Diferentes épocas e parâmetros

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Estou relendo com grande prazer ‘Chega de Saudade’ de Ruy Castro. O livro mostra um recorte específico da história da música popular brasileira, dese os anos 1940 até mais ou menos 1970, focando no samba-canção e, claro, na Bossa Nova. Seria uma visão da música popular brasileira ‘sofisticada’: não se interessa pelos ídolos das massas, Emilinha Borba, Marlene, etc. Roberto Carlos só é mencionado porque em seu início de carreira teria tentado imitar João Gilberto.

O texto é saboroso, alternando muita pesquisa e entrevistas com sacadas e humor. A grande diferença em relação à primeira vez que o li, em 1993, é que agora conheço muito mais do gênero musical em si, já que muitos discos dos vários artistas citados não estavam disponíveis à época, e hoje podem ser encontrados com o clique de um mouse. Mas este texto não é só para elogiar uma leitura prazerosa.

Já falei várias vezes neste espacinho virtual contra o politicamente correto, como em:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2010/11/04/mais-de-50-anos-dedicados-ao-entretenimento

No entanto… Voltando ao livro de Ruy Castro, quero destacar um trecho. Se encontra na pág 133, parágr. 3:

A chegada de Ronaldo Bôscoli, em 1957, alterou a paisagem no apartamento de Nara. Ele levou a tiracolo seu amigo Chico Feitosa (…). Os dois se espremiam num quitinete na rua Otaviano Hudson, em Copacabana, a qual abrigava ainda um crioulo, Luiz Carlos ‘Dragão’, de profissão indefinida .”

Foi publicado em 1990, o que, apesar de decorridas mais de duas décadas, não é tão longínquo assim. Não estamos comentando algo de 1920. O termo ‘crioulo’ jogado assim, num livro de não-ficção, sem ser uma citação a uma fala de um entrevistado, chocou-me pela ‘falta de cerimônia’. Lembro que, na mesma década de 1990, Paulo Francis – um dos ídolos de Ruy Castro – fez coisas bem piores em suas colunas de jornal.

Em outro trecho do mesmo livro, a repetição do mesmo termo ‘vulgar’ – agora no plural – se justifica. Ao relatar o processo de afastamento de Carlinhos Lyra da Bossa Nova, para dedicar-se ao ‘samba de raiz’ de Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, a obra apropria-se das reminiscências de alguém que presenciara um encontro entre os sambistas e Lyra, no apartamento deste em Ipanema:

O crítico musical e ‘jornalista José Ramos Tinhorão (…) lembra-se de ter-se divertido muito ao observar Nelson (N.  Nelson Lins de Barro, à época parceiro de Lyra na composição de canções) e Carlinhos sevindo cachaça e cerveja aos sambistas – porque era o de que os sambistas gostavam – enquanto eles próprios tomavam uísque. “Não lhes passava pela cabeça que os crioulos também pudessem gostar de uísque” – diz, rindo, Tinhorão.’ (pág. 346; parágr. 1)

Aqui o uso do termo ‘crioulos’ é para debochar do fato de que, por mais bem intencionados que fossem os anfitriões, aos olhos deles, a classe social/grupo étnico (conceitos diversos, mas que se fundem no imaginário das pessoas) dos convidados era determinante em suas preferências. Aqui, o uso do termo no livro me parece perfeitmente válido – se era válido seu uso por Tinhorão, é outra discussão; embora a mim pareça que sim, já que foi um depoimento em primeira pessoa, relatado informalmente ao autor, e sabe-se lá se ambos já tinham algum grau de convivência ou mesmo amizade.

Continuo sendo avesso ao patrulhamento politicamente correto, que muitas vezes procura chifre em cabeça de cavalo, também contribuindo para o fomento de uma indústria do ressentimento, que busca lucros via processos judiciais. Mas certos vícios – de pensamento e  lingüísticos – e a perpetuação de estereótipos não devem mais ser aceitos no séc. XXI.

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