Um abraço no Stevie

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Enquanto escrevo isto estou ouvindo Stevie Wonder, o disco ‘Songs In The Key Of Life’. Eu já tinha há anos outros discos dele, os belos ‘Innervisions’ e ‘Talking Book’. Mesmo o ‘Songs in…’ eu já tinha ouvido algumas vezes, emprestado de um amigo.

Pra quem não sabe – sei lá quem me lê na internet – , Stevie é cego de nascença. É maravilhoso o cara transcender sua limitação física e, apesar dela, fazer belas músicas, que tocaram as pessoas – os três discos citados são da década de 70 do século passado – e continuarão transmitindo beleza e sentimento enquanto forem ouvidos.

Recentemente tenho lido filosofia, focando em metafísica. Um pensamento que me ocorre ouvindo Stevie hoje não é, em princípio, diferente do que eu tinha ou poderia ter aos quinze anos, antes de qualquer leitura significativa. A diferença apenas é que hoje me sinto mais seguro para expressá-lo, sem tanto medo de soar ingênuo.

Qual a razão da cegueira? Não a razão médica, esta dá pra entender em duas linhas. Refiro-me à razão primordial, se é que há alguma? Se há um sentido para a existência, qual a lógica de vir ao mundo para não ver? ‘Vontade de Deus’, ‘Karma’?

Ter que vagar por este mundo sem ver o que se passa ao seu redor é terrível. É claro que ‘a possibilidade de ver’ é diferenciada em vários níveis, não só o do sentido biológico da visão. Um garoto que seja filho de um culto e sofisticado diplomata inglês, e que acompanha os pais viajando o mundo todo,  em princípio, verá coisas do mundo que o garoto que é filho de um lavrador do interior do Maranhão não verá – e vice versa. Mas seria hipócrita de nossa parte não admitir que o mundo que o filho do diplomata vai conhecer será, em princípio, mais vasto.  Ignorância, pobreza, isolamento geográfico, tudo isso contribui para limitar a visão. Não é à toa que nossa civilização se desenvolveu no entorno do Oriente Médio e Mediterrâneo, rota de encontro de três continentes e diversos povos.

Essa diferenciação também ocorre no tempo, claro: um garoto classe média de hoje com internet, videogames, TV digital e a cabo, DVD, mp3, vê coisas que seu tataravô jamais imaginou. Mas é provável que jamais tenha andado a cavalo e feito uma série de coisas que pro tataravô eram corriqueiras.

Citando um exemplo pessoal, depois que estudei desenho comecei a enxergar muito mais; a percepção muda, você detém o olhar em coisas que antes passavam batidas.

Voltando a Stevie, em uma das músicas de um dos seus discos, justamente uma chamada ‘visions’ (olha a insistência no tema, o disco se chama ‘Innervisions’, e a música ‘visions’), ele canta ‘I’m not one who make believes, I know that leaves are green, They only change to brown when autumn comes around’.

Mas, sendo cego de nascença, ele não sabe o que é verde ou marrom. São conceitos abstratos para ele. É uma limitação muito séria, não dá pra bancar a Pollyana da literatura – aquela que tentava ver o lado bom de tudo – com isso. A pessoa ter que passar a vida toda assim, puxa vida… Por isso, ouvindo Stevie, às vezes sinto compaixão por ele. Não sei se deveria, o cara fez coisas maravilhosas, de certa forma se imortalizou, tem milhões de fãs, ganhou rios de dinheiro, criou bem seus filhos. Foi uma vida MUITO rica. E que bem traz a alguém você sentir compaixão por ele? Entra embutido no sentimento a idéia de que ele está inferiorizado em relação a você. E pelo estágio atual em que me encontro, profissional, pessoal, e o de Stevie, isso é muito longe da verdade.

Mas não poder ver as coisas é dureza. Esta condenação não prescreve? “Serás cego até os trinta anos, aí descobrirão uma cura, como no filme do Chaplin com a florista”. Mas no caso de Stevie não prescreveu, ele já vai fazer sessenta anos.

E tem os cegos que não são talentosos nem ricos; que não têm quem os ajude e verifique se as roupas deles estão manchadas antes de eles saírem; os que vivem de caridade. Tinha o cego que ficava cantando no Largo do Machado, segurando um copinho onde as pessoas colocavam moedas; passei por ele por toda a minha adolescência, no verão o cara suava de pingar. Agora tem um outro cego lá, que não canta, e fica a vinte metros de onde ficava o outro, mas segura um copinho idêntico. Morreu o primeiro? Passou o ponto?

A alma de fato é imortal, como pregava São Tomás de Aquino? Depois dos 70 ou 90 anos que vive um ser humano, o que sobra? O cara que foi deficiente em vida recebe alguma indenização? Ou os 90 anos de cegueira não são nada diante da eternidade? Mas a eternidade é uma suposição, para muitos uma aposta, enquanto uma vida de cegueira é algo concreto. E de mais a mais, o cara que tem boa visão, que se locomove bem, que é saudável e bem-nascido vai ter tanto direito à eternidade quanto o cego, o paralítico, o doente, o miserável. Então, definitivamente estes últimos estão, de alguma forma, pagando um preço mais caro.

Nelson Rodrigues, em uma crônica autobiográfica de ‘A cabra vadia’, conta como ao longo de toda a vida, cismou e sonhou com a cegueira – ele enxergava muito mal – e que toda esta cisma lhe pareceu profética no dia em que soube que sua filha, ainda bebê, era cega. A crônica é belíssima.

Mas voltando à minha compaixão, não faço por maldade, ela vem acompanhada de muito carinho. Eu queria dar um abraço no Stevie Wonder. E dizer ‘Obrigado por tudo, não só pela música, por você ser um exemplo!’

Mas mesmo uma palavra e um gesto de afago – e ele com certeza tem isso elevado exponencialmente, tem o carinho de milhões – não compensam o não-ver.

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