Quem precisa de mais um texto sobre Tropa de Elite 2?

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Confesso que estava ansioso para ver ‘Tropa de Elite 2’, e o fiz assim que estreou em grande circuito, dia 8-10. Um filme extremamente bem realizado do ponto de vista técnico: produção, montagem, fotografia, elenco. No mesmo dia, saiu no RioShow do jornal ‘O Globo’ uma versão editada de um texto de Jorge Antonio Barros que apontava inverossimilhanças no roteiro do filme. Barros é editor adjunto do caderno Rio e responsável pelo blog ‘Repórter do Crime’ do Globo. Ou seja, alguém com conhecimento de causa nos assuntos retratados no filme. O texto, muito válido, pode ser lido integralmente aqui:

http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/posts/2010/10/08/tropa-de-elite-2-nem-tudo-verdade-mas-quase-tudo-330978.asp

Mas as discrepâncias que Barros aponta são aquelas entre filme/realidade. Eu pretendo aqui comentar as discrepâncias internas do filme.

Todo filme tem que ser coerente, não pode uma hora dizer uma coisa e depois dizer outra. No caso de uma continuação, além de ser internamente coerente, ela tem que ter coerência com o filme que a gerou. Isto posto, temos a reviravolta do personagem Capitão Nascimento (no segundo filme promovido a Coronel), que desde o primeiro filme é mostrado como beligerante, proto-fascista e alguém que tem verdadeira abjeção por pseudo-liberalismos hipócritas da sociedade (“- Quando vejo uma passeata pela paz tenho vontade de sair dando porrada” – diz no primeiro filme).  Agora, no segundo filme, Nascimento termina por se juntar ao personagem de um militante/deputado que tem várias características que antes ele repudiava. É uma forma de incoerência, mas isto está bem resolvido no filme, a mudança de Nascimento se dá devido a descobertas feitas ao longo da trama, faz parte do que em roteiro se chama de ‘arco do personagem’.

Mas há problemas maiores. Não queria nem falar do fato de Rosane, a personagem que era a esposa de Nascimento no primeiro filme, ter se divorciado dele e casado com outro personagem que é quase uma nêmese do Cap. Nascimento. Este dado é um “Deus Ex Machina“, uma forçação de barra brutal: A mulher que teve seu primeiro casamento destruído pela dedicação obsessiva de seu marido à segurança pública vai se casar justamente com outro homem que dedica, por outros meios, obsessivamente sua vida à segurança pública? É trocar um problema por outro. Mas rende bons frutos à trama: a ironia embutida no fato, a confusão entre os dois pólos gerada na cabeça do filho agora adolescente de Nascimento. Então, vamos deixar passar.

Mas um outro problema, este me parece inexplicável: No segundo filme temos a questão das milícias, personificada no Major Rocha. E o sujeito é a encarnação do mal, brutal e corrupto ao extremo. Nem o agora oficial André Matias (qual a patente dele? Capitão?) nem o Coronel Nascimento parecem saber nada sobre o Major Rocha: Matias aceita tomar parte numa operação capitaneada por Rocha; e após a execução de um personagem do Bope (não vou dizer quem, para não estragar a surpresa pra quem ainda não viu), o Coronel Nascimento não consegue fazer a conexão entre o crime e o provável autor do mesmo.

Pois bem, vamos retroceder para esclarecer o ponto incômodo: No primeiro filme o Capitão Nascimento é designado para ministrar um curso para os candidatos ao Bope. Antes do curso começar, os oficiais da instituição se reúnem numa mesa para debater o que se sabe sobre os candidatos. ( “-Esse está na lista do jogo do bicho.” “-Esse é barra pesada. Cafetão de puta em Copacabana!”). Ou seja, no primeiro filme eles tinham informações sobre todo policial corrupto pé-de-chinelo da cidade. E no ‘Tropa 2’, este serviço de inteligência, que antes funcionava miraculosamente bem, agora é incapaz de saber que o Major Rocha é o chefão das milícias? Não dá pra acreditar. E esta situação se estende por anos, e o Coronel Nascimento só vai tomar ciência dele através do ativista de direitos humanos? Que é isso? Parece que o diretor e roteirista estão pedindo desculpas por um certo endosso à truculência no primeiro filme: “Olha, aquela cena em que o policial invade a passeata da paz e sai batendo num ‘avião’ (passador de droga), não quer dizer que sejamos anti-pacifistas. O personagem é que era brutal; nós não. Até o Coronel Nascimento teve que reconhecer a sua inferioridade em relação a um militante dos direitos humanos. O cara lhe toma a mullher, o amor do filho, e ainda descobre coisas que ele não foi capaz.

Talvez ainda volte ao assunto. De qualquer forma, ‘Tropa de Elite 2’ é um filme que tem que ser visto e debatido.

Ah, mudando de assunto, aderi ao tal twitter:

http://twitter.com/mauricioasodias

Já havia, aqui mesmo neste blog, declarado que não acreditava que iria fazê-lo:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2009/07/25/o-show-de-truman

Logo, cobro coerência do filme, mas eu mesmo não sou 100 % coerente. Mas também não sou um filme.

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