Representando um papel-moeda

janeiro 11, 2009

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Há meses venho pensando na questão da arte como conceito – não na simples questão do nicho denominado arte conceitual – mas na arte contemporânea como um todo, e sua relação com o dinheiro. Pois o dinheiro também é um conceito, e a arte contemporânea, sob muitos aspectos, é uma nova moeda.

O valor do dinheiro é atribuído, não real. Uma nota de cem reais é (ou pode ser) feita do mesmo material que é feita a de cinco reais. Mas se aceita que a primeira vale vinte vezes o valor da outra, pois a instituição que as emite atribuiu-lhes estes valores e os confirma.

Um banco federal de um país atribui determinado valor à sua moeda, e se ele tiver credibilidade aquele valor é aceito internacionalmente, tendo em geral o valor do ouro como referência. A moeda da Suíça ou do Canadá tende a valer mais que a da Bolívia ou a do Sudão, pois os primeiros são instituições mais sólidas.

Da mesma forma, alguns CDs e DVDs custam muito mais caro que os outros. Embora materialmente todos – à exceção de edições especiais e encartes luxuosos – sejam basicamente a mesma coisa: um estojo de plástico com uma capa de papel impresso e um disco de plástico. Uma série de questões entra no valor final: popularidade dos artistas envolvidos, interesse do público, percentual da empresa que produz, direitos autorais, custos de divulgação embutidos. Penso que, principalmente, o que é decisivo no preço é o público-alvo a que se destina o produto.

Para uma distribuidora lançar aqui um cd oficial da pianista Carla Bley, tem que cobrar um preço mais caro, pois ainda que a venda no exterior daquela gravação já tenha coberto seus custos, a reprensagem local é feita para um público sabidamente mais reduzido. Para justificar os gastos e ainda dar algum lucro, a taxa de rateio é mais elevada.

E no caso das artes plásticas, quem atribui os valores? Falando apenas de artistas vivos, quem estabelece que um trabalho de tal artista vale mil vezes o valor de outro trabalho feito por outro artista?

Os marchands? Os críticos? Os jornalistas? O público consumidor? Alguém tem alguma sugestão de uma classe que esteja faltando? Cartas pra redação.

Vamos supor que o filho do Bill Gates amanhã decida pintar. O pai é dono da Microsoft, logo ele tem dinheiro de família para bancar os melhores assessores de imprensa, e assim arranjar espaço nos jornais. E o simples fato de o Bill Gates Jr. estar pintando já é em si notícia. Ele também tem dinheiro para pagar um crítico para escrever o texto do catálogo. E este crítico, e os colegas que o mesmo cultivou durante os anos de sua carreira, não vão negar publicamente as qualidades atribuídas no texto do catálogo.

E como o Gates Jr. não precisa vender o produto do seu trabalho para viver, pode jogar os preços de suas obras para qualquer valor que lhe der na telha. Arte não é feijão, não é gênero de primeira necessidade; não é tabelada. Gates Jr. diz aos quatro ventos que cada tela sua custa 200 mil dólares. Se alguém quiser pagar, ok.

Ocorre neste caso um desvirtuamento de valores, atribui-se qualidade a algo que provavelmente não a detêm. Mas até aí, tudo bem.

Pensem como a coisa pode ficar pior: Um texano dono de poços de petróleo que tem muitos negócios com Gates pai compra um quadro do Gates filho. Uma boa ação entre amigos, de repente Gates pai manda junto o equivalente a 50 mil dólares em computadores para o texano, como agradecimento pelo incentivo ao Jr. O texano abate boa parte da despesa do imposto de renda como mecenato. Doa a tela para um Museu influente de Nova York, onde passará a constar como benemérito. O quadro entra para o acervo, ficando num lugar de destaque.

Neste caso –  totalmente hipotético – a marca da grife Microsoft, o valor atribuído a esta empresa daria credibilidade aos quadros do Gates Jr. Os quadros dele seriam simbólicos deste poder, logo um conceito, uma moeda. Em vez do Bill Gates e os computadores, poderia ser um fabricante de armas e uns caixotes de Uzis.

Vamos trocá-los então por outros. Mudar também o cenário: num país da América do Sul a esposa de um ministro decide ser fotógrafa. O presidente de uma estatal daquele mesmo país destina um patrocínio de 200 mil “dinheiros” para uma exposição e a confecção de um catálogo com o trabalho da moça. Mais uma vez, melhores assessores de imprensa = espaço nos jornais.

Neste último caso o desvirtuamento foi ainda pior, pois envolveu prevaricação com o dinheiro público. E favores deste nível têm que ser pagos com favores equivalentes.

E o tempo todo, não se falou em qualidade da arte. É uma pretensa arte que tem valor econômico, pois este valor é atribuído por poderes econômicos constituídos. Mas alguém disse que é boa arte? E se alguém o disse, este alguém tem credibilidade para isso? Para um jornalista dizer que algo é bom, em contrapartida deve ter algo que ele NÃO ache bom. A alguém que nada pareça ruim, falta senso crítico. E sem senso crítico não pode haver credibilidade.

Mudemos de personagem e situação. Digamos que o bilionário russo Roman Abramovich,  dono do Chelsea, estivesse indo para a Austrália fechar um negócio, e seu jato particular caísse próximo a uma ilha do Pacífico. Abramovich e os tripulantes conseguem chegar até a Ilha, que é habitada por pescadores que quase nunca têm contato com a civilização e não falam nenhum idioma ocidental. Os celulares dos recém-chegados se estragaram pelo contato com a água salgada, mas o talão de cheques de Abramovich está ileso.

Um cheque assinado por Abramovich terá valor para aquela gente? Eles aceitarão lhe dar cocos, peixes e canoas em troca de um pedaço de papel escrito à mão? Melhor seria para ele ter uma bolsa cheia de espelhos, tesouras e facas de aço inox, isto poderia ter valor para aquela gente.

É claro, trata-se de uma situação pra lá de forçada. Tem um quê do bom selvagem de Rousseau (que eu abomino), o bilionário descobrindo que sua riqueza não vale nada para os homens simples. Mas não é bem assim. Não é que aqueles ilhéus não se interessem pela riqueza. Se for mostrado a eles que o valor do cheque significa mulheres bonitas, refeições suntuosas, criados, transatlânticos, avião particular, vinhos caríssimos, carrões, mansões, poder, eles vão se interessar. O que eles talvez não consigam seja associar a riqueza àquele pedaço de papel, que é apenas um símbolo de toda aquela riqueza.

Extrapolemos mais ainda. Criemos um milionário hipotético inglês. Não há nenhum parente, amante ou amigo dele metido com arte, mas ele decidiu que vai ‘criar’ do nada um artista. Pede a seus assessores que selecionem alguns nomes. De preferência do terceiro mundo, ajuda aos pobres é sempre bem vista. Se for de uma minoria étnica é melhor. Aí os assessores trazem um garoto analfabeto da Tanzânia que cresceu numa tribo que foi dizimada por outra tribo rival. Ensinam um pouco de inglês para o garoto, dão-lhe umas aulas de história da arte, pedem a ele que faça desenhos representando a miséria e violência em que cresceu. O garoto – criemos um nome para ele, Djembê – nunca teve como se interessar por arte, sua preocupação era sobreviver às duras condições, não ser mutilado por uma mina explosiva, jogar futebol descalço e tentar fazer sexo com as moças próximas a ele sem contrair o vírus HIV. Apesar de só ter 16 anos, Djembê já tem dois filhos – é comum entre os pobres procriar cedo.

Alguém tem dúvida que uma exposição de um personagem com esta biografia, sendo apoiado por uma força econômica, vai ser sucesso absoluto no Circuito Elisabeth Arden? Que todos os textos relatando “a coragem de Djembê” e “a luta pela inocência perdida” vão dar páginas e páginas nos cadernos culturais?

E o desenho dele, tem alguma qualidade? Isso é totalmente irrelevante. O veredicto já foi decidido de antemão.

E assim como eu criei esta biografia em minutos, qualquer milionário pode pedir a sua equipe que crie uma equivalente.  Acha que alguma instituição vai se dar ao trabalho de verificar uma pretensa tribo da Tanzânia que não tem registros oficiais escritos?

Vejam um trabalho do famoso Richard Serra no link http://www.guggenheim-bilbao.es/secciones/programacion_artistica/nombre_exposicion_claves.php?idioma=en&id_exposicion=121

Se em vez de Richard Serra, o mesmo trabalho tivesse sido feito pelo Seu Manoel da padaria, alguém lhe atribuiria algum valor?

Penso que assim como o exemplo dos cheques do bilionário, obras como esta só tem valor perante uma sociedade que feche um pacto em torno dela. Mas, fora da sociedade, cada indivíduo em seu íntimo e no recesso de seu lar, atribuirá a ela um valor bem diverso do socialmente aceito.


A pintura como ofício

novembro 25, 2008

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Pedro Weingartner (Porto Alegre RS 1853 – idem 1929) foi um pintor gaúcho com uma biografia profissional diferente da maioria dos pintores brasileiros da época. Sendo filho de imigrantes, ao invés de vir para o Rio de Janeiro estudar na ENBA, foi para a a Alemanha e depois Paris, e por lá obteve sua formação, tendo sido inclusive aluno do grão-mestre dos acadêmicos, William-Adolphe Bouguereau.

Seus trabalhos podem ser vistos nos links- clicar nas imagens para ampliá-las:

http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=artistas_obras&cd_verbete=3555&cd_idioma=28555
e

http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=artistas_obras&acao=mais&inicio=1&cont_acao=1&cd_verbete=3555


Recordar é viver

setembro 25, 2008

Por Mauricio O. Dias – comoeueratrouxa

Sem vontade de escrever, lendo o ótimo Eric Voegelin e resolvendo umas pendências. Atendendo a UM pedido, vou deixar aqui links para meus textos sobre artes, muitos da época em que ainda assinava Mauricio Dias, sem o “O” de Oliveira que adotei entre os dois outros nomes para me diferenciar dos homônimos.

Arte (neste blog)

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/11/06/decadencia-planejada

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/22/o-mapa-da-mina

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2008/06/12/mulher-desenhada-por-amigo-meu-pra-mim-e-homem

https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/08/29/pintor-e-desenhista

Textos antigos, em outro site:

Dificuldades do Figurativismo brasileiro  –

www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=818

Contestação à obra teórica de Kandinsky

www.digestivocultural.com.br/colunistas/coluna.asp?codigo=1195

Confissões de Picasso e Matisse –

www.digestivocultural.com.br/colunistas/coluna.asp?codigo=1094

Crítica à arte contemporânea –

www.digestivocultural.com.br/colunistas/coluna.asp?codigo=554


Vale a pena conferir

dezembro 30, 2007

Um blog interessante, que me foi apontado pelo Eduardo Arruda, é o do jornalista Luciano Trigo.

No link http://www.lucianotrigo.blogspot.com pode se ler coisas como:

“O crítico tem pouco a fazer nesse contexto, e por isso mesmo foi sutilmente expelido dos jornais e revistas; os que resistem foram cooptados, evitando qualquer julgamento que não seja elogioso, ou viraram escrevedores de prefácios de catálogos. O público, num sentido amplo, também está sendo pouco a pouco dispensado do jogo, já que quem importa mesmo são os players que movimentam a máquina, isto é, os colecionadores, compradores regulares, galeristas, marchands. Quem quiser um entretenimento espiritualmente elevado que procure uma igreja ou vá ler Hamlet, como o Ferreira Gullar; quando vai a galerias e museus, o leigo interessado em arte sente falta de bulas ou manuais de instruções.”


O último post antes do recesso

dezembro 21, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Este site é melhor visualizado se você usa Internet Explorer.

Uma amiga minha tinha dito que os links entram no meio dos textos.

Isto acontece quando se usa outros navegadores, como Firefox e outros menos conhecidos. Quando eu lanço um texto, uso o I. Explorer, então este é o formato que vai se adequar mais na hora de o ler.

No texto que postei já há algum tempo no link https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/08/predadores-oportunistas falei sobre o site http://www.artrenewal.org, que tem um belo banco de dados de pintores (“organizados em ordem alfabética.  Vale uma conferida.” – escrevi na ocasião).

E é verdade, mas esqueci de dizer que eles são, digamos, muito caretas.

No banco de dados deles não entram Matisse ou Picasso.

Mas no link http://www.artrenewal.org/asp/database/contents.asp pode-se ver  de Jan van Eyck (na letra E) e Piero della Francesca e Grünewald, passando por Tintoretto, até os impressionistas.

Já é uma bela contribuição. Se eu tivesse acesso a algo assim quando tinha dezesseis anos, teria me poupado muitas voltas na vida.

O problema com este site é quando ele tenta promover artistas contemporâneos, em sua maioria norte-americanos, que fazem aquilo que os americanos chamam de ‘pintura realista’ (ou “classical realist”).

Há coisa de uns seis meses, quando indiquei os links a alguns amigos, o fiz com o aviso: “Tem coisas muito bem acabadas, mas tem muito hiper-realismo que me parece vazio de idéias ou sentido.”

Mas é mais do que isso. São ingênuos, bregas. Acadêmicos, no pior sentido da palavra. Pessoas que foram treinadas para desenhar, mas que parecem não ter um cabedal cultural.

Um artista plástico tem que ler, ouvir discos, ver filmes. Se ele vive no século XXI tem que entender quem foram Hitchcock, Stanley Kubrick, Orson Welles, Debussy, Stravinski, Miles Davis, Kafka, Borges, etc.  E se nasceu depois de 1960 ele deve procurar conhecer (por razões diversas) o mundo pop dos Beatles, Led Zeppelin, David Bowie, Woody Allen, o Recruta Zero de Mort Walker, o Calvin de Bill Watterson, Os Simpsons de Matt Groening. 

O saber acadêmico é importante, e muitas vezes  no século que passou foi desprezado; mas visão é ainda mais importante.

Segue uma lista dos trabalhos que encaixo no rótulo de vazios de sentido (com algumas exceções, como Paige Bradley) :

http://www.artrenewal.org/articles/2006/Salon/winners1.asp

http://www.artrenewal.org/articles/2006/Salon/winners2.asp

http://www.artrenewal.org/articles/2006/Salon/winners3.asp

(AÍ BASTA IR  TROCANDO O NÚMERO DEPOIS DE ‘WINNERS’. Rolar a barra até em baixo, clicar nas figuras)

até

http://www.artrenewal.org/articles/2006/Salon/winners8.asp

Feliz natal e bom 2008!


Chato ainda ter que tocar nestes assuntos

novembro 28, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Saiu na coluna Gente Boa do O Globo de 27-11-2007:

A filha-da-Vera-Fischer … procura um travesti que queira posar para suas lentes num ensaio “totalmente x-rated” em homenagem a Pedro Almodóvar. “Ele não pode ser operado, meu objetivo é chocar. Vou botá-lo de vestido de santo em cima do altar.”

Esta atitude adolescente de “chocar os burgueses” sempre foi ridícula desde que surgiu, e já não é novidade há uns setenta anos.

E, é claro, em se tratando de uma filha de celebridade, sempre há um “jornalista” para dar destaque a uma merda dessas. Os punks ingleses tinham um slogan sarcástico, que era estampado em camisetas: “Mantenha a cidade limpa. Mate um pombo!”

As vezes desejo que a idéia fosse estendida a jornalistas dos cadernos culturais.

Voltando ao clã das Fischer… A mãe, Vera, também se meteu a ser pintora depois de entrada em anos. E claro, lá estavam as fotos das pinturas no Segundo Caderno do Globo, sempre pronto a dar espaço a esse tipo de coisa – uma espécie de Revista “Caras” de circulação diária.

Não vou escrever uma linha sobre as pinturas, não tenho estômago pra isso. Mas sempre que vejo alguém pintando dessa forma, me dá vontade de perguntar:

– Por que você não optou por tocar piano?

A resposta óbvia seria: “Mas não sei tocar piano.”

E eu poderia emendar a tréplica: – Também não sabe pintar, mas, ao que parece, isso não foi empecilho.

Segue um email que enviei a um crítico de arte e a um restaurador há alguns meses, ligeiramente editado:

O caos nas artes não é exclusividade nossa. Conheci gente que estudou em Paris e outros que visitaram escolas de arte italianas, e o desalento é geral.

O que me parece é que o ensino de arte universitário tentou minimizar a importância do desenho. O Prof. Lydio Bandeira de Mello comenta que na época dele de aluno (final dos anos 40) da EBA eram necessárias 600 horas de modelo vivo para se formar. Desde os anos 80 não passam de 90 horas, quem quiser mais tem que fazer por conta própria.

E há aberrações como a EAV do Parque Lage, um lugar voltado para o ensino de ‘como se fazer marketing’, mas que efetivamente tem muito pouco a ver com o ensino de arte.

E entre ir para os cafundós da Ilha do Fundão, cercada de favelas, e ir para o bucólico Parque Lage, a moçada dourada de Ipanema a Gávea opta pelo segundo. E estas pessoas são justamente parte do grupo que tem uma segurança financeira familiar que lhes permitiria tempo para estudar arte sem a pressão econômica batendo à porta. E são também aqueles que conseguem mais facilmente notas em jornal ou bolsas da Funarte, Rioarte, Minc…

Vivemos numa era de decadência geral, não há um Tom Jobim, um João Cabral de Mello Neto, um Guimarães Rosa. Algo na pós-modernidade, talvez a sede por comodidade, fez o artista se afastar da preparação. Em vez de ser pintor, o jovem compra uma câmera digital e vai ser designer, em vez de estudar piano, vai ser dj. 

O fato é que mesmo alguns dos poucos nomes sérios que há na EBA hoje em dia, xxxxx xxxxx, yyyyy yyyyy, (nomes de professores que citei no email, mas que não acho correto reproduzir aqui.) não têm um trabalho artístico relevante. xxxxx tem muita teoria, mas vi pinturas dele que não se equiparavam ao discurso teórico. E isto é um problema concreto, na EBA já deram aula nomes como Marques Jr., os irmãos Chambelland, era um outro nível. (xxxxx e yyyyy têm boa formação, ao criticar o trabalho artístico deles, não posso deixar de ressaltar sua seriedade como professores.)

Então como reagir ao caos se não há um trabalho concreto para afirmarmos o que estamos falando? Se eu virar pro Carlos zzzzz e falar “teu trabalho é ruim”, quem contemporâneo eu posso mostrar como sendo exemplo de ‘bom’? João Câmara? Ele não é daqui… Conheço pessoas na faixa dos 35-40 que têm bom desenho, e talvez cheguem lá, mas ainda não chegaram. E podem até não chegar, mas também nunca vão ser ruins como o que se vê por aí hoje.

Acredito que haja boa gente por aí, mas fora do meu grupo, não tenho como chegar a eles. Pois eles (1) não expõem no Paço, no MNBA no CCBB, e (2) não saem nos jornais. Ou seria 2 causa e 1 conseqüência, ovo ou galinha?

E mesmo no ambiente acadêmico, que seria um mundo a parte desse circo midiático, os concursos para admissão de professores hoje são cartas marcadas. É mais importante ter mestrado em algo do que saber desenhar. O rótulo ‘arte contemporânea’ é a academia de hoje. Saindo por um instante das artes plásticas, o crítico literário Harold Bloom, em artigo publicado na Folha de São Paulo (06-08-1995) dizia: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Façam qualquer outra coisa, garantam a sobrevivência do jeito que for, mas não como professores universitários. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria, para ler e escrever sozinhos, porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade.”

E o mestrado em artes é ainda pior, é como se fosse a hóstia de uma missa negra: ‘Você aceita o diabo como seu salvador?’ E o sujeito ao aceitar fazer aquela prova, com aquela bibliografia tendenciosa, diante das bancas que costumam arrumar, diz ‘Aceito’ e engole.

Qual a chance, de reunirmos um grupo de pessoas com trabalhos relevantes, expor num espaço bem localizado, com condições favoráveis, e atrair atenção?

Temos interesse? É viável? Há trabalhos dignos? Se a resposta for “Não”, ficaremos sempre no nível do discurso ‘contra o que está aí’.


Decadência planejada

novembro 6, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa 

No final de agosto fui na abertura da Exposição “Eliseu Visconti – Arte e Design” no Centro Cultural da Caixa, no Rio de Janeiro. Visconti foi um dos maiores pintores brasileiros, mas por centrar-se no seu trabalho com design, a exposição em si era mais interessante histórica do que artisticamente.

Logo que se entrava na sala destinada à mostra, havia uma biografia do artista afixada à parede. Lá eu li algo que até então desconhecia: “Em julho de 1944 Visconti sofre um assalto em seu atelier da Av. Mem de Sá. Foi encontrado desacordado, ferido na cabeça e sem os seus pertences – relógio, documentos de identidade e dinheiro. Quando pôde falar, Visconti afirmou ter sido procurado por dois homens que lhe teriam oferecido frutas e com os quais teria conversado algum tempo. Depois disso, não se recordava de nada, presumindo-se que tenha sido atacado pelas costas. Durante dois meses permaneceu Eliseu Visconti em agonia, encerrado em uma câmara de respiração artificial.” O artista acabaria falecendo em 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade. Mais detalhes podem ser lidos no site do pintor, no link http://www.eliseuvisconti.com.br/bio_maturidade.htm

Somente agora, meses depois de ter tido conhecimento das circunstâncias violentas da morte de Visconti, me ocorreu relacioná-la a um outro ‘marco’ histórico da arte visual brasileira, o tributo de Hélio Oiticica à morte do traficante Cara de Cavalo: (extraído de http://www.geocities.com/a_fonte_2000/oiticica.htm)

             “O estandarte com a foto do traficante morto com a frase seja marginal, seja herói, também participa de uma manifestação com outros artistas no Largo General Osório, em Ipanema no Rio de Janeiro, em 1968.

             Na obra BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem à Cara de Cavalo (1966), Oiticica constrói um bólide em que o traficante Cara de Cavalo aparece morto de braços abertos. A obra chama a atenção não apenas pela estética mas principalmente por seu conteúdo político.

             Sobre esta obra, Hélio explica: Afora qualquer simpatia subjetiva pela pessoa em si mesma, este trabalho representou para mim um ‘momento ético’ que se refletiu poderosamente em tudo o que fiz depois: revelou para mim mais um problema ético do que qualquer coisa relacionada com estética. Eu quis aqui homenagear o que penso que seja a revolta individual social: a dos chamados marginais. Tal idéia é muito perigosa mas algo necessário para mim: existe um contraste, um aspecto ambivalente no comportamento do homem marginalizado: ao lado de uma grande sensibilidade está um comportamento violento e muitas vezes, em geral, o crime é uma busca desesperada de felicidade.(OITICICA, em DUARTE, 1998)

             Nestes trabalhos, Hélio Oiticica utiliza a fotografia de forma documental. Um registro de um fato real. A morte de seu amigo, o traficante Cara de Cavalo, assassinado violentamente pela policia.

            Nos estandartes, a frase Seja marginal, seja herói expressa ainda mais o protesto de Hélio Oiticica. Cara-de-Cavalo vivia à margem da sociedade. Mais que isso, era um criminoso, um traficante. Em sua marginalidade, o traficante revolta-se contra a sociedade. Vive em um mundo à parte, em uma revolução.

             Mas os trabalhos de Hélio Oiticica não se restringem à fotografia documental. Em BÓLIDE CAIXA 18, poema caixa 2 – Homenagem a Cara de Cavalo é necessário que o público participe da obra, que a toque, que a sinta. Que o público entre na obra, que faça parte dela. ”

Ainda sobre H. Oiticica, “Nos anos 70, morando em Nova York, apelou a um biscate no tráfico de drogas e se deu mal. Inadimplente junto à máfia, recebeu ultimato: Ou paga a dívida ou é um homem morto. Os irmãos César e Cláudio o socorreram com US$ 300 por mês.”   (de http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/arquitetura/arq13.htm)

Ou seja, para quem for estudar Visconti, o fora-da-lei é o assassino, o vilão covarde que agride um homem de quase oitenta anos e acaba por causar a sua morte. Para quem for estudar Oiticica o fora-da-lei é, no caso do próprio Hélio, o ser livre das amarras da sociedade, ou no caso de seu anti-herói Cara de Cavalo, a vítima da brutalidade policial. Como pode em vinte e quatro anos (1944-1968) a mentalidade vigente sofrer uma reviravolta de 180 graus? Isto não se dá por acaso, há que haver muita pressão neste sentido. O quanto isto é sintomático de uma patologia moral? Quão imerso nela um país tem que estar para não enxergá-la? E se alguém quiser usar a ditadura militar pós-1964 como justificativa para louvar aquele que desafia o sistema, devo lembrar que no ano da morte de Visconti, 1944, o Brasil estava ainda na ditadura Vargas. E ainda assim, o ladrão que matou Visconti não foi transformado em herói, continuou sendo um mero criminoso.

E nós, quarenta anos após a homenagem de Oiticica ao traficante, vivendo num Rio de Janeiro dominado por traficantes, de que lado estamos?

Eu sei qual lado goza de minha simpatia, tanto artística quanto filosoficamente. Mas não creio que esta seja a opinião vigente. Basta lembrar que no Rio de Janeiro existe um Centro de Arte Hélio Oiticica (http://www.rio.rj.gov.br/rioarte/site/projeto_t1.php?codProjeto=45), mantido com dinheiro público; mas não existe na cidade um Centro de Arte Eliseu Visconti. Aliás, é no mínimo irônico que no Brasil o anti-establishment seja mantido pelo Estado.

Mas o esquecimento proposital de alguns setores para com Visconti não é novo. Sobre o pintor, pode-se ler no mesmo link citado: “Não tendo sido convidado, acompanhou com interesse os acontecimentos da Semana de Arte Moderna de 22, embora não aceitasse manifestações onde a falta de conhecimento técnico fosse flagrante. Pietro Maria Bardi, em entrevista a “ISTO É” em dezembro de 1977, comentou sobre a ausência de Eliseu Visconti na Semana de 22: Não foi convidado. Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti.”

Felizmente, a internet pode minimizar algumas injustiças históricas. Quem quiser ver um pouco da obra do mestre, pode ir nos links abaixo, e lá clicar nas imagens para ampliá-las: http://www.eliseuvisconti.com.br/obras_nus.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1913.htm http://www.eliseuvisconti.com.br/pintor_1920.htm

A primeira página do site é http://www.eliseuvisconti.com.br


O mapa da mina

outubro 22, 2007

Por Mauricio Dias – comoeueratrouxa

Não por estar com preguiça de escrever, mas por achar que escrever não seja o fim, mas um meio – dentre vários outros –  para se chegar ao fim em si, hoje vou começar só indicando textos e links que acho interessantes.

A Rainha Elizabeth em dois tempos e estilos diferentes – olha o contraste:

Retrato feito por Pietro Annigoni em 1956 –

http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=25270&size=large

E a maldade feita por Lucian Freud em 2001 –

http://www.tinmangallery.com/portraits/queenFreud/queenPortraitFreud.html

Semana passada escrevi sobre o tipo de evento ou “forma de expressão” que é considerado merecedor de incentivos por parte do Ministério da Cultura (post abaixo, ou o que se encontra em https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/19/tem-alguem-com-a-mao-no-meu-bolso ).

Depois de postar aquele breve comentário, lembrei-me de um livro excelente, publicado na Inglaterra em 1944, “O CAMINHO DA SERVIDÃO”, do prêmio Nobel de Economia Friedrich A. Hayek:

“E quando as autoridades controlam diretamente o uso de mais da metade da renda nacional acabam controlando indiretamente quase toda a vida econômica da nação. Assim sucedeu, por exemplo, na Alemanha desde 1928 e prosseguiu por todo o governo Nazista, de 1933 a 1945. Em tal quadro, poucos serão os objetivos individuais cuja realização não dependa da ação estatal; quase todos eles serão abrangidos pela “escala de valores sociais” que orienta a ação do Estado.” Pág 77 (parag. 3) – 78 (parag. 1), 5a. Edição, Instituto Liberal – RJ.

Este livro de Hayek, essencial, pode ser comprado no site http://www.institutoliberal.org.br

No caso dos incentivos do Ministério da Cultura brasileiro, não posso deixar de ver ali uma distorção de valores a que não se chega por acaso. Aquilo é fruto de um planejamento, e de anos de pré-anestesia injetada pela mídia no público – o qual, via de regra, não concorda com tais critérios, mas, dopado, não tem capacidade de reação. Esta “injeção” é ministrada visando certos obejtivos. Quais são, por enquanto deixarei a cargo do leitor.

Alem de “O CAMINHO DA SERVIDÃO”, este texto abaixo, de Olavo de Carvalho, serve como introdução para compreender o Brasil: Clicar no link http://www.olavodecarvalho.org/textos/2005doencaexistencial.html

A falta de interesse nacional pela rica tradição cultural ocidental faz com que a passividade diante do que se autoproclama arte – a celebração do grotesco, do engodo, da fraude óbvia -,  por aqui se alastre como fogo no palheiro, mas este não é um problema exclusivo brasileiro.

E aqui volta-se ao primeiro tópico do post: gosto de Lucian Freud, mas alguém encomendar a ele um retrato de efeméride da realeza demonstra no mínimo falta de percepção. Mas pode ser também um caso de sabotagem interna. Alguém consegue imaginar se num evento em que a Rainha estivesse presente, um dj lançasse no sistema de som a ultrajante versão de “God Save The Queen” dos Sex Pistols?  (ver http://letras.terra.com.br/sex-pistols/35850)

Pois se até a Rainha da Inglaterra, cercada de conselheiros e assessores, cai na esparrela de se permitir ser ridicularizada em nome da arte (e ainda pagar $$ caro por isso), que chance de defesa tem o público classe média brasileiro?

Nenhuma, permance dopado, pagando imposto e alimentando regiamente sinecuras: uma mina de ouro, inesgotável.


Tem alguém com a mão no meu bolso?

outubro 19, 2007

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N.A. – Mais de dois anos depois da publicação deste post, fui notar que os links para as páginas dos editais não eram mais válidos. Só agora, um ano depois de ter apontado aqui o fato, me ocorreu procurar na internet por novos links que se referissem ao tema.

Às vezes eu escrevo páginas inteiras para tentar tornar clara uma crítica que pretendo fazer. Outras vezes sinto que não preciso redigir uma linha, pois o que pretendo criticar já é tão óbvio, que qualquer acréscimo de minha parte é desnecessário.

Veja para onde vai o dinheiro do imposto que você paga:

http://www.cultura.gov.br/site/2007/07/02/concurso-cultura-gltb2007

Concurso Cultura GLTB – O edital é aberto à organizações e instituições de direito público e privado, sem fins lucrativos, que desenvolvem ações de natureza cultural voltadas para a afirmação da identidade de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais (GLTB).

http://www.cultura.gov.br/site/2007/10/18/angola-x-regional

Entre os dias 20 e 21 de outubro será realizado em Londres (Inglaterra) o Festival de Capoeira do Reino Unido. O evento é uma iniciativa da Brazilian Contemporary Arts (BCA) e conta com o apoio do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual e da Cinemateca Brasileira.”

http://www.cultura.gov.br/site/2007/12/19/premio-culturas-indigenas-2007-%E2%80%93-edicao-xicao-xukuru

Prêmio Culturas Indígenas 2007    Edital do Concurso Público Prêmio Culturas Indígenas 2007 – Edição Xicão Zukuru. Edital nº. 5, de 9 de Outubro.

Concurso Público destinado ao reconhecimento das iniciativas coletivas dos povos indígenas (programas, projetos, ações, empreendimentos e outros) para o fortalecimento de suas expressões culturais.

Ainda bem que finalmente alguém lembrou de homenagear Xicão Zukuru; seja lá ele quem for, não podia passar em branco.

E o Festival de Capoeira do Reino Unido? Aposto como este ano os inglesinhos vão levar um choque de brasilidade. Finalmente irão descobrir o que é cultura, e acabarão por cancelar a anual  “Shakespeare’s Birthday Celebration at the Globe Theatre“. A rainha vai conhecer a nossa batucada.

Novos links para os prêmios citados (atualizados em abril de 2010):

Concurso Cultura GLTB (gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais)

(houve outras edições de pelo menos 2006 a 2009. Tudo feito com dinheiro público, ou seja vindo de quem paga imposto:

http://www.cultura.gov.br/site/2006/05/22/concurso-cultura-gltb-2006

http://www.cultura.gov.br/site/2009/03/16/edital-lgbt-2009 )

Aliás, o link original para o “annual Shakespeare’s Birthday Celebration” também caducou. Tentem este daqui:

http://www.examiner.com/x-1406-Chicago-Community-Life-Examiner~y2009m4d14-Shakespeare-birthday-readings-at-CLC-April-22

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Para aqueles que leram o controverso post abaixo, recomendo que leiam o espaço ‘comentário’. Ali há uma troca de emails entre minha pessoa e o grande Marlos, a qual acho que deixa ainda mais clara minha posição ao decidir postar um texto sobre aquela notícia – o pós-escrito pode também ser encontrado no link
https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/10/18/os-brancos-que-se-entendam/#comment-22

Mas é melhor só o ler depois do texto inicial.