprovação de verba para algo assim parece resultado de conluio(s); a pessoa que liberou a verba leva 10 % – prática corriqueira – ou tem algum relacionamento com o grupo beneficiado. Sobre o possível plural depois do termo ‘conluio’, cabe ali esta possibilidade graças à pergunta: por que critério se escolhe os que vão escolher?

Ah, os selecionadores têm mestrado, doutorado, etc., em arte.

Eu pergunto: Sabem desenhar? Pintam? Esculpem? Conheço ‘doutores em arte’ que não sabem desenhar uma figura ou o fazem primariamente. Porque, sem pelo menos uns três anos de estudo prático de desenho (fora um estudo teórico concomitante, absolutamente necessário),  o sujeito não tem conhecimento para tal.

Por conta desse desconhecimento prático, muitos críticos contemporâneos não sabem diferenciar um grande desenho de um medíocre. E existe dentro da Academia interesse em fazer com que saber de cor e salteado a biografia de Man Ray seja mais importante do que reconhecer e atribuir qualidade (ou a falta dela) à arte como ofício.

Todo um segmento da crítica ignora milhares de anos dos diversos ofícios em prol dos que nos últimos cem anos criaram o desprezo pelo ofício – deixando bem claro que, nos mesmos cem anos, outros seguiram a tradição figurativa com qualidade, sob tendências diversas: Matisse, Balthus, Giacometti, Kokoschka, Portinari, Lucian Freud…

E tem-se a coragem de a este desprezo pelo ofício chamar-se História da arte, com ‘h’ maiúsculo mesmo. É uma inversão perversa demais para ser fruto do acaso, isto é algo que foi urdido e reforçado ao longo das décadas. O que ocorre, é uma ‘metonímia’ no foco do estudo da teoria e história da arte. Concentram-se os artigos e estudos (e a concessão de verbas para tal) num determinado segmento de um determinado período histórico, e chamam isto de ‘História da arte’, ‘Teoria da arte’, dando o nome do ‘todo’ ao que é apenas uma parte bem pequena dele – parte esta que nem de longe é a mais relevante.

E como os selecionadores, curadores, etc, nos últimos trinta anos  já são formados nesta visão, dão quase sempre preferência  aos ‘praticantes’ que seguem este esquema; e é aí que acaba virando conluio sobre conluio, igual a juros em cascata. Pois, através da persuasão teórica, e da seleção direcionada, estende-se o benefício desta falta de know how – um direito do crítico, porque ele é um teórico – ao produtor de arte.

Um diálogo imaginário (Os quadros citados podem ser vistos em links ao final do texto.):

E aí, historiador da arte? Explica o esquema de composição da “Ressurreição” de Piero della Francesca?

– Bem, eu…

Como Rembrandt trabalhou as passagens de “A Noiva Judia”?

– Ah, bom, aí…

Explica como se deu o aprofundamento do uso da luminosidade no decorrer da obra de Turner?

– Seria uma pesquisa complexa…

Qual a secreção corporal que Duchamp jogou na tela e chamou de arte?

– Ah, essa eu sei! Foi sêmen! – ele responde aos pulinhos.

O diálogo é um exagero meu, claro. Não se pode esperar que um indivíduo tenha na ponta da língua a resposta a qualquer pergunta feita sobre um campo tão vasto quanto a história da arte.

Minha tréplica ao meu amigo (o do primeiro parágrafo) eu lanço aqui:

“Quando o ser humano não tem mais a capacidade de se indignar, é porque abriu mão de uma parte de sua humanidade.”

Links para as imagens (apertando a tecla F11 da fileira superior do teclado, as imagens ocupam a tela inteira do monitor. Repetindo a operação, volta ao modo normal de exibição.)

A Noiva Judia –

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=13209&size=large

Ressurreição –

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=25538

A obra de Joseph Mallord William Turner – uma vez na página rolar a barra pra baixo e clicar nas imagens desejadas. Tem 14 (!) páginas de imagens dele no site.

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137&page=11

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