Considerações sobre ‘Os Suspeitos’

Por Mauricio O. Dias

Um dia desses eu assisti o documentário canadense ‘100 Films and a Funeral’, sobre o período na década de 1990 quando a Polygram inglesa tentou estender à indústria cinematográfica o poder que já havia obtido no negócio musical.

Em uma certa parte do documentário um executivo fala sobre o filme ‘Os Suspeitos’ (‘The Usual Suspects’, feito em 1995), um dos destaques da empresa. E ele diz que foi o melhor roteiro que já tinha lido.

Ouvindo isso, lembrei que eu não tinha gostado de ‘Os Suspeitos’, quando o vi, lá na década de 1990. E eu não tinha gostado do enredo, também.

Considerando a hipótese que eu houvesse julgado mal o filme, procurei no imdb.com para mais informações a respeito. Foi premiado com dois Oscars, um deles de Melhor Roteiro Original (escrito diretamente para a tela). É claro, um Oscar não é garantia de valor artístico: ‘Titanic’ ganhou onze Oscars e ninguém com um cérebro pode pensar que é um bom filme.

Mas houve mais sobre ‘Os Suspeitos’. Em uma página do site do ‘Writers Guild of America’ – http://www.wga.org/uploadedFiles/news_and_events/101_screenplay/101press.pdf  – onde ‘Os 101 Melhores Roteiros’ foram listados, ‘Os Suspeitos’ foi apontado como o 35º melhor roteiro. A lista da WGA não discrimina roteiros baseados em romances ou peças de teatro e os que foram escritos diretamente para a tela.

Sendo colocado como o 35º. melhor roteiro, isto significa que ‘Os Suspeitos’ tem um roteiro melhor do que os de ‘Taxi Driver’, ‘Os Bons Companheiros’ e ‘Touro Indomável’, todos de Scorsese; que o de ‘O Tesouro de Sierra Madre’ de John Huston,’ de ‘Manhattan’ e ‘Crimes e Pecados’, de Woody Allen; do que ‘O Silêncio dos Inocentes’ de Jonathan Demme; do que ‘Janela Indiscreta’ de Alfred Hitchcock e ‘8 ½’ de Fellini – apenas para citar alguns títulos importantes.

Então eu pensei que eu provavelmente tinha perdido alguma coisa quando assisti o filme. Talvez eu estivesse cansado, de mau humor, ou algo assim. E resolvi rever ‘Os Suspeitos’.

E, após o fim, eu mantive a mesma impressão da primeira vez que vi, ou ainda pior. Não é um bom roteiro.

Agora eu quero listar os motivos que me fazem sentir assim. Se você ainda não viu o filme e tenciona fazê-lo, comentarei à frente partes que podem estragar a surpresa (os famosos spoilers):

1) A história que é contada ao Oficial de Alfândega Dave Kujan (e para o público) por Kint Roger “Verbal” é ilógica. Se no mundo real houver um criminoso internacional tão importante como Keyser Söze, com poder suficiente para escolher todos os criminosos que vão ficar em uma acareação em uma Delegacia de Polícia de NY, ele também teria contatos na polícia de Los Angeles para pedir-lhes para ir revistar um navio em um porto de Los Angeles – especialmente se ele estava cheio de cocaína – e apreendê-lo. Não era sua intenção roubar a droga para ele mesmo vendê-la, pois ordenara que o navio fosse explodido. Não me diga que ele só tinha poder sobre a Polícia de NY, e não poderia fazer o mesmo em LA. Ele é um criminoso INTERNACIONAL, não um gangster local de NY, como Don Vito Corleone (e mesmo Don Vito tinha poder suficiente pra mandar cortar a cabeça do cavalo em Los Angeles, fora de sua ‘área de poder’). Mais tarde, descobrimos que a história da cocaína era falsa, e a razão real para entrar no navio era que Keyser Söze tinha a intenção de matar um inimigo que estava lá. Mas nenhum dos criminosos que fazia parte do grupo designado para essa missão – os caras na foto do poster do filme – considerou um pouco estranho ter que ir a bordo?

2) Keyser Soze, um homem que supostamente foi criado na Turquia, dificilmente não teria algum sotaque.

3) Se Keyser Söze queria explodir o navio em um porto de Los Angeles, por que ele envia homens a um tiroteio intenso dentro do navio antes de explodi-lo? Se você é um criminoso internacional, que vende armas no Paquistão, e Irlanda do Norte, você também tem acesso a mísseis, morteiros, bazucas, e todo o tipo de explosivos. Por que entrar no navio e encarar Deus sabe quantos criminosos armados em uma batalha pelos corredores apertados do navio, se você pode explodi-lo de uma distância segura? E nenhum dos outros personagens do filme aponta isto para Kobayashi, o lugar-tenente de Keyser Söze?

4) Considerando o fato de que os homens no navio são todos traficantes de drogas armados, e havia muitos deles, é estranhamente surpreendente o quão fácil é para apenas dois criminosos – aqueles interpretados por Stephen Baldwin e Gabriel Byrne – entrar e matar todos eles. Nem mesmo um par de John Rambos iria realizar essa missão sem receber um único tiro.

5) Se Keyser Söze é tão poderoso, como o Oficial de Alfândega Dave Kujan o prende após a explosão do navio? Se você é um criminoso, tão poderoso e com muitas conexões, por que você não desaparece após o serviço que você pediu já estar feito? Por que perder tempo em uma delegacia de polícia? Pela diversão de zombar do bovino Oficial?

6) O freqüentador de cinema médio pode pensar que ‘Os Suspeitos’ tem um ‘final surpresa’, como o de ‘O Sexto Sentido’, mas não é. Em ‘Os Suspeitos’ toda a história que nos foi contada durante uma hora e 40 minutos é um monte de mentiras inventadas por Kint Roger ‘Verbal’ com base nos folhetos grampeados no quadro de avisos atrás do Oficial de Alfândega – até mesmo os nomes de alguns dos personagens de sua história foram tirados de lá. Então, nós, espectadores, não sabemos realmente o que aconteceu. Será que os personagens da história que ele nos conta realmente existem e ele só mudou os seus nomes? Ou eram apenas uma parte ficcional de sua história enganosa? Nós não sabemos. Este não é um ‘final surpresa’, é um blefe.

7) Há pessoas que têm algum tipo de crença religiosa, e há aqueles que não têm. Aqueles que têm geralmente acreditam em um Deus onipresente e onipotente. Em um filme como ‘Os Suspeitos’ essas características divinas são atribuídas a Keyser Söze (após sua família ser tomada como reféns, o que causou sua metamorfose de um pequeno traficante de drogas em um tipo de bicho-papão). Ele assume o lugar de Deus. Um assassino cruel é elevado ao nível de uma figura demiúrgica. Ele sabe tudo o que acontece, ele governa o mundo, ele faz as coisas acontecerem. Alguns podem considerar que isto é satanismo. Isto é tão filosoficamente pequeno, tão vil. ‘Os Suspeitos’ não é sobre seres humanos, é sobre criaturas míticas unidimensionais, não mais elaborados do que aqueles nos quadrinhos ‘X-Men’. Ao contrário, os personagens dos quadrinhos ‘X-Men’ têm sentimentos, amizade, empatia, arrependimentos. Em quase todos os personagens de ‘Os Suspeitos’ falta esta humanidade. A única chance de redenção, o amor que o personagem interpretado por Gabriel Byrne sente por sua namorada – o qual faz dele um homem melhor, capaz de sentir remorso após esmurrar um homem aleijado – é destruída, com Keyser Söze ordenando a morte da moça, mesmo depois de ter todos os seus problemas resolvidos.

8.) E apesar de todas as coisas más que ele faz, Keyser Söze vence. Ele é o último homem de pé.

Como pode um roteiro como esse ser o 35º. melhor de todos os tempos?

19 respostas para Considerações sobre ‘Os Suspeitos’

  1. Jacy Alves Santos disse:

    Talvez seja por isso mesmo.
    Jacy

  2. Carlos Maurício Ardissone disse:

    Olá Maurício,

    Tudo bem? Interessante o seu texto. Curiosamente, revi ‘Os Suspeitos’ já pouco tempo também. Parabéns por atentar para uma série de aspectos interessantes no roteiro que eu não atentara. Apenas acho que um aspecto merece ser também explorado: o que movia Keyser Soze contra os “suspeitos” era um sentimento pessoal de vingança por terem atrapalhado negócios seus no passado. Desfazer-se deles e, ao mesmo tempo, da testemunha que estava no navio era o que desejava e, para tal, ele ofereceu $$ e, claro, a promessa de que esqueceria como eles lhe prejudicaram no passado. Concordo que há furos no roteiro sim, mas particularmente, não os considerei tão prejudiciais assim. Vejo o filme mais como uma brincadeira despretensiosa do que como preocupado com a realidade. Abraços!

  3. mauricioodias disse:

    Carlos Maurício,
    Um roteiro ter enormes furos pode até ser aceitável. O problema é, como está colocado nos parágs. 5 e 6 do meu texto, este mesmo roteiro constar do site do ‘Writers Guild of America’ como o 35o. melhor de todos os tempos, a frente de muitos roteiros que são infinitamente melhores.

  4. Tiago Monteiro disse:

    Mauricio O. Dias e os demais,
    Será que é tão dificil perceber.

    Kayser Soze nunca existiu. Ele simplesmente contou uma estoria, vendo o painel atras da mesa do delegado.

    É ai que está o brilhantismo do roteiro, Kaiser Soze, é uma lenda, um mito entre traficantes de rua, quando na verdade Verbal Kint é que planejou tudo desde do inicio. Só houve um roubo, o ultimo, onde ele matou aquelas pessoas. Lembre-se do depoimento do sobrevivente “não havia drogas, queria apenas era traficar pessoas”. Não era traficar, ele deixou lá como “cavalo de troia”, matou os comparsa, pegou a grana e tocou fogo no barco.

    “O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe”
    Está tudo no roteiro.

  5. mauricioodias disse:

    Caro Tiago Monteiro,
    Vou só inicialmente pinçar dois trechos do seu comentário:
    Kayser Soze nunca existiu. Ele simplesmente contou uma estoria, vendo o painel atras da mesa do delegado.
    Só uma pergunta pra tentar começar a entender a sua argumentação, a partir do seu trecho acima: Então QUEM contou a história? Quem é aquele personagem?
    Outro trecho seu: ‘“O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe”. Está tudo no roteiro.‘ Convencer QUEM de que ele não existe? – Já que todos os outros personagens do filme já tinham ouvido falar em Kayser Soze. É exatamente o inverso do que vc ressaltou (“O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe”): Todo mundo tinha certeza de que ele existia.

  6. Tiago Monteiro disse:

    Quem contou a historia?
    R: Verbal Kint, o criminoso. Kayser Soze é só um pseudônimo.

    Quem é Kayser Soze?
    R: Reflita da mesma forma. Quem é o diabo?
    Vou utilizar uma metáfora. Quando somos crianças e tememos tudo, nossos pais contam que se você fizer traquinagem, o homem do saco, o diabo, ou sei lá o que vem te pegar.
    Kayser Soze é fruto de uma lenda urbana criado no submundo do crime para denominar um personagem que pode ser ou não fictício, explico abaixo:

    Kayser Soze pode ser Verbal Kint ou Dean Keaton. Depende do ponto de vista. Para Dave Kujan era Dean Keaton e podia ser mesmo, porque, ele era investigador a 3 anos dos casos de Dean Keaton, mas repare que ele não sabia que existia Kayser Soze, o que fez levar a pensar que tinha um histórico de ser um criminoso que ninguem conseguiu provar nada ou Verbal Kint que matou todos os parceiros e fingindo ser aleijado e incapaz de realizar grandes feitos.
    Enganou a todos inclusive os policias, os parceiros, a advogada, o argentino e sumiu. Para todos não “existia” um Verbal Kint perspicaz quando na verdade ele fazia tudo com o nome Kayser Soze.

  7. mauricioodias disse:

    Eu listei, ao final do texto, oito motivos para não gostar do roteiro. Releia o 6, por favor. Isso não é dramaturgia, é manipulação de prestigitador. A) Quem vê o filme não sabe o que aconteceu B) O filme não tem dimensão humana nenhuma. Vemos ‘Taxi Driver’ e conhecemos o personagem principal. Vemos ‘Tropa de Elite’ e conhecemos o Capitão Nascimento. Terminamos de ver ‘Os Suspeitos’ e não conhecemos ninguém. Dentro desta falta de clareza, este seu comentário que “Kayser Soze nunca existiu“, pode até ser possível. No entanto, não há (no filme) nada que o prove. Vc optou por achar isto.

  8. Tiago Monteiro disse:

    Mas ai Mauricio, você está exigindo que o filme seja todo redondo e fechado.
    Deixa eu te fazer uma pergunta. O Coringa de Heath Ledger tinha passado? Teve inicio?
    Minha resposta, não e não, Ele contou a “historia” varias vezes e do jeito que ele quis e mesmo assim não deixou de ser genial.
    Da mesma forma que Verbal Kint contou a sua “historia” de forma criativa e genial.
    A dramaturgia está na incensação dele e manipulação dos fatos.
    O que você quer do filme é que ele tenha uma clareza que não existe, você na verdade quer saber o que aconteceu de verdade. É como se você quisesse saber o que tem dentro da maleta do filme Pulp Fiction. Alias otimo exemplo é Pulp Fiction, historia fragmentada e contada de forma “desorganizada”.

  9. mauricioodias disse:

    Respondo ponto a ponto:
    ‘Deixa eu te fazer uma pergunta. O Coringa de Heath Ledger tinha passado? Teve inicio?
    Minha resposta, não e não, Ele contou a “historia” varias vezes e do jeito que ele quis e mesmo assim não deixou de ser genial.

    RE: Primeiro, o ‘genial’ é uma opinião sua, portanto não parta dela como uma conclusão universal aceita. Em segundo lugar, esta comparação não tem sentido algum, eu não sei do passado do Coringa, como não sei do passado de 7 em cada 10 personagens de TODOS os filmes (eu não sabia o passado do Indiana Jones em ‘Caçadores da Arca Perdida’, só fui saber em ‘Indiana Jones e a Última Cruzada’, e não saber o passado dele no 1o filme não me fez falta nenhuma); mas sei o que acontece no filme ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’. Não há margem de dúvidas para o que se passou na tela.

    O que você quer do filme é que ele tenha uma clareza que não existe, você na verdade quer saber o que aconteceu de verdade.
    RE: Eu quero, é um direito meu. Se eu vou ver um filme pornô, eu quero ver sexo. Se eu vou ver o Homem-Aranha, quero ver um cara andando pelas paredes. Se vou ver um filme misterioso, eu quero o mistério resolvido. Vc é que está dizendo que não há uma obrigação de clareza, e não se sabe o que aconteceu de verdade. Só que, SE não há uma obrigação de clareza, e não se sabe o que aconteceu de verdade, porque vc afirmou tão categoricamente em seu 1o comment que “Kayser Soze nunca existiu”? Afinal, há clareza e certeza, ou não? (parecia haver da sua parte)

    É como se você quisesse saber o que tem dentro da maleta do filme Pulp Fiction. Alias otimo exemplo é Pulp Fiction, historia fragmentada e contada de forma “desorganizada”.
    RE: Não é ótimo exemplo de coisa nenhuma, ‘Pulp Fiction’ é uma história hermeticamente fechada realinhada temporalmente. Não tem NADA a ver com o que apontei em ‘Os Suspeitos’. O que há na mala pode ser objeto de curiosidade, mas é óbvio que é algo de grande valor e fruto de um ilícito. Se são milhões de dólares, barras de ouro, diamantes, quilos de cocaína, seja o que for, é indiferente.

  10. Coridon disse:

    O mérito do roteiro é que ele foi montado com ganchos de incredibilidade para que o espectador acredite rapidamente, quando revelado no final, que a estória toda foi inventada naquele momento e o investigador caiu igual um patinho.
    Os itens 1 a 5 vão para o espaço pelo item 6.
    Acho que é mais uma questão de gosto e você não gostou e fundamentou isso.

  11. kyser disse:

    Ao ler o motivo oito qualquer ser humano deverá desconsiderar totalmente sua opinião brother. O vilão fez muitas coisas más e ainda venceu, por isto o filme é ruim? você tem o que? 12 anos? Não é conto de fadas amigo, cinema é catarse e não fabula de jesus.

  12. mauricioodias disse:

    Aqui o espaço é livre para cada um falar o que ‘kyser’. E não, o filme não é ruim porque “O vilão fez muitas coisas más e ainda venceu”, ele é MUITO ruim por vários fatores listados acima – entre eles ser completamente inverossímil – sendo este motivo oito apenas um deles. Se vc voltar ao conceito original de tragédia, lá nos gregos, verá que há um sentido moral por trás da dramaturgia.

  13. Saru Zen disse:

    1- Ele estava preso porque queria estar preso, ele queria reforçar o mito, e ganhar respeito e poder através do medo que seu nome exerce. Estava tudo planejado, o objetivo era o mesmo que fez quando sua familia morreu (pelas mãos do próprio), convencer de que era real e perigoso, mas sem existir nem mesmo um fato que confirme sua existência.

    “O maior truque do Diabo foi convencer o mundo que ele nunca existiu”

    2- Soze é maquiavélico, isso fica explicíto o filme inteiro.

    3- Ele não queria explodir o navio, queria realçar seu mito e influência.

    4- Quem matou a maioria dos homens á bordo aparentemente foi o próprio Soze, ele entrou no navio e começou a matar todos os sobreviventes, muitos ali sequer tiveram contato direto com os bandidos que ele reuniu.

    5- Ele estava preso porque quis, fazia parte do seu plano.

    6- Correto.

    7- Bem, aí vai do seu gosto pessoal, anote aí que provavelmente a familia e todos que os bandidos reunidos amavam também foram mortos. Como na história contada sobre a familia dele (Soze) onde ele mata tudo e todos.

    8- Sim.

    Ao menos nos aspectos que você citou não há nenhum furo de roteiro.

    • mauricioodias disse:

      Uns garotos que parecem não ter o que fazer têm vindo no meu finado blog falar. Até, aí, ok, mas o problema é que falam o que querem com uma autoridade, como se aquilo fosse auto-evidente e não precisasse ser demonstrado. Eu digo ‘2) Keyser Soze, um homem que supostamente foi criado na Turquia, dificilmente não teria algum sotaque’ e o sujeito me responde “2- Soze é maquiavélico, isso fica explicíto (sic) o filme inteiro.” O que tem uma coisa a ver com a outra? Praticamente 99,9 % dos indivíduos que são alfabetizados em um língua e só passam a falar outra depois de adultos, terão um sotaque facilmente identificável. Se vier argumentar que ator americano pode se passar por inglês e vice-versa, eu direi que pode, mas 1) independente da enorme diferença fonética, ainda é o mesmo idioma (não é uma passagem do turco pro inglês), e só conseguem isto em peças ou filmes, com um roteiro pré-escrito e estudado. Vai ver uma entrevista de um ator inglês ou americano, quando ele não tem o texto já pré-estudado, como nota-se facilmente sua origem. As mesmas pessoas ainda escrevem coisas como “1- Ele estava preso porque queria estar preso, ele queria reforçar o mito, e ganhar respeito e poder através do medo que seu nome exerce.” É, normal… Todo mundo – especialmente bandidos – gosta de ir para uma delegacia, passar horas conversando com o delegado. E ainda exibir seu rosto, que provavelmente é filmado desde o instante em que entra na delegacia, se não passar por sessão de fotos para arquivamento. Isto só faz sentido na cabeça de alguém totalmente destituído de senso lógico. O poder de prever e fazer tudo acontecer que aquele personagem tem é totalmente absurdo, algo inexistente no mundo real. Só pra se ter uma idéia do quão absurdo aquilo é, no mundo real, com todos os recursos financeiros disponíveis, arrefecimento de leis para legitimar tortura a prisioneiros, centenas de agentes (talvez milhares) operando em tempo integral, o governo americano levou nove anos e meio para conseguir matar o Bin Laden (e quando a ação ocorreu, um dos helicópteros ainda sofreu pane e teve que ser explodido). Mas pra Kaiser Soze não tem disso, ele planeja hoje a ação que vai ser executada amanhã, tudo ocorre como ele quer, ele decreta a morte de quem ele quer, onde e da maneira que quer. É um bicho-papão, um Jason da série ‘Sexta-Feira 13’, um personagem de fantasia completa. E fantasia pode funcionar maravilhosamente em comédia ou aventura – ‘De Volta Para o Futuro’, ‘Caçadores da Arca Perdida’. Mas em algo que se pretende a ter um peso dramático, não.

      • Saru Zen disse:

        Em momento algum fica explicito do que é verdade e mentira em tudo que ele diz, ele não inventou nomes e lugares para no fim o detetive ligar ele ao fato de que tudo foi planejado por ele?

        No mais, ele era um mentiroso de mão maior, fingia ser fraco e reprimido, fingia ser deficiente, mentia sobre muitas coisas. Deve ser difícil demais ele mentir que é de outra nacionalidade, não?

        Pensei que entenderia algo simples quando fosse falado de forma simples.

        Ele era uma testemunha, não suspeito, tinha imunidade, não teria o porque de ser fichado naquela ocasião, e mesmo que fosse não faria diferença alguma, ele jamais seria preso. Independente disso, não existiria prova alguma contra o mesmo, apenas a palavra do detetive contra a dele (que sumiu para nunca mais voltar). A unica possível “prova” contra o mesmo é a testemunha do inicio do filme.

        Quanto ao gênero do filme, isso é irrelevante para a história, e de longe isso é um “furo de roteiro”.

        E sim, concordo que o poder e influência dele é absurda, existem até teorias de que ele seja o próprio diabo. Mas isso é irrelevante também.

        PS: Não ter o que fazer foi justamente o motivo de ter vindo dar a minha opinião, não queria te ofender, portanto não precisa se esforçar pra fazer o mesmo por mim.

  14. Maurício, seu texto é bem construído. para isso dou-te os parabéns, mas concordo com quem diz que não gostou do filme e fundamentou a preferência ou não preferência.
    O filme é bom, o roteiro também e na verdade o bom é justo saber que ele retrata sim alguns sociopatas muito mais comum do que se imagina.
    Conheço pessoas assim que conseguem construir uma vida baseada no que o outro constrói sobre ele. Aproveita-se de uma fraqueza ou força atribuída e vive e adquire o que deseja.
    Confesso que por ver a primeira vez entrecortando com outras atividades, acabei por não gostar do filme, mas lendo uma crítica bem fundamentada, como esta, resolvi rever e diferente do autor do texto, acabei foi realmente gostando do filme. Gosto de muitos filmes que foram citados nesta argumentação e talvez não colocaria na trigésima quinta posição, mas ele estaria na frente de alguns sim.
    E por qual motivo falo de preferências? Ora, dissestes em sua defesa que Titanic não é filme inteligente e eu gosto justamente por ver nele a alma humana exposta. Para mim a história de amor da menina que vai salvar a família da miséria e do pobre miserável é apenas pano de fundo para tudo o mais. Mais eu não vou aqui me aprofundar nisto.
    Gosto do filme e o vejo com atenção, pois gosto de reconhecer em cada personagem o jogo de interesse que move o mundo…
    Sei que posso parecer pessimista, mas não sou, eu ainda acredito no ser humano, mas vejo-o com olhos abertos. O bom do filme é a sacada perfeita de justamente o parecer óbvio, o trabalhar com os interesses alheios em seu próprio benefício. Olhe ao seu lado e perceba como existe tantas pessoas como Verbal, uns que se parecem fracos e são fortes e outros que parecem fortes e são fracos, mas conseguem manipular o desejo alheio para satisfazer seus próprios…
    Sei lá, entende? Como diria um comediante esquecido…
    Elisabeth Lorena Alves

  15. Maurício, concordo com você que o filme tem falhas fundamentais e com um grand finale forçado.
    O artifício, no pior dos sentidos, tal como é armado, colocando o narrador todo tempo pra esconder seu próprio papel, é muito pueril. Há decerto falta de verossimilhança interna. Essa é a falha primordial e traz como conseqüência os outros problemas que vc apontou. (Apesar de não ser um problema para mim o maléfico todopoderoso se safar).

    Mas mais absurdo é considerar este roteiro o trigésimo quinto melhor da história.

    De qualquer forma, ao que parece, ele atrai muita gente. Acho que isto se deve provavelmente à forma como mistura ação a um clima de suspense… Uma atmosfera cool, com jogos de câmeras e outras coisas bacanas.

  16. Agora, a Elisabeth chamou atenção pra outros pontos interessantes – a aparente fragilidade que oculta força, as estratégias para se beneficiar – em seu olhar sobre o filme. Uma apreciação justa, mas que a meu ver não salva o roteiro….

  17. Well disse:

    Eu gostei do filme como entretenimento, mas como um pessoa que tem visão de roteiro concordo plenamente com você Mauricio O. Dias, o roteiro tem grandes falhas, e o filme acaba sem entendermos nada, talvez com ilusões a respeito do que foi verdade ou não.

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