Um dos grandes nomes do showbiz no seculo XX

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Estou revendo os Woody Allens da virada dos 1970/80, uma bênção fornecida pelo movimento bucaneiro cibernético (procurar pelo nome do diretor em http://cine-anarquia.blogspot.com ).

Grandes filmes, com alguns dos melhores diálogos já vistos na tela.

A fase áurea de Woody vai de ‘Annie Hall’ (1977) até ‘A Era do Rádio’ (1987); há algumas obras-primas, e quase todos os títulos do período são ótimos, com a exceção de ‘Interiores’, uma pífia imitação de Bergman.

Já escrevi sobre o diretor, há anos, no link http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1168 (O texto, apesar de embebido em meu usual amadorismo, não é de todo mau. Um editor poderia salvá-lo.)

Voltando aos filmes deste período, em muitos deles, em meio a todo o humor, são colocadas questões morais/éticas, em geral ligadas ao tema do adultério e fidelidade para com os amigos. Há também considerações sobre a arte (‘Memórias’) e individualidade (‘Zelig’). Um que coloco entre os melhores, e que poucas vezes é devidamente lembrado é ‘Broadway Danny Rose’ (1984). Segue um dos diálogos:

– É importante sentir remorso! Do contrário, fazemos coisas terríveis! É essencial. Sinto o tempo todo, sem jamais ter feito nada. Meu rabino diz que todos temos culpa perante Deus.

– Acredita em Deus?

– Não, mas sinto remorso por isso.

No entanto, revendo o grandioso ‘Manhattan’ (1979), cheguei à conclusão que seu final, embora na tela funcione maravilhosamente, é moralmente decepcionante (Pra quem não viu o filme ainda, vou contar detalhes, inclusive o final).

Resumo da obra: Woody, cerca de 45 anos na época, estava envolvido com uma menina de 17 (a beldade Mariel Hemingway, neta do escritor; ver fotos em http://www.imdb.com/name/nm0000446/mediaindex; nem no cinema dá pra acreditar numa princesa destas envolvida com um coroa baixinho, feio, calvo e narigudo). A diferença de idade por si só já é um pouco estranha – mais de uma década depois se veria isto repetir-se na vida pessoal do cineasta. Mas, ao menos, tal diferença de idade entre o par romântico no filme não é dada como um fato natural. O personagem de Woody várias vezes fala sobre isto, incomodado; fala inclusive com a própria jovem. E ele torna-se alvo de uma piada de outro personagem: “– Em algum lugar Nabokov está sorrindo, se é que me entende?

Mas então ele conhece outra mulher, a ex-amante de seu melhor amigo, e dispensa Mariel. Ela era apaixonada por ele e, jovem, sofre muito. Passam-se cerca de seis meses. Depois que a nova namorada volta pro ex-amante, Woody entra em depressão e opta por correr atrás da jovenzinha. Chega no momento exato (Deus ex machina) em que ela está de partida pra Inglaterra. Ela já está com tudo pronto, apartamento alugado na terra da Rainha, matrícula feita num curso, vai estudar algo importante para a carreira a que aspira. E ele, que antes a incentivara a ir, pede que ela desista de tudo e fique com ele.

Até aí, não parece nada de mais. Comédia romântica é pra isso mesmo. O problema é que, no filme, dez minutos antes, há a cena em que Woody vai até o trabalho de seu melhor amigo – o ex-amante da mulher que Woody namorava na época -, cobrar satisfações, pois descobriu que este estava encontrando sua namorada pelas costas. Então segue-se o maravilhoso diálogo abaixo:

W.A. – Que tipo de amigo louco é você?

– Sou um bom amigo. Eu apresentei vocês, lembra-se?

W.A. – E daí? Eu não entendo.

– Eu achei que gostasse dela.

W.A. – Eu gosto! Agora nós dois gostamos!

– Mas eu gostei dela primeiro!

W.A. – “Eu gostei dela primeiro”? Você tem seis anos?

– Eu achei que havia acabado. Eu teria encorajado você a chamá-la para sair se ainda gostasse dela?

W.A. – Gostava dela, depois não gosta mais. Aí volta a gostar. Ainda é cedo. Pode mudar de idéia antes do jantar.

– Não seja sarcástico. Você acha que gosto disto?

W.A. – Por quanto tempo se encontraria com ela sem me dizer nada?

– Não transforme isto numa de suas questões morais.

W.A. – Bastava você ter me ligado e conversado comigo. Sou compreensivo. Eu diria “não”, mas aí você teria sido honesto.

– Eu queria lhe contar. Mas sabia que ficaria aborrecido. Tivemos uns encontros inocentes.

W.A. – Alguns? Ela disse um! Vocês deveriam combinar a história. Não ensaiaram?

– Nós nos encontramos duas vezes para um café.

W.A. – Ei, pode parar. Ela não toma café. O que fizeram, tomaram Sanka? Não é muito romântico. É um pouco geriátrico.

– Eu não sou santo.

W.A. – Mas é condescendente consigo mesmo. Não percebe? Esse é seu problema. Você racionaliza tudo. Não é honesto consigo mesmo. Diz que quer escrever um livro, mas prefere comprar um Porsche. Você trai Emily e mente para mim…e logo estará diante de um comitê do Senado… denunciando golpes, dedurando seus amigos!

– Você é tão arrogante. Somos apenas pessoas! Apenas seres humanos! Você acha que é Deus!

W.A. – Eu preciso ter um modelo.

– Não dá para viver deste jeito. É muito perfeito.

W.A. – O que as gerações futuras dirão de nós? (aponta um esqueleto de um hominídeo primitivo – a cena se passa numa sala de aula de biologia) Um dia, seremos como ele. Ele provavelmente era uma das pessoas bonitas. Talvez ele estivesse dançando e jogando tênis. É isso que vai nos acontecer. É muito importante ter algum tipo de integridade pessoal. Estarei pendurado numa sala de aula um dia… e quero ter certeza que serei bem lembrado.

Pois bem, alguns minutos depois desse diálogo, o mesmo sujeito que reduziu o amigo ao tamanho de seu caráter, vai atrás de uma menina de 17 anos e, jogando tênis com a cabeça dela, após tê-la dispensado, tenta agora mudar a direção que sua vida tomava e impedi-la de fazer algo que, sem dúvida, será engrandecedor para ela. E age assim apenas para não ficar sozinho. Não seria muito mais coerente se, ao chegar lá e vê-la pronta pra partir, lhe desse um abraço e desejasse tudo de bom? Que ele, à custa de seu próprio sofrimento, a incentivasse a ir no caminho mais correto, como Humphrey Bogart fizera com Ingrid Bergman no final de ‘Casablanca’? (filme dos anos 1940 e referência-chave para a carreira de Woody, que além de citar um de seus diálogos neste mesmo ‘Manhattan’ – “Nós sempre teremos Paris.” – o satirizou respeitosamente em sua peça ‘Sonhos de um Sedutor’. Esta peça foi transposta para o cinema, sendo dirigido por Herbert Ross com Woody no papel principal).

Então, se depois do sermão no amigo, Woody vai e age de forma egoísta para com a menina de 17 anos, isto não tira boa parte da validade do seu belo discurso? Ou, pretendeu o diretor mostrar que há validade na atitude do amigo réprobo: “Somos apenas pessoas! Somos apenas seres humanos! Você acha que é Deus!

‘Manhattan’, como outros de Woody Allen, é um filme para se rever várias vezes.

2 respostas para Um dos grandes nomes do showbiz no seculo XX

  1. Precisa a análise, aliás, uma entre tantas que pode resultar de “Manhattan”. W.A. é gigantesco, tal e qual um Beethoven do cinema, marcará época como Fellini em Amarcord. Basta rever “A Rosa Púrpura do Cairo”, “A Era do Rádio” e “Manhattan”, a Santíssima Trindade do Ser Sem Direção, crônicas da vida vulgar, que esse cara nos deu. Três filmes fantásticos, maravilhosos.
    Difícil fazer um Top 5, e muito mais um Top 3. Prefiro tentar um Top 5 e parar no meio, deixando duas vagas abertas como se eu tivesse saído correndo. Coloco esses três citados e deixo aberto para os outros dois serem preenchidos pelos outros. “Zelig”? “Annie Hall”? “Desconstruindo Harry”? Todos obras-primas.
    É engraçado como o gênio de W.A. nestes filmes me sensibiliza muito mais do que qualquer filme europeu. Se um dia eu fizer análise, farei essa pergunta.

  2. […] Há um certo período da carreira do Woody Allen que é digno dos maiores elogios – os quais eu já fiz em https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2010/05/15/um-dos-grandes-nomes-do-showbiz-no-seculo-x… […]

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