O pecado da simonia

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

O título deste post, como os de muitos outros deste site é uma piada. Não vou tratar aqui do pecado da simonia (Tráfico de coisas sagradas), mas sim do pecado do Simonal.

Ainda não vi o documentário sobre o Wilson Simonal, mas de cara o filme já tem minha simpatia, por trazer o assunto ao centro dos debates.

Pelo que se sabe publicamente, o cantor cometeu duas infrações concomitantes: uma criminal e uma moral. A criminal seria ter mandado agentes do Dops dar uma surra no contador; e a moral ser um informante do governo na época da ditadura.

O establishment que baniu Simonal o fez por condenar sua infração criminal, sua infração moral, ou a ambas?

Se, ao invés de ter usado agentes do Dops na surra, ele tivesse contratado seguranças de boate para o serviço, poderia ter sido perdoado? Podemos pensar em outros artistas que se envolveram em atos criminais, desde as encrencas de Ângela Rô Rô (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngela_R%C3%B4_R%C3%B4), Rafael Ilha do grupo Polegar, o cantor Belo, até os homicídios em que se envolveram nomes como Dorinha Duval e Guilherme de Pádua. Até onde sei, todos meio que foram banidos. O show business vive da imagem, e mesmo com a indústria de barracos da mídia, e da consagração na última década de bad boys e vadias assumidas, este é um patrimônio que ninguém quer perder a troco de nada.

Há anos, em outro site, escrevi um texto a que chamei “Cultura, Manipulação, Pobreza” (link AO FINAL deste texto).  Os casos a que me referi ali não envolvem questões criminais, e ao menos um deles resultou em banimento.

Então há que se pensar: estes banimentos foram motivados por moral ou política?

As críticas ao documentário sutilmente jogam parte da culpa pelo linchamento de Simonal sobre aqueles que hoje lamentam o ocorrido, mas na época ficaram de braços cruzados.

É uma crítica válida, claro. Mas pode acabar por desviar o foco de uma questão mais importante: havia na época (os anos 1970) um pensamento em bloco nas redações de jornais e TVs? A mobilização, coesão e ativismo deste movimento seria tão forte que conseguiu até destruir a carreira de um dos cantores mais populares do país?

Independente da resposta a estas questões ser “sim” ou “não”, imagine o efeito de dissuasão e inibição que esta ação em bloco (o banimento do Simonal é um fato, a dúvida é sobre quais foram as motivações) deve ter causado em todos que tinham planos para uma carreira na mídia ou nas artes – “se eles limaram o Simonal, que era famosíssimo, imagine o que fariam comigo, que não tenho o mesmo peso? Tenho que seguir a cartilha…

Pelo que eu vi das faculdades de comunicação da época em que eu lá estava – os anos 90, já vinte anos após o incidente – , havia entre os professores desde a esquerda festiva até Stalinistas saudosos. Claro que esta situação gera efeitos nos alunos, aqueles que deveriam ser os futuros profissionais de comunicação (mas dada a realidade do mercado já mais que inchado, acabam em sua maioria virando bancários, taxistas, funcionários públicos, etc.).

O meu texto, ao que me referi no quinto parágrafo, mencionando outras patrulhas dos anos 70 (isto é mais o início do texto, depois eu enveredo ali por outros aspectos que acabam tirando a força do foco principal, mea culpa), ainda está disponível, no link

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1144

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: