O Gângster

julho 26, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Revi esta semana “O Gângster” (‘American Gangster’, 2007) de Ridley Scott. Belo filme, com atuações eficientes dos atores que interpretam os antagonistas. O roteiro, gerado a partir de fatos supostamente reais, também é muito bom. Mas só agora me dei conta do quanto uma cena em particular é absurda – e o fato de não o ter percebido da primeira vez que vi o filme me fez refletir sobre a eficiência da linguagem cinematográfica clássico-narrativa para envolver o espectador, inibindo sua descrença. O filme se passa em Nova York, boa parte dele no Harlem. A cena a que me refiro se dá quando Frank Lucas, o personagem interpretado por Denzel Washington leva seus irmãos e sobrinhos recém chegados da Carolina do Norte a uma lanchonete para falar sobre seu negócio. É dia claro, e ele fala brevemente, até que, pela janela vê um desafeto – o qual já foi mostrado anteriormente no filme – andando na rua.  Lucas levanta-se, sai da lanchonete, deixando os familiares ali; anda uns vinte metros até o sujeito. Troca umas poucas palavras com ele, pede um dinheiro que o mancebo estaria devendo a ele; diante do não-pagamento imediato, Lucas puxa um revólver, encosta-o na testa do indivíduo. O outro até argumenta, excessivamente sereno para alguém em tal situação:

“- Vai me matar? Tem testemunhas aqui.” (É verdade, há várias pessoas ao redor).

Lucas dispara à queima-roupa, matando o sujeito. Debruça-se sobre ele, revira o bolso, acha uma quantia em dinheiro, pega uma parte e devolve a outra.

Em seguida Lucas volta à lanchonete, senta-se de novo no mesmo lugar, e diante dos olhares espantados dos parentes, retoma a conversa.

Ora, esta cena é inconcebível. Mesmo que na vida real tivesse ocorrido desta forma – o que é pouquíssimo crível – , não se pode reproduzir isto num filme realista e querer que o espectador aceite. Na vida real, absurdos acontecem, todos já ouvimos falar de eventos cuja probabilidade de acontecer era uma em mil; mas a dramaturgia realista tem que ser mais crível que a realidade, porque a realidade se desenrola diante de nós independentemente de crermos nela ou não. Já a dramaturgia depende de crermos nela, se ela perder a nossa confiança, desmorona.

Então, o sujeito meter uma bala na testa de outro numa rua, diante de outras pessoas, e depois voltar à lanchonete para comer, é um pouco demais. Ele confia que a polícia não chegará? E que, caso a polícia chegue, ninguém se atreverá a identificá-lo como o responsável?

Além desta conclusão óbvia, há outra que se tira do desenrolar da trama, e que é mais sórdida. Todos os irmãos e sobrinhos de Frank Lucas, recém chegados da Carolina do Norte, e que presenciaram a cena, aceitam trabalhar com ele. Não se vê nenhum questionamento do tipo:

– Ei, cara, agradeço pelo convite, mas este seu negócio é violento. Isto não é pra mim, eu não quero me envolver em algo assim.

Mas isto não é mostrado. A aceitação é uníssona, e tal fato pode trazer em si algo de preconceito racial ou social: “Está vendo como estas pessoas não têm princípios? Como um assassinato covarde é aceitável para elas?”

OK, é apenas um filme cujo objetivo é entreter o espectador, e não se pretende a ser um tratado acadêmico…  Mas em dramaturgia é necessário criar personagens que sejam contrapontos, caso contrário, temos apenas personagens que são no fundo um único personagem-coletivo unidimensional, e não personagens individuais, com vontade e questionamento próprios e conflitantes.


O Delator

julho 14, 2010

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Já falei antes sobre a diferença entre ter talento e inteligência, usando o Tarantino como exemplo.

No entanto, lendo ‘Conversas com Woody Allen’ de Eric Lax, vi que o famoso cineasta nova-yorkino coloca entre seus filmes americanos favoritos ‘O Delator’ (‘The Informer’, feito em 1935) de John Ford. Fiquei meio chocado, porque Allen sempre me pareceu um sujeito inteligente.

Aqui, um parêntese. Levei anos para conseguir ter acesso a ‘O Delator’, e só o fiz recentemente, graças à internet – nem sei se foi lançado em DVD por aqui. Já tinha visto a maioria dos tidos como ‘os grandes’ do diretor Ford, ‘Vinhas Da Ira’, ‘Como Era Verde O Meu Vale’, ‘Depois Do Vendaval’ (‘The Quiet Man’). E muitos dos westerns ou ‘faroestes’, claro.

O único filme de Ford que revejo com alguma frequência é o politicamente incorreto ‘Rastros de Ódio’ (‘The Searchers’, 1956), um filme tematicamente datado, já que apresenta os índios como bárbaros sanguinários, prática inaceitável desde os anos 1960 – e que o próprio Ford renegaria em um de seus últimos filmes, ‘O Crepúsculo de uma Raça’ (‘Cheyenne Autumn’, 1964).

Pode-se – e deve-se – questionar a visão dos índios que permeia os westerns americanos dos primórdios do cinema mudo até os anos 1950. Mas não se pode negar que arrancar o escalpo do inimigo vencido seja um ato brutal, e que tal brutalidade já era praticada entre as tribos rivais antes da chegada do homem europeu. (continua abaixo…)

No caso de ‘Rastros de Ódio’, o fator ideológico perde força diante da grandeza do filme, uma das maiores obras do cinema americano e o melhor filme de Ford, sendo presença constante nas listas dos favoritos de cineastas os mais diversos: Jean-Luc Godard, Wim Wenders, Steven Spielberg, Martin Scorsese, Paul Schrader.

John Ford (1894 – 1973) dirigiu mais de setenta filmes falados e outro tanto de mudos – muitos destes eram curta-metragens, que completavam a programação com outros filmes. A imensa maioria era de westerns. Boa parte deles ficaram datados por causa do sentimentalismo do diretor. Mas alguns filmes de Ford ainda são muito bons: ‘The Horse Soldiers’ (1959) , ‘The Man Who Shot Liberty Valance’ (1962) .

Voltemos a ‘O Delator’, eis sua trama: Na Irlanda em 1922, Gypo Nolan, um ex-membro do Exército Republicano Irlandês (I.R.A.) desempregado e passando necessidade, vê-se humilhado pela sua namorada, que cogita prostituir-se para obter dinheiro. Desesperado e sonhando com a possibilidade de migrar para os E.U.A, ele vê uma oportunidade ao encontrar um antigo companheiro de luta armada que é procurado pela polícia. Gypo o denuncia em troca da recompensa. Após o amigo ser morto pela polícia, o I.R.A. organiza um tribunal para tentar descobrir quem teria delatado um dos membros.

O diretor John Ford é de ascendência irlandesa. O autor da história em que o filme se baseia era aparentado dele, um escritor irlandês chamado Liam O’Flaherty. Isto pode explicar a escolha do tema, mas não a justifica: ‘O Delator’ é um dos filmes mais abjetos de todos os tempos, por uma série de razões.

1) Pra começar, o sotaque irlandês de todos os personagens é insuportável. Já vi filmes que se passavam na Irlanda e não tinham um sotaque tão carregado.

2) O personagem principal é absurdamente vil e burro; uma caricatura, nem vilã de novela mexicana dos anos 1970 é tão pouco crível.

3) Victor McLaglen, o ator que interpreta Gypo, é cheio de trejeitos, e cria um estereótipo grosseiramente construído de irlandês beberrão e brigão, o qual deve ser muito mais ofensivo para a imagem de um irlandês do mundo real do que os índios assassinos de ‘Rastros de Ódio’ são para os índios de hoje. É revoltante: ele fala de punho em riste, joga sua boina no chão em momentos de raiva… Enquanto escrevo isto, não me vem à mente, EM TODOS OS FILMES QUE JÁ VI, uma composição de um personagem pior que esta – a qual é, também, culpa do diretor, claro.

4) O filme é uma peça de propaganda pró-I.R.A., logo, pró-terrorismo. De acordo com a Wikipédia inglesa, aquilo que aqui e hoje entendemos como I.R.A. é, na verdade, uma atribuição inadequada a várias instituições diferentes:

http://en.wikipedia.org/wiki/Irish_Republican_Army

http://en.wikipedia.org/wiki/Provisional_Irish_Republican_Army

http://en.wikipedia.org/wiki/Continuity_IRA

http://en.wikipedia.org/wiki/Real_IRA

O segundo, uma dissidência do primeiro, é que era o I.R.A. que lançava bombas (procedimento que só começou no fim dos anos 1960). O terceiro e o quarto são dissidências do segundo, também afeitas às explosões. Ainda assim, o primeiro – que é a que o filme se refere – não era de fritar bolinhos: “In Munster, the IRA carried out a significant number of successful actions against British troops, for instance the ambushing and killing of 17 of 18 Auxiliaries by Tom Barry’s column at Kilmicheal in West Cork in November 1920, or Liam Lynch’s men killing 13 British soldiers near Millstreet early in the next year.” Embora cometendo assassinatos políticos, a instituição original preferia concentrar suas forças para matar representantes locais das forças inglesas – o que, embora não seja digno de louvores, é um pouco ‘menos pior’ do que pôr bombas em locais públicos para atingir indiscriminadamente civis.

5) O personagem Frankie McPhillip, teoricamente o ‘mocinho’ da trama, é um assassino procurado. Quando se vê cercado pela polícia na casa de sua mãe, esta e a irmã de Frankie tentam conter os policiais que arrombaram a porta, ficando ambas entre a polícia e Frankie. Frankie começa a atirar contra os policiais, ignorando o fato de sua irmã e mãe estarem ali, junto deles.

6) Com um minuto e vinte e seis segundos de projeção, antes de a trama se iniciar, lê-se um intertítulo falando da traição de Judas a Jesus. É uma tentativa astuta de criar uma conexão: O poder inglês está para a Irlanda como o poder da Roma Imperial estava para o Israel do século I a.C. Só que esta comparação é perversa, pois acaba por comparar também um líder espiritual – que em nenhum momento prega ações homicidas – com um assassino.

7) Depois que Gypo consegue escapar da carceragem do I.R.A. vai até o conjugado de sua namorada. Lá ele confessa ter delatado Frankie, e diz que o fez por causa dela – para que ambos tivessem dinheiro para tentar uma nova vida. Depois que ele adormece, ela vai até o comandante do I.R.A. implorar o perdão para Gypo, e termina dizendo a ele que Gypo está em seu conjugado. Então, há aqui um paradoxo. O que ela faz é também uma delação. Mas o nome do filme não é ‘Os Delatores’, e sim ‘O Delator’: assim apenas a delação feita por Gypo fica qualificada como tal. Só há delação condenável quando é contrária aos interesses do I.R.A.; quando esta delação serve ao grupo, não merece condenação.

Mesmo sendo esta colcha de defeitos, em seu lançamento o filme foi um sucesso de crítica, recebendo os Oscars de melhor diretor, roteiro e ator (putz!) para Victor McLaglen, além do de trilha sonora. Isto prova que a burrice da Academia de L.A. não é coisa recente.

Um ponto alto do filme é sua fotografia, que tem momentos altamente interessantes. E o filme apresenta, de fato, uma inovação para a linguagem do cinema americano: o personagem principal é um vilão sórdido. Não conheço a história em que se baseia, não sei se nela o mesmo ocorre. Mas, fora do cinema americano, este protagonista-monstro já tinha sido visto nas telas: No filme alemão ‘M‘ (1931) de Fritz Lang, o protagonista é um psicopata matador de crianças. Curiosamente, em ambos os filmes o personagem principal é submetido a um tribunal paralelo, composto por indivíduos que atuam fora da lei.

Há também uma espécie de louvação do cristianismo, personificado nos personagens da irmã e da mãe de Frankie, já que ambas, católicas devotas, aceitam perdoar Gypo. Mas este contexto cristão não está no centro da trama, aparecendo apenas para dar uma chance de redenção ao personagem principal.

Curioso é notar que há um diálogo entre os filmes de John Ford e os posteriores filmes do italiano Sergio Leone: ‘O Delator’ x ‘Quando Explode a Vingança’ (‘Giù la testa’, 1971) – em ambos os filmes há um irlandês filiado ao I.R.A. que migra ou planeja migrar para a América do Norte, uma delação e um subsequente justiçamento; e ‘Rastros de Ódio’ x ‘Era uma vez no Oeste’ (‘C’era Una Volta il West’, 1968) – em ambos, famílias de camponeses pioneiros do velho Oeste são massacradas por disputa territorial entre grupos.


O duplo

julho 5, 2010

Desde que em 1967 os Rolling Stones lançaram ‘Their Satanic Majesties Request’ em resposta ao ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ dos Beatles, que a apropriação de estilo e modus operandi alheio viraram práticas corriqueiras. Não que já não existisse antes, apenas ocorre que, neste episódio em particular, tal prática ganhou mais destaque na mídia.

Por que falei isso?

Há um certo blogueiro que, me parece, volta e meia opta por me imitar. A razão de ele agir assim é, para mim, um mistério.

Há mais de um ano, em junho de 2009, lancei a primeira de minhas histórias em quadrinhos sem desenhos:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/quadrinhos-sem-desenhos

A ela, seguiram-se outras duas:
https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/quadrinhos-sem-desenhos-2

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/quadrinhos-sem-desenhos-3

E agora, ‘minha sombra’ – que já me citou em seu blog mais de uma vez – vem com esta:

http://luizmaia.wordpress.com/2010/07/05/chauvinistas-gracas-a-deus

Mas tudo bem, não vou me incomodar com isso. Como já foi dito, a imitação é uma forma de lisonja.