O Gângster

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Revi esta semana “O Gângster” (‘American Gangster’, 2007) de Ridley Scott. Belo filme, com atuações eficientes dos atores que interpretam os antagonistas. O roteiro, gerado a partir de fatos supostamente reais, também é muito bom. Mas só agora me dei conta do quanto uma cena em particular é absurda – e o fato de não o ter percebido da primeira vez que vi o filme me fez refletir sobre a eficiência da linguagem cinematográfica clássico-narrativa para envolver o espectador, inibindo sua descrença. O filme se passa em Nova York, boa parte dele no Harlem. A cena a que me refiro se dá quando Frank Lucas, o personagem interpretado por Denzel Washington leva seus irmãos e sobrinhos recém chegados da Carolina do Norte a uma lanchonete para falar sobre seu negócio. É dia claro, e ele fala brevemente, até que, pela janela vê um desafeto – o qual já foi mostrado anteriormente no filme – andando na rua.  Lucas levanta-se, sai da lanchonete, deixando os familiares ali; anda uns vinte metros até o sujeito. Troca umas poucas palavras com ele, pede um dinheiro que o mancebo estaria devendo a ele; diante do não-pagamento imediato, Lucas puxa um revólver, encosta-o na testa do indivíduo. O outro até argumenta, excessivamente sereno para alguém em tal situação:

“- Vai me matar? Tem testemunhas aqui.” (É verdade, há várias pessoas ao redor).

Lucas dispara à queima-roupa, matando o sujeito. Debruça-se sobre ele, revira o bolso, acha uma quantia em dinheiro, pega uma parte e devolve a outra.

Em seguida Lucas volta à lanchonete, senta-se de novo no mesmo lugar, e diante dos olhares espantados dos parentes, retoma a conversa.

Ora, esta cena é inconcebível. Mesmo que na vida real tivesse ocorrido desta forma – o que é pouquíssimo crível – , não se pode reproduzir isto num filme realista e querer que o espectador aceite. Na vida real, absurdos acontecem, todos já ouvimos falar de eventos cuja probabilidade de acontecer era uma em mil; mas a dramaturgia realista tem que ser mais crível que a realidade, porque a realidade se desenrola diante de nós independentemente de crermos nela ou não. Já a dramaturgia depende de crermos nela, se ela perder a nossa confiança, desmorona.

Então, o sujeito meter uma bala na testa de outro numa rua, diante de outras pessoas, e depois voltar à lanchonete para comer, é um pouco demais. Ele confia que a polícia não chegará? E que, caso a polícia chegue, ninguém se atreverá a identificá-lo como o responsável?

Além desta conclusão óbvia, há outra que se tira do desenrolar da trama, e que é mais sórdida. Todos os irmãos e sobrinhos de Frank Lucas, recém chegados da Carolina do Norte, e que presenciaram a cena, aceitam trabalhar com ele. Não se vê nenhum questionamento do tipo:

– Ei, cara, agradeço pelo convite, mas este seu negócio é violento. Isto não é pra mim, eu não quero me envolver em algo assim.

Mas isto não é mostrado. A aceitação é uníssona, e tal fato pode trazer em si algo de preconceito racial ou social: “Está vendo como estas pessoas não têm princípios? Como um assassinato covarde é aceitável para elas?”

OK, é apenas um filme cujo objetivo é entreter o espectador, e não se pretende a ser um tratado acadêmico…  Mas em dramaturgia é necessário criar personagens que sejam contrapontos, caso contrário, temos apenas personagens que são no fundo um único personagem-coletivo unidimensional, e não personagens individuais, com vontade e questionamento próprios e conflitantes.

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