No país de Albrecht Dürer

novembro 9, 2014

No jornal ‘O Globo’ de hoje, 09/11/2014, há uma matéria sobre as dificuldades que ainda existem na Alemanha em decorrência da unificação (pags. 50-52).
Num box fala-se de como Leipzig se tornou um pólo cultural, e de um artista de lá, Neo Rauch, 54 anos, que, segundo a matéria “mal consegue dar conta das inúmeras encomendas que recebe de colecionadores do mundo inteiro, fascinados pela sua arte monumental, expressiva e melancólica, embora o seu quadro mais barato custe mais de $ milhão de euros.
($1 euro = $3,19 reais)
Confesso que não conhecia. Fui procurar o trabalho do sujeito na internet. É figurativo, influenciado pelo realismo-socialista, e, de acordo com a wikipedia “suas pinturas monumentais tem como influência a obra de surrealistas como Giorgio de Chirico e René Magritte“.
Sei que a wikipedia não é fonte respeitável, mas realmente o trabalho dele lembra mesmo os dos pintores citados. O que, em linguagem honesta, é o mesmo que dizer: É uma MERDA de todo o tamanho.
Vejam vocês mesmos, cliquem nas obras para ampliá-las:
http://www.davidzwirner.com/artists/neo-rauch/survey
http://www.davidzwirner.com/artists/neo-rauch/survey/page/2
http://www.davidzwirner.com/artists/neo-rauch/survey/page/3
http://www.davidzwirner.com/artists/neo-rauch/survey/page/4

Agora, pensar que tem alguém dando R$ 3 milhões nisso, faz lembrar a frase atribuída ao famoso dono de circo americano, P.T. Barnum (1810 – 1891) , mas que na verdade foi dita por um certo David Hannum, rival de Barnum. A frase é: “There’s a sucker born every minute” (“A cada minuto nasce um otário”).


Vuillard

fevereiro 18, 2012

O grande pintor francês Édouard Vuillard (1868 – 1940), talvez o mais talentoso do grupo dos pintores Nabis  (termo hebraico para ‘profetas’).
Tinha genuína vocação para o decorativo, sem que este termo tenha algo de pejorativo.
Alguns de seus belos trabalhos podem ser vistos nestes links:
http://www.abcgallery.com/V/vuillard/vuillard.html
http://www.abcgallery.com/V/vuillard/vuillard-2.html

Clicando nas imagens, elas ampliam.


Mais pintores brasileiros

janeiro 24, 2012

Se você estiver na cidade do Rio de Janeiro e quiser comprar um livro sobre Cézanne ou Van Gogh, basta dar uma rodada pelas livrarias. Outros pintores são mais difíceis de achar, como Delacroix ou Goya. Alguns outros são virtualmente impossíveis, só podem ser encontrados usados em sites como o http://www.estantevirtual.com.br , ou, em último caso,  importando pela amazon.com
O mais triste é que livros sobre a maioria dos pintores brasileiros de 1850 até 1950 são dificílimos de achar por aqui. E olha que estamos falando da segunda maior cidade do país, capital da colônia de 1763 a 1806, capital do Império Português (na época da vinda de Dom João VI, 1806-1821), capital do Brasil de 1822 a 1960 (período do Império e da República), antiga sede da Academia Imperial de Belas Artes – a primeira escola de arte do país – e do Museu Nacional de Belas Artes.
Ou seja, é uma vergonha o desinteresse do público e a falta de uma política que levasse empresas privadas e governo a investirem para divulgar um pouco mais os nomes do passado. Uma rara exceção é o site do Itaú Cultural – http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm , que apesar de algumas lacunas, ao menos demonstra uma vontade de apoiar a divulgação cultural.

Seguem alguns links onde se pode ver trabalhos de pintores brasileiros da virada do séc. XIX para o XX:

http://www.eliseuvisconti.com.br/Catalogo/Tecnica/1/Pinturas-a-oleo.aspx

http://commons.wikimedia.org/wiki/Oscar_Pereira_da_Silva

http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:João_Timóteo_da_Costa

http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Arthur_Tim%C3%B3theo_da_Costa

http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Rodolfo_Amoedo

http://commons.wikimedia.org/wiki/Henrique_Bernardelli


Meu nome é Legião

junho 16, 2011

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Creditado como um dos pintores favoritos de Portinari no livro ‘Portinari desenhista’ (Ralph Camargo, 1977), Jacques Villon (1875-1963) tem alguns dados biográficos curiosos.

Jacques Villon era na verdade um pseudônimo, em homenagem ao poeta medieval francês François Villon.
O pseudônimo foi adotado em 1895 quando o então jovem artista decidiu se dedicar integralmente à prática do desenho e da pintura.
Seu nome real era Gaston Emile Duchamp. Ele era irmão mais velho do famigerado Marcel Duchamp – aquele do urinol – e de mais um escultor e uma pintora.

Entre atores, aqui como nos EUA, a prática de mudar o nome para exercer a profissão era relativamente comum até a primeira metade do século XX: Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo, Lima Duarte, Kirk Douglas, John Wayne, Tony Curtis, Jerry Lewis… Tem um pouco a ver com o ofício, ao mudarem o nome já estão de certa forma renegando quem eram na origem para tornarem-se personagens.
Agora, um pintor fazer o mesmo? E renegar o nome de seus antepassados e seus pais para homenagear um ‘poeta medieval’? Me engana que eu gosto… E não, ele não o fez por vergonha da obra do irmão (risos)… Segundo o relato, Marcelzinho tinha apenas oito anos quando o fato se deu.

Não consigo entender alguém trocar nome e sobrenome, salvo em caso do indivíduo ter sido contemplado com um nome horroroso, ou para fugir a  perseguição, religiosa ou política. Há algo de patricida nesta ação, Dr. Freud haveria de concordar. Pode ser uma possível chave para entender a iconoclastia – ou fraudulência artística, dependendo de quem vê – que futuramente nortearia a vida do irmão Marcel.

Talvez Calvin Tomkins já tenha abordado este tópico na biografia que escreveu sobre o inventor dos ‘ready mades‘; eu teria que me interessar o suficiente sobre Marcel Duchamp para saber – e isto não ocorre.
Nos links abaixo pode-se ver alguns trabalhos de ‘Jacques Villon’:

Clicando nas imagens elas ampliam:
http://www.jacquesvillon.info/jacques_villon_originals.html

http://www.nga.gov/cgi-bin/tsearch?oldartistid=209810&imageset=1
(clicar sobre as imagens ou em ‘Full Screen Image’)


Tem que ter um especialista no assunto

junho 17, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Vi num sebo um livro sobre Rembrandt. Folheei-o, estava em ótimo estado, arrisco-me até a dizer que nunca foi lido; a qualidade das reproduções era muito boa (como já disse antes, isto é o mais importante para mim num livro de arte), tinha bom tamanho – livro de pintura pequeno reduz muito as imagens – e o preço baratinho. Comprei. O livro é ‘A Arte de Rembrandt’, de Douglas Mannering, Ed. Ao Livro Técnico S.A.

Estou lendo aos poucos, em meio a outros livros. Mas, o primeiro parágrafo da orelha do livro traz algo que achei inconcebível. Não aparece ninguém assinando esta orelha e não me parece ser transcrição de algum trecho do livro: “A pintura holandesa tem uma história não muito longa. Só no Século XVII é que apareceu como uma importante escola européia, quando fatores históricos, religiosos e sociais lhe deram estímulo e um lugar onde florir.”

Como assim? E Van Eyck?* E Rogier Van der Weyden?* Hyeronimus Bosch? E Bruegel, o Velho?* Quem escreveu este trecho destacado no parágrafo anterior? É coisa da edição brasileira, ou é erro importado com a edição original? Seja como for, quem escreveu a orelha, escreveu de ‘orelhada’ (do michaelis.uol.com.br/moderno/portugues : ‘por ouvir dizer, sem maior conhecimento do assunto.’).

* – Os marcados com asteriscos nasceram em cidades que hoje fazem parte da Bélgica, mas na época, ao que me consta Bélgica e Holanda ainda não existiam como estados autônomos, era tudo Países Baixos.


Beleza americana

maio 15, 2009

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Abaixo, lanço links para trabalhos de pintores norte-americanos do séc. XIX.  São, grosso modo, contemporâneos dos impressionistas franceses.

Uma vez na a página, há que a rolar pra baixo. Com a página aberta, você aperta a tecla F11 da fileira superior do teclado, as imagens ocupam a tela inteira do monitor. Repetindo a operação, volta ao modo normal de exibição.

O problema é que a proporção de base por altura do monitor do computador muitas vezes não se encaixa bem nas proporções da obra. Mas, para quem não os conhece, já dá para ter um contato com o trabalho de cada um.

James Whistler

Algumas imagens representativas de seu trabalho:

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=4224&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27312&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27298&size=large

Tem muitas gravuras dele também, como esta:

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=13951&size=large

Índice de seus trabalhos (11 páginas ao todo)

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=652

Thomas Eakins

Algumas imagens representativas de seu trabalho:

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=10877&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27002&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=1197&size=large

Índice de seus trabalhos (13 páginas ao todo)

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=83

John Singer Sargent

Algumas imagens representativas de seu trabalho:

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27599&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=13702&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27198&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=27595&size=large

Índice de seus trabalhos (44 – ! –  páginas ao todo)

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=187

Winslow Homer (aquarelas)

Algumas imagens representativas de seu trabalho:

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=31520&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=31408&size=large

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=31508&size=large

Índice de seus trabalhos (21 páginas ao todo)

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=897


Sinédoque

março 24, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Outro dia mandei um email a um velho amigo o meu, comentando com contrariedade um fato: uma conhecida dele se envolveu numa picaretagem artística das grossas, obtendo um apoio estatal.

Ele ironizou, sugerindo tal qual um flamenguista ao fim do Campeonato Carioca de 2008, que o que eu fazia era “chororô”.

Curioso é que ele mesmo admite que a proposta contemplada é totalmente sem propósito ou razão de ser. Para mim, a aprovação de verba para algo assim parece resultado de conluio(s); a pessoa que liberou a verba leva 10 % – prática corriqueira – ou tem algum relacionamento com o grupo beneficiado. Sobre o possível plural depois do termo ‘conluio’, cabe ali esta possibilidade graças à pergunta: por que critério se escolhe os que vão escolher?

Ah, os selecionadores têm mestrado, doutorado, etc., em arte.

Eu pergunto: Sabem desenhar? Pintam? Esculpem? Conheço ‘doutores em arte’ que não sabem desenhar uma figura ou o fazem primariamente. Porque, sem pelo menos uns três anos de estudo prático de desenho (fora um estudo teórico concomitante, absolutamente necessário),  o sujeito não tem conhecimento para tal.

Por conta desse desconhecimento prático, muitos críticos contemporâneos não sabem diferenciar um grande desenho de um medíocre. E existe dentro da Academia interesse em fazer com que saber de cor e salteado a biografia de Man Ray seja mais importante do que reconhecer e atribuir qualidade (ou a falta dela) à arte como ofício.

Todo um segmento da crítica ignora milhares de anos dos diversos ofícios em prol dos que nos últimos cem anos criaram o desprezo pelo ofício – deixando bem claro que, nos mesmos cem anos, outros seguiram a tradição figurativa com qualidade, sob tendências diversas: Matisse, Balthus, Giacometti, Kokoschka, Portinari, Lucian Freud…

E tem-se a coragem de a este desprezo pelo ofício chamar-se História da arte, com ‘h’ maiúsculo mesmo. É uma inversão perversa demais para ser fruto do acaso, isto é algo que foi urdido e reforçado ao longo das décadas. O que ocorre, é uma ‘metonímia’ no foco do estudo da teoria e história da arte. Concentram-se os artigos e estudos (e a concessão de verbas para tal) num determinado segmento de um determinado período histórico, e chamam isto de ‘História da arte’, ‘Teoria da arte’, dando o nome do ‘todo’ ao que é apenas uma parte bem pequena dele – parte esta que nem de longe é a mais relevante.

E como os selecionadores, curadores, etc, nos últimos trinta anos  já são formados nesta visão, dão quase sempre preferência  aos ‘praticantes’ que seguem este esquema; e é aí que acaba virando conluio sobre conluio, igual a juros em cascata. Pois, através da persuasão teórica, e da seleção direcionada, estende-se o benefício desta falta de know how – um direito do crítico, porque ele é um teórico – ao produtor de arte.

Um diálogo imaginário (Os quadros citados podem ser vistos em links ao final do texto.):

E aí, historiador da arte? Explica o esquema de composição da “Ressurreição” de Piero della Francesca?

– Bem, eu…

Como Rembrandt trabalhou as passagens de “A Noiva Judia”?

– Ah, bom, aí…

Explica como se deu o aprofundamento do uso da luminosidade no decorrer da obra de Turner?

– Seria uma pesquisa complexa…

Qual a secreção corporal que Duchamp jogou na tela e chamou de arte?

– Ah, essa eu sei! Foi sêmen! – ele responde aos pulinhos.

O diálogo é um exagero meu, claro. Não se pode esperar que um indivíduo tenha na ponta da língua a resposta a qualquer pergunta feita sobre um campo tão vasto quanto a história da arte.

Minha tréplica ao meu amigo (o do primeiro parágrafo) eu lanço aqui:

“Quando o ser humano não tem mais a capacidade de se indignar, é porque abriu mão de uma parte de sua humanidade.”

Links para as imagens (apertando a tecla F11 da fileira superior do teclado, as imagens ocupam a tela inteira do monitor. Repetindo a operação, volta ao modo normal de exibição.)

A Noiva Judia –

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=13209&size=large

Ressurreição –

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=25538

A obra de Joseph Mallord William Turner – uma vez na página rolar a barra pra baixo e clicar nas imagens desejadas. Tem 14 (!) páginas de imagens dele no site.

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137

http://www.artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=1137&page=11


O tenaz cultivo do joio

março 7, 2009

Uma amiga enviou-me um newsletter que ela recebe. Nele, lia-se um artigo de Cleber Benvegnú para o jornal Zero Hora, ed. 15885, 20/02/2009. (http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2411684.xml&template=3898.dwt&edition=11750&section=1012 )

O artigo trazia comentários do autor referentes a uma entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja, criticando a ganância de boa parte dos que entram no mundo da política. Um trecho chamou-me particularmente a atenção:

O mandato público virou quase exclusividade de quem, com uma sólida estrutura logística e financeira por trás, consegue criar uma rede de fisiologismo, de corporativismo e de favores recíprocos. Quem não joga esse jogo, fica praticamente alijado.

Para entender o grand  monde das artes, basta pegar a sentença acima, e substituir a expressão ‘mandato público’ por ‘acesso do artista à mídia’.  Ou seja, qualidade artística não tem muito peso na equação.

O problema é que este domínio quase que absoluto da atividade – seja  ela a política ou a arte – por um segmento, tem duas consequências imediatas:

1)      Estabelece para o público a imagem deste segmento como o único caminho possível.

2)      Tende a afastar pessoas que não se encaixem neste perfil da prática de tal atividade.

E tanto na política quanto na arte, seria fundamental que pessoas preparadas e bem-intencionadas estivessem atuando de acordo com seus valores.

Mas do jeito que é hoje, estrangula-se vocações e aspirações antes de elas sequer ganharem vida.


A História da Arte é uma construção

janeiro 29, 2009

O historiador e jornalista inglês Paul Johnson (1928 – ) é autor de um livro de ensaios chamado “To Hell With Picasso” ( “Que Picasso vá para o Inferno”), lançado em 1996.

Dei uma pesquisada na internet, acho que ‘To Hell With…’ nunca foi publicado em português. Este nosso mercado editorial é incompreensível, lançam centenas de porcarias todos os anos, mas um texto importante como este é esquecido. Deve ter algum objetivo por trás disso.
Aqui abaixo segue um trecho da entrevista de Geneton Moraes Neto com Johnson, extraída de http://www.geneton.com.br/archives/000026.html

‘GMN : Quanto o senhor pagaria por um quadro de Picasso? Por que o senhor é tão rigoroso na hora de julgar mestres da arte moderna, como Picasso e Cézanne?

Paul Johnson : “A arte precisa ter um propósito moral. Acontece que nunca pude detectar qualquer propósito moral claro na obra de Picasso. Era um homem perverso e imoral. Não vejo, em nenhuma de suas obras, um esforço para mostrar a arte com um propósito moral. Tal esforço é a essência do grande artista. Então, desconsidero Picasso completamente”.

GMN : A obra mais famosa de Picasso, “Guernica”, é uma denúncia contra a violência do totalitarismo. Por que é, então, que o senhor diz que não havia nenhum sentido moral na obra de Picasso?

Paul Johnson : “Porque Picasso não lutava contra o totalitarismo! Picasso não era comunista: era stalinista!  Ficou do lado da União Soviética totalitária, durante quase toda a vida. É um escândalo! Não acreditava na liberdade, exceto para si próprio”.’


Homero e eu

janeiro 24, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Este site já teve mais de doze mil acessos. Deve ter muita gente que procurou uma expressão ou nome no Google e, ao entrar em minha página, viu que não tinha nada a ver com o que procurava, dando meia volta sem ler nada. Ainda assim, esta gente acaba computada na estatística do provedor.

Doze mil não é um número muito expressivo, longe disso. E alguns dos meus amigos já devem ter entrado na página várias vezes. Assim, qual será o número de pessoas que realmente leram algo que escrevi? Oito mil? Seis mil?

Levando em conta o número de gregos alfabetizados que viviam há três mil anos, e da dificuldade da divulgação de textos na época em que tinham que ser copiados a mão, é bem provável que eu já tenha tido mais leitores em vida do que Homero teve durante a vida dele.

Um raciocínio cretino, claro; não quero me comparar ao autor da Ilíada. As facilidades de produção e acesso estão todas a meu favor, além de a população e o percentual de alfabetizados terem crescido imensamente. Mas faz a gente pensar. Qualquer folhetim novelesco da Globo, por mais medíocre que seja, deve atingir pelo menos quatro milhões de pessoas em território nacional, fora o vasto público estrangeiro que consome o produto.

De vez em quando, lendo sobre os gênios do passado, Aristóteles, Roger Bacon, Shakespeare, fico pensando. Se tivessem a oportunidade, será que teriam gostado de ouvir a música de Sonny Rollins? E Beethoven? (Não comparando um com o outro, pelo amor de Deus.) Teriam gostado das pinturas dos impressionistas? Dos melhores filmes de Hitchcock? Dos grandes clássicos de Disney, ‘Pinóquio’, ‘Fantasia’? Se pudessem ver Marlon Brando dizendo “I could have been a contender” ou De Niro em frente ao espelho dizendo “Are you talking to me“?

Não é evidente que muito do que constitui o nosso universo conhecido foi negado a essas pessoas? Elas nasceram num mundo em que se acreditava haver serpentes gigantes no mar ou que o sol girava ao redor da terra, ou que os deuses moravam numa montanha e doenças eram causadas por espíritos malignos. Onde a escravidão era aceitável – Aristóteles achava-a justa.

Estes gênios do passado nunca viram um gol de Pelé, Fred Astaire dançando, nem sonhavam com o homem pisando na lua, todas estas cenas que já estavam no acervo da humanidade antes de eu nascer. Nunca comeram uma pizza ou sentiram o sabor do chocolate. Se, aos doze anos Aristóteles tivesse ouvido o The Who ou James Brown, ainda assim teria sido “o” Aristóteles que conhecemos? E se aos quinze, ele tivesse acesso a fotos de lindas mulheres nuas – na época dele já havia erotismo e pornografia, mas não eram tão bem produzidas e universalmente acessíveis – , em que isso tudo teria mudado as reflexões que viria a produzir no futuro?

O.K, eles não tinham ar contaminado por chumbo e gases residuais produzidos por indústria e queima de petróleo, vegetais contaminados com pesticidas e carne de animais alterada com hormônios para engorda. Sabe-se lá que diferenças todas estas coisas podem causar ao cérebro, e, por conseguinte, ao raciocínio.

Mas ao olhar para o passado remoto por um lado, vê-se que havia menos distração na busca pelo saber. O mar de estímulos sensoriais em que vivemos hoje nos dispersa. Fico olhando meus sobrinhos, perdidos num mundo de jogos eletrônicos, eles muitas vezes mal se apercebem do mundo real. Pode-se argumentar que bibliófilos, amantes da música e cinéfilos também dedicam-se a um mundo virtual em detrimento do real. É verdade, mas nestes diversos cultos há uma diferença considerável no nível desta conexão mundo real/virtual. A boa música, a literatura e o bom cinema podem nos dizer coisas profundas sobre o mundo real. Já neste mundo de videogames, quando exacerbado, há uma fuga da realidade que beira o autismo.

Se recuarmos à pré-História, há dez ou vinte mil anos, um garoto de 14-16 anos provavelmente já estaria prestes a enfrentar o início da paternidade, com todas as dificuldades que isto acarreta. OK, há até hoje os que são pais com 14 anos. E pra falar a verdade até hoje deve haver gente que acredita haver serpentes gigantes no mar, que o sol gira ao redor da terra, etc. Tem gente que não acredita em vida microscópica. Mas esses estão fora do mundo contemporâneo, são as exceções; houve um tempo em que eram a norma, e mulheres engravidarem aos 13-15 anos era normal.

No parágrafo acima, quando listamos as crenças infundadas, não estávamos falando de comunidades tribais isoladas ou indivíduos ignorantes. Eram épocas em que as classes cultas da humanidade realmente acreditavam nisso. Mas isto não impediu Shakespeare de ser Shakespeare, ou Aristóteles de ser Aristóteles.

Mas para os que nascemos hoje, a necessidade de termos em nossas mentes todo este acervo antes de produzir nossa contribuição a este mesmo acervo pode tornar-se um fardo. Homero ao escrever não tinha a difícil tarefa de conhecer toda a história da literatura ocidental. Ele só escrevia. Hoje, se você for escrever sem uma boa noção do que já foi feito, é provável que soe anacrônico, ingênuo e reiterativo. Talvez, todo este texto que eu estou escrevendo já tenha sido escrito, com outras palavras, várias vezes.

Toda esta etapa de preparação para a vida é bem mais longa, e é necessário que seja assim. Um filhote de tubarão já nasce apto para viver por si só, mas ele não vai além do que seu bisavô foi. Já o ser humano em quatro gerações passou da locomotiva para a viagem espacial.

Ainda assim, eu tendo a preferir um bom desenho reproduzindo um corpo humano – por mais que isto já tenha sido feito ao longo de séculos – a uma instalação artística. Não faço disto um dogma, não digo que qualquer desenho figurativo seja melhor que qualquer instalação. Aliás, figurativo ruim é de doer. Mas até hoje não lembro de ter visto uma instalação que me fez pensar “daqui a 20 anos isto ainda terá valor artístico”. Em geral, tudo é celebração do efêmero, atrai pela novidade. E os artistas que produzem tal arte parecem nem se incomodar com isso, produzem visando o consumo imediato.

Isso tem a ver com uma questão que coloquei num parágrafo acima: ‘Se aos doze anos, Aristóteles tivesse ouvido o The Who ou James Brown, ainda assim teria sido “o” Aristóteles que conhecemos?’ Talvez ele deixasse de lado a filosofia e resolvesse aprender a tocar um baixo elétrico. Há mais possibilidade de se divertir e conseguir garotas e fortuna dessa forma.

Em nosso mundo cultor da juventude e do prazer imediato, provocar um sorriso cúmplice na classe média é mais desejável do que tentar provocar uma epifania nela – até porque a classe média não tem muitos recursos intelectuais para saber o que é uma epifania e menos ainda para se interessar em ter uma. Aliás, não só a classe média, as pessoas em geral, falo da classe média porque ela é que é o público que compra como verdade as bobagens que saem em cadernos culturais de jornais. Ou seja, ao invés de o artista puxar o público para o alto, ele se delicia em ir para o nível do público.

Apenas um aparte: pode parecer injusto envolver o Who ou James Brown neste imbróglio. Explico-me: não os usei como exemplos da imbecilização da sociedade, em absoluto, porque ambos foram bons pra cacete no que faziam – que era divertir o público, coisa que muito poucos conseguiriam fazer com a competência apresentada por eles. E quarenta anos depois de o terem feito, o trabalho deles ainda é bom e merece ser lembrado.

O The Who ou James Brown, ou as obras de David Bowie ou Jorge Ben nos anos 70 entram aqui para exemplificar uma outra frase do texto: “O mar de estímulos sensoriais em que vivemos nos dispersa.

Pois é difícil ficar indiferente à sua música. Assim como, num nível diverso, é difícil ficar indiferente à uma aparição na tela da Liv Tyler no começo da carreira. Nenhum homem normal vê Eva Green em “Os Sonhadores” do Bertolucci e pensa “agora vou estudar algoritmos“. Não, aquilo é algo que obriga o sujeito a reagir, se posicionar.

Mas enquanto o apelo estético do músico é conseguido pela sua habilidade e criatividade, o do filme do Bertolucci é um aliciamento em que ele utiliza-se de um recurso pré-existente e externo a ele, a beleza de Eva. Há algum mérito nisto também, claro, mas um diretor de cinema deveria ter objetivos diferentes dos de um caça-talentos de agência de modelos. E não é pelo fato de a moça ser linda que vou dizer que o filme seja bom, porque, absolutamente, não é.

Mas toda esta reflexão é a de um homem adulto reconhecendo que ele próprio foi alvo da mesma manipulação durantes décadas. Não é uma queixa, mas uma constatação: aos doze anos eu babava pela Kelly LeBrock de “A Dama de Vermelho”. Mas esta criação de ícones de beleza, que faz parte do mar de estímulos sensoriais é algo recente na humanidade; não havia tal culto até o sec. XIX. O quanto este advento mudou nosso comportamento?

A mesma revolução tecnológica-midiática que faz com que meus textos circulem hoje mais facilmente que os de Homero (ou Homer, como o chamam os ingleses e americanos) em sua época também uniformiza nossos gostos e padrões, moldando nosso comportamento. Mas pelo menos fugi da obviedade boba de traçar um paralelo do tempo Homérico com o atual, dizendo que vivemos a era de Homer Simpson. Isto seria imperdoável.