Apenas uma pequena engrenagem numa grande máquina

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Março, 2010. Já há coisa de uns seis meses venho escrevendo críticas para a Revista ‘Programa’ do Jornal do Brasil, a partir de um convite de meu velho amigo Marco Antôno Barbosa (editor da revista e criador do ainda disponível http://telhadodevidro.wordpress.com).

São normais as editorações de terceiros nos textos que envio, por questões de espaço e adequação ao formato do veículo. Em geral tais editorações contribuem, trazendo concisão e extinguindo digressões de minha parte – ainda que eu ache que algumas digressões possam ser altamente interessantes e pertinentes. De vez em quando, porém, sinto como se tivessem mutilado ‘minhas crias’. Questão de ego inflado meu, claro; o editor tem que correr contra o tempo, dar conta de vários textos. E ninguém é obrigado a pensar como eu.

Enfim, foi como me senti ao ver na revista a crítica que fiz ao filme ‘Um Homem Sério’ dos irmãos Coen. Parece-me evidente que os cortes desta vez não foram por questão de espaço, tal o tamanho da foto que ilustra a matéria (ver link ao final do texto) – se a foto fosse reduzida a 2/3 do tamanho que ali está, ainda estaria bem visível; e haveria mais espaço para o texto.

Segue minha crítica conforme enviada, e, ao final dela, o reply que me foi enviado pelo editor, ao dizer a ele que havia escrito o texto acima e cogitava lançá-lo no blog, caso ele não se incomodasse. Ao final de tudo, o link para a matéria tal como saiu na referida revista, onde ocupou um tijolo de 18,5 x 19 cm.

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Sugestão: 2 estrelas

Um Homem Sério

Mauricio O. Dias

O filme começa com um preâmbulo falado em iídiche (*). Não há indicação de lugar ou época, mas parece ser a Polônia no final do séc. XIX. Ao som da banda Jefferson Airplane, corta para uma aula de hebraico. Pelas roupas e a visão de um primitivo walkman, percebemos que se trata do início dos anos 1970. Já decorridos mais de dez minutos de filme, vamos ouvir os primeiros diálogos em inglês. Mais uns dez minutos à frente e vamos descobrir que se trata de uma pequena cidade americana, onde uma família judia vive num confortável e simpático subúrbio.

Alguém lendo essa crítica poderia pensar: É necessário que este sujeito liste estes fatos todos? Aceito a observação, mas levo-a mais longe: É necessário que os Coen filmem isso tudo? Pra que um hermético preâmbulo em iídiche? Por que, ao cortar pra parte americana, não botar de saída uma legenda ‘Cidade tal, ano tal’? Certos rebuscamentos são incômodos e desnecessários. Se eles fossem mais objetivos, eu já teria começado a falar da trama no primeiro parágrafo.

Larry Gopnik é um professor de física e ao mesmo tempo um sujeito completamente passivo. Ele se vê assolado por situações diante das quais não sabe reagir: sua mulher quer o divórcio, para casar com um viúvo conhecido da família; um aluno coreano tenta suborná-lo; seu irmão desequilibrado mora com ele e está sempre se envolvendo em problemas com a lei; o amante e a esposa de Larry o convencem a deixar sua casa, para que o amante se mude para morar lá, com a futura-ex-esposa e os filhos de Larry; cartas anônimas falando mal dele são enviadas ao seu trabalho; ele sente uma forte atração pela vizinha gentia. Perplexo, Larry tenta encontrar orientação com os rabinos da congregação, mas estes não dizem nada que lhe seja de alguma serventia. E a passividade e a gentileza do personagem em meio este turbilhão chegam a ser enervantes.

Sobram deboches para com o judaísmo: o garoto que alterna a preparação para o Bar Mitzvah com o consumo de baseados, a menina que sonha em fazer plástica no nariz, o dentista que encontra uma mensagem divina nos dentes de um paciente.

Assim como em ‘Onde os Fracos Não Tem Vez’, os irmãos Coen novamente optaram por mostrar uma época de um passado recente sem o anunciar logo de início ao espectador. Assim como em ‘Fargo’, onde um nipo-descendente perturbado aparece em cena para tentar flertar com a policial grávida, mais uma vez orientais perturbados e disfuncionais são vistos em cena. Mas, ao contrário destes outros filmes, ‘Um Homem Sério’ só existe como comédia de erros, os quais não têm muita conexão entre si. Terminada a exibição, não fica na cabeça nenhuma cena memorável – o que mais marca é a bela atuação de Michael Stuhlbarg no papel principal.  E a já observada opção dos Coen por finais não totalmente fechados está resvalando para o pedantismo.

* Nota explicativa – evidentemente, não constava do email, mas achei bom acrescentar aqui:

de http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_i%C3%ADdiche

O iídiche (ייִדיש, transl.yídish ou אידיש, transl. ídish, do alemão jüdisch [deutsch], “judeu”, “judaico”) é uma língua da família indo-européia, pertencente ao subgrupo germânico, tendo sido adotada por judeus, particularmente na Europa Central e na Europa Oriental, no segundo milênio, que a escrevem utilizando os caracteres hebraicos.


No texto que enviei por email ao editor, erroneamente grafei o termo como ‘ídiche’. Agradeço a ele por esta e outras correções. Segue a elucidante resposta do M.A. Barbosa:

Garotão, negócio seguinte: as criticas tem que ficar todas do mesmo tamanho padrão. A sua estava com mais que o dobro do tamanho. Se ainda fosse o caso de um filme especial – um “Avatar” da vida  – aí tudo bem fazer um pouco (UM POUCO) maior. É claro que suas digressões são sempre pertinentíssimas, mas é preciso botar ordem na casa. Quanto ao tamanho das fotos, o problema foi que eu tinha riscado as críticas todas com o tamanho convencional (com foto em duas colunas), mas como sobrou muito espaço no roteiro de cinema, tive que aumentar as fotos (e ainda dar outras sem critica). Por isso os fotões.

 

Antes que você me diga “Ah, mas por que não aproveitou para dar a critica inteira, já que havia espaço?” Porque não haveria cabimento publicar uma crítica ENORME de um filme dos irmãos Coen, enquanto o filme com a Sandra Bullock e o filme com o Denzel  Washington sairiam com criticas pequenas (que já estavam prontas).

 

Apóio 100% que publique as íntegras das criticas no seu blog.  Mas você sabe qual é o tamanho das criticas que saem, certo? E você sabia que aquela critica estava gigante, certo? Então…

Link para a matéria da revista, em jpeg:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/pra-mamae-ficar-orgulhosa-he-he-he

(clicando na imagem uma ou duas vezes pode-se ampliá-la)

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7 Responses to Apenas uma pequena engrenagem numa grande máquina

  1. Caio disse:

    mas que tua crítica ta grande pra caralho, isso tá… heheheeh

    • mauricioodias disse:

      Concordo que podia ser menor. Mas quando escrevo sobre um filme que dá pano pra manga (muitos não dão), eu não me limito, justamente por saber que há um editor. Este post não é uma reclamação ao editor, apenas serve para deixar claro ao público que o que sai não é exatamente o que escrevi. Vc viu a matéria como saiu na revista?

  2. Marlos disse:

    Camarada,
    Jornalismo é isso aí.

  3. Marcelo Ventura disse:

    O mais engraçado é isso: você enrolou para dizer que os Irmãos Coen enrolaram no início do filme. Da próxima vez, reduza para “cidade: Rio, autor: Maurício Dias…”
    Totalmente sem sentido colocar uma crítica maior que as outras, sem que o filme tenha apelo maior que os outros. Mas é assim que se faz.
    E não se ache mutilado por causa disso. Controle seu ego. É como Apocalypse Now e Apocalypse Now Redux.

    • mauricioodias disse:

      Eu não enrolei pra dizer que eles enrolaram. O que eles levam 20 minutos pra mostrar eu narro em UM ÚNICO parágrafo, e depois comento no segundo parágrafo.
      Como os Coen são figuras meritoriamente respeitadas, e eu, um mero crítico tupiniquim, antes que eu possa dizer que eles estão enrolando, devo dizer PORQUE me parece que eles estão enrolando. Além disso, há a questão de autonomia e liberdade de cada uma das partes envolvidas, nesta cadeia filme-crítica. Eles podiam fazer um filme sobre o que quisessem, e da forma que quisessem. Já eu, tinha que NECESSARIAMENTE escrever sobre o filme deles. Não posso escrever “É muito engraçado, Jack Lemmon e Tony Curtis subindo ao trem vestidos de garotas…“, porque aí já não estaria escrevendo sobre ‘Um Homem Sério’ – logo, eu tenho uma restrição temática, que eles não têm. Se enrolaram – e eu acho que sim – é porque estão se achando um tanto quanto ‘divas’.

  4. Najah Zein disse:

    Pois é, amigo, jornalismo é assim mesmo. Já passei muito por isso, principalmente na nossa época de Digestivo Cultural. Tb sentia q como se tivessem “mutilado minhas crias”. Nosso ego dói, mas tem q ser feito, não adianta. Acho sim q nós deveríamos ter mais opinião a respeito dos cortes, já q somos os autores da ‘matéria’. Note q usei “nós”, mesmo q minha veia jornalística esteja aposentada há algum tempo.
    Mesmo sendo uma crítica (não gosto desse termo, prefiro resenha), o jornalista tem q ser objetivo e sucinto. Síntese e objetividade é alma do jornalista, um prof. me disse isso uma vez. Talvez tenha faltado isso em seu texto. Apesar de bom. Vc escreve bem e sempre te falei isso. Seus textos têm ar “nervoso”, vc manda na lata e isso é bom.
    Adorei a associação q Marcelo Ventura fez com “Apocalipse Now” e “Apocalipe Redux”. rs

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