Heart of Darkness

maio 6, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Acabei de reler “O Coração das Trevas”, na tradução de Albino Poli Jr. (L&PM Pocket, editado em 1998), desta vez anotando passagens e trechos; a obra agora está muito mais detalhada em minha mente.

O filme do Coppola, “Apocalipse Now”, embora tenha bela fotografia e o senso do espetáculo, fracassa duplamente: é absurdo enquanto filme sobre o Vietnam, e péssimo como adaptação do livro de Joseph Conrad (1857-1924). Explico-me melhor dois parágrafos abaixo.

Não é que o filme seja ruim, ele tem algo de grandioso. É que a distância entre o livro e o filme é incomensurável. O personagem interpretado por Martin Sheen, ‘Capitão Willard’ no livro chama-se Marlow, não é um militar, e muito menos um assassino – trata-se de um marinheiro mercante que acaba embarcando para a África para ser caçador de marfim, e ouve falar de um colega desta sua nova profissão que é um mito pela sua eficiência: Kurtz, no filme também transformado em militar e interpretado por Marlon Brando.

Vamos por partes. Primeiro avaliar o “filme de guerra”:  Há as concessões ACEITÁVEIS da lógica da guerra ante as necessidades da dramaturgia – o grupo que acompanha o Capitão Willard não tem parte na missão dele, a qual, aliás, eles desconhecem. A missão daquele grupo é levar Willard rio acima.  Logo, uma missão estratégica é confiada a um ÚNICO HOMEM; se ele morre por desinteria, tiro, ou qualquer outra razão, simplesmente não se cumpre a missão? Isso é absurdo, mas entende-se; quer se concentrar a ação num único narrador, como, aliás, é no livro. Agora, há as concessões INACEITÁVEIS: há uma cena que os soldados americanos sofrem um ataque com lanças e flechas. Imagino o quanto isto deve ter sido, na época, ofensivo aos americanos veteranos da guerra. Terem de aturar os civis comedores de hambúrguer pensando: “Porra, esses caras, com as armas mais modernas, foram derrotados por índios?” Como se os norte-vietnamitas e vietcongs não tivessem acesso ao mais moderno armamento russo disponível na época.

Não há no livro, em nenhum momento, o objetivo de matar Kurtz. Pelo contrário, sobem o rio até a região inóspita em que ele se encontrava pois há informações que esteja enfermo e sem medicamentos – uma missão de resgate. E algo importantíssimo, enquanto no filme Willard tem acesso desde o início à fotos e uma gravação em áudio de Kurtz, um dos grandes lances do livro é Marlow ficar imaginando como seria Kurtz, especialmente sua capacidade oratória, muito elogiada por todos que o conheceram.  Há no livro uma aura de mistério que no filme se perde em grande parte, por sabermos desde o início – pela foto e pela voz – que Kurtz é Brando.

A transição de Marlow do mundo civilizado para o neolítico do Congo da virada do século XIX para o XX também se perde no filme.  O Capitão Willard de “Apocalipse Now” é um selvagem desde o início, um assassino profissional, alcoólatra, sem fé nem encanto pela vida: uma alma que já viu e cometeu atrocidades e se reconhece perdida. O Marlow do livro não, é um homem que ama a idéia do progresso e encara ter como missão e destino, pessoalmente seus, assim como da Inglaterra e Europa como um todo, levar este progresso aos quatro cantos do mundo. E tem que seguir numa viagem rio acima com 35 canibais famintos a bordo, que ele próprio não entende porque não matam a ele e os demais europeus do barco.

E está ausente do filme o encontro final de Marlow com a “prometida” de Kurtz; esta passagem, as pausas, o ritmo, é um primor de sensibilidade. O cara tem que saber muito sobre o ser humano para escrever algo como aquilo.

Ou seja, o filme não tem QUASE NADA a ver com o livro.  Faça um favor a você mesmo, e leia o livro. Demanda algum esforço – não é das leituras mais fáceis, embora não chegue a duzentas páginas – , mas vale MUITO a pena.


Comecei a ler Chandler graças ao Ruy Castro

fevereiro 17, 2009

Achei uma edição americana pulp de 1960 do último livro de Raymond Chandler na ‘Baratos da Ribeiro’, há mais de um ano.

Vou lançar aqui um trecho curto e ótimo deste mestre dos diálogos. O resumo da cena é o seguinte: O detetive Philip Marlowe conversa com sua cliente Betty Mayfield, com quem ele dormiu a noite passada. Ela acordou há pouco e perguntou se ele pode levá-la de volta ao hotel dela. Vejam como ele aproveita este pedido para cortar as intenções românticas da moça. Como o inglês no trecho é relativamente simples, vou deixar sem ‘translation’.

Betty: – (…) “Haven’t you ever been in love? I mean enough to want to be with a woman every day, every month, every year?

– Let’s go.

– How can such a hard man be so gentle? – she asked wonderingly.

– If I wasn’t hard, I wouldn’t be alive. If I couldn’t be gentle, I wouldn’t deserve to be alive.

Raymond Chandler, Playback, Cardinal Editions, N.Y., 1960  page 185.


Quero fazer uma aposta com você

setembro 30, 2007

Olá, LEITOR!

Dirijo-me a você desta forma por que não sei o seu nome – pode ser que você seja um amigo próximo, eu obrigo os amigos (as) a lerem meus textos, sou inflexível nessa exigência – chego mesmo a ser ligeiramente sufocante com eles, amigos; não tão sufocante quanto o estrangulador de Boston, mas ainda assim, alguém que pode ser difícil.

Pode ser também que você nunca tenha me visto e tenha entrado nesta página por acaso – bem vindo. Seja você um conhecido ou não, como diz o título do texto, quero fazer uma aposta com você. Sei que o seu tempo é precioso. E se você é um trabalhador assalariadado e está neste momento acessando do computador do seu trabalho, este tempo em particular nem sequer te pertence, você o vende ao patrão em troca de seu salário.

Então, entendo o valor do tempo. Hoje em dia quem tem tempo para se dedicar à leitura de tijolos como ‘A Montanha Mágica’, os vários volumes em conjunto de ‘Em busca do tempo perdido’, ver a quatorze horas da série de TV Berlin Alexanderplatz de Fassbinder, ouvir as óperas de quatro horas de Wagner? Ninguém.

Não digo ‘ninguém’ literalmente; no mundo inteiro, entre os seis e meio bilhões de habitantes devem haver alguns milhares de pessoas que se propõe ao longo da vida a executar uma destas maratonas artísticas. Destes milhares que se propõe a tais feitos, poucos devem concluí-los. Eu mesmo, tentei enfrentar a ‘Montanha Mágica’ e interrompi no meio a ‘escalada’, refuguei tal qual um Baloubet du Rouet (não lembra? vai no google procurar…) e voltei para o meu Raymond Chandler, ou um Umberto Eco básico.

No mundo inteiro, umas mil pessoas/ano devem concluir toda a leitura de ‘Em busca do tempo perdido’, e não digo que estas mil tenham começado a leitura neste mesmo ano, a tarefa hercúlea pode levar o período que separa uma Olimpíada da outra, até mais. Mil pessoas/ano, estatisticamente é 0,000015 % da população mundial. Daí me parecer válido o uso do pronome indefinido ‘ninguém’. 

E é perfeitamente compreensível que as pessoas, diante das tarefas necessárias da vida, do apelo fácil do entretenimento, não tenham como se dedicar a tais empreendimentos. E por que entabulei esta conversa? Pela simples razão que quero postar um conto de oito páginas, o que para os padrões de internet, é muito. Leva cerca de 17 minutos pra ler.

Eu sei que se vou roubar 17 minutos seus, tenho que dar algo em troca. Então, quando eu escrevo algo assim, tenho em mente que devo fazer com que o texto valha a pena para quem se dispuser a lê-lo – e para escrevê-lo, e cortar daqui, acrescentar dali, levei bem mais do que 17 minutos. Também não gosto de desperdiçar MEU tempo; logo, se o escrevi, foi por, conscientemente, acreditar nele.

Se você está trabalhando, e tem um patrão presente, é melhor ler depois, ler agora poderia te render uma bronca. Se depois de ler o conto, você sentir que seu tempo foi desperdiçado, envie uma mensagem reclamando. Se for pertinente, eu a publico. Mais que isso não posso fazer, não há como devolver o dinheiro da entrada, visto que esta nunca foi cobrada.

Se gosta de ler com trilha sonora, recomendo um canto gregoriano. Se estiver disposto a embarcar, clique no link: https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/tio-guido


A arte da reciclagem

setembro 12, 2007

No post anterior eu mencionei o ‘Pentateuco’, sem me ligar que ninguém tem obrigação de saber do que se trata. Segue a definição da Wikipedia: “Do grego, “os cinco rolos”, o pentateuco é composto pelos cinco primeiros livros da bíblia cristã. Também chamado de Torá, uma palavra da língua hebraica.”

E esta semana estou lançando no site um conto que cometi aos 21 anos (faz teeempo…). Um dos personagens se chama ‘Frodo’, mas eu juro que não o fiz por causa de “O Senhor dos Anéis”. Eu tinha lido uma história em quadrinhos pretensiosa chamada “Moonshadow”,  que no entanto tinha umas aquarelas bacanas. 

Um dos personagens era um gato com este nome. Achei o nome adequado ao meu texto e o usei. Se o autor de “Moonshadow” foi influenciado pelo livro de Tolkien? Não sei, é provável.

Aqui está o link para o conto:

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/literatura-1-o-grande-xaram