Post Post Scriptum

Revi ontem, pela quinta vez, ‘Onde os Fracos não têm Vez’ dos irmãos Coen, que acho interessantíssimo.
Se ainda não viu o filme e pretende fazê-lo, melhor parar a leitura, pois vou comentar cenas.
Se for continuar a ler, sobre o mesmo filme já escrevi:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2008/08/23/digressoes-minhas-em-cima-de-digressoes-dos-irmaos-coen

Depois da revisão de ontem,segue um adendo ao(s) texto(s):

Só agora, revendo-o mais uma vez, me dei conta de uma repetição que ocorre no filme: Quando o ‘mocinho’, seriamente ferido, atravessa a ponte da fronteira EUA-México, encontra três jovens e oferece $ 500 (dólares! Em 1980, quando um dólar tinha consideravelmente mais poder de compra do que hoje.) pela camisa de um deles. Depois de selado o acordo, o mocinho pede a cerveja que um dos rapazes trazia. Num ato de ganância, o rapaz pergunta “Quanto ele daria pela cerveja”, sendo em seguida fulminado por um olhar indignado do mocinho. Um outro rapaz fala, mais motivado pelo medo do que por qualquer senso de caridade, para o amigo dar a cerveja ao mocinho.
Ao final do filme, quando o ‘vilão’ sofre um acidente de carro, e sai mancando, ferido, dois garotos de uns 14 anos se aproximam, montados em bicicletas. Perguntam se ele está bem, e o vilão pergunta quanto ($) um deles quer em troca da camisa que usa. O menino diz que dará a camisa a ele, e, a pedido do vilão, que está impossibilitado, dá um nó nas mangas, para que a camisa sirva de tipóia. O vilão estende-lhe uma nota (não consegui identificar o valor), o menino inicialmente recusa, dizendo que “Não se importa de ajudar as pessoas. Isto é muito dinheiro”. O vilão insiste, o garoto aceita. O vilão se afasta andando, os dois garotos começam a discutir se o dinheiro deveria ser dividido entre eles ou não.

Qual o sentido disso? Aquele dinheiro era amaldiçoado, e quem bota os olhos nele fica contaminado pelo ‘germe da ganância’? Seria uma analogia para a relação da humanidade com o dinheiro? Será possível que os irmãos Coen tenham resolvido ser tão moralistas? Não é simplório demais?

(Esta nova leitura do filme exclui a que elaborei anteriormente  neste mesmo blog – “E o final do filme, com o acidente de carro, é uma bobagem do tipo daquelas que David Lynch costuma fazer em seus filmes: buscar a estranheza surreal como valor artístico per se.” – ), e a qual, reconheço, estava equivocada. “Feliz do homem que pode rever suas opiniões“, costumava dizer um velho amigo. Esta nova leitura  do filme muda também o enfoque sobre o filme que coloquei em outro texto, que se encontra em https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2008/08/30/um-pouco-mais-sobre-onde-os-fracos-nao-tem-vez (Já são três textos sobre o mesmo filme, escritos ao longo de um intervalo de quatro anos. Não posso dizer que ele não rende assunto.) Neste texto de 2008 apontava que o filme carecia de sentido moral. E neste, de agora,  chego a uma conclusão (ainda não definitiva) oposta, a de que o filme seria moralista, no pior sentido da palavra. Pois se há mesmo esta ‘mensagem’ de que ‘o dinheiro corrompe e é a fonte de todos os males’, ela é idiota, e eu preferiria que não houvesse  ‘mensagem’ alguma. Mas talvez eu precise rever mais uma ou duas vezes o filme…

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