Heart of Darkness

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Acabei de reler “O Coração das Trevas”, na tradução de Albino Poli Jr. (L&PM Pocket, editado em 1998), desta vez anotando passagens e trechos; a obra agora está muito mais detalhada em minha mente.

O filme do Coppola, “Apocalipse Now”, embora tenha bela fotografia e o senso do espetáculo, fracassa duplamente: é absurdo enquanto filme sobre o Vietnam, e péssimo como adaptação do livro de Joseph Conrad (1857-1924). Explico-me melhor dois parágrafos abaixo.

Não é que o filme seja ruim, ele tem algo de grandioso. É que a distância entre o livro e o filme é incomensurável. O personagem interpretado por Martin Sheen, ‘Capitão Willard’ no livro chama-se Marlow, não é um militar, e muito menos um assassino – trata-se de um marinheiro mercante que acaba embarcando para a África para ser caçador de marfim, e ouve falar de um colega desta sua nova profissão que é um mito pela sua eficiência: Kurtz, no filme também transformado em militar e interpretado por Marlon Brando.

Vamos por partes. Primeiro avaliar o “filme de guerra”:  Há as concessões ACEITÁVEIS da lógica da guerra ante as necessidades da dramaturgia – o grupo que acompanha o Capitão Willard não tem parte na missão dele, a qual, aliás, eles desconhecem. A missão daquele grupo é levar Willard rio acima.  Logo, uma missão estratégica é confiada a um ÚNICO HOMEM; se ele morre por desinteria, tiro, ou qualquer outra razão, simplesmente não se cumpre a missão? Isso é absurdo, mas entende-se; quer se concentrar a ação num único narrador, como, aliás, é no livro. Agora, há as concessões INACEITÁVEIS: há uma cena que os soldados americanos sofrem um ataque com lanças e flechas. Imagino o quanto isto deve ter sido, na época, ofensivo aos americanos veteranos da guerra. Terem de aturar os civis comedores de hambúrguer pensando: “Porra, esses caras, com as armas mais modernas, foram derrotados por índios?” Como se os norte-vietnamitas e vietcongs não tivessem acesso ao mais moderno armamento russo disponível na época.

Não há no livro, em nenhum momento, o objetivo de matar Kurtz. Pelo contrário, sobem o rio até a região inóspita em que ele se encontrava pois há informações que esteja enfermo e sem medicamentos – uma missão de resgate. E algo importantíssimo, enquanto no filme Willard tem acesso desde o início à fotos e uma gravação em áudio de Kurtz, um dos grandes lances do livro é Marlow ficar imaginando como seria Kurtz, especialmente sua capacidade oratória, muito elogiada por todos que o conheceram.  Há no livro uma aura de mistério que no filme se perde em grande parte, por sabermos desde o início – pela foto e pela voz – que Kurtz é Brando.

A transição de Marlow do mundo civilizado para o neolítico do Congo da virada do século XIX para o XX também se perde no filme.  O Capitão Willard de “Apocalipse Now” é um selvagem desde o início, um assassino profissional, alcoólatra, sem fé nem encanto pela vida: uma alma que já viu e cometeu atrocidades e se reconhece perdida. O Marlow do livro não, é um homem que ama a idéia do progresso e encara ter como missão e destino, pessoalmente seus, assim como da Inglaterra e Europa como um todo, levar este progresso aos quatro cantos do mundo. E tem que seguir numa viagem rio acima com 35 canibais famintos a bordo, que ele próprio não entende porque não matam a ele e os demais europeus do barco.

E está ausente do filme o encontro final de Marlow com a “prometida” de Kurtz; esta passagem, as pausas, o ritmo, é um primor de sensibilidade. O cara tem que saber muito sobre o ser humano para escrever algo como aquilo.

Ou seja, o filme não tem QUASE NADA a ver com o livro.  Faça um favor a você mesmo, e leia o livro. Demanda algum esforço – não é das leituras mais fáceis, embora não chegue a duzentas páginas – , mas vale MUITO a pena.

Uma resposta para Heart of Darkness

  1. […] de já ter migrado. Mas apesar de já ter reconhecido o enorme talento dele em outro texto aqui (https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/05/06/heart-of-darkness), acho que ele não está no nível de ‘moldador da cultura ocidental’ como os que citei no […]

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