Morde e assopra

maio 28, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Nota introdutória:

Eu tinha escrito em 22-05 o texto abaixo, tacando o pau em ‘Vicky Cristina Barcelona’, que só na véspera eu assistira. No dia seguinte saiu a coluna de Caetano n’O Globo, eu escrevi sobre ela, e resolvi segurar o texto sobre ‘Vicky…’ por uma semana e lançar o outro. Até aí tudo bem. Mas neste meio tempo revi ‘Zelig’, o ‘falso documentário’, um filme absolutamente perfeito. E depois disso fiquei com pena – e até um pouco de raiva de mim mesmo – por falar mal de Woody Allen, alguém a quem realmente admiro e que fez tantos filmes maravilhosos (embora eu já tenha reconhecido a qualidade deles num outro texto, que por sinal eu voltei a citar) .

A bem da verdade, ‘Vicky…’ não é um filme horrível. E nem é o pior de Allen, que andou fazendo coisas terríveis, como ‘Igual a Tudo na Vida’ e, sobretudo, ‘Dirigindo no Escuro’. Mas, como houve uma época em que o padrão Woody Allen era tão elevado, que, neste contexto, o filme passado na capital catalã destoa muito. Se fosse uma destas comédias românticas feitas em Hollywood, estaria OK; mas para Woody é fraco.

Curioso é que alguns dos fatos por mim criticados em ‘Vicky…’ estão também presentes em ‘Zelig’: é bastante improvável o fato de a cientista e sua irmã pilotarem aviões; a cientista tem uma aprazível casa no campo; ninguém parece ter preocupação com dinheiro – e olha que o filme se passa na depressão dos anos 1930. Mas em ‘Zelig’ nada disso me incomoda, porque, como a premissa do filme é irrealista e absurda, talvez a partir daí o espectador costume exercer uma concessão de credibilidade.

Como o texto sobre ‘Vicky…’  já estava pronto, achei melhor lançá-lo:

Há um certo período da carreira do Woody Allen que é digno dos maiores elogios – os quais eu já fiz em https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2010/05/15/um-dos-grandes-nomes-do-showbiz-no-seculo-xx

No entanto, o mesmo cara que escreveu os diálogos maravilhosos de ‘Manhattan’ e outros fimes é capaz de baboseiras como esta abaixo, extraída de ‘Vicky Cristina Barcelona’, a qual não é aceitável nem se sua intenção era zombar da pretensão do personagem – o que não fica claro.

Narrador (em off, a respeito do personagem Cristina): “(…) Já pensava nela mesma como uma espécie de exilada; ali ela não era sufocada pelo que acreditava ser a puritana e materialista cultura americana, para a qual não tinha muita paciência. Via a si própria mais como uma alma européia. Em sintonia com os artistas e pensadores amigos de Juan Antonio, sentia expressada sua trágica, romântica e livre concepção da vida.

Pior que essa pretensão, só as pinturas mostradas no filme – atribuídas aos personagens do casal interpretado por Javier Bardem e Penélope Cruz. E é tudo irritante, aquelas pessoas que nem imaginam o que seja ter que trabalhar com horário e patrão para ganhar dinheiro – nada contra haver UM dândi na trama; mas ali TODO MUNDO é dândi:Vicky estava terminando seu mestrado em Identidade Catalã, tema pelo qual se interessou devido a sua grande afeição pela arquitetura de Gaudí.

É, extremamente comum para um personagem americano, país impregando pelo pragmatismo, alguém ir para a Espanha concluir mestrado em “Identidade Catalã”. O quê? Vai me dizer que você, caro leitor subdesenvolvido, não conhece ninguém que faça mestrado em “Identidade Catalã”? Culpa sua, que não mora dentro de um filme do Woody Allen.

E há também o clichê do artista boêmio e latin-lover – que pilota aviões, dirige um conversível, é filho de um poeta e mora numa adorável villa. Ai, a náusea… Também está presente a histérica e passional espanhola, capaz de atos agressivos, suicidas e até homicidas. Um parênteses : Devo reconhecer que aqui Woody marca ao menos um ponto; não dá para o espectador passar indiferente à visão de um beijo trocado entre Scarlett Johansson e Penélope Cruz. O diretor septuagenário convida ao fetiche, e não há como recusar.

O filme todo tem cheiro de encomenda de Secretaria Municipal de Turismo. Aliás, a possibilidade de Woody vir filmar no Rio de Janeiro só se justifica por razões semelhantes.


Chato pra cacete. Ou nao.

maio 24, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

O objetivo mais usual deste meu blog – ou seja lá qual for o nome que se dê a este tipo de veículo hoje em dia – , há tempos, é comentar com humor o que vejo no mundo cultural. Mas diante de certos fatos, fica difícil tentar fazer um comentário engraçado – porque os fatos em si já são tão surreais, que não dá pra sobrepor um comentário a eles. Vou fazer o quê? Piada sobre piada, sobre piada, como aquelas figuras metalingüísticas e referenciais do M.C. Escher?

Coluna de Caetano Veloso, Segundo Caderno de O Globo, 23-05-2010:

Sobre uma apresentação ao vivo de Morrisey (ex-vocalista do ‘The Smiths’):Um tanto gordo, seu torso em contorções imaginadas para enfeitiçar Mishima me parecia quase asqueroso.

O que significa algo ser ‘imaginado para enfeitiçar Mishima’? É alguma gíria bahiana? Dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá, dia 3 é pra se ‘enfeitiçar Mishima’? Pega uma garrafa de marafo, um alguidar de sushi…

Sobre os Sex Pistols, Caetano disse:

E sempre gostei mais dos Sex Pistols do que do Clash. Os Pistols eram mais João Gilberto.

É, o Clash era assim meio João Donato…


Contemporaneos

maio 22, 2010

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Adoro ver blogs de ilustradores, artistas plásticos, designers. Volta e meia fuço a internet atrás disto. Há muita coisa ruim. Outras que, apesar de algum nível de qualidade, nada possuem de especial, caindo no rotineiro. Mas em alguns momentos, há boas surpesas; e em outros, a sensação de ‘SERÁ QUE ERA SÓ EU QUE NÃO CONHECIA ISSO? TAVA COMENDO MOSCA ESSE TEMPO TODO?’

Procurando pelos ‘Os Gêmeos’, cheguei à:

http://www.lost.art.br/osgemeos.htm

Ali se acham as galerias com as fotos dos trabalhos. Pode-se correr as fotos usando as setas na direita da tela, ou a barra de opções – samples indistinguíveis de tão pequenas – abaixo da foto grande, em:

http://www.lost.art.br/osgemeos_01.htm

http://www.lost.art.br/osgemeos_02.htm

http://www.lost.art.br/osgemeos_03.htm

A parte do ‘TAVA COMENDO MOSCA ESSE TEMPO TODO’ não se aplica ainda a este trecho acima – eu já conhecia parte do trabalho dos caras. A deglutição do inseto alado começa aqui:

No site em link para as galerias de fotos de trabalhos de outros grafiteiros:

http://www.lost.art.br/graff.htm

O site é mantido por Louise Chin e Ignácio Aronovich, e há páginas com fotos tiradas por ambos, como o que se vê nos interessantes links abaixo:

http://www.lost.art.br/dublinhalloween.htm

http://www.lost.art.br/yip2005_sound.htm

O lance é que tem TANTA coisa, que recomendar link por link ia ser difícil.

O melhor a se fazer, quando estiver com tempo livre, é entrar no link principal  – http://www.lost.art.br – , e, a partir dele, abrir várias janelas e sair clicando nos links disponíveis.


Um dos grandes nomes do showbiz no seculo XX

maio 15, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Estou revendo os Woody Allens da virada dos 1970/80, uma bênção fornecida pelo movimento bucaneiro cibernético (procurar pelo nome do diretor em http://cine-anarquia.blogspot.com ).

Grandes filmes, com alguns dos melhores diálogos já vistos na tela.

A fase áurea de Woody vai de ‘Annie Hall’ (1977) até ‘A Era do Rádio’ (1987); há algumas obras-primas, e quase todos os títulos do período são ótimos, com a exceção de ‘Interiores’, uma pífia imitação de Bergman.

Já escrevi sobre o diretor, há anos, no link http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1168 (O texto, apesar de embebido em meu usual amadorismo, não é de todo mau. Um editor poderia salvá-lo.)

Voltando aos filmes deste período, em muitos deles, em meio a todo o humor, são colocadas questões morais/éticas, em geral ligadas ao tema do adultério e fidelidade para com os amigos. Há também considerações sobre a arte (‘Memórias’) e individualidade (‘Zelig’). Um que coloco entre os melhores, e que poucas vezes é devidamente lembrado é ‘Broadway Danny Rose’ (1984). Segue um dos diálogos:

– É importante sentir remorso! Do contrário, fazemos coisas terríveis! É essencial. Sinto o tempo todo, sem jamais ter feito nada. Meu rabino diz que todos temos culpa perante Deus.

– Acredita em Deus?

– Não, mas sinto remorso por isso.

No entanto, revendo o grandioso ‘Manhattan’ (1979), cheguei à conclusão que seu final, embora na tela funcione maravilhosamente, é moralmente decepcionante (Pra quem não viu o filme ainda, vou contar detalhes, inclusive o final).

Resumo da obra: Woody, cerca de 45 anos na época, estava envolvido com uma menina de 17 (a beldade Mariel Hemingway, neta do escritor; ver fotos em http://www.imdb.com/name/nm0000446/mediaindex; nem no cinema dá pra acreditar numa princesa destas envolvida com um coroa baixinho, feio, calvo e narigudo). A diferença de idade por si só já é um pouco estranha – mais de uma década depois se veria isto repetir-se na vida pessoal do cineasta. Mas, ao menos, tal diferença de idade entre o par romântico no filme não é dada como um fato natural. O personagem de Woody várias vezes fala sobre isto, incomodado; fala inclusive com a própria jovem. E ele torna-se alvo de uma piada de outro personagem: “– Em algum lugar Nabokov está sorrindo, se é que me entende?

Mas então ele conhece outra mulher, a ex-amante de seu melhor amigo, e dispensa Mariel. Ela era apaixonada por ele e, jovem, sofre muito. Passam-se cerca de seis meses. Depois que a nova namorada volta pro ex-amante, Woody entra em depressão e opta por correr atrás da jovenzinha. Chega no momento exato (Deus ex machina) em que ela está de partida pra Inglaterra. Ela já está com tudo pronto, apartamento alugado na terra da Rainha, matrícula feita num curso, vai estudar algo importante para a carreira a que aspira. E ele, que antes a incentivara a ir, pede que ela desista de tudo e fique com ele.

Até aí, não parece nada de mais. Comédia romântica é pra isso mesmo. O problema é que, no filme, dez minutos antes, há a cena em que Woody vai até o trabalho de seu melhor amigo – o ex-amante da mulher que Woody namorava na época -, cobrar satisfações, pois descobriu que este estava encontrando sua namorada pelas costas. Então segue-se o maravilhoso diálogo abaixo:

W.A. – Que tipo de amigo louco é você?

– Sou um bom amigo. Eu apresentei vocês, lembra-se?

W.A. – E daí? Eu não entendo.

– Eu achei que gostasse dela.

W.A. – Eu gosto! Agora nós dois gostamos!

– Mas eu gostei dela primeiro!

W.A. – “Eu gostei dela primeiro”? Você tem seis anos?

– Eu achei que havia acabado. Eu teria encorajado você a chamá-la para sair se ainda gostasse dela?

W.A. – Gostava dela, depois não gosta mais. Aí volta a gostar. Ainda é cedo. Pode mudar de idéia antes do jantar.

– Não seja sarcástico. Você acha que gosto disto?

W.A. – Por quanto tempo se encontraria com ela sem me dizer nada?

– Não transforme isto numa de suas questões morais.

W.A. – Bastava você ter me ligado e conversado comigo. Sou compreensivo. Eu diria “não”, mas aí você teria sido honesto.

– Eu queria lhe contar. Mas sabia que ficaria aborrecido. Tivemos uns encontros inocentes.

W.A. – Alguns? Ela disse um! Vocês deveriam combinar a história. Não ensaiaram?

– Nós nos encontramos duas vezes para um café.

W.A. – Ei, pode parar. Ela não toma café. O que fizeram, tomaram Sanka? Não é muito romântico. É um pouco geriátrico.

– Eu não sou santo.

W.A. – Mas é condescendente consigo mesmo. Não percebe? Esse é seu problema. Você racionaliza tudo. Não é honesto consigo mesmo. Diz que quer escrever um livro, mas prefere comprar um Porsche. Você trai Emily e mente para mim…e logo estará diante de um comitê do Senado… denunciando golpes, dedurando seus amigos!

– Você é tão arrogante. Somos apenas pessoas! Apenas seres humanos! Você acha que é Deus!

W.A. – Eu preciso ter um modelo.

– Não dá para viver deste jeito. É muito perfeito.

W.A. – O que as gerações futuras dirão de nós? (aponta um esqueleto de um hominídeo primitivo – a cena se passa numa sala de aula de biologia) Um dia, seremos como ele. Ele provavelmente era uma das pessoas bonitas. Talvez ele estivesse dançando e jogando tênis. É isso que vai nos acontecer. É muito importante ter algum tipo de integridade pessoal. Estarei pendurado numa sala de aula um dia… e quero ter certeza que serei bem lembrado.

Pois bem, alguns minutos depois desse diálogo, o mesmo sujeito que reduziu o amigo ao tamanho de seu caráter, vai atrás de uma menina de 17 anos e, jogando tênis com a cabeça dela, após tê-la dispensado, tenta agora mudar a direção que sua vida tomava e impedi-la de fazer algo que, sem dúvida, será engrandecedor para ela. E age assim apenas para não ficar sozinho. Não seria muito mais coerente se, ao chegar lá e vê-la pronta pra partir, lhe desse um abraço e desejasse tudo de bom? Que ele, à custa de seu próprio sofrimento, a incentivasse a ir no caminho mais correto, como Humphrey Bogart fizera com Ingrid Bergman no final de ‘Casablanca’? (filme dos anos 1940 e referência-chave para a carreira de Woody, que além de citar um de seus diálogos neste mesmo ‘Manhattan’ – “Nós sempre teremos Paris.” – o satirizou respeitosamente em sua peça ‘Sonhos de um Sedutor’. Esta peça foi transposta para o cinema, sendo dirigido por Herbert Ross com Woody no papel principal).

Então, se depois do sermão no amigo, Woody vai e age de forma egoísta para com a menina de 17 anos, isto não tira boa parte da validade do seu belo discurso? Ou, pretendeu o diretor mostrar que há validade na atitude do amigo réprobo: “Somos apenas pessoas! Somos apenas seres humanos! Você acha que é Deus!

‘Manhattan’, como outros de Woody Allen, é um filme para se rever várias vezes.


Não é Mulato Eustaquio

maio 2, 2010

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Para quem gosta de jazz, aí vai a dica de um maravilhoso músico etíope, Mulatu Astatke. Pode-se baixar discos inteiros no link abaixo – o de 1972, ‘Mulatu of Ethiopia’, por exemplo, é ótimo. Mais uma possibilidade viável aos mortais comuns pelas facilidades da internet – se fosse há vinte anos, apenas seis pessoas no Brasil inteiro teriam ouvido falar neste músico, e duas delas seriam jornalistas de caderno cultural, as outras duas Disc Jóqueis; as duas restantes seriam o Ed Motta. A dica é, mais uma vez, do meu amigo melômano, J. Albernaz:

http://euovo.blogspot.com/2009/05/bem-vindo-ao-mundo-maravilhoso-do.html

Mais info sobre Mulatu Astatke:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mulatu_Astatke