O horror, o horror…

setembro 16, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Estar vivo no Brasil em setembro de 2009 é saber que Dado Dollabela ganhou um milhão de reais por votação do público num programa de TV. É saber que Fernanda Young vai ganhar uma bela soma em dinheiro pra posar nua na Playboy.

Eu tento não tomar ciências de tais fatos, compro bons livros, contos de Aníbal Machado, aulas sobre Aristóteles e Xavier Zubiri; enfim, procuro me retirar do baixo mundo. Mas por mais que você busque algo decente, acaba tendo que sempre que voltar e se defrontar com esta realidade abjeta em que boiamos.

Você tenta ouvir Bach, num volume que não incomode os vizinhos, mas um cafajeste pára o carro na porta do teu prédio e liga o som a todo volume, e o som é uma cacofonia abjeta cantada por alguém que parece um camelô do Largo da Carioca apregoando seus produtos. E isto pode ocorrer a qualquer hora do dia, até em plena madrugada. Até que a polícia chegue, você não tem como fugir do barulho ensurdecedor.

Não acho que este é um mundo bom pra se criar filhos. Como proteger mentes em formação do circo de horrores midiático que nos envolve? Isto sem falar da violência que é um risco constante, e produz atrocidades diárias. E na corrupção e corporativismo endêmicos na política. Tem horas que bate um desânimo… Há chance de melhoria? Há interesse em que haja melhoria?

Em meio à toda a sensação de náusea, de vez em quando meto-me a procurar uma notícia bonitinha, algo leve, inócuo, que faça esquecer todo o caos cotidiano. Como a notícia do link abaixo – velha, do ano passado – , sobre um fazendeiro norte-americano que colheu uma abóbora de 693 Kg:

http://www.worldamazingrecords.com/2008/10/worlds-biggest-and-heaviest-pumpkin.html


Imensa capacidade de auto-ironia

setembro 6, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945), também conhecido pelas iniciais, foi o presidente americano de 1932 até sua morte, exercendo no período quatro mandatos consecutivos. Teve que reerguer um país pauperizado pela Crise de 1929 e comandar as ações durante a Segunda Guerra Mundial (tendo morrido em abril, escapou de ser o responsável pelo lançamento das bombas atômicas no Japão, o que ocorreria em agosto daquele ano.).

Em 1921, bem antes de se tornar presidente, FDR contraiu uma doença que o deixou paralisado da cintura pra baixo. O fato foi acobertado do público com o beneplácito da mídia. Na época, e pelas décadas seguintes, acreditou-se que a causa era poliomelite. Mais recentemente começou-se a cogitar a possibilidade de ser síndrome de Guillain-Barré.

Roosevelt era membro de uma influente e rica família, que contava inclusive com outro presidente em seus quadros – Theodore D. Roosevelt (1858-1919), um dos quatro rostos presidenciais esculpidos no monte Rushmore. Nada como o distanciamento cronológico para conferir status à família e encobrir o fato de que o avô de FDR contrabandeava ópio da China, numa época em que esta substância ainda era usada como anestésico.

Na antologia de frases compilada por Ruy Castro, ‘O Melhor do Mau Humor’, aparece atribuído a Roosevelt o seguinte comentário sobre conservadores:

Um conservador é um homem com duas pernas perfeitas, mas que, infelizmente, nunca aprendeu a andar pra frente.” (“A conservative is a man with two perfectly good legs who, however, has never learned to walk forward.”)

Segundo consta, a fala teria sido proferida num discurso via rádio em 26 de outubro de 1939. É óbvio que os políticos têm pessoas encarregadas para escrever seus discursos. No entanto, tendo sido educado num dos melhores colégios do país e em Harvard, FDR não pode ter ignorado que a frase soava como uma referência à sua própria imobilidade. Um ato de coragem diante de uma tragédia pessoal. Franklin Delano Roosevelt foi provavelmente a personalidade política mais influente do século XX.


A saudade de um desenho animado dos anos 50 me levou a uma pequena reflexão

setembro 1, 2009

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

OBS. Este post foi lançado em 09/2009.  Em 05/2010 tomei ciência que alguns dos links citados no texto foram retirados do ar.

Lembrei de um desenho animado da turma do Pernalonga, que se passava numa fazenda e tinha um galo grandão atazanado um cachorro, que tentava dar o troco. Quando eu era moleque, adorava.

A princípio eu não tinha certeza se era mesmo do Chuck Jones – podia ser do Tex Avery. Entrei no imdb, fui no ‘google imagens’, youtube. Como não sabia os nomes dos personagens, procurava “cock + dog”. No google imagens, o uso deste verbetes forneceu, entre outras coisas, imagens de go-go-boys, garotões musculosos olhando languidamente para a câmera. Duplamente deprimente: é deprimente por si só, e mais ainda por você estar procurando um troço ligado à época inocente da tua infância e se deparar com isso.

Procurei várias combinações, foi aí que descobri que o nome do galo em inglês era ‘Foghorn Leghorn’. A partir disso, deitei e rolei no youtube. Depois de já ter rido muito, comecei a pensar: há alguns anos isso não seria possível – o youtube foi fundado em 2005.

Lembrei-me de Gil Scott-Heron, um dos precursores do rap, e sua ótima música ‘The Revolution Will Not Be Televised’, de 1971. Hoje, estamos vivendo uma revolução, e ela está se mostrando a nós pelo monitor: um garoto de 12 anos nem sabe que houve um tempo em que não havia youtube nem download de músicas. Não é esta a revolução que o Gil pretendia, claro. Acho que é muito melhor. A música do Gil Scott-Heron, eu conheci porque um amigo da faculdade tinha o disco e gravou um cassete pra mim. Era assim que se fazia nos anos 90, pré-revolução, quando você dava a sorte de ter um amigo que tinha muitos discos – sorte esta que não acontecia para a grande maioria das pessoas.

The Revolution Will Not Be Televised’ é um libelo contra a acomodação gerada pela televisão nos espectadores. A letra em inglês pode ser encontrada no link http://www.gilscottheron.com/lyrevol.html

Encontrei dois clipes de ‘The Revolution Will Not Be Televised’ no youtube – o máximo do contra-senso. Os clipes são feitos a partir de uma ‘Early Version’ da música, que aparece no primeiro disco de Gil, ‘A New Black Poet – Small Talk at 125th and Lenox’ (1970), a qual só conta com o ‘canto falado’ de Gil e uma percussão, ainda sem a bela melodia e o instrumental de fundo que entrariam na versão do disco ‘Pieces of a Man’ (1971).

Seguem links para “o galo e o cachorro”, tudo em inglês:

http://www.youtube.com/watch?v=94OnHsHTQ8E

http://www.youtube.com/watch?v=E7-b0x8SD3E

Gil Scott-Heron – “The Revolution Will Not Be Televised- [Early Version] – Ghetto Style

http://www.youtube.com/watch?v=BS3QOtbW4m0

A coletânea de Gil Scott-Heron “The Revolution Will Not Be Televised” (esta de 1974, herdando o nome de sua faixa mais famosa) pode ser encontrada em mp3 para download, com a versão ‘melódica’ da faixa título, no link abaixo (pra quem gosta de fazer downloads: proteja-se SEMPRE contra spywares e afins) .

http://www.mediafire.com/?fq4mzq3c9h4w4bg