Troca de emails entre dois ex-estudantes de cinema

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1) de Mauricio O. Dias para Jorge Albernaz

data 25 de agosto de 2010 05:28

assunto            teoria cinematograhfica

Fui assistir uma palestra sobre roteiro com um certo José Carvalho, responsável por uma pós no assunto na PUC.
O cara é interessante, fala bem. Por conta dele corri atrás de um livro que eu desconhecia:’Story – Substância, Estrutura, Estilo...’ de Robert Mckee. Encomendei no estantevirtual.com.br, ainda não chegou.
A ficha corrida (a prática de roteirista) do Mckee no imdb, assim como a do tal Syd Field – nome de peso no assunto – , não inclui nenhum roteiro que seja digno de nota. Foi transformado em personagem pelo Charlie Kaufman no seu ‘Adaptação’
( http://www.imdb.com/title/tt0268126/fullcredits#cast ).

Mas não era disso que eu queria falar. O foco é este:
Também por influência do tal Carvalho fui ler o Christian Metz (A Significação no Cinema).

Vc tem este livro? Lembra alguma coisa?
Estou achando chatíssimo, extremamente mal-escrito (isto é um fato, não uma opinião; a tradução pode ter uma parcela de culpa), e que o cara dá voltas e voltas pra dizer algo que podia ser dito de forma muito mais sucinta.

Gosto de ler e escrever sobre cinema. É um dos interesses centrais da minha vida.
Mas devo deixar claro: a escolha de certos temas ou abordagens me parece incompatível com a condição de macho heterossexual. Em português bem claro, certas coisas só podem interessar às bonecas. Isto pode parecer uma bravata cafajeste, mas há algo de verdade aqui. (* nota ao final do post)

Vou deixar abaixo o link para um texto meu sobre roteiro que não sei se vc já leu. Modéstia à parte, acho interessante.
Qualquer um pode discordar do que digo ali, mas uma coisa acho inquestionável: o texto foi feito para ser claro, não para dar margens a dúvidas. Se alguém for questionar o que está ali, será por não concordar com o que digo; e não por ter ficado em dúvida sobre o que exatamente foi dito. Ao escrever um texto teórico mais rebuscado do que o necessário, além de não cumprir uma função didática, o acadêmico está construindo portas laterais pelas quais ele pode fugir para evitar uma colisão com alguém que venha em sentido contrário.
https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2008/12/26
Isto tudo é algo que na época da faculdade eu já intuía, mas não tinha coragem de falar. Afinal, o professor que recomendava este tipo de livro era mais velho, tinha visto muito mais filmes que eu, ele falava francês, tinha mestrado em NY (you know who I’m talking about).
Precisei ler mais, envelhecer e ganhar experiência pra hoje ter certeza de que ele era medíocre como ser humano e professor – aqui é claro, não estou proferindo uma verdade, apenas emito uma opinião, com a qual vc pode discordar totalmente.

Abraço

2) de Jorge Albernaz para Mauricio O. Dias

data     25 de agosto de 2010 09:12

assunto            Re: teoria cinematograhfica

Fui olhar na estante e lá estava ele: “A Significação no Cinema”. Lido em outubro de 91, diz-me a anotação que sempre costumo fazer nas primeiras páginas dos livros que termino de ler. Nada me lembro. Folheando as páginas, a aridez, o deserto. Termos e expressões há muito esquecidos. Linhas marcadas. Por que cargas d’água as marquei?

As leis da linguagem cinematográfica ordenam enunciados no interior de uma narração, e não monemas no interior de um enunciado, menos ainda fonemas no interior de um monema.”

Que diabo!

Chego a um texto sobre 8 e 1/2. Um pouco melhor, mas rebuscamento para falar o óbvio.

Quanto tempo perdido! Livros na estante: Kracauer, Eisenstein, Ismail Xavier, Bázin.

Saussure!!! P(…) que pariu!

‘Saussure Sussura e eu Durmo’, nome de uma possível banda, chegamos a cogitar, não sei se você estava presente.

Alguns nem li.

Um oásis: as entrevistas do Bogdanovich com o Orson Welles.

Como você disse, tremenda viadagem. Espero que o livro que você encomendou seja melhor.

Tenho ‘O Passageiro’ como um dos filmes de minha vida. Vi-o apenas uma vez.

Já o baixei, no entanto tenho a mesma relutância do cara que marca um encontro com a primeira namorada depois de passar vinte anos sem a ver.

3) de Mauricio O. Dias para Jorge Albernaz

25 de agosto de 2010 11:56

assunto            Re: teoria cinematograhfica

Saussure Sussura e eu Durmo“.

Lembro, claro. Hehehe…

Pra concluir o curso da UFF tinha aquela m(…) da monografia (N.A. Na época, obrigatória ao final do curso), algo que considero uma imbecilidade – se vc entra na faculdade para aprender técnica cinematográfica, visando trabalhar com som ou fotografia, não tem porquê buscar um embasamento teórico se isto não for de seu interesse.
Então obriga-se a produção de textos teóricos, e é claro, 95 % são gasto de tempo e papel sem nenhum proveito real.
Da mesma forma, quem faz mestrado ou doutorado tem uma cota de texto a preencher. E dificilmente sai algo de bom.
Muita coisa deste livro do Metz deve ter sido escrita para justificar bolsas governamentais ou algo assim. Ninguém é chato dessa forma a troco de nada.
Se ele tivesse que dar expediente, bater ponto num escritório, tocar algum negócio da família, não gastaria tempo escrevendo aquilo tudo. Pense no quão improvável é a frase: “Trabalhei 8 horas hoje, mais meia hora pra chegar no trabalho e outra meia hora pra voltar. Cheguei em casa, tomei banho – mesmo sendo francês – , jantei, e agora vou sentar com o caderno e começar a escrever sobre semiótica.”
Não, não me soa crível. Não é algo que alguém faça por fé, paixão – ao contrário da arte do Monet, que passava privações na juventude, mas seguia pintando, ou do Kafka, escrevendo sem ganhar um centavo por isso, apenas para se livrar do tédio de seu emprego de burocrata. No caso do Metz e de vários afins, parece-me que um cara só escreve daquela forma se for incentivado psicologicamente e financeiramente.
A que fins interessa certo tipo de teoria?

* – Nota explanatória para o leitor, a qual não constava originalmente no email: Com esta afirmação não creio estar de forma alguma fazendo um juízo de valores sobre os gays, apenas colocando algo por mim observado ao longo de duas décadas de contato com o movimento artístico/ acadêmico no Rio de Janeiro. Lembrando que o texto em questão não foi escrito para o público, mas para um amigo de velha data – o que me permitia frases de efeito que eu não colocaria em outra situação – , não quis na realidade afirmar que só gays poderiam gostar do texto de Christian Metz, ou que você tenha de ser gay para apreciá-lo.

Já antevendo quaisquer possíveis queixas, coloco que, se eu tivesse dito que ‘todos os chineses têm olhos puxados’, ninguém se incomodaria com isso. Algum ‘conoisseur’ poderia chamar minha atenção, pois em certa província chinesa há uma minoria étnica que tem olhos amendoados, logo, a frase enunciada não é verdadeira. Mesmo admitindo uma possível solicitação de correção, ainda assim creio que, em tal caso, não acontecessem protestos. Coloco desde já que, a meu ver, tanto no caso dos olhos dos chineses quanto no dos apreciadores de Christian Metz, exceções só confirmam a validade da regra.

Outra explicação, mais sucinta, pode ser encontrada no link

http://www.youtube.com/watch?v=1VsIe20dWEA

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