Rubem Braga

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Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Tenho alternado leituras, como é de costume. Em meio a livros sobre cinema e roteiro, para me distrair leio crônicas do Rubem Braga (‘200 Crônicas Escolhidas – as melhores de Rubem Braga’; Ed. Record, 1978).

A leitura do Braga, em geral, é uma delícia. O senso de humor, o amor pela vida, pelos seres e coisas; a tranqüilidade que ele passa ao leitor. Parece que, enquanto escreve, não está vivendo como mero ser humano, mas observando a vida de um patamar mais alto.

Para quem lê, parece que era muito fácil ao Braga escrever daquela forma; que ele sentava meia hora diante da máquina e saíam as páginas prontas. Não tenho idéia do quanto era demorado ou trabalhoso para ele escrever. Mas vá você tentar escrever daquela forma. Vai suar a camisa, poderá levar horas; e dificilemente chegará perto do resultado que ele obtém.

À época em que foram escritas, as crônicas eram semanais, publicadas em jornais e revistas. Numa delas, o Braga começa a contar uma aventura que viveu na cidade marroquina de Casablanca. Só que, por ser uma narrativa mais longa, não coube no espaço mais ou menos fixo que uma única crônica ocuparia no veículo de imprensa a que se destinava. Se bem que, pela leitura do material selecionado no livro, vê-se que o autor dispunha de certa elasticidade no espaço – algumas crônicas ocupam apenas uma página, outras, três ou quatro páginas. Ainda assim, havia um espaço máximo que não se podia ultrapassar, e a longa narrativa dos fatos ocorridos em Casablanca forçosamente o faria.

Então optou-se por dividi-la ao longo de três crônicas. Na segunda dentre elas, o autor começa (o negrito é meu, para destacar uma frase sensacional):

Muitos leitores me dizem que estão indignados com esse negócio de eu começar uma história num domingo e não acabar. Consolem-se comigo, que também me aborreço muito. Hoje, por exemplo, devo acabar de contar minhas aventuras em Casablanca. Ora, quando eu comecei aquilo, estava convencido de que era uma boa história. Hoje, relendo a primeira parte, fiquei com sono e desanimado; e quando penso que devo fazer a segunda, francamente, sinto náuseas.

Afinal, o leitor nada tem a ver com o que me aconteceu em Casablanca. E não me perguntou nada. Eu é que me meti a contar a história. Se tivesse contado de uma só vez, vá lá. Mas neste momento  estou na posição de uma pessoa que começa a contar uma anedota e é interrompida; e quando pretende continuar se dá conta, subitamente, de que a anedota não tem nenhuma graça nem interesse, ou, o que é lamentável, ele se esqueceu do fim. Está visto que não me esqueci do fim de minhas aventuras em Casablanca. Mas só agora percebo que fiz uma horrível imprudência; porque, francamente, não me é possível contar a história tal como aconteceu. Como acontece em muitas histórias, a parte mais interessante é de caráter confidencial; seria da maior inconveniência que eu a contasse em público. Mesmo em particular, quando sou interrogado, guardo um pesado silêncio, ou digo qualquer mentira que me ocorre, pois alem de ser um homem responsável perante minha Pátria, Deus e minha Família, sou um perfeito cavalheiro, e um perfeito cavalheiro deve saber guardar perfeito silêncio em circunstâncias como essas.

Se havia de fato algum leitor que se queixara, depois de ler o primeiro parágrafo do texto acima já haveria perdoado o autor. Se alguém começasse a ler esta crônica, ser ter lido a anterior, iria ligar para os amigos para saber se guardaram o jornal da semana passada. Porque, lendo um trecho do Braga, dá vontade de ler mais.

Algumas das crônicas podem ser lidas na coluna na parte à esquerda da tela no link http://www.releituras.com/rubembraga_menu.asp

Os livros podem ser encontrados em sites como o http://www.submarino.com.br, http://www.livrariasaraiva.com.br  e, usados, no http://www.estantevirtual.com.br

Valem muito a pena.

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