OS IDIOTAS 2 – A VINGANÇA

agosto 17, 2007

Se alguém quiser usar um texto meu, há algumas regras de etiqueta que deveriam ser seguidas:

1)  É de bom tom me contatar primeiro.

2)  Se copiar um texto ou um trecho, dê crédito ao autor, não tente fazê-lo passar como sendo de sua autoria.  

Por Mauricio Dias

Três amigos num bar, dois na faixa dos trinta anos, o outro com uns quarenta e cinco.

JOVEM 1

Esse cara só não é perfeito porque não tem uma filha linda de dezessete anos pra jogar na minha mão.

COROA

Taí. Se eu tivesse uma filha linda, eu jogava na tua mão.

JOVEM 1

Já imaginou? Tu podia ser meu sogro!

JOVEM 2

Mas se ele fosse teu sogro, o relacionamento de vocês ia ser uma merda!

JOVEM 1

Que é isso? Adoro esse coroa.

JOVEM 2

E não há dúvidas que ele gosta de você. Mas gosta por quê? Porque você é um beberrão, vagabundo e mulherengo. Agora, se essas qualidades todas fossem encontradas no marido da filha dele, ele ia ficar furioso: – Porra, minha filha casou com um traste! (pausa) Todas as características que hoje são motivo de aproximação entre vocês iam ser motivo de ojeriza.

COROA

Tem razão. Ia querer minha filha casada com um beberrão, vagabundo e mulherengo?  (aponta o JOVEM 2) Esse é um filósofo! Vai ver foi por isso que eu não tive filha, pra ela não causar discórdia entre minha pessoa e meus amigos.

JOVEM 2

Não… Você não teve filha porque você era broxa.

COROA

Conheci tua mãe antes de você nascer, tu sabe disso…

JOVEM 2

Claro que conheceu! Ela é tua prima…

COROA

Você sabe que prima não é irmã.  

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Tomar banho!… Ela é dez anos mais velha que você! Vê se ia dar mole pra um pirralho.

COROA

Os bons modos me impedem de comentar certas coisas…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Não vem com essa não, tu não vai conseguir me botar pulga atrás da orelha.

JOVEM 1

Pensando bem, vocês dois se parecem um pouco…

JOVEM 2

Parece nada. Eu sou bonito e ele é um caco.

COROA

(mostra o copo)

Quantos barris eu tenho de vantagem? Tu acha que vai chegar na minha idade sem barriga e papada? (aperta a bochecha do JOVEM 2) Coisa linda do papai!

JOVEM 2

Se eu fosse teu filho, tu agora ia ter que dar uma grana firme, pra compensar os anos todos em que você não me deu mesada, não pagou meu colégio, não me levou pra praia, futebol…

COROA

Ah, tá magoado… Liga não, papai tava ocupado, mas papai te ama…

JOVEM 1 ri.

JOVEM 2

Ô sujeito escroto…

JOVEM 1

Esse cara tinha que ser meu sogro. Eu ia morrer de cirrose antes dos quarenta.

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O REI LEAR (e os três porquinhos)

agosto 17, 2007

2003 – Mauricio Dias

PERSONAGENS

Rei; Porquinhos 1, 2, e 3; Advogado; Lobo; Bobo da corte

CENA 1

O Rei e os três Porquinhos, estáticos.

Entra o Bobo da Corte.

Bobo

Agora apresentaremos ao distinto público a Tragédia do Rei Lear (pausa), e dos três porquinhos.

SAI

Rei

Meus filhos, jamais duvidei da fidelidade de vossa mãe, que descanse em paz. Sendo assim, encaro a diferença de espécie entre pai e filhos como um destes caprichos dos deuses. A natureza achou por bem me legar porcos como herdeiros.

Prático

Sábias palavras, meu pai.

Rei

E agora que me aproximo do fim de meus dias, decidi dividir entre vós as minhas posses enquanto ainda vivo, pois assim evita-se que os irmãos disputem a herança após o meu passamento.

Cícero

O rei exala realeza em todas as suas falas.

Rei

Pro meu filho mais velho, o porco Prático, deixo meu castelo de tijolos, tido como inexpugnável aos inimigos. Pro meu filho do meio, Cícero, deixo meu castelo de madeira, um pouco frio no inverno, mas agradável no verão. Pro meu filho mais novo, Heitor, deixo meu castelo de palha, o qual se é pobre em predicados, ao menos é rodeado pelas terras mais ricas dentre os três.

Heitor

Castelo de palha? É isto que queres me dar? Meu irmão ganha um castelo de tijolos e eu ganho um de palha?

Rei 

Recusas minha oferta? Então a partir deste momento estás deserdado, e não o considero mais meu filho. Será o castelo de palha e as terras que o circundam divididos entre os dois filhos que me restam. E eu passarei os dias sempre com meus filhos, um mês com Prático, outro com Cícero.

Heitor SAI.

Cícero

Vamos dividir entre nós o espólio de nosso irmão. Que tal se tu ficares com o castelo e eu ficar com as terras em volta dele?

Prático

E que tal o contrário?

Cícero

Que tal se plantarmos milho nas terras do castelo e dividirmos o produto entre nós?

Prático

Aí teremos forragem pro ano todo. (Ri, sua risada se assemelha aos grunhidos de um porco) Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc.

Cícero

Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc. Me alegro só de pensar em todo esse milho. (passa a mão na barriga) Ficarei cevado e bem gordinho. Ronc, ronc, ronc, ronc, ronc.

Rei

Bem, agora que já distribuí meus bens entre vocês, vou passar este mês com meu filho mais velho, porco Prático.

SAEM TODOS

CENA 2

Heitor está andando em círculos, irritado.

Heitor

Castelo de palha… Enfie no rabo! Era só o que me faltava… Aqueles dois puxa-sacos, só falam o que o velho quer ouvir (imita): O rei exala realeza em todas as suas falas.

ENTRA o Lobo.

Lobo

Posso saber por que o porquinho está tão irritado?

Heitor

(trêmulo de medo)

O Lo- Lobo…

O Lobo se aproxima.

Lobo

Não precisa ter medo. (mete a mão dentro da camisa, tira uma estrela de David) Eu agora me converti ao judaísmo, e não posso mais comer carne de porco.

Heitor

N-Não a-acredito…

Lobo

Pode acreditar. Quer ver? (dança) Hava nagila,
hava nagila, hava – nu uzhe havatit
.

Heitor

Puxa, que susto me destes!

CENA 3  – CASTELO DE TIJOLOS

Prático passa espanador nas paredes, depois começa a varrer o chão. O Rei ENTRA, fica olhando, esfrega um dedo na parede pra verificar a poeira.

Rei

Acho que esta parede precisa de uma espanada.

Prático

Mas acabei de espanar.

Rei

E o chão também está muito mal varrido. Quando este castelo era meu, as coisas estavam sempre limpas.

Prático

Claro, tinha um monte de empregados pra deixar tudo brilhando. Eu estou tendo que fazer tudo sozinho.

ENTRA um Advogado.

Advogado

Ó do castelo… Quero falar com o senhor do castelo!

Prático

Pode entrar.

Advogado

Poderia chamar o senhor do castelo pra mim?

Prático

Sou eu mesmo.

Advogado

Ah, desculpe. Eu vi a vassoura em sua mão e pensei…  Bem, não interessa… Eu vim aqui trazer uma ordem judicial. Sou representante da Fundação em prol memória de Shakespeare, e achamos que esta bobagem que os senhores estão representando denigre o texto original. Esta montagem deve ser interrompida imediatamente.

Rei

(Ouvindo mais de longe, se aproxima)

Escutei bem, meu filho? Este homem veio até o castelo nos dizer o que podemos ou não fazer?

Prático

É isso aí, papi.

O Rei saca a espada e crava na barriga do Advogado. O Advogado agoniza.

Advogado

Dura lex, sed lex!

O Advogado cai, morto.

Rei

Era só o que me faltava. Vou tomar uma cerveja. Hoje à noite vou sair, vai ter Liverpool contra Arsenal, e eu quero ver o jogo sossegado, lá no pub. (pausa) Cadê o meu bobo, pra me contar umas piadas de escocês? Bobo, ô, bobo! Cadê este traste?

SAI.

Prático

Ah, valeu, pai. Agora vou ter de limpar todo o sangue do chão, levar o corpo lá pra fora. (canta, como ‘RETIRANTES’ de DORIVAL CAYMMI – música tema de Escrava Isaura) Porco tá molhado de suor, o chispe do porco tá que é calo só. (arrasta o corpo pra fora do palco) Trabalha, trabalha, porco. Trabalha, trabalha, porco. 

ESCURECE.

CENA 4 – CASTELO DE MADEIRA

Cícero segura uma carta.

Cícero

Uma carta de meu irmão Prático: Caro irmão, papai está me enlouquecendo, ele fica em casa o dia todo de pijama, reclama de tudo. Definitivamente a aposentadoria não está sendo uma boa coisa para ele. Felizmente, ao menos para mim, o período que ele passa comigo está chegando ao fim, e o próximo mês ele ficará com você. Verás como está mal-humorado. Não creio que possamos suportar isso por muito tempo. Algo terá que mudar.    

Cícero fecha a carta.

Cícero

E esta agora ? Papai vai ficar me enfernizando a vida. Bem sei como aquele velho é rabugento. Meu irmão Heitor é que sabia lidar com ele, mas agora que foi deserdado, o Rei não vai querer vê-lo nem coberto de ouro. (pausa) Talvez eu devesse procurar meu irmão, ele pode ter alguma idéia.

SAI.

CENA 5 – CASTELO DE TIJOLOS

O Bobo, segurando uma buzina, entretém o Rei.

Bobo

Aí o escocês falou: Segura no pincel, que eu vou puxar a escada! AH, ah, ah, ah, ah, ah, ah. (Aperta a buzina, várias vezes.)

Rei

(irritado)

Não tem graça! As suas piadas não tem graça!

Bobo

Calma, rei, calma. Olhe isto. (Faz malabarismos com bolas.)

ENTRA o Prático, trazendo uma mala.

Prático

Pai, o mês que você tinha de passar comigo já terminou, agora você deve ir pro castelo de meu irmão, Cícero. Aqui está sua mala.

Rei

Você parece com pressa de se livrar de mim.

Prático

Entenda como quiser.

DEIXA A MALA E SAI.

Rei

Está vendo só? Dei a ele um castelo de tijolos e este é o tipo de pagamento que eu ganho.

Bobo

Sei de uma anedota que alegrará o rei: Estavam vindo pela estrada um irlandês, um escocês e um galês…

Rei

Cale a boca, bobo! Não é hora de piadas. (pausa) Traga-me uma cerveja. 

Bobo

Sim, meu rei!

SAI APRESSADO.

REI

(levanta-se, pega a mala.)

Já vi que é hora de ir embora.

VOLTA O BOBO, COM A CERVEJA NA MÃO.

Rei

(agarra a cerveja)

Tome, carregue minha mala. (toma um gole)

SAI, O BOBO VAI ATRÁS, CARREGANDO A MALA.

CENA 6

Heitor está pescando. Cícero se aproxima.

Cícero

Olá, irmão.

Heitor

Ah, é você. O que queres?

Cícero

Papai tem infernizado a vida de nosso irmão. E agora eu temo que venha a infernizar a minha também.

Heitor

E o que eu tenho com isso?

Cícero

Você sempre soube lidar com o velho. Mas aí vocês tiveram aquela briga por causa da herança. Se você nos ajudar a contornar a situação com papai, nós intercederemos por você junto a ele.

Heitor

Você fala só por você, ou também representa nosso irmão?

Cícero estende-lhe uma carta. Heitor começa a lê-la.

Cícero

Como pode ver, ele autorizou-me a procurar você. Falo por mim e por ele.

Heitor

Então apresentarei minhas condições: venderemos os castelos de tijolos, madeira e palha, e compraremos apartamentos para mim, para você, nosso irmão e papai. Apartamentos iguais, para ninguém ser lesado.

Cícero

Nosso pai não vai aceitar, os castelos estão na família há gerações.

Heitor

Eu saberei convencê-lo.

Cícero

Mas ele nem irá falar com você. Não quer te ver.

Heitor

Deixa comigo.

ESCURECE

CENA 7 – CASTELO DE MADEIRA

O Rei e o Bobo estão parados.

Bobo

Ó do castelo! (bate palmas) Não adianta, meu Rei. Ninguém atende.

Rei

E essa agora? Será que saiu pra caçar?

Sai do castelo o Lobo.

Lobo

Por que vieram me interromper enquanto eu dormia?

Bobo

(se esconde atrás do Rei)

Um lobo!

Rei

(puxa a espada)

Afasta-te, animal horrendo! O que fazes no castelo de meu filho?

Lobo

Teu filho? Aquele presuntinho delicioso que morava aqui era teu filho?

Bobo

Oh, não! Ele comeu o príncipe!

Rei

(desolado)

Meu filho! Carne de minha carne! Bacon do meu bacon… Mas o que estou dizendo? Pagarás por isso, fera!

O Rei corre atrás do Lobo, dão duas voltas no palco, e depois SAEM de CENA, sempre em perseguição.

Bobo

Pega ele, rei! Pega! (imita um locutor de futebol) O Lobo avançou pela ponta, o Rei cercou na intermediária, um sensacional drible de corpo, o Lobo consegue passar, o Rei segue atrás…

Entram Cícero e Heitor, por trás do Bobo, o cutucam no ombro.

Bobo

(casual) Opa, e aí príncipe, beleza? (assusta-se) PRÍNCIPE?! Você está vivo?

O Rei ENTRA pelo lado oposto, encurvado, cansado.

Rei

(ofegante)

O diabo desse lobo é muito rápido, não dá pra ir atrás dele sem um cavalo. (pausa) O quê, meu filho?

O Rei corre até Cícero, e o abraça.

Rei

Pensei que tinha virado comida de Lobo.

Cícero

Quase, pai. Ele entrou no castelo, eu consegui fugir por uma janela. Ele veio atrás de mim. Por sorte Heitor estava por perto, e jogou pedras no Lobo.  Ele acabou voltando para o castelo.

Rei

(para Heitor)

Então tu salvaste a vida de meu filho? Sendo assim, desfaço minha última ordem e te reconheço como filho novamente. (abraça Heitor, com o outro braço, ficam os três abraçados)

Bobo

Adoro finais felizes! Eba, abraço em grupo. (abraça os três)

Heitor

Pai, depois de hoje, ficou provado que castelo de madeira não é mais seguro nesses dias.

Rei

Tem razão, meu filho. Vamos comprar quatro apartamentos num condomínio, na Barra! Teremos segurança e seremos vizinhos. (pausa) Mas não quero ninguém ouvindo música alta de madrugada, hein?

Cícero

Então vamos avisar nosso irmão, Prático.

Bobo

Isso, vamos espalhar a boa nova.

SAEM Cícero, o Bobo e o Rei. Heitor remexe uma moita, e tira um pernil.  O Lobo ENTRA.

Lobo

Puxa, teu pai me deu uma corrida!

Heitor

Aqui o carneiro que eu te prometi. Fizeste por merecer.

Lobo

(lambe os beiços, esfrega as mãos, pega o pernil)

Foi bom fazer negócio com você. Mazzle tov.

Heitor

Mazzle tov.

ESCURECE.

O Bobo, só. 

Bobo

E assim termina esta história, que nem foi tão trágica assim. O Rei e seus filhos foram morar num condomínio. Por idéia do Príncipe Prático, os irmãos aprenderam a tocar instrumentos musicais e formaram um grupo de grande sucesso nas paradas.  (alto) SOM NA CAIXA, REI.

Entram os três porquinhos, com Guitarra, Baixo e Pandeiro.

Porquinhos

(cantando)

Eu quero mocotó!

Eu quero mocotó!

Eu quero mocotó!

ESCURECE – FIM


O TRIÂNGULO

agosto 17, 2007

De Mauricio Dias

ESQUETE PARA TEATRO

PERSONAGENS

1 e 2 – dois rapazes de cerca de 25 anos, serão recorrentes nos outros textos.

CENÁRIO DESPOJADO, DUAS POLTRONAS E UMA TV LIGADA

1 e 2  assistem televisão. Passa um episódio de “Flipper”. 1 bebe uma cerveja.

1

Falam que os golfinhos são inteligentes pra burro, né? Mais inteligentes até que os chimpanzés…

2

Se tivesse que escolher entre ser um dos dois, eu preferia ser um chimpanzé… Golfinho não tem mãos. Não pode se masturbar.

1

(RI) Então você ia preferir ser um chimpanzé, só pra poder brincar com seu foguetinho? (BEBE UM GOLE)

2

Se eu fosse um chimpanzé, eu ia viver descascando a banana.

1

Isso você já faz.

2

Mas se fosse golfinho, não ia mais poder fazer. Por que você acha que eles soltam aquela água pela cabeça ? Estão tão cheios de amor pra dar, que acaba jorrando pela cabeça.

1

Ah, sei. É um orgasmo cerebral?

2

Tem que ser, porque eles não tem como aliviar a tensão. Não podem descarregar os fluidos vitais, e aí acaba transbordando.

1

Este é um problema que os chimpanzés não tem.

2

Não só os chimpanzés. Gorilas, orangotangos. Basta você ir no zoológico, e vai ver. Estão sempre envolvidos com atividades auto-eróticas. 

1

E os pobres golfinhos sofrendo.

2

Vamos supor que eu seja um chimpanzé-macho…

1

Eu até consigo te ver na posição de um chimpanzé… Mas é difícil imaginar você como sendo macho, acho muito fantasioso.

2

(ENFÁTICO) Sou um chimpanzé-macho… Espada!… Aí passa por mim aquela bela macaca chita.

1

Aquelas belas pernas peludas… (BEBE UM GOLE)

2

Aí eu não resisto. Viro pra ela e falo : “E aí, gracinha ? Vamos ali na minha árvore, pra eu catar os seus piolhos?” (PAUSA) Ai, é claro, ela me manda passear. O que eu faço? Vou pra minha árvore sozinho, cuspo na palma da mão e mando ver. É óbvio. A gíria pra masturbação em inglês é “spank the monkey”; bater no macaco, por que será ? 

1

É uma bela teoria. Dá pra você conseguir uma bolsa de doutorado com isso. 

2

Agora, se eu fosse um golfinho, o que eu ia fazer depois de tomar um fora da golfinha? Nada. Fazer o quê? Me esfregar num banco de corais? E me arranhar todo? (PAUSA) Tá vendo só, que situação? Se é um animal inteligente, o golfinho deve ter as fantasias sexuais dele. Se não, não é um animal inteligente. Concorda? Mas não adianta ter as fantasias, por que ele não tem (EXIBE AS MÃOS) os meios de realizá-las.

1

Os golfinhos sofrem com aquilo que Freud chamou de inveja das mãos.

2

Claro, masturbação é o melhor amigo do macho. É um exercício de imaginação que está intimamente ligado ao teatro. Você não só cria o seu personagem, que é o fodão infalível e irresistível, mas você ainda cria o outro personagem. (FINGE ESTAR ABRAÇADO A ALGUÉM) “Isso, querida, assim… (COM VOZ FEMININA) Não, é muito grande!…” (VOLTA AO NORMAL) Teatro puro. Cada vez que um homem se masturba, é como se gritasse : evoé, piroca!

1

Mas como pode ser teatro se não há público?

2

É um teatro autófago, você alimenta-se sozinho. É-se ao mesmo tempo ator e público. Ou melhor. Ator não, o elenco completo, pois acaba-se tendo que compor o personagem que é uma versão idealizada de você mesmo e o amante, ou amantes, ao mesmo tempo; e além disso você ainda é o público, que se delicia com aquelas elocubrações. Um exercício fascinante! Já fui Sultão das Arábias e tinha aos meus pés um séqüito de odaliscas, já fui Imperador romano comandando orgias, já fui Júpter me transfomando em moedas de ouro para cair no colo de Danae. (PAUSA. COM AR TRISTE) E os pobres golfinhos jamais terão esse prazer.

1

Mas tem muitos outros animais que não tem como resolver esse problema. Um gato, por exemplo. O que ele vai fazer com aquelas patas?

2

Em compensação, os gatos conseguem chegar com a língua nos lugares mais incríveis do próprio corpo.

1

Ah, quer dizer…

2

É claro… Ou você acredita naquela história de que eles estão só se limpando ? Rá…

1

Você é um doente.

2

Há controvérsias se animais inferiores também sofrem com estes problemas. Não se sabe se seus cérebros primitivos possuem a faculdade de imaginar. Mas novas descobertas dos paleontólogos sexuais colocam isso em dúvida.

1

Paleontólogos sexuais?

2

Você não viu a porcaria daquele “Jurassic Park”? Por que o tiranossauro era tão bravo? (OLHA PARA O PRÓPRIO COLO, IMITA OS BRAÇOS CURTOS DO ANIMAL) Droga, está logo ali embaixo… Se essas drogas de braços fossem um pouco mais compridos… (URRA ALTO) UAAUUAHHH… O jeito é sair e ver se como alguém…

1

Ah, sei. Os paleontólogos sexuais até encontraram fósseis em posições comprometedoras. Os dinossauros faziam loucuras nas piscinas de piche.

2

Agora, quando se trata de um animal brilhante como o golfinho, não há duvidas de que ele tem o poder de imaginar. E só nos resta ter pena dessa brilhante criatura sem mãos.

1

É… pensando bem, eu também não ia querer ser golfinho. (BEBE UM GOLE)

2

Você já está com uma bela barriga, ainda toma litros diários de cerveja. Tá mais pra baleia que golfinho.

1

Vá à merda!