Mais sobre Bastardos Inglorios

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Ainda sobre ‘Bastardos Inglórios’, li um texto do crítico de cinema Luiz Nazario no site http://www.criticos.com.br (link ao final deste texto). Ele acusa o filme de sadismo, não sem boa dose de razão. No entanto, ao longo da crítica, parece levar ‘a obra’ a que se refere por demais a sério. Uma coisa é um filme que se pretenda sério ou fidedignamente histórico apresentar distorções; outra coisa é um filme como ‘Bastardos…’, o pastiche do pastiche.

Pode-se (e deve-se) reclamar da transformação da brutalidade em espetáculo – e Nazario aponta corretamente as cenas em que ocorre a banalização da violência.

Ele também aponta a contradição entre uma moça do interior da França de repente ressurgir como uma dona de cinema e expert em cinema alemão. De fato, em 1940, interior era interior mesmo; não tinha internet, TV (ainda mais a cabo) e livrarias.com pra você pedir livros – provavelmente não havia nem telefone nas redondezas. Ser criado neste ambiente deixaria marcas num indivíduo que seriam indeléveis em curto prazo. Li em algum lugar que Tarantino chegou a escrever a explicação de como a personagem se tornou dona de cinema, e acabou optando por não incluí-la no filme.

Mas um filme em que o sargento Hugo Stiglitz (personagem assim “batizado” em homenagem a um ator mexicano), ao encontrar um nazista na cama em que este dormia, acorda-o, e o mata enfiando seu punho na boca do sujeito, ora, isto não se pretende ser levado a sério.

Em ‘Caçadores da Arca Perdida’, há a cena em que um beduíno surge diante de Indiana Jones com uma espada, cimitarra, e excuta vários movimentos, demonstrando ser muito hábil com aquela arma. O herói então, saca seu revólver e dispara contra o sujeito, que cai estatelado. A platéia, ao ver isto, gargalha. Alguém vai censurá-los por “rir da morte de um ser humano”? Ou é óbvio que aquilo é uma bobagem, e trata-se de algo realmente engraçado?

O meu maior medo em relação a ‘Bastardos Inglórios’ é que o lúmpem adolescente que não tem nenhuma formação nem interesse pela história recente, passe a acreditar que de fato a elite alemã foi eliminada num cinema na França. Ao falsear a história do mundo em que vivemos, este é um risco real.

O texto de Luiz Nazario pode ser lido no link

http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1855

Outros textos meus sobre o mesmo filme:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/10/27/inglourious-basterds

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/10/24/how-can-a-donkey-hit-the-bulls-eye

6 Responses to Mais sobre Bastardos Inglorios

  1. Luiz Nazario disse:

    Caro Maurício Dias: Grato pela menção, mas não levo absolutamente o filme a sério. O que levo a sério é a realidade que o filme parodia. Toda paródia precisa de uma realidade para parodiar. Tarantino não se limita a parodiar a realidade. Ele vai além e falsífica a realidade antes de parodiá-la. Seu filme é a paródia de uma realidade falsificada. E a falsificação da realidade é uma coisa séria, como você mesmo observou. Assim, “uma moça do interior da França” até poderia, numa paródia cinematográfica, ressurgir de repente como uma dona de cinema em Paris. O grotesco aqui é o fato dessa moça ser uma judia sem eira nem beira, que impossivelmente ressurge como dona de cinema numa Paris ocupada pelos nazistas, onde as leis antissemitas decretadas em outubro de 1940 proibiam os judeus de exercer quaisquer funções públicas, comerciais e industriais… Se Tarantino “chegou a escrever a explicação de como a personagem se tornou dona de cinema e acabou optando por não incluí-la no filme”, isso não mudaria nada, pois uma tal explicação seria apenas outra falsificação da realidade. Abraço, Luiz Nazario.

    • Mauricio disse:

      Mas é óbvio que ela assumiu uma identidade falsa, passando-se por não-judia – tanto que ela assume um outro nome. Não há dúvida sobre isso.

      • Luiz Nazario disse:

        Ela devia ter milhões de francos escondidos no sutiã quando fugiu para Paris só com a roupa do corpo, não é mesmo? Tente arrumar uma identidade falsa e abrir uma empresa, com toda a documentação necessária, como o cinema que ela possuía na Paris ocupada, sem ter nenhum dinheiro e foragida da Gestapo.

      • mauricioodias disse:

        A questão do dinheiro eh sugerida no filme pela historia que ela conta sobre ‘os falecidos tios’, que sugere uma adoção. Mas o seu reply anterior focava na questão ‘sobrevivencia de um judeu na França ocupada’ ( “onde as leis antissemitas decretadas em outubro de 1940 proibiam os judeus de exercer quaisquer funções públicas, comerciais e industriais… “), questão esta que eh automaticamente resolvida com uma identidade falsa – e que eh colocada no filme.

    • Luiz Nazario disse:

      Não é possível mudar uma hereditariedade mudando de nome. Para possuir uma sala de cinema ela teria que provar sua hereditariedade ariana pura através de documentos de registro nos arquivos da Polícia, e essa documentação não poderia ser forjada. Somente franceses de “raça pura” até a quarta geração provada na Polícia obtinham um “atestado de arianidade” necessário para abrir uma empresa, segundo as Leis Raciais, entendeu? Quando Goebbels foi informado de que o célebre ator francês Harry Baur, contratado para o filme alemão ‘Sinfonia de uma vida’, teria ancestrais judeus, ele mandou prendê-lo, e o ator morreu depois de quatro meses de maus tratos no cárcere.

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