Algumas considerações sobre dramaturgia em filmes

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Por Mauricio O. Dias

A trama dramática tem que ser crível. Não estão incluídos aqui os filmes de ação, as comédias, os filmes musicais e surrealistas, cujos textos têm que atender a exigências de outra ordem. Nestes, se a história ganhar com uma determinada mentira, se aquilo enriquecer o conjunto, chuta-se a verossimilhança. Assim, Indiana Jones pode escapar de tiros de metralhadoras, Fred Astaire pode dançar no teto o quanto quiser e os Cavaleiros da távola redonda da versão Monty Python podem usar cocos em vez de cavalos, e isto funciona maravilhosamente bem. Mas no filme ‘realista’, seja um drama, um policial, épico ou suspense, não pode ser assim.

Não tolero um mau roteiro num filme com produção bem cuidada. Como alguém que estudou roteiro seriamente, sinto-me pessoalmente ofendido quando vejo que os produtores investiram em atores (ou o que passa por ator em Hollywood, ‘estrelas’), cenografia, efeitos especiais, etc. e não se preocuparam em ajeitar o roteiro, quando este é a fundação – no sentido que a engenharia dá à palavra, a ‘base’ – que sustenta o filme.

Fiquei nauseado ao ver ‘A Dália Negra’ de Brian De Palma. Escrevi um email a um amigo que já trabalhou como crítico, perguntando se tinha visto o filme; “vi e não gostei.” – respondeu ele.

Retruquei: ‘ “Não gostei” é light. O filme é uma m**** sem tamanho, as coisas acontecem sem o menor vestígio de lógica. Como pode um cara com + de 30 anos de cinema e algumas (poucas, é verdade) boas obras iniciar um filme sem ter sequer um simulacro de roteiro nas mãos? ‘

Sei que o referido filme é baseado num livro de James Ellroy, o qual, confesso, não li. Mas mesmo que o livro já apresentasse os problemas de estrutura narrativa que se vêem no filme, caberia ao roteirista (e também ao diretor) retrabalharem tudo quantas vezes fosse necessário, até obter algo minimamente lógico.

Quando o roteirista não é o diretor, este último quase sempre interfere no trabalho do primeiro, muitas vezes piorando-o. Caso o roteiro não funcione, sempre haverá uma cota de responsabilidade do diretor, pois ele tem a palavra final.

Muitos diretores não entendem que a dramaturgia tem que ser um processo lógico. Se uma cena promete render bons frutos na tela, eles a mantêm, não importa quão ilógica ou prejudicial à trama ela possa ser. No livro ‘Hitchcock / Truffaut – Entrevistas’, o velho mestre inglês – que em seus filmes nunca demonstrou ser exatamente o indivíduo mais preocupado com a lógica – narra uma cena ao seu colega francês: “Um carro segue por uma linha de montagem, desde quando era só o motor, e as demais peças vão todas sendo adicionadas. Ao final da linha de montagem o veículo está pronto. Vem um vendedor, abre a porta do carro, e um braço escorrega para fora, revelando que há um corpo ali dentro”.

Hitchcock gostava da idéia, mas não conseguiu achar um meio lógico de explicar como o corpo apareceu ali, e acabou por abandoná-la.  Creio que Scott Frank e (ou) Jon Cohen, os roteiristas de ‘Minority Report’ tinham esta idéia em mente quando escreveram a cena da linha de montagem, onde Tom Cruise escapa aos robôs-construtores e consegue fugir com o carro.

Logo abaixo há um exercício de ficção ao qual me dediquei: reescrever cenas de filmes importantes. Algumas, reescrevi por que não me agradavam; e outras, de que eu até gostava, acho que poderiam ser mais significativas ou verossímeis feitas de outra maneira. E no caso específico de ‘Chinatown’, creio mesmo que no filme houve um esforço deliberado – não sei se da parte do roteirista ou do diretor – para esvaziar a obra de um sentido moral, que ali é sublimada, mas que na versão que escrevi está presente. E um sentido moral é importante para uma grande obra dramática. Em português, a palavra ‘ética’ se encontra dentro do vocábulo ‘estética’ (algo bem próximo do original grego, aisthetiké/  ethiké).

É evidente que a idéia de ‘certo’ e ‘errado’ em obras que se pretendem artísticas é questionável. Um pintor pode alongar a figura humana para obter um determinado efeito, como fazia El Greco. Alguém diria que tais pinturas estavam ‘erradas’ por fugirem ao padrão canônico? Da mesma forma, a visão do mundo que uma obra dramática tem que mostrar é aquela de seu autor, não a minha ou a de qualquer outro que tenha uma visão divergente.

E evidentemente, só reescrevo cenas de filmes que tenham alguma qualidade ou relevância; não perderia meu tempo fazendo isso com um filme que jamais será bom, como Titanic. E também trato de filmes conhecidos do público interessado em cinema, não vou falar de um filme rodado na Espanha em 1963, do qual não existam cópias disponíveis em dvd.

Seguem as cenas reescritas.

Chinatown – Roteiro de Robert Towne

Mudança 1 – a cena em que Jack Nicholson chama John Huston para mostrar-lhe os óculos.

Gittes – Sr. Cross, quanto você vale, dez milhões?

Cross – Muito mais que isso, Sr. Gittes…

Gittes – E por que está fazendo isso? Vai comer um bife melhor? O que vai poder comprar que já não possa?

Cross – O futuro, Sr. Gittes…

(acrescentei um trecho)

Instantes.

Gittes – Quantos anos o Sr. tem? Setenta?

Cross – 68…

Gittes – E de que futuro está falando? Com todo o respeito, quantos anos tem pela frente antes de morrer? Cinco? Dez? O Sr. está trapaceando muita gente… Vale a pena fazer isso para comprar um caixão de ouro?

Cross – Meu nome não termina comigo, Sr. Gittes… Minhas filhas herdarão o que eu tenho…

Mudança 2

Cena final. Como se vê no filme, Evelyn é morta pela polícia.

Gittes – E então, Sr. Cross? É este o futuro que queria comprar? Sua filha está morta, sua outra filha nunca vai perdoá-lo.

Cross – Isso não teria acontecido se você não tivesse insistido em continuar metendo seu nariz nessa história, seu verme!

Gittes – Metido meu nariz? Eu estava cuidando da minha vida, você mandou uma vagabunda me contratar, fingindo ser sua filha.

Close em Cross, consternado.

Escobar – Cale a boca, Gittes, você já está bem encrencado.

Escobar e outro guarda seguem empurrando Gittes para longe dali.

Escobar – Eu não vou prender você, Gittes, apesar de ter motivos de sobra pra isso. (Para os sócios de Gittes) Vocês dois, levem ele pra longe daqui.

Sócio 1 – Esqueça, Gittes. É Chinatown…

Observação. No roteiro original de Towne, Evelyn não morria, mas matava Cross. Foi o pessimista (não sem certa razão para sê-lo) Roman Polanski quem promoveu a mudança.

Taxi Driver – Roteiro de Paul Schrader

Vai haver um comício do candidato Charles Palantine.

Travis aproxima-se de um homem de terno e óculos escuros.

Travis  – Você é um agente secreto?

Agente – Não, só estou olhando…

Travis – Você é encarregado da segurança, não é?

Agente – Não, só estou olhando…

Travis – Essa é uma ótima resposta… Eu também… estou só olhando…

Agente – Eu posso ajudar em algo?

Travis – Pode. Diga se você trabalha para o governo ou se é um segurança particular, contratado.

Agente – Por que está perguntando isso?

Travis – Pela roupa, postura, é óbvio que você é um segurança… Eu só quero saber quem está pagando seu salário.

Agente – Por que eu deveria dizer isso a você?

Travis – Se você é um agente secreto, FBI, alguma coisa assim, o dinheiro do meu imposto paga o seu salário.

Agente – E você tem algum problema com isso?

Travis – O candidato Palantine é um senador. Ele ganha um bom salário do governo. Além disso, o partido arrecada milhões em doações. Acho que eles poderiam providenciar segurança privada. Por que um agente do governo seria destacado pra cobrir ele? Se ele já fosse o presidente, ok, o governo paga os seguranças do presidente, é o homem mais importante do país, eu entendo. Mas se todos os deputados, senadores, vereadores, forem ter direito à segurança bancada pelo governo isso vai custar uma fortuna, não é? E quem paga por isso somos nós? Os contribuintes?

Agente – Você discorda desse procedimento?

Travis – Uma noite dessas um amigo meu estava no trabalho, foi esfaqueado por um negro. A polícia levou quinze minutos pra aparecer. Enquanto isso tem agentes aqui pra proteger o senador Palantine, que nem chegou ainda. Ele quer concorrer a presidência? Deixa o partido pagar pela segurança… E depois, ele está cercado de gente, é dia claro… Ele não precisa de segurança, quem precisa é meu amigo, que estava trabalhando às 11 da noite no Harlem.

Agente (saca um bloco e uma caneta) – Você quer preencher uma reclamação?

Travis – Eu tenho dúzias de reclamações… Eu trabalho mais de 50 horas por semana, e dessas 50 horas umas 10 devem ser só pra pagar impostos. Eu tenho que sustentar políticos na cidade, no estado, em Washington. É uma nota que eu gasto… Mas se amanhã eu cair doente, e for para um hospital público, vou ficar numa fila e ser mal atendido. Se eu tiver um filho e botar ele num colégio público, ele vai ter uma aula de merda e ter como colegas de sala traficantes de cocaína de 12 anos. Então pra onde vai o dinheiro do meu imposto? Pra pagar a segurança do senador Palantine? Ele que pague por sua segurança.

Agente – Entendo… para poder preencher sua queixa, eu preciso do seu nome e endereço, para poder mandar a resposta.

Travis – Tá, é claro. Além de pagar seu salário, ainda vou te dar meu nome e endereço pra você me fichar. Está lidando com algum imbecil?

Agente – Não, senhor… É pra preencher a queixa.

Travis – Políticos são piores que traficantes de drogas. Nenhum traficante me obriga a dar dinheiro a ele. O sujeito que compra cocaína, faz porque quer. Quer se matar de cheirar, o problema é dele. Mas os políticos de Washington, se eu não pagar meu imposto, me botam na cadeia… Extorsão.

Começa a agitação da chegada de Palantine

Agente (guarda o bloco) – Vou ficar de olho em você, nem pense em chegar perto de Palantine.

Travis – Sei que você vai ficar de olho em mim… Hoje à noite vou estar no Bronx, por que não fica de olho em mim então? Se um cucaracha vier me assaltar, vou dizer: “É melhor não fazer isso, tem um cara de olho em mim…” Você finalmente poderá ser útil em alguma coisa… (Pausa, fala pra si mesmo) Parasita…

Agente (agarra o braço de Travis) – O que você disse? (instantes, os dois se olham cara à cara) Dá o fora daqui, seu maluco! Se não eu te prendo por desacato à autoridade.

Travis (saindo) – Vai proteger o Palantine, procure não beijar a bunda dele enquanto estiver por ali.

Agente – Eu vou guardar seu rosto!

O Resgate do Soldado Ryan – Roteiro de Robert Rodat

O destacamento de soldados americanos encontra um grupo de três ou quatro alemães entricheirados com metralhadoras de grande calibre. Enfrentam os alemães, eliminam os adversários e conseguem fazer um prisioneiro. Em meio à ação, o médico do destacamento americano acaba morrendo.

Não gosto da maneira que a cena foi feita, desprezando a lógica da hierarquia militar, inflexível num grupo de elite como aquele mostrado – o médico avança em meio ao combate, expondo-se a tiros, quando normalmente é a figura mais preservada do pelotão, por ser insubstituível; um soldado desobedece as ordens do superior, demonstrando inclusive o desejo de desertar do pelotão – , toda uma agressão à lógica para mostrar que os americanos são moralmente superiores, sendo até capazes de liberar um inimigo que matou um deles.

Há outras cenas no filme em que ocorrem erros semelhantes, mas essa é muito pior do que as outras.

Acredito haver pelo menos duas formas de realizar a cena melhor do que acabou indo à tela.

Opção 1 – O médico não morre

Em vez de o médico ter um ferimento na barriga – que acaba por se revelar fatal – , troquemos por um na perna, que não incorra em risco de vida, mas que o impossibilite de ir adiante com o resto do destacamento.

Soldado Mellish – Senhor, prendemos um chucrute…

(Ele vem escoltando o soldado alemão)

O Soldado Reiben se aproxima e bate com força a coronha de seu rifle no ombro do alemão, que se assusta e quase cai no chão.

Capitão Miller – Reiben, não! Ele é um prisioneiro…

Sargento Horvath – O que faremos, senhor? O doutor não pode andar…

Capitão Miller – Droga, vamos ter de seguir adiante sem um médico.

Sargento Horvath – E o que vamos fazer com o doutor? Ele não vai conseguir voltar sozinho até o último posto, são 50 Km.

Capitão Miller – Vamos contatar pelo rádio.

O soldado Jackson fala ao rádio. O Capitão Miller e o Sargento Horvath aguardam ao lado dele.

Soldado Jackson – Roger, senhor, desligo.

Capitão Miller – Então não podem mandar um médico substituto?

Sargento Horvath – Nem uma equipe de resgate pra pegar o doutor, hein?

Soldado Jackson – Médico substituto está fora de cogitação, e uma equipe de resgate levaria pelo menos três dias para chegar aqui, se vier.

Sargento Horvath – Poderíamos deixar o doutor aqui com ração pra seis dias…

Capitão Miller – Deixar um homem ferido sozinho? Nem pensar… Vamos mandar um dos homens levar ele de volta na maca. Podemos usar este alemão também.

Corta para:

O soldado alemão à frente da maca, e atrás o Soldado Mellish, ambos carregando o doutor.

Upham traz um trapo branco, enrola-o no braço do alemão.

Upham (em alemão) – Isso vai indicar a todos que você não está em combate. Comporte-se direito, e nós vamos fazer a nossa parte e proteger você.

Alemão (em inglês, carregado de sotaque) – Obrigado.

Soldado Mellish – Tchau, pessoal. Vou mandar um cartão postal de Paris. ‘Vamo’andando, chucrute.

Os dois homens carregam a maca, se afastando.

Soldado Jackson – Não é irônico nos dias de hoje? Um judeu e um alemão trabalhando juntos?

Capitão Miller – Einstein é ambas as coisas: um judeu e um alemão…

O doutor, carregado na maca, inclina-se e dá um aceno de adeus para o grupo.

Soldado Reiben – Puto sortudo…

Soldado Jackson – Espero que eles saibam vigiar este alemão.

Capitão Miller – Eles estão levando uma corda. E o doutor está consciente, carrega uma colt na cintura, se precisar. Na hora de dormir ele pode se revezar com Mellish… Mandei Upham conversar com o alemão.

Cpl. Upham – Disse a ele que se comportasse direito e fizesse o que é mandado, e aí garantiríamos a segurança dele. Mas sabemos que não é algo que possamos garantir, senhor. Os soldados do posto podem decidir matá-lo.

Capitão Miller – Aí já não está em nossas mãos…

Opção 2 – O médico morre

Neste caso a cena reescrita seria muito mais parecida com o que se vê no filme. Mandariam o soldado alemão cavar a cova do doutor, ele imploraria pela sua vida, e o soldado Reiben seria enfático em querer matar o alemão para vingar a morte do doutor.

Capitão Miller – Upham, diga pra o alemão tirar a bota.

Cpl. Upham – O que vai fazer, senhor?

Capitão Miller – Diga a ele o que eu mandei você dizer.

Cpl. Upham (hesita, fala em alemão) – Tire suas botas.

Alemão (apavorado, fala em inglês, carregado de sotaque) – Por favor, eu não sou nazista… Foda-se Hitler, eu gosto de Betty Grable…

Capitão Miller – Diga a ele que não vamos matá-lo…

Cpl. Upham (em alemão) – Nós não vamos matá-lo.

O soldado alemão, chorando, tira as botas.

Capitão Miller – Você devia trocar as meias de vez em quando, o cheiro está horrível. Jackson, me dê morfina.

O soldado Jackson pega na mochila uma ampola de morfina. O capitão injeta no pé do alemão.

Cpl. Upham – O que vai fazer, senhor? Este homem é um prisioneiro de guerra…

Capitão Miller – Nós não temos como levar prisioneiros conosco, Upham. Jackson, me dê sulfa…

Jackson entrega a sulfa ao capitão.

Alemão (apavorado, fala a Upham) – Por favor, me ajude!

Cpl. Upham – Senhor, devo insistir em pedir pela integridade do prisioneiro…

Soldado Reiben – Cale a boca, Upham! Eles mataram o doutor!

Cpl. Upham – Em combate! Este homem se rendeu, e está desarmado.

O capitão Miller cutuca o pé do alemão com a ponta de uma faca.

Capitão Miller – A morfina já fez efeito? Sente alguma coisa?

O capitão Miller faz um torniquete com um trapo (uma gaze), apertando-o com pressão em torno do tornozelo do alemão. Então saca sua Colt e encosta-a na lateral do pé do alemão, bem próximo à sola do pé.

Close no soldado alemão, chorando. Close em Upham, aflito. SOM DE TIRO.

Detalhe do pé, com um grande ferimento na base. A mão do capitão Miller despeja pó de sulfa sobre o pé.

Sargento Horvath – Este cara não vai mais participar de combate nenhum…

Soldado Reiben – É isto? Eles matam o doutor e nós só damos um tiro no pé dele?

Capitão Miller – Reiben, ele estava fazendo o trabalho dele.

Soldado Reiben – Mas o doutor não era combatente, eles não podiam ter atirado nele…

Capitão Miller (grita) – Eu não quero mais ouvir uma palavra sua! Entendeu?

Soldado Reiben (hesita) – Sim, senhor…

Capitão Miller – Upham, descubra se ele tem ração o suficiente, se não tiver dê-lhe um pouco da nossa. Dê-lhe morfina e sulfa, explique a ele como usar.

Cpl. Upham – Sim, senhor…

Capitão Miller – Vamos enterrar o doutor…

Estas duas opções partem do mesmo ponto, e uma resvala para o humor, a outra é mais dramática. Woody Allen brincou com esta idéia de diferentes caminhos no “scritp writing” no seu ‘Melinda & Melinda’.

Outra opção que se vê no filme e que me irrita é o fato de o personagem de Tom Hanks, já às portas da morte ser salvo por aviões que destroem os tanques alemães. Para morrer logo em seguida, nos braços do jovem Ryan.

Aqueles aviões salvando o dia no último segundo – literalmente – ficariam muito bem na série Indiana Jones, que nunca se pretendeu minimamente realista. Apesar de ‘O Resgate do Soldado Ryan’ ser uma obra de ficção, parte de um evento histórico chave do séc. XX, a Segunda Guerra Mundial, e pretende ser uma obra séria. Neste caso não se pode fazer este tipo de concessão ao gosto do público médio. Muito melhor seria que o personagem de Hanks, ao custo de sua própria vida conseguisse explodir a ponte. Poderia dar um tiro em alguma das bananas de dinamite, ou, arrastando-se, conseguir ligar o fio do detonador. Seria um ato heróico, o soldado que se sacrifica por sua tropa, o guerreiro que dá a vida por seus amigos.

Pois no filme, ele é salvo dos tanques apenas para dizer o discurso final (“-Faça valer a pena, Ryan!”) e morrer. Se Hanks morresse ao explodir a ponte estas palavras poderiam ser ditas ao jovem Ryan por um dos soldados, chorando a morte de seu capitão.

Após escrever estas cenas, veio-me à mente: que autoridade tem um brasileiro nascido na década de 1970 para escrever uma cena passada na Segunda Guerra Mundial? Autoridade, realmente, nenhuma. Direito a escrever sobre isto, no entanto, tenho tanto quanto o autor do roteiro original, nascido em 1953, oito anos depois da guerra terminar – tampouco ele presenciou os eventos que descreve. OK, ele pode ter crescido ouvindo narrativas orais de veteranos da guerra – e isso é importante, mas levando em conta o número de absurdos que se encontram no roteiro, isto é pouco crível (ver Jason McDonald e seu texto sobre Private Ryan em ‘The World War II Multimedia Database’ –  http://www.worldwar2database.com ).

Sobre legitimidade para escrever algo, devo dizer que um dos melhores, talvez o melhor, filme de faroeste, ‘Era Uma Vez no Oeste’ (C’era una volta il West), foi escrito por um bando de italianos: Dario Argento, Bernardo Bertolucci, Sergio Leone e Sergio Donati – homens que cresceram vendo filmes americanos e, mesmo do outro lado do Atlântico, absorveram em suas vidas aquela tradição histórico-geográfica bastante específica. E mesmo os americanos da segunda metade do séc. XX, John Ford inclusive, não vivenciaram o ‘velho’ oeste. Não havia mais índios beligerantes em 1956, quando ele rodou ‘Rastros de Ódio’.

Já que falamos de Sergio Leone, outro faroeste dele, ‘Três Homens em Conflito’ (Il buono, il brutto, il cattivo), embora seja um filme com uma série de qualidades, torna-se inverossímil pois o personagem de Clint Eastwood é um atirador tão bom que, ao invés de atirar nos inimigos, arranca-lhes os chapéus à bala – algo que sabemos ser impossível, principalmente repetidas vezes. Aí, cai para a farsa, a paródia.

Mas seja um filme uma farsa ou ‘realista’, tudo que se vê na tela é construção. Só que alguns podem ambicionar serem mais próximos da verdade enquanto ideal, podendo ser melhores ou piores de acordo com uma série de quesitos: articulação, interesse humano, valor moral. Essa é a mágica da dramaturgia, combinando imaginação e lógica, construímos uma realidade que em nosso mundo não existe. Para escrever sobre outra realidade que não nos seja familiar, seja a vida dos gregos do primeiro milênio a.C., ou dos habitantes do Paquistão de hoje, são necessários pesquisa, algum conhecimento dos hábitos e da língua do ambiente abordado.

Em ‘À Queima Roupa’ (Point Blank), filme de John Boorman com roteiro de Alexander Jacobs, David Newhouse e Rafe Newhouse, baseado em livro de Donald E. Westlake, parece claro que todos os envolvidos na criação não têm nenhuma idéia de como é a psicologia das pessoas envolvidas com a máfia, nem como funciona a estrutura desta organização criminosa.

Um roteiro ilógico pode não impedir um filme de ser um sucesso. O grande público pode ser cativado graças à presença de astros carismáticos, campanha publicitária intensa. Mas este tipo de filme não sobrevive ao crivo do tempo. Mesmo um filme que tenha grandes cenas, como O Poderoso Chefão 3 tem a magistral confissão de Michael Corleone ao bispo, acaba por sucumbir à falta de lógica: primeiro, ninguém acredita que um sujeito seja burro a ponto de mandar matar TODOS os chefões da Máfia num ataque de helicóptero; segundo, que após fazer isto ele continuasse vivo por mais dois dias; e o pior de tudo, que algumas semanas depois de ter ordenado o massacre este mesmo sujeito estivesse caminhando tranqüilo em uma quermesse cheia de gente no bairro italiano – ou seja, o lugar ideal para ser alvejado por desafetos sedentos de vendetta.

O drama tem que ser crível, a lógica da causa/conseqüência deve ser respeitada. Vejam um exemplo: Dois homens trocam xingamentos. José saca um revólver, Roberto começa a correr, tentando escapar. Toma um tiro na barriga. Continua correndo. Vê um Entregador de padaria numa bicicleta. Empurra o Entregador, toma-lhe a bicicleta. Começa a pedalar, assustado. José vem correndo, mas não consegue alcançá-lo. Atira mais três vezes. Um tiro pega no peito de Roberto. Ele continua pedalando, afastando-se.

Há alguns erros de lógica no trecho acima. Conseguiu identificá-los?

Se um homem está correndo com uma arma atrás de outro, ao atirar dificilmente ele vai acertar a barriga e o peito. O mais provável é que ele acerte as costas (OK, a bala pode atravessar o corpo e sair pelo peito e pela barriga, mas não é isso que foi colocado no trecho), ou a parte de trás das pernas. E um sujeito que tomou dois tiros no peito e na barriga dificilmente vai continuar pedalando uma bicicleta. O único modo de salvar a lógica deste trecho seria: Roberto toma dois tiros nas costas, continua pedalando, passa por várias ruas, não há sinal de José. Roberto encosta a bicicleta, pára numa lanchonete, vai até o banheiro. Lá ele tira a camisa e vemos que está com um colete à prova de balas.

E embora o cinemão esteja cada vez mais se aproximando da ação irrefletida do videogame e abandonando a base dramatúrgica do teatro, parece claro que os bons roteiros poderão sobreviver graças à TV, em pequenos nichos de excelência em meio ao lixo. ‘Os Simpsons’ (em seus bons momentos, especialmente da quarta a sexta temporada; depois há grandes oscilações de qualidade.) são um exemplo de texto humorístico – e portanto, assim como pelo fato de ser um desenho animado, tem menos compromisso com a lógica – e ‘Família Soprano’ impuseram um padrão de ‘script writing’ muito elevado no mercado americano, que é a vitrine do mundo.

Abaixo, há um link para um comentário sobre este texto que você acabou de ler. Clique em “replicantes* e treplicantes “,

3 respostas para Algumas considerações sobre dramaturgia em filmes

  1. MAB disse:

    Pô, “Titanic” é bonzão.

  2. […] aqui um texto sobre cinema (clique aqui), no qual recriava cenas de filmes […]

  3. […] Algumas considerações sobre dramaturgia em filmes […]

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